Monteiro
Lobato: entre risos e gargalhadas
Sem dúvida,
o mundo mágico do Sítio do Picapau Amarelo é a expressão
literária mais acabada do riso lobatiano. Nele ri-se de tudo
(ou de quase tudo), principalmente da estupidez e da incoerência
dos adultos. Ri-se dos homens de governo, dos graves
pedagogos, dos gramáticos e do burocrata; todos merecedores
do escárnio infantil. No Sítio, todos riem. Há o sorriso
meigo e doce de Narizinho, o riso triunfante de Pedrinho, a
risada estrondosa da Tia Nastácia, o riso de velha sábia da
Dona Benta, a gargalhada rouca e sincopada do Tio barnabé, o
risinho embaraçante da Emília e ... íamos nos esquecendo: o
Visconde de Sabugosa é o único picapau amarelo que, em meio
à tamanha alegria sonora, não ri. Salvo um momento ou outro
de intensa e irreprimível emoção, como aquele em que fica
perdidamente apaixonado pela pequena Cléu, a menina do mundo
real que visita o Sítio do Picapau Amarelo.
Parece
que, segundo a ótica do autor, a ciência não possui essa
abertura para o riso. Ao contrário, ela se acerca de mil e um
preceitos de cientificidade, tornando-se demasiadamente séria,
no conteúdo e na forma. E ao riso - amaldiçoado antípoda -
essa senhora só lhe tem ojeriza e horror.
Muitos
estudos sobre a literatura infantil de Monteiro Lobato são unânimes
em afirmar que o sucesso das histórias e estórias do Sítio
do Picapau Amarelo junto às crianças leitoras reside
justamente no fato primeiro do autor/narrador combinar
naturalmente fantasia e realidade, procedendo de igual maneira
às operações mentais da criança no ato de brincar.
Realmente não existe constatação mais acertada. Nelly
Novaes Coelho, por exemplo, diz que:
“O
sucesso entre os pequenos leitores
decorreu, sem dúvida, se um primeiro e decisivo fator:
a realidade comum
e familiar à criança, em seu cotidiano, é subitamente
penetrada pelo
maravilhoso ou pelo mágico, com a mais absoluta verossimilhança
ou naturalidade”. (NOVAES,1981,356).
Contudo,
sem querer empalidecer o colorido da tese acima, acreditamos
que, ao lado da imaginação, o cômico também funciona como
elemento de captura do gosto da criança, na literatura
infantil de Lobato.
Nada
mais agradável, na vida como na arte, do que o riso provocado
pela manifestação do absurdo, do non-sense, do alogismo, das
inversões de valores e formas, dos nomes inusitados etc. O
universo ficcional do Sítio do Picapau Amarelo está repleto
de cenas caráter circense e cômico-popular, do tipo
apontadas nas linhas anteriores. Uma delas, a título de
exemplo, refere-se aos nomes e sobrenomes dos próprios
picapaus amarelos. São engraçados, primeiro, porque lembram
nomes de coisas e animais e, segundo, porque, às vezes, não
correspondem ao perfil do dono do nome. É o caso aqui da Dona
Benta, cujo sobrenome – “Encerrabodes” - apesar da
descendência portuguesa da respeitável senhora, torná-se
engraçado para os nossos ouvidos brasileiros, devido a sua
sonoridade.
Inúmeros
outros exemplos particulares poderiam ser aqui apresentados.
Afinal, obra é pródiga em cenas de riso. Em geral, o riso é
garantido pelo jogo lúdico com as significações das
palavras, da linguagem, isto é, pelo ato de brincar com a lógica
do sentido.
Todavia,
se é verdade que a arte imita a vida, o riso aparece como um
aspecto marcante da personalidade de Lobato, um traço
constitutivo e constituinte do seu comportamento. É fato
indiscutível que o riso participa de modo rotineiro tanto da
vida pessoal quanto pública do escritor, chegando a ser
tomado, por seus contemporâneos, muito mais que outros
gestos, como ponto de referência para avaliar o seu estado de
ânimo, o seu humor, o seu espírito, o seu julgamento das
coisas e das pessoas. É sabido que nem só à palavra escrita
ou falada é dado o privilégio de dizer algo. Os gestos, espécie
de linguagem não-verbal, dizem muita coisa. E no caso de
Lobato, o riso, tão indiscreto quanto as suas sobrancelhas na
forma de duas imensas taturanas siamesas, chega a desvendar o
seu ser.
