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Por ANTÔNIO
INÁCIO ANDRIOLI
Bolsista do EED e doutorando em Ciências Sociais na
Universidade de Osnabrück – Alemanha
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Posso
escrever o que eu penso?
Em
minha experiência de professor, fui muitas vezes confrontado com a
pergunta dos alunos: professor, posso escrever o que eu penso? A
resposta, que parece óbvia, no entanto, nem sempre é bem
compreendida: por favor, só não me escreva o que você não
pensa! Assim, a pergunta continua: mas professor, o senhor não
entendeu, eu pergunto se podemos escrever com as nossas “próprias
palavras”? E poderia alguém escrever sem pensar ou, então,
usando as palavras dos outros?
Por
detrás desta simples discussão está implícita uma lógica, uma
certa teoria do conhecimento que pressupõe uma separação entre
escrever e pensar. Quem é que não teve a experiência de
participar de aulas de metodologia da pesquisa, onde a escrita é
encarada como uma etapa final, bem elaborada, após um intenso
processo de leitura e interpretação de textos? A própria idéia
da pesquisa, infelizmente, continua sendo confundida com a mera
leitura ou, o que é pior, com a cópia de partes de livros e de idéias
de outros.
É
possível que essa concepção equivocada de pesquisa, ou de conivência
com métodos reprodutivistas de idéias, leve muitos estudantes a
expressarem suas dificuldades com a pesquisa somente na universidade
ou, inclusive, na pós-graduação. Em cursos universitários que não
oferecem aos graduandos o desafio da monografia acadêmica, é comum
que alguns pesquisadores tenham seu primeiro contato com a pesquisa
apenas no mestrado. Nesse momento, as dificuldades com a leitura
intensiva, atenta e minuciosa de textos, soma-se à inexperiência
com a escrita. Dificuldades básicas com citações, com a fluência
da escrita, a lógica de estruturação de um texto, e mesmo
problemas gramaticais e ortográficos, surgem num momento que já
pode ser identificado como profundamente desafiador pelo simples
fato de exigir uma relação ativa do estudante com textos.
Conceber-se
como autor de um texto implica assumir publicamente idéias com
estilo próprio e que, ao serem disponibilizadas à publicidade crítica,
assumem uma autonomia em relação ao próprio escritor que, ao ler
novamente seus próprios escritos, percebe a influência do que
escreveu sobre si mesmo e suas idéias que, em relação ao texto
produzido, já expressam uma diferença substancial. Embora todos os
sujeitos, para se entenderem, necessariamente utilizem uma linguagem
universal, cada indivíduo articula um jeito, um estilo, um
significado, que merece ser analisado. Esta possibilidade de
articulação de um estilo próprio de expressar a linguagem,
garante a originalidade do sujeito que, por si próprio, incorpora
um sentido ao seu pensamento.
Para
a elaboração de um texto com condições de ser bem entendido, é
fundamental o conhecimento da história conceitual das palavras que
escolhemos, tendo-se o esforço de exprimir clareza e visão crítica,
com detalhamentos. É preciso ter cuidado também para não se
perder na complexidade do tema em que “mergulhamos”, para evitar
imprecisões e mal-entendidos. Ao mesmo tempo, a descoberta do
paradigma em que o texto é escrito torna-se uma condição para a
interpretação. O paradigma teórico é o ambiente em que se situam
os nossos conceitos. Ao mesmo tempo, é o processo de descontração
e singularidade do texto, desenvolvendo uma nova dinâmica a partir
deste, sem se limitar pelo paradigma em que o mesmo foi escrito, que
produz a novidade: aquilo que ainda não havia sido escrito, até
por não ter sido assim pensado.
É
preciso haver um cuidado para elaborar uma linguagem rigorosa para a
interpretação. Isto implica na utilização de uma forma cautelosa
e sistemática dos conceitos para situar os textos em seus devidos
contextos. Agrega-se a isso a importância da intersubjetividade do
texto, entendida como a possibilidade de ser lido e compreendido por
outros. Assim, o possível leitor de um texto aparece ao autor como
um elemento imaginário que passa a influenciá-lo já no momento da
escrita. É por isso que se faz necessário o uso de regras e o próprio
método. A intersubjetividade é fundamental para que o texto possa
ser avaliado e atinja um dos objetivos fundamentais pelo qual fôra
produzido: a sua contribuição para a humanidade. Com a necessidade
emergente de validar as teorias num entendimento intersubjetivo, há
o pressuposto de que se identifique claramente o objeto que se
pretende problematizar. No entanto, sempre fica aberta esta lacuna
entre o esquema articulado pelo sujeito e a unidade objetiva do
mundo que se procura identificar. E é nesta “lacuna” que se dá
a construção do conhecimento humano, expresso pela linguagem.
Ao
escrever percebemos o quanto nossas idéias, muitas vezes, estão
confusas, incompreensíveis e carentes de maior aprofundamento, o
que nos conduz a novas perguntas e a uma maior responsabilidade na
escrita que, afinal, expressa um comprometimento com determinadas idéias,
as quais precisam ser apresentadas num raciocínio lógico. Mas, a
escrita não constitui apenas o momento de apresentação de uma
pesquisa. Uma pesquisa científica pressupõe, basicamente, que
tenhamos um tema delimitado, um conjunto de questões que carecem de
uma resposta, um referencial teórico e uma apresentação de nosso
estudo. Se prestarmos atenção nestas condições, notamos que a
escrita perpassa todo o ato de pesquisar. É essa a processualidade
da construção do conhecimento em que a escrita, como afirmava
Mario Osorio Marques, pode ser encarada como o princípio da
pesquisa. O processo de escrita, e de progressiva reformulação dos
próprios textos, permite a estruturação das idéias e também
motiva e orienta a leitura e a interpretação. Por que, então, ao
pesquisar, não nos dedicamos mais à escrita, ao invés de concebê-la
apenas como momento conclusivo? Quem sabe, então, teremos a
possibilidade de não somente usar a escrita para expressar o que
pensamos, mas de escrevermos para pensar e fazer pensar.
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