Os
doze trabalhos da boa governança
Nestes
tempos em que atitudes éticas e posturas responsáveis são,
não apenas necessárias mas, absolutamente indispensáveis
para guiar a conduta dos homens públicos (e mulheres idem) e
para inspirar, pelo exemplo, os que estão empregados nesse
imenso setor do terciário que tem a ver com a chamada res publica, decidi retomar reflexões antigas (mas nem por isso
menos úteis) e alinhar num papel – eufemismo para a tela do
computador – algumas simples regras de boa administração
dessa “coisa pública”. As reflexões surgiram em primeiro
lugar no contexto da transição política no Brasil – área
na qual outras considerações já foram consolidadas em meu
livro A Grande Mudança:
conseqüências econômicas da transição política no Brasil
(São Paulo: Códex, 2003) – mas elas podem ser vistas como
“atemporais” e não determinadas geograficamente.
Como
só consegui chegar até uma dúzia delas, pensei que poderia
identificar o conjunto por meio de um título “apelativo”,
que relembrasse o antigo herói da mitologia grega. Não é
obviamente o caso, mas o evocativo parece suscetível de
transmitir uma idéia aproximada das reais dificuldades que
podem ser encontradas na implementação dessas tarefas da
governança. Com efeito, os maiores problemas que se
apresentam, nos dias de hoje, no processo de melhoria nas
condições de vida e bem-estar das populações, em países
ricos ou pobres, não são aqueles derivados da falta de
recursos ou de meios técnicos para sua solução, mas provêm,
tão simplesmente, da incompetência institucional.
Estes
doze novos “trabalhos” podem ser vistos, pelo seu lado de
administração da informação, como uma estratégia para a
conquista consensual, ou para o convencimento, da maioria, não
como uma forma de imposição da vontade do dirigente político.
Pelo seu lado de “conselhos” ao dirigente, eles podem ser
colocados naquela mesma cesta de recomendações “úteis”
ou de observações sobre as técnicas de comando que, desde
Kautylia e Maquiavel, vêm enriquecendo a literatura da
governança política, sem que se saiba, exatamente, se elas
provocam uma melhoria real na qualidade da gestão sobre os
homens (e mulheres). Não me parece que elas tenham sido
testadas ou controladas por algum órgão gestor dos orçamentos
e da moralidade públicas, mas isso não representa um
impedimento a que algum voluntário queira fazer alguma
verificação empírica sobre sua consistência e adequação
intrínseca às tarefas atuais de uma boa governança. Afinal
de contas, o teste do pudim, como se diz, vem no ato de comê-lo.
As
regras não estão concebidas em intenção de algum serviço
estatal particular, nem foram pensadas como devendo aplicar-se
exclusivamente a algum país determinado, mas o autor não tem
nada contra, muito pelo contrário, a que cada um faça a
leitura geográfica que bem lhe aprouver. Em todo caso, sem
pretender a que estas regras sejam seguidas, ou sequer
consideradas, por dirigentes concretos, num certo país de índole
cordial e receptivo a modas as mais bizarras, transcrevo aqui
os meus novos trabalhos para algum candidato a Hércules da
burocracia deste começo de século 21. Bom proveito aos que
pretenderem delas utilizar-se (não pretendo cobrar copyright
pelo seu uso).
Apresento
primeiro um resumo “literário” desses “novos trabalhos
de Hércules”, para depois tecer considerações mais
elaboradas sobre cada um deles:
·
Mais administração para resultados, menos declarações
genéricas;
·
Antes a seleção pelo mérito do que a escolha
corporativa;
·
Prefira uma ação sobre os fins, antes que sobre os
meios;
·
Melhor proteger a manada, mesmo que tenha de sacrificar
algum animal;
·
Entre a focalização e a universalização, fique com
ambas;
·
Auto-publicidade é uma forma perversa de gastar
recursos públicos,
·
Conselheiros do príncipe costumam atuar por ensaio e
erro: rejeite riscos;
·
Não há conversa em “petit comité” que não
escape para a “grande assembléia”;
·
Não distribua favores restritos, coloque tudo em
regime de competição;
·
O grande critério de seleção é o benefício para o
maior número: abra, portanto;
·
Mercados globais sempre serão melhores do que a
“preferência nacional”;
·
O desenvolvimento é uma atitude mental: não existe
mais “terceiro mundo”.