Vamos
encontrar inúmeros momentos da biografia do criador do Jeca,
nos quais estabelece essa relação risível com o mundo
circundante. Na rua, nas rodinhas de amigos, nos bares, na
cadeia, nas salas e corredores da editora do Estado de São
Paulo, nos vôos de avião, em casa; bem como nas conversas
informais, nas entrevistas a rádios e jornais vamos,
inevitavelmente, flagrar uma pilhéria, uma zombaria, um escárnio,
uma picardia, uma gargalhada, um sorriso, ainda que pálido,
esboçado no rosto do escritor como que a delatar o seu
julgamento moral e intelectual diante dos fatos da vida.
Em
carta para Rangel, datada de abril de 1919, Lobato nos fornece
um desses episódios. Nela, vai desabafar ao colega de
correspondências como encontra no popular o lenitivo para o
“stress” do ambiente editorial e literário, com seus
ritos e convenções:
"Minha
situação é esta: sinto-me maduro e apetrechado para a
expressão; tenho na cabeça belos germes de contos, romances,
o diabo. E tenho, o que é mais raro, publico. Mas não
disponho duma hora minha! Vou virando uma especie de mictorio
literário...
E
as mijadas são tantas que eu vou para casa tresandando a
literatura amoniacal. Felizmente ha ‘o banho de
desodorante’ de todas as noites no Café Guaranni - ou o que
o René, com cara de nojo, deve chamar a ‘roda do Lobato’.
Um dia te conto o que é minha roda. Compõe-se dum ‘pau d´agua’,
dum ‘tungador’ engraçadissimo, dum empregado de banco e
mais coisas assim. Conversa-se de tudo, menos de literatura e
arte; e a obrigação é só dizer coisas interessantes e que
façam rir - e todos nos rimos continuamente ainda que não
haja graça. O tungador é um prodigio de giria malandra;
conta conm tal graça as patifarias que faz, que até as
vitimas se regalariam, se o ouvissem. Nenhum deles sabe que
sou escritor, porque eu funciono com uma coisa só: o
‘pagante’. Ha dias o empregado de banco me perguntou,
muito impressionado:
-
É verdade, Lobato, que você tem um livro? Ouvi dizer.
Dei
uma grande risada. ‘Se eu tivesse um livro, Gama, punha-o no
sebo. Não tolero livros, nem gente que escreve livros.’ Ele
sossegou.
Ninguem
compreende que eu me reuna todas as noites a essa roda, diante
de chopes lá no Guarani, em vez de estar nos salões
elegantes da haute conversando sobre os sonetos do Bilac. Mas
eu, que passo o dia no escritorio exposto a todas as mijadas
literarias com que hajam por bem mijar-me, sei que alivio, que
desodorante, que repousante, é a ‘roda do
Lobato’.(LOBATO,1959,197).
Tratando
do caráter histórico-cultural do riso, na tentativa de
identificar as possíveis causas da propensão ou não das
pessoas ao riso, Vladímir Propp constata:
“A presença de uma veia humorística é um sinal de talento
natural. Pelas reminiscências de Górki sobre Tolstói
sabemos como riam juntos Tolstói, Górki e Tchékhov. Quando
chegou a Nice em visita a Tchékhov o professor Maksim Kovaliévski,
eles, sentados à mesa de um restaurante, riam tanto que atraíam
para si a atenção de todos os presentes.” (PROPP,1992,33)
E,
em seguida, conclui:
“O
que demonstram os exemplos citados? Eles ilustram a observação
de que há pessoas nas quais a comicidade inerente à vida
estimula infalivelmente uma reação de riso. A capacidade
para essa reação é no conjunto um fenômeno de ordem
positiva; é uma manifestação de amor à vida e de alegria
de viver.” (PROPP,1992,33).
Talvez
não concordemos completamente com as afirmações do filólogo
russo, entendendo do nosso lado que a propensão ao riso não
seja apenas um fenômeno natural ou inerente à vida das
pessoas humoradas e que, por isso, outros fatores de ordem
histórico-biográficos, tais como experiências educacionais,
sócio-culturais, familiares, de grupo, contribuam bem mais no
processo de elaboração de uma “veia humorística”. Mas
tais afirmações, por enquanto, servem-nos suficientemente
nas nossas primeiras considerações sobre o riso lobatiano na
sua manifestação cotidiana.
