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Por
CELSO EIDT
Professor
do Departamento de Filosofia e Psicologia da Unijuí, RS
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Fome
zero e vontade política
O
conceito vontade política,
de circulação privilegiada no cenário político recente, mais
particularmente no discurso da, digamos assim, esquerda, não é
propriamente novo. Já em 1844 Karl Max com ele se debatia, ao
polemizar com Arnold Ruge (jovem hegeliano de Berlim), acerca da
rebelião dos tecelões da Silésia contra as miseráveis condições
de trabalho. No texto Glosas
críticas marginais ao artigo: O rei da Prússia e a reforma social,
Marx examina as possibilidades e limites da vontade política para
remediar as mazelas sociais.
No
Brasil a vontade política finalmente chegou ao poder. Está
encarnada na administração do Estado, é governo. O Governo Lula,
expressão máxima, no Brasil, do desejo de fazer a vontade
política mostrar seus frutos, já nos deu uma pequena amostra
da prestigiada ninfa do estrelado partido. Com o máximo de vontade
política, já se passou de um ano de governo; os festejos, porém,
continuam sendo mais pela negação da projetada catástrofe de
partidos adversários de outrora do que pelos resultados desejados.
A vontade política, tantas vezes enaltecida, parece ter operado no
vazio. A pragmática sociedade não respondeu aos desejos emanados
pela vontade para remediar a dívida social brasileira.
Alguém
pode duvidar do empenho do governo, de sua boa vontade, para
encontrar alternativas políticas que possam conduzir ao
enfrentamento da situação social? Alguém duvida do desejo honesto
do Governo Lula de superar a trágica situação do homem faminto,
excluído, desumanizado e isolado da comunidade humana, do homem sem
trabalho, terra, teto, saúde e educação? Não é a inclusão na
comunidade política, pela conquista da cidadania, somada ao Programa Fome Zero, o máximo de promessa das políticas petistas?
Falta energia ou vontade política ao Governo Lula? Tudo indica que
não. Por que então os resultados de seus projetos sociais não
emergiram no cenário nacional? Trata-se de uma luta infértil,
travada em campo de batalha equivocado?
Os
limites da vontade política
do Governo Lula aparecem já no próprio projeto de governo.
Pensemos no Programa Fome Zero,
anunciado com grande pompa e cultuado como verdadeiro Prometeu dos
futuros cidadãos e atuais pobres. Um Programa audacioso, revolucionário,
capaz de mudar radicalmente a mesa dos pobres, e diante do qual os
famosos frangos, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC),
mais pareceriam pardais desnutridos. Será que a população miserável,
hoje, encontra-se melhor do que estava no fim do Governo FHC? Vamos
supor que o Programa Fome Zero
dê certo. Que ser humano não se sentiria ofendido em sua dignidade
ao ser dispensado ou considerado inapto para o exercício da
atividade que lhe é vital, da sua capacidade de trabalho e construção,
e ser declarado apto para participar da filantrópica medida lulista?
Por que não se implementa um
Programa Desemprego Zero?
Nada
mais confortável ao espírito e à pragmática da débil burguesia
brasileira do que um governo de esquerda que, mantendo a lógica da
histórica e absurda desigualdade social do capital atrofiado,
remenda, com normas administrativas e moralmente corretas, a situação
de penúria social. O horizonte social do novo governo, sua
originalidade as idéias a seguir expostas podem evidenciar, com uma
pequena diferença. Trata-se de idéias extraídas de um texto de
Marx, escrito em 1844; texto antigo, por certo, para medidas tão
originais. A vontade política
que, segundo Marx, encontrou na Revolução Francesa seu período clássico,
é estéril justamente porque pensa tudo no interior da esfera política.
Sua máxima perfeição coincide com sua máxima incapacidade de
compreender os males sociais, justamente porque, ao aperfeiçoar-se
como intelecto político, acredita cegamente na própria onipotência.
O
caminho do intelecto político é um engodo para a luta social e,
mais especificamente, a luta do proletariado; seu máximo
desenvolvimento desvia a luta da base social e consome as energias
em lutas travadas na esfera do Estado, contra uma determinada forma
de governo, sem compreender que a causa dos males sociais não
reside na política; daí, seu resultado é o fracasso. “Quanto
mais evoluído e geral é o intelecto político de um povo, tanto
mais o proletariado gasta suas forças em insensatas e inúteis
revoltas sufocadas em sangue. Uma vez que ele pensa na forma da política,
vê o fundamento de todos os males na vontade...”.
As
lutas pela melhoria social rebentam pelo isolamento do homem da
comunidade vital e buscam suprir esse isolamento. O trabalhador não
está separado apenas da comunidade política. Contra a finitude da
vida política, da condição de cidadão, Marx propõe o infinito
do humano, da vida na comunidade humana. Remediar pela comunidade
política a situação do homem excluído da comunidade humana é
definitivamente descartado por Marx: “Essa comunidade, da qual é
separado pelo seu trabalho, é a própria vida, física e
espiritual, a moralidade humana, a atividade humana, o prazer
humano, a essência humana. A essência humana é a verdadeira
comunidade humana. E assim como o desesperado isolamento dela é
incomparavelmente mais universal, insuportável, pavoroso e
contraditório, do que o isolamento da comunidade política, assim
também a supressão desse isolamento e até uma reação parcial,
uma revolta contra ele, é tanto mais infinita quanto infinito é o
homem em relação ao cidadão e a vida humana em relação à vida
política”.
Quando
Marx discute com Ruge a revolta dos trabalhadores da tecelagem na
província da Silésia em 1844, suas causas e soluções, está
mostrando os limites da vontade
política e da administração para eliminar os males sociais.
Cita, inicialmente, a Inglaterra, que tentou acabar com a miséria
por vias administrativas, uma vez que a considerou uma
particularidade da legislação; depois, descobriu que a causa da
miséria não era uma conseqüência da indústria, mas do aumento
dos impostos assistenciais. Por fim, a miséria foi considerada e
punida como delito dos pobres. Apesar das medidas administrativas, o
pauperismo tornou-se uma instituição nacional, que acabou sendo disciplinada
e não superada.
Eis
as medidas sociais, como o Programa
Fome Zero, da vontade política
do Governo Lula. O governo disciplina
politicamente as necessidades dos pobres, remenda sua situação de
penúria com medidas administrativas, com a boa
vontade política. Não há nisso propriamente novidade, muito
menos esperemos surpresas. Sobre os alcances e limites de medidas
dessa natureza, a história é testemunha secular.
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