Voilà: parece um pouco desordenado e
obscuro, mas tudo tem uma razão de ser, segundo os critérios
da eficácia social e das melhorias na governança que são os
privilegiados neste ensaio reflexivo.
Vamos
agora a considerações mais elaboradas sobre cada um dos
“trabalhos”.
Primeiro trabalho: Esqueça Antonio Gramsci;
adote Peter Drucker.
Já
passou o tempo de acreditar na validade conceitual ou mesmo prática
dessa conversa de “hegemonia ideológica”: isso valia para
uma fase em que a sociedade era feita de poucos homens instruídos,
em que a política era oligárquica, isto é, dominada por uns
poucos iluminados, na qual mesmo a ação dos partidos ditos
progressistas, ou de base operária, tinha de se apoiar sobre
uma liderança aguerrida, disciplinada, que detinha a chave do
futuro e se dedicava a liderar os demais na conquista e na
manutenção do poder. Hoje em dia, graças à disseminação
da educação e aos meios de comunicação, todos são
razoavelmente bem informados sobre a maior parte das tarefas
governativas.
O
que vale mesmo, hoje em dia, é a boa gestão da coisa pública:
honestidade, transparência, responsabilidade e, sobretudo,
eficácia (ou eficiência, se preferirem). Por isso mesmo,
creio que o velho (mais de 90 anos em 2004) Peter Drucker,
economista austríaco naturalizado americano e guru das técnicas
de administração para resultados, apresenta imensas
vantagens comparativas intelectuais sobre seu quase contemporâneo
(menos de uma geração) Antonio Gramsci. Deixe a retórica de
lado, e passe a valorizar a ação concreta na busca de
resultados efetivos para os fins almejados. Você prefere se
alimentar de discursos ou ver as medidas de interesse público
serem implementadas de modo razoavelmente barato, efetivo e
transparente?
Segundo trabalho: Não ocupe pela conquista,
selecione pelo mérito.
Esta
é uma derivação da tarefa anterior, no sentido em que, com
a complexidade atual da administração pública, não se pode
fazer uma boa gestão, com resultados pelo menos razoáveis,
se se parte da idéia de que os únicos capazes para realizar
os objetivos da mudança paradigmática são os iniciados e os
membros da confraria, quando eles nem sempre possuem o
instrumental teórico e técnico para o desempenho de funções
especializadas que requerem conhecimento específico e um
certo treino funcional. Por isso, pense em primeiro lugar nos
resultados e atribua ao mérito a parte que lhe cabe nos
processos de escolha do pessoal de apoio. Quanto aos menos
preparados, faça-os se habilitarem para as novas funções,
seja por esforço próprio, seja por estágios apropriados aos
novos requerimentos do ofício.
Terceiro trabalho: Não siga publicitários ou
comunicólogos: vá direto à questão.
É
uma velha mania das lideranças inseguras, a de se precaver
quanto a possíveis iras do povo miúdo mediante campanhas
otimistas, bem direcionadas quanto ao foco e quanto ao objeto
(apenas que contornando o problema real). Trata-se do velho hábito
de esconder os problemas concretos fazendo apelo aos meios,
antes que se ocupando dos fins. Como regra de princípio, este
tipo de procedimento não costuma sustentar-se por muito
tempo, por isso a única recomendação possível, em casos de
necessidade urgente, seria a de deixar os relações públicas
de lado e se ocupar diretamente da substância das questões públicas,
pela via a mais reta possível. Supondo-se, é claro, que você
consiga fazer um diagnóstico razoável da questão e das
formas mais adequadas de encaminhá-la.
Quarto
trabalho: Rejeite demandas de grupos, ataque os problemas da
maioria primeiro.