Sem
dúvida, somente um certo otimismo, um certo amor à vida e
uma certa alegria de viver, de que o riso é expressão,
impulsionariam uma pessoa a se lançar numa aventura
existencial recheada de projetos vários, de confrontos luciféricos,
de sucessos e insucessos freqüentes, como teve registro a de
Monteiro Lobato. A crítica literária a seu respeito é pródiga
em exemplos dessa sua saga na história nacional. A militância
e a devoção na campanha do ferro e do petróleo para o
Brasil, a partir da década de 1930; a iniciativa e o empenho
dedicado na introdução e modernização da indústria e do
mercado editorial brasileiro, já no final da década de 1910;
a tarefa de renovação literária e lingüística que tomou
para si, desde de moço; enfim, a energia galvanizada nas
batalhas em todos as frentes da vida política, econômica,
cultural do país, são verdadeiros sinais dessa vontade de
potência, de afirmação à qual nos referimos acima.
Mesmo
na cadeia, para onde foi em 1941, zombou da hipocrisia, da
demagogia e do autoritarismo instituídos pelo governo
populista de Getúlio Vargas, que fez uso sistemático da
mentira, promoveu a montagem do aparelho estatal de controle e
convencimento policial e racional social, juntamente com a
burguesia industrial, articulada no interior da FIESP, CIESP e
outros órgãos empresariais da época, a fim de dominar todo
o conjunto da sociedade, dentro e fora da fábrica, em função
da acumulação de capital brasileira, agora na sua fase
agro-industrial. Projeto corporativista de Estado burguês que
contou ainda com o acionamento de equipamentos coletivos de
enunciação do tipo áudios-visuais, cujo objetivo primeiro
era o de operar agenciamentos semióticos voltados para a
produção incessante de subjetividade que legitimasse o novo
regime e a nova organização social.
É
nesse contexto de centralização e ingerência social e econômica
do Estado, empenhado no esforço de sufocar as lutas de classe
no interior da sociedade, tendo por aliada a forte presença
dos interesses econômicos internacionais, principalmente a
dos Estados Unidos, país no comando da segunda revolução
industrial - a do aço, a do petróleo e a da eletrificação
-, que Lobato travará, senão a mais importante, pelo menos a
mais cruenta batalha de sua vida, que o levará, inclusive, à
prisão.
Data
da época em que desempenhava a função de adido comercial
nos Estados Unidos, o interesse de Lobato pela questão da
exploração dos recursos energéticos em solos brasileiros,
visto por ele como fator determinante do livramento do Brasil
da dependência estrangeira e dos seus graves problemas
sociais. “Indispensável, diria mais de uma vez o escritor,
nos compenetrarmos, de uma vez para sempre, da grande verdade:
nosso problema não é político, nem racial, nem climatérico,
mas pura e simplesmente econômico”.
Ao
longo de dezesseis conturbados anos Lobato combateu nos
“fronts” do ferro e do petróleo, onde teve que enfrentar
dois adversários de peso: a ação de estrangulamento das
empresas nacionais do setor siderúrgico e petrolífero,
promovida sub-repticiamente pelo governo federal, tendente a
uma maior centralização política a partir da década de
1930, e os fortes interesses estrangeiros nesse domínio,
consorciados com o governo brasileiro numa espécie de pacto
de monopolização do ferro e do petróleo.
Nesse
enfrentamento, Lobato muniu-se de uma variedade de armas dos
mais grossos calibres: denúncias sérias, discursos
inflamados, propagandas vibrantes, articulações políticas
perigosas, entre outras constitutivas do seu arsenal bélico,
que foram muito bem registradas no livro O Escândalo do Ferro
e do Petróleo, de 1936.
Dentre essas, existe uma que manejou com precisão cirúrgica
- riso de zombaria, cuja munição era quimicamente constituída
de ironia, escárnio e sarcasmo.
Na
introdução de O Escândalo do Petróleo e do Ferro,
a ridicularização tem endereço certo. Ela é dirigida ao
Departamento Nacional de Produção Mineral, herdeiro do
antigo Conselho Geológico, representado pela figura do seu
diretor Dr. Fleury da Rocha. A bronca do escritor é quanto a
política mineral do DNPM que consiste em estabelecer leis,
como o a Lei de Minas (1935) e o Código de Minas (1939), cuja
a finalidade, segundo o autor, é “Não tirar petróleo, nem
deixar que o tirem” (LOBATO,1959,15), favorecendo desse modo
os trustes internacionais ou ‘os interesses ocultos’. Ri
ele da astúcia destes e da estultice dos órgãos oficiais:
“Os
trusts sabem tudo e sorriem lá entre si. Sabem que a partir
de 1930 o brasileiro cada vez menos se utiliza do cerebro para
pensar, como fazem todos os povos. Sabem que os nossos
estadistas dos últimos tempos positivamente pensam com outros
orgãos que não o cerebro - com o calcanhar, com o cotovelo,
com certos penduricalhos - raramente com os miolos...
