Em
busca da identidade no mundo de incertezas
Como manter a identidade e a lealdade às raízes,
à cultura de origem na era da globalização e da eliminação
das fronteiras geográficas e políticas pelo avanço das
tecnologias de ponta nos transportes e comunicações e
pela redução de barreiras tarifárias a fim de facilitar
o fluxo internacional de mercadorias, serviços e
capitais? A ideologia dominante endossada e apoiada pelos
organismos internacionais nos apresenta a globalização
como sinônimo de progresso e a associação dos países
em blocos econômicos como o primeiro passo na construção
de “um mundo só”. Crescimento econômico ilimitado,
livre comércio e flexibilização das relações de
trabalho nos trariam rapidamente a era de abundância e
bem-estar para todos os habitantes da Terra.
A
realidade ao nosso redor é bem diferente: uma dinâmica
“perversa” do sistema econômico induz uma polarização
intensa e crescente entre riqueza, poder e acesso à
informação nas mãos de poucos, e a miséria, ignorância
e marginalidade de muitos, dentro e entre as sociedades,
distanciando-nos cada vez mais da tão almejada
fraternidade e solidariedade dos povos, em uma nova ordem
mundial.
No comportamento individual e coletivo, as leis do
mercado substituíram as Escrituras Sagradas e o próprio
mercado passou a ocupar o lugar da providência divina,
disseminando, nas palavras de Max Weber, o desencantamento
do mundo (Entzauberung der Welt) e da vida.
O fim do século XX viu ruir as utopias revolucionárias
e, ao mesmo tempo, o fracasso da ideologia
desenvolvimentista. A maioria da população mundial,
vivendo nos países do Terceiro Mundo, passou pela amarga
experiência de rejeição e desencanto das promessas da
ideologia dominante secularizada. Perdeu suas frágeis
esperanças e com elas, a visão de um futuro mais justo e
uma vida mais digna. A brutalidade das políticas reais do
sistema capitalista, desprezando e reduzindo os valores
humanistas a conceitos de mercado e de transações
comerciais acabou provocando reações de indignação e
revolta, e a busca da utopia perdida.
A promessa de uma era de progresso e justiça para
todos, lançada com o advento da Revolução Francesa de
1789 e novamente, após a II Guerra Mundial, foi
desmentida por um processo de desenvolvimento desigual que
deixou o mundo das ex-colônias cada vez mais para trás.
Os impactos da penetração fragmentada da modernidade nas
culturas tradicionais causam a ruptura de seu tecido
social e a conseqüente perda de identidade e das raízes.
É verdade, a crise de identidade é geral em todas
as sociedades, à medida que a exclusão, a insegurança e
a incerteza quanto ao futuro se tornem o destino comum da
grande maioria.
Neste contexto de fracasso das políticas oficiais
de desenvolvimento em que indivíduos e grupos desesperem
das promessas dos políticos ocorre um retorno em massa às
diferentes formas de pensamento e ação dominadas pela
religião. O abismo que se alarga entre “os que têm e
os que não têm” transformou o relacionamento humano em
um cenário de conflitos permanentes – étnicos,
tribais, religiosos, nacionalistas ou meramente sociais,
enquanto os indivíduos experimentam frustração, alienação
e desconforto sem fim.
Durante os séculos de expansão da civilização
ocidental foi a religião que proporcionou os elementos de
coesão e solidariedade (“mecânica”, na tipologia
Durkheimiana). Seus dogmas e doutrinas uniram a sociedade,
legitimando os valores e a moral dominantes e contribuíram,
via um conjunto de normas e sanções, para controlar o
comportamento individual e público. Ao mistificar o poder
e seus detentores, justificou as desigualdades e injustiças
em nome de uma racionalidade divina, fora do alcance dos
mortais. Como explicar, então, o retorno ao
fundamentalismo nas principais religiões, no Ocidente e
no Oriente, após o Século das Luzes, a emancipação, os
avanços espetaculares de ciência e tecnologia e o Estado
do Bem-estar?
A cultura é um mecanismo dinâmico e adaptativo
garantindo a sobrevivência de seus portadores – os
membros do grupo social específico. Sua função básica
é manter a coesão do grupo, resistindo às mudanças
trazidas por processos econômicos e políticos, internos
e externos. Ao incorporar normas, costumes, atitudes e
valores do mundo externo através de aculturação e
assimilação, a cultura se transforma para assegurar a
sobrevivência de seus portadores. Através de contactos e
interações com outros grupos ao assimilar ou resistir
aos hábitos, atitudes e valores dominantes, surgem tensões
e conflitos que têm caracterizado a evolução histórica
da humanidade. Sempre há conservadores que resistem aos
novos padrões culturais, sobretudo quando afetam o código
moral e a estrutura familiar, enquanto inovações tecnológicas
e bens de consumo são mais facilmente assimilados. Mas,
esses aspectos aparentemente materialistas da cultura não
podem ser separados das dimensões filosóficas e psicológicas
da vida, que nos revelam os significados mais profundos da
cultura na formação da mentalidade humana.