O
poder tem isso de incômodo que ele atrai um bando de
arrivistas, oportunistas e aproveitadores de todos os matizes,
cores e orientações políticas. A maior parte das moscas
reais estão em busca de vantagens pessoais, mas numa
sociedade organizada como a que vivemos, com incontáveis
grupos de interesse e de associações de classe, o mais freqüente
de ocorrer é a mobilização dessas corporações organizadas
que tentam convencê-lo de que seu interesse específico se
confunde com o interessa da Nação como um todo. Não
acredite nesse tipo de argumento: geralmente, os interesses da
Nação não têm, salvo engano, representantes
desinteressados que deles se podem fazer porta-vozes. Eles são
difusos e, quando concretos, costumam interessar
prioritariamente aos mais humildes, que não têm o hábito de
se fazer ouvir nos corredores do poder.
Se
você não consegue definir quais são os problemas da
maioria, existe um modo muito prático e simples de encaminhar
esse tipo de diagnóstico: consulte um desses anuários de
desenvolvimento social – do PNUD ou do Banco Mundial, por
exemplo – e consulte as tabelas comparativas de serviços básicos
(saneamento, serviços públicos etc.), os indicadores de saúde
(sobretudo os fatores de morbidade) e de educação, bem como
os resultados de testes de qualidade setorial. Eles darão um
retrato imediato de como o seu país se situa na escala da
(in)felicidade humana, o que se traduz imediatamente num
programa de prioridades governamentais.
Quinto
trabalho: Se tiver de definir setores, faça as políticas
mais horizontais possíveis.
Nem
sempre é fácil escapar de demandas setoriais: elas são o próprio
de sociedades complexas que definem métodos próprios de
encaminhamento de problemas técnicos, o que necessariamente
envolve temas de natureza restrita a determinados grupos da
sociedade. Dessa forma, algumas políticas serão dirigidas a
alguns setores apenas da sociedade, ainda que com propósitos
generalizantes.
Mas,
não se deixe arrastar pelo falso debate entre, de um lado, a
universalização dos serviços públicos e, de outro, a
focalização das medidas de apoio governamental em favor de
uma determinada categoria de cidadãos. Sendo os recursos
escassos, e as pessoas desigualmente dotadas por motivos de
berço ou de formação, nem sempre é possível atender a
todos ao mesmo tempo, daí uma inevitável seleção dos
beneficiários desses recursos a partir de alguns simples critérios
de escolha por prioridades visíveis. As políticas públicas
sempre serão, ao mesmo tempo, universais e focalizadas, mas o
ideal é que a definição dos setores não seja excludente.
Esse
debate sempre surge a propósito das políticas setoriais, das
quais a industrial está sempre na linha de frente para
receber algum tratamento favorecido por parte do governo. De
fato, a experiência histórica indica que é na indústria
que os ganhos derivados da inovação técnica e tecnológica,
e portanto os aumentos de produtividade, costumam ter efeitos
em cadeia e impactos redistributivos sobre o conjunto da
sociedade, cabendo portanto aos governos estimular o progresso
industrial. Este é um fato: mas cabe portanto aos governos
estimular o progresso técnico da indústria como um todo, não
necessariamente uma determinada indústria em particular,
ainda que ela possa parecer estratégica ou “fundamental”
para a competitividade internacional do país.
A
experiência histórica é ainda mais conclusiva a respeito
dos ganhos gerais para a economia, em todos os setores,
derivados da capacitação em recursos humanos. Como regra de
princípio, portanto, prefira as políticas industriais que
atuam sobre as condições de inovação tecnológica do
conjunto da sociedade, e deixe que ela mesma introduza os
aperfeiçoamentos industriais que se revelarem úteis para o
bem-estar social.
Sexto trabalho: Não acredite em propaganda
governamental, deixe que os meios de comunicação informem
sobre suas realizações.
Cada
macaco no seu galho: o governo é pago para trazer segurança
ao conjunto dos cidadãos, empreender obras públicas de mais
longa maturação, criar as condições ideais para que todos
possam exercer seus talentos com um mínimo de igualdade de
chances na partida competitiva, o que implica em investimentos
de educação e saúde, com alguma proteção seletiva aos
menos favorecidos. Fazendo isso bem, os próprios governados
se encarregarão de divulgar e “propagandear” o que o
governo faz de bom.
