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Por ALTAMIRO BORGES
Jornalista,
editor da revista Debate Sindical e autor, com
Marcio Pochmann, do livro “Era FHC: A regressão do trabalho”
(Editora Anita Garibaldi)
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Os
entraves da redução da jornada
O
lançamento da campanha nacional pela redução da jornada de
trabalho, ocorrido no início desta semana no auditório da Assembléia
Legislativa de São Paulo, pode dar um novo dinamismo para o
sindicalismo e contribuir, de fato, para a tão alardeada “agenda
positiva” do governo Lula. Na solenidade oficial, com a presença
de lideranças de seis centrais sindicais, foi apresentado o plano
de mobilização para viabilizar esta conquista, prevendo
panfletagens massivas, paralisações relâmpagos e um
abaixo-assinado intitulado “reduzir a jornada é gerar empregos”
– que reivindica a tramitação, em regime emergencial, da PEC-393,
apresentada em 2001 pelo senador Paulo Paim (PT/RS) e pelo deputado
Inácio Arruda (PCdoB/CE).
A
campanha pela redução da jornada já foi ensaiada por diversas
vezes, mas nunca conseguiu decolar. Ela sempre esbarrou na inépcia
do movimento sindical, tragado pelas urgências econômicas e
corporativas do cotidiano; e, principalmente, na adversa correlação
de forças, em que o fantasma do desemprego e a onda regressiva
neoliberal acuaram os trabalhadores. Agora, porém, ela tem tudo
para vingar. O novo governo, apesar das suas ambigüidades, propicia
melhores condições para que esta bandeira vire realidade. Na sua
plataforma de campanha, no texto “Mais e melhores empregos”,
Lula se comprometeu com a redução da jornada de 44 para 40 horas,
num ousado plano “capaz de criar 10 milhões de novos postos de
trabalho”.
Já
como presidente eleito, o ex-sindicalista voltou a defender esta
bandeira – para o arrepio do patronato e da sua mídia
manipuladora. “Nosso governo se empenhará com determinação pela
redução imediata para 40 horas, estimulando os setores de ponta a
introduzir reduções mais ousadas pela via do contrato coletivo de
trabalho. Para tanto, será preciso convocar empresários,
trabalhadores, governo e Congresso Nacional para avaliar o que o país
ganha e o que perde com a jornada atual, com o desemprego e com a
crise social se alastrando”, afirmou Lula, reforçando a sensação
de que a esperança havia derrotado o medo.
Antes que esta decisão política sucumbisse aos dogmas econômicos,
ele repetiu várias vezes esta promessa.
Neste
sentido, o momento é oportuno para levantar com firmeza esta
bandeira histórica do proletariado. A retração da economia (queda
de 0,2% no PIB), o aumento do desemprego (quase 800 mil novos
demitidos no ano passado) e a corrosão dos rendimentos colocam na
ordem do dia esta campanha. Ela pode forçar o governo Lula a se
safar da perversa camisa-de-força neoliberal, inclusive escanteando
os seus próceres no Planalto. Além disso, pode ajudar a
revitalizar o sindicalismo, que até agora não se recuperou da sua
crise e nem conseguiu resolver a complexa relação entre movimentos
sociais e um governo progressista – ora caindo na passividade
“chapa-branca”, ora descambando para a retórica voluntarista.
O
mais importante, porém, é que a efetiva conquista da redução da
jornada seria uma vitória estratégica do proletariado na luta
contra a lógica capitalista. Casada com a indispensável retomada
do crescimento, permitiria alguma redistribuição dos ganhos de
produtividade e ajudaria a enfrentar o grave problema do desemprego
estrutural. Segundo o Dieese, essa redução geraria mais de 1,8
milhão de postos de trabalho. Estas vagas seriam obtidas se os 18,3
milhões de brasileiros com jornadas entre 41 a 44 horas semanais
tivessem esse tempo excedente dividido entre os novos trabalhadores.