Os seres humanos vivem envoltos em teias de
significados simbólicos por eles criados e que lhes
conferem os sentimentos de identidade, de “pertencer”
ao mundo e ao grupo que professe as mesmas crenças e
valores. Esses recursos simbólicos permitem aos indivíduos
perceberem-se como atores e sofredores, ativos ou
passivos, sempre como participantes de uma determinada
cultura. São também esses recursos simbólicos,
portadores de significados e carregados de sentidos –
orações, ritos, músicas e danças religiosas e
profanas, lendas, leis, normas e instituições – que
possibilitam o funcionamento da imaginação e sua
materialização como “bem” público, sagrado ou
secular.
A destruição e o caos causados pelo avanço
impetuoso da chamada modernidade, criaram o caldo de
cultura fértil para o renascimento do fanatismo
fundamentalista, do isolacionismo, da xenofobia e intolerância
e da propensão à “guerra santa” contra os “infiéis”.
Em busca do “paraíso perdido”, milhões de
deserdados aderem aos falsos profetas da violência,
individual ou coletiva, nos quais procuram encontrar
identidade e sentido para suas vidas.
Chegamos a uma encruzilhada na evolução da espécie
humana. A ameaça de cairmos numa nova idade de trevas
tornou-se concreta e visível para todos, a partir do
ataque de um punhado de suicidas aos símbolos de poder
militar e econômico norte-americanos e, em seguida, pelas
guerras desencadeadas contra o Afeganistão e o Iraque,
logo conotadas falsamente como um conflito de culturas (S.
Huntington), entre o Ocidente e o Oriente.
Em vez de aplicar a “lei de Talião”, de “...
olho por olho”, deve-se envidar todos os esforços para
eliminar as causas da revolta e do ódio das multidões
islâmicas, inimigas de uma globalização que amplia o
fosso entre pobres e ricos, ameaça as culturas
tradicionais e sufoca os movimentos legítimos de emancipação
e autonomia.
Eis um desafio para a humanidade no início de século
e de milênio: como superar a contradição entre a
valorização da cultura própria, tradicional ou moderna,
e a intolerância, o preconceito e desprezo pela cultura
dos “outros” ou, em outras palavras, como assegurar a
aceitação dos outros e, portanto, o convívio pacífico
entre membros de culturas diferentes?
O
desafio reside na construção de um mundo novo, repleto
de alternativas que contemplem a todas as organizações e
movimentos, em sua rica e imensa diversidade.
Partindo da premissa que os fundamentos culturais de
uma sociedade sustentável são a diversidade cultural e a
liberdade e autonomia dos indivíduos, ligados pelas redes
de cooperação e solidariedade interdependentes, cabe-nos
empreender esforços para a construção de um marco
referencial para a reflexão e ação conduzindo à
sociedade sustentável.
Propósitos e esforços comuns criam uma teia
complexa de idéias, crenças e valores coletivos que não
somente conferem legitimidade às ações políticas e práticas
governamentais, mas também induzem processos poderosos de
identificação, motivação e participação que
energizam e potencializam as aspirações coletivas. Os
seres humanos se sentem mais realizados quando unidos,
cada um atento a e consciente de seu compromisso pessoal,
servindo a um propósito comum.
O florescimento ilimitado da cultura pode ser
concebido como um bem em si no caminho do desenvolvimento
humano. Preservando e promovendo sua diversidade projeta
uma dimensão mais ampla do que o desenvolvimento no
entendimento estreito dos economistas. Os esforços de
preservação das diversidades biológica e cultural podem
ser considerados duas faces da mesma moeda. Seguindo a visão
evolucionista, os seres humanos se desenvolveram mediante
a adaptação da espécie às condições mutantes do
ambiente ecológico e social, ao criar variadas respostas
adaptativas que resultaram em padrões culturais
diferentes. Assim, a diversidade cultural é claramente o
produto das capacidades criativa e adaptativa da
humanidade e, como tal, de incomensurável valor para a
sobrevivência e a sustentabilidade.
Nas
palavras de Boaventura de Souza Santos (Folha de S.Paulo,
22/04/01) ...”o que está em causa é uma globalização
contra-hegemônica em que caibam as diferentes concepções
de identidade cultural e emancipação social” ou em
outras palavras, a única opção ao ciclo infindável de
violência é a democracia com justiça social.