Isso
de publicidade institucional serve apenas para dar dinheiro fácil
àqueles mesmos que devem viver de sua capacidade de
“vender” algo de útil do ponto de vista da demanda do
consumidor: entre duas opções, pode-se escolher ficar com a
mais bem vendida do ponto de vista da publicidade, não
necessariamente a de melhor qualidade ou menor preço, mas
isso é um problema de microeconomia do bem-estar que será
resolvido pela liberdade de escolha do consumidor. O governo
disponibiliza “bens públicos”, que normalmente não
necessitam de campanhas publicitárias, pois seus critérios
de escolha ou de preço não são os mesmos da economia
privada. Quanto ele tiver de fazer alguma campanha de informação,
não faltarão meios adequados para isso. Deixe que os meios
de comunicação se ocupem dos demais “produtos”
governamentais: é mais barato e mais honesto.
Sétimo
trabalho: Pratique a arte de escalpelar acadêmicos, ou melhor
ignore-os.
Conselheiros
do príncipe costumam ser idealistas, sonhadores, ingênuos e,
no geral, pouco eficientes, na medida em que eles pretendem se
ocupar de todas as esferas do conhecimento humano e acabam
tendo uma visão superficial sobre cada uma delas, numa era
manifestamente complexa e diversificada. Melhor, assim,
confiar em tecnocratas especialmente treinados para elaborarem
diagnósticos e propostas de ação em seus campos de ação
respectivos. Eles costumam ser mais práticos e são bem mais
baratos, na medida em que qualquer proposta de acadêmicos bem
intencionados custa rios de dinheiro: estes estão sempre
querendo revolucionar o mundo ou provar alguma teoria, o que
necessariamente provoca despesas desproporcionais do ponto de
vista dos minguados orçamentos públicos.
Oitavo
trabalho: Não aceite pequenos conluios, acabará aceitando os
grandes também.
Os
grandes princípios éticos são geralmente agitados em período
eleitoral e depois esquecidos na fase prática da governança.
Aí é que começa o perigo, pois sempre haverá alguém
disposto a “provar” que “este” problema é mais
“urgente” do que outro ou que ele requer “medidas
especiais” de implementação. Os problemas do diálogo para
a busca de soluções tópicas a questões concretas também
surgem nesse momento, pois que se deve passar da fase das
declarações gerais destinadas ao grande público para a de
soluções técnicas a problemas localizados.
As
“pequenas” soluções de facilidade, como aquele mecanismo
simples destinado a financiar, de modo “indolor”,
determinada atividade pública, podem transformar-se, quando
menos se espera, em grandes problemas, que só trazem
dificuldades aos governantes. Por isso mesmo, pense duas vezes
quando for confrontado, ou apresentado, a algum expediente
“inovador” no campo da governança: geralmente vai se
descobrir que ele já foi apresentado antes (e rejeitado por
“heterodoxo”, digamos assim) e que pode provocar, numa análise
mais acurada de custo-benefício, grandes despesas depois.
Nono
trabalho: Regule pela concorrência, não pelo monopólio.
O
princípio da concorrência é uma dessas coisas mais bem
aceitas, no plano da teoria, e mais denegadas no terreno da prática.
A competição entre muitos ofertantes costuma redundar em uma
certa anarquia de situações, nos mercados de bens e serviços,
o que pode obviamente perturbar a paz de espírito de algum
dos competidores. Ela reduz os ganhos de todos os ofertantes,
obriga todos eles a buscar cada vez mais inovações
incrementais que diferenciem o seu produto do do concorrente
e, pasmem, traz maior volume de opções e menores preços aos
consumidores. Ideal no papel, não é mesmo?
Na
prática, os concorrentes estão sempre procurando eliminar
rivais, buscam com eles formar cartéis ou, no limite,
procuram a situação “ótima” da reserva de mercado com
pouco ou nenhum risco de concorrência. Governos costumam ser
muito mais sensíveis a pleitos de produtores organizados do
que aos desejos de consumidores desorganizados, daí o possível
surgimento de normas e regulamentos que limitam, de fato, a
competição. Os exemplos são muitos e não é preciso
delongar-se neles aqui, bastando com citar, por exemplo, o
caso da telefonia. Nesta área quanto mais “anarquia”
concorrencial, melhor para os usuários, desde que observadas
certas regras de fiabilidade no serviço.