(LOBATO,1959,11).
Mais
adiante desanca o Departamento:
“Os
Interesses Ocultos exultaram. O Brasil iria ser iluminado por
ciencia da ‘legítima’. Em vez de dizer-se, à Eusebio,
‘Olá, negrinho, feche a janela por causa do vento’,
dir-se-ia, à Fleury, ‘Su, etiope, claudica a finestra por
causa do foribundo Boreas’. Esse homem, escapo a Molière,
iria tambem revelar-se mestre inigualavel na fatura da Lei de
Minas sonhada pelos trusts. Uma lei que embaraçasse, que
trancasse da maneira mais perfeita, a pesquisa e a exploração
do subsolo nacional. Uma lei-mundel”. (LOBATO,1959,13)
Em
carta a Getúlio Vargas, datada de 1940, Lobato volta a
atacar, com toda sem-cerimônia, o DNPM e o seu nacionalismo
“patife”, mostrando como é irracional e injusta a sua política
petrolífera:
“A
idéia central dessas leis (Lei de Minas, Lei do Petróleo) é
a nacionalização do capital. Mas houve uma insidiosa confusão.
Evitar que o capital estrangeiro se aposse das nossas reservas
minerais, é coisa plenamente justificável, mas ‘impedir
que o estrangeiro que está no Brasil se torne acionista das
empresas, é maldade pura’(...) Matarazzo póde dirigir uma
gigantesca industria de alimentos, coisa que diz diretamente
com a vida e saude - mas não póde tomar uma ação de 100
mil réis numa empresinha de petroleo! Um nacionalismo que
raciocina desse modo, evidentemente não pensa com o cerebro -
sim com qualquer membro menos nobre do corpo.”
(LOBATO,1959,173)
Ora,
diante de tanta obscenidade pantagruélica que lhe era
dirigida por Lobato, sinal da idéia deste de persistir no
projeto de alargar a participação brasileira no
beneficiamento do petróleo, o governo lança mão de outras
estratégias de controle, que não só a de dificultar, através
de leis inibidoras, a instalação e proliferação de
empresas nacionais de extração e refinamento. Primeiramente
o governo acenou com a idéia de concursar o escritor para
suas fileiras, na tentativa de integrá-lo à máquina
corporativa do Estado. Ainda em 1940:
“recebe
um emissário do Presidente, que traz um convite claro e explícito:
o Ditador desejava transformar o Departamento de Imprensa e
Propaganda num Ministério de Propaganda, sob a direção de
Monteiro Lobato. Com aquêle jeito todo seu, franzindo as
amplas sobrancelhas e erguendo os olhos para o portador da notícia,
Lobato perguntou-lhe:
-
Qual a finalidade dêsse Ministério?
-
Ora: fazer propaganda do Brasil lá fora, a fim de
atrairmos capitais estrangeiros...
-
Mas para isso não é preciso criar-se um Ministério!
Basta
constitucionalizar o País. Você acha que o capitalista
estrangeiro, homem sabido, conhecedor profundo do mundo de negócios
e de tôdas as nossas mazelas, irá inverter o seu dinheiro
aqui, em nossa terra, ùnicamente por ter lido uns artigos
meus de propaganda? Vamos mudar de assunto porque êste não
resiste nem sequer a uma pequena discussão...
O
emissário retornou ao Rio e não se tocou mais no assunto. Em
fins de novembro, num sábado, à tarde, estando Monteiro
Lobato nos escritórios da U.J.B., com os Drs. Válter de
Oliveira e Joaquim Pedro Kiehl, recebeu um chamado telefônico
de pessoa amiga, que o convidava a entrevistar-se com o Dr.
Getúlio Vargas, em Campinas, no dia seguinte. Haveria um
banquete e êle teria, na mesa, lugar reservado ao lado do
Ditador. A recusa foi pronta. Não era homem para
banquetes”(CAVALHEIRO,1955,52-53)
Não
conseguindo, portanto, dobrar o escritor com a cooptação, o
Estado Novo então fez uso da força policial para fazer
silenciar a voz ruidosa daquele que insistia em “desafinar o
coro dos contentes”:
“Finalmente,
a 20 de março de 1941, dez meses depois, a carta-denúncia é
respondida: às duas e meia da tarde, nos escritórios da União
Jornalística Brasileira, à rua Felipe de Oliveira, o
escritor é procurado por dois investigadores da Polícia, que
lhe entregam em mão um mandado de prisão preventiva. Dali
saiu, escoltado como um criminoso vulgar, para o velho casarão
da Avenida Tiradentes, casa de detenção e presídio político.