“Essa medida ajudaria a melhorar a distribuição de renda e a
qualidade de vida das pessoas”, afirma Ademir Figueiredo, técnico
do Dieese.
Mentiras
e pressão
A
oportunidade do tema, entretanto, não garante o êxito da campanha.
No interior do Palácio do Planalto, os recém-convertidos ao credo
liberal tendem a repetir a cantilena de que a redução da jornada
afetaria a “credibilidade” do país junto aos investidores
externos e desafiaria os humores do “deus-mercado”. Não é para
menos que os tristes documentos do Ministério da Fazenda pouco ou
nada falam sobre a prioridade do combate ao desemprego. “O
problema é apontado como dramático, mas não como algo urgente,
algo que mereça ações imediatas do governo”, revela o
economista Carlos Eduardo Carvalho [3].
Isto significa que um front desta luta será travado com setores do
próprio governo, procurando isolá-los e derrotá-los.
Já
o capital intensificará a sua cruzada contra a redução da
jornada, visando manipular a opinião pública e enquadrar o novo
governo. A linha de ataque do patronato pode ser encontrada nos
textos da assessoria legislativa da Confederação Nacional das Indústrias.
“A redução da duração de trabalho normal, por outra forma que
não seja a via da negociação, implicará de imediato em elevação
do desemprego tecnológico, aumento dos encargos trabalhistas e
comprometimento da competitividade das empresas no mercado
internacional... Não é racional conferir mais direitos aos
trabalhadores quando a óbvia contrapartida da concessão for o
encarecimento da produção, com a conseqüente elevação dos preços”,
tergiversa a CNI.
Os
argumentos são nitidamente falaciosos. A tal “via da negociação”,
num momento de crise crônica do emprego, representa na verdade o diálogo
da forca com o enforcado. Através deste recurso, que endeusa o
mercado e nega o papel regulador do Estado, o patronato precarizou
as relações de trabalho – com amparo das medidas de flexibilização
de FHC –, reduziu a fatia do trabalho no PIB e continuou a demitir
milhões de trabalhadores. Neste período, a jornada brasileira
inverteu a sua tendência histórica, que era de queda; atualmente,
é uma das mais altas do mundo, segundo a OIT. Só no mercado formal
são feitas 11.384.531 horas-extras por mês e a maior parte delas
nem é paga – vai para a “compensação” no Banco de Horas.
Quanto
ao “desemprego tecnológico”, não foi o fantasma da redução
da jornada que gerou a sua aparição no país. No setor bancário,
por exemplo, a acelerada automação ceifou mais de 500 mil empregos
em uma década – de 920 mil bancários nos anos 80 para 390 mil
nos dias atuais. Na prática, esse pretexto procura esconder a
enorme transferência de renda para o capital nestes tempos bicudos
de neoliberalismo. Estudos do Dieese indicam que na última década
a produtividade teve um aumento médio de 4,48% ao ano – já os
salários sofreram brutal corrosão. Ainda de acordo com este órgão
técnico do sindicalismo, a redução em quatro horas na jornada
semanal causaria um impacto de apenas 1,99% nos custos totais das
empresas.
Já
no que se refere à “perda de competitividade”, várias experiências
mundiais relativizam esta tese. A competitividade não se restringe
às relações de trabalho; ela depende de outras variáveis econômicas.
A Alemanha, onde o turno de 35 horas beneficia 4,5 milhões de metalúrgicos,
continua sendo um dos países recordistas em produtividade e exportações.
Mesmo na França, em que a Lei Aubry, baixada por Lionel Jospin em
1997, instituiu a jornada de 35 horas para semana de quatro dias,
houve um crescimento médio anual de 5% no PIB. Segundo o economista
Michel Husson, esta lei – hoje bombardeada pelo governo
conservador de Jacques Chirac e pela poderosa entidade empresarial
Medef –, “gerou 500 mil empregos, aumentou a massa salarial e,
em conseqüência, o consumo e o crescimento econômico francês”.
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