Em
muitas outras áreas, inclusive e também em determinados
serviços públicos, a melhor forma de corrigir distorções
de mercado derivadas da baixa qualidade da oferta seria
ampliar as franquias para a exploração dos mercados de bens
e serviços. Por que, por exemplo, só se pode ter uma única
grande estatal explorando petróleo, refinando o produto e
distribuindo seus derivados? (Sei que já não mais ocorre
esse monopólio, mas ele foi durante muito tempo defendido não
se sabe bem em nome de quais princípios de economia pública.)
Por que um presídio tem necessariamente de ser operado
diretamente pela autoridade pública, em lugar de passar por
uma espécie de “leilões de presos”, regime no qual
ofertantes passam a “comprar” condenados do setor judicial
ao melhor preço de mercado, para uma prestação determinada
de serviços – guarda, reeducação, eventual reinserção
no mercado de trabalho – como aliás já ocorre hoje no
setor de saúde? São provavelmente idéias ousadas, mas que
podem despertar algum desejo de se ter mais concorrência em
serviços que se considera como “exclusivos do Estado”.
Décimo trabalho: Analise os efeitos
distributivos de cada medida proposta.
Não
há nenhuma novidade no que vai dito aqui, mas geralmente se
tende a esquecer que a regulação de determinadas atividades
públicas tem por objetivo ampliar a disponibilidade de bens e
serviços aos cidadãos, não arrecadar mais recursos para o
próprio Estado. Os governos constituídos – em todos os níveis
– se tornaram as mais poderosas máquinas de arrecadação
de recursos que já se conheceram em toda a história,
deixando aos contribuintes (empresas e cidadãos) apenas as opções
de pagar ou evadir. Muitos recorrem a diferentes mecanismos de
evasão ou elisão fiscais, o que justifica uma ampliação
ainda maior dos investimentos públicos nos meios (controle da
arrecadação, processos, punição etc.), antes que nos fins,
eternizando assim o circulo vicioso que consiste em ver o
governo trabalhando para o próprio governo.
Quando
se fala em analisar os efeitos distributivos de uma
determinada medida, não se está obviamente recomendando o
distributivismo compulsivo: ele geralmente é demagógico e
economicamente desarticulador das atividades produtivas, já
que costuma atuar sobre os estoques de riquezas existentes,
antes que sobre os fluxos que poderiam ser criados a partir do
estímulo contínuo a novas atividades econômicas potenciais.
Efeitos distributivos são justamente aqueles que derivam de
uma maior capilaridade social dos investimentos públicos, que
devem atingir os setores mais carentes relativamente, com
vistas a integrá-los num mercado mais amplo de bens e serviços
de amplo consumo. Por exemplo: o contrário ocorre com
determinadas políticas governamentais – como a PAC da União
Européia – de subsídios públicos na área agrícola, já
que não se tem, de fato, insegurança alimentar e o dinheiro
canalizado é subtraído de utilizações alternativas que
poderiam ter maior impacto sobre o emprego e a renda de um
maior número de cidadãos.
Décimo-primeiro
trabalho: Entre um sistema aberto ao mundo e outro
estritamente nacional, prefira o primeiro.
Não
há mais nenhuma diferença, hoje, entre mercados nacionais e
mercados internacionais, pelo menos na vasta gama de produtos
e serviços uniformes (ou indiferenciados) que são consumidos
pelos cidadãos, inclusive em áreas aparentemente exclusivas
da “cultura” nacional como podem ser os serviços
educacionais ou de lazer. Ao contrário, quanto maior a escala
de mercado, maior a chance que o seu “produto nacional”
possa ser também consumido em outros países, aumentando,
portanto, suas vantagens de escala e a produtividade dos
fatores de produção. Reservas de mercado, leis do “similar
nacional” são cerceadoras da preferência dos consumidores
e só servem para consagrar pequenos monopólios ou grandes
cartéis que não ajudam em nada a elevação dos padrões de
competitividade da economia nacional nos mercados globais, que
hoje constituem a característica essencial do mundo
interdependente em que vivemos.
Por
isso mesmo não acredite quando lhe disserem que “vantagens
comparativas” são uma invenção do século 18, que não se
aplicam mais ao mundo do conhecimento em que se transformou a
economia moderna. O princípio continua mais válido do que
nunca, inclusive e principalmente nas novas áreas de
atividade produtiva, como na já referida economia do
conhecimento. Aliás, quem primeiro falou em “inteligência”
como fator de produção, foi um contemporâneo brasileiro de
David Ricardo, José da Silva Lisboa, num tempo em que todos
eram “filósofos morais” e não economistas. Mercados
amplos apresentam possibilidades muito maiores do que mercados
cativos ou nacionais, daí uma preocupação constante em
trabalhar em regimes abertos aos talentos individuais, antes
do que fechados aos interesses de pequenos grupos.
Décimo-segundo
trabalho: Acabe com dogmas e restrições mentais: o Brasil não
é periferia
Proposição
ousada essa, pois não? Claro que existem economias
“centrais”, que “extraem” recursos e mais valia de
regiões ditas “periféricas”, mas isto se dá em qualquer
sistema ou sociedade, inclusive num âmbito estritamente
familiar, por exemplo. Quem organiza uma determinada
atividade, distribui custos e concentra benefícios, mas para
isso é preciso competência ou autoridade. Antigamente valia
a autoridade paterna ou a da conquista; hoje em dia, elas têm
cada vez menos capacidade de domínio ou prevalência,
passando a ser substituídas pela capacitação própria em
organizar sistemas complexos de produção e distribuição de
bens e serviços. Por outro lado, aquela coisa de “primeiro
mundo” ou “terceiro mundo” simplesmente acabou com o
desaparecimento do segundo.
Com
efeito, poucos se dão conta que a geopolítica mudou e com
ela a relação que os diferentes atores de um mesmo mundo
mantêm entre si: já não se está mais levando em consideração
a atitude política que esses atores possam ter em relação a
algum grande projeto organizador da humanidade –
capitalismo, socialismo, essas coisas velhas –, mas apenas e
tão simplesmente a atitude que se vai adotar em relação aos
desafios do mundo global. Nesse sentido, o problema do
desenvolvimento é de fato uma questão de atitude mental,
pois tornaram-se peremptas aquelas teorias “conspiratórias”
que faziam da exploração de alguns (ou de muitos, contavam
algumas histórias) a condição da riqueza e do progresso de
outros (os poucos).
Hoje
em dia, provavelmente 90% do estoque acumulado de todo o
conhecimento humano está livremente disponível para
consulta, absorção, cópia e transformação em caráter
irrestrito, inclusive de forma cada vez mais acessível nos
sistemas abertos e online. Ou seja, não há mais limitação
técnica – salvo no sentido estritamente material – ao
aproveitamento dessas oportunidades de enriquecimento pessoal
e coletivo, o que deveria, normalmente, diminuir as barreiras
à entrada de mais sociedades em patamares mais avançados de
bem-estar e conforto material.
O
fato de que essa “convergência” de padrões de vida tenha
alcançado, até aqui, uma fração restrita da humanidade, não
se deve a nenhum complô desses países “ricos” no sentido
de impedir que sociedades mais pobres conheçam padrões mais
avançados de bem-estar, mas se explica pela incapacidade
gerencial, ou de governança, das sociedades do chamado
“terceiro mundo”. Terminando com nosso próprio exemplo
nacional: todos os problemas brasileiros se devem à nossa própria
incapacidade em solucioná-los dentro dos limites do sistema
nacional, eventualmente com aproveitamento das experiências e
conhecimentos já disponíveis a partir da trajetória das
sociedades mais avançadas. Nenhum deles tem origem no
exterior e eles não terão solução sem uma concentração
de esforços no próprio país. Não acredita?: tente
identificar uma “tragédia” nacional que se deve
exclusivamente a causas externas. Se encontrar, gostaria de
ser avisado…