Era a resposta do Ditador”. (CAVALHEIRO,1955,53).
Contudo,
enganava-se o Estado Novo ao pensar que, apenas prendendo
temporariamente Lobato, colocaria fim ao conflito político-ideológico
em torno dos recursos energéticos; problema que, se não
imediatamente resolvido, colocaria em risco o seu projeto
corporativista burguês de instituir uma ordem social
“harmoniosa”, normativa e racional, ou melhor, uma
sociedade “livre” das lutas de classes.
Mesmo
encarcerado e incomunicável com o mundo de fora, Lobato não
deu sossego aos seus inimigos estado-novistas. Desferiu contra
eles o seu riso cínico, à semelhança do risinho de canto de
boca de Fausto no momento em que aparece ao jovem músico
dodecafônico Adrian Leverkuhn, cobrando deste a sua alma por
serviços prestados outrora.
É o tipo de riso egoísta, maldoso, pois se presta
basicamente para a satisfação pessoal do seu emissário,
para o deleite íntimo do espírito vingativo.
Ao
tomar conhecimento de sua absolvição, em primeiro
julgamento, pelo Juiz Singular, Lobato, de pronto, escreve uma
carta, tanto irreverente quanto mal-criada, ao General Horta
Barbosa
O conteúdo da missiva é desenvolvido na forma cômica do
exagero e da ironia, e tem a intenção de fazer ver o General
Horta Barbosa a estupidez sem igual dele e do Tribunal de
Segurança em achar que ele, Lobato, seria condenado a um bom
tempo de cadeia, suficiente o bastante para desmoralizá-lo e
fazê-lo perder o topete. Assim, o missivista inverte as posições
e, ao invés de maldizer o longo período que poderia ter
passado na prisão, caso fosse condenado, bendiz do curto
tempo que lá passou, agradecendo, inclusive, aos responsáveis
por tal experiência:
“General
Horta Barbosa, D.D. Comandante do Conselho Nacional do
Petroleo, Rio de Janeiro.
É
profundamente reconhecido que venho agradecer a V. Excia. o
grande presente que me fez, por intermédio do augusto
Tribunal de Segurança, de uns tantos deliciosos e
inesqueciveis dias passados na Casa de Detenção desta
cidade. Sempre havia sonhado com uma reclusão desta ordem,
durante a qual eu ficassse forçadamente a sós comigo mesmo e
pudesse meditar sobre o livro de Walter Pitkin...
-
Bendito seja esse benemerito general! murmurei comigo ao ter
conhecimento de que fôra por sugestão dele que o Tribunal me
prendia, isto é, me proporcionava a realização do velho
sonho. (...)
Passei
nesta prisão, general, dias inolvidaveis, dos quais sempre me
lembrarei com a maior saudade. Tive ensejo de observar que a
maioria dos detentos é gente de alma muito mais limpa e nobre
do que muita gente de alto bordo que anda solta. (...)
Pesarosamente
tenho talvez de deixar hoje esta prisão, mas seria o maior
dos ingratos se antes de despedir-me do ‘chiqueiro’,
chamado Sala Livre, não cumprisse o meu dever, batendo na
maquina esta carta de agradecimento. Creia, general, que a
minha gratidão vai ser eterna.
Cordialmente,
(a) Monteiro Lobato.” (LOBATO,1959,198)
E
não para por aí. Reforçando o sentimento de gratidão e
regozijo, o escritor ainda escreve o seguinte post scriptum,
fazendo contorcerem-se de raiva aqueles que queriam vê-lo
abatido, descorçoado, arrependido:
“P.S.
- Tomo a liberdade de lhe enviar pelo correio uma caixinha de
bombons, sobrados dos muitos que os amigos me obsequiaram. Os
sentimentos que me animam para com o meu generoso bem feitor
agaloado são doces como esses bombons.” (LOBATO,1959,198)
Mas
o endiabrado Lobato ainda teria mais um pouco de tempo para
escrever outra carta, só que agora ao Presidente Getúlio
Vargas, antes que a primeira fosse respondida. Ao cabo de
quatro dias escreve, num tom não menos zombeteiro e cínico,
ao Ditador Vargas:
“Dr.
Getúlio:
Atirei
no petróleo e acertei na Cadeia, o que prova bem má
pontaria. Estou, porém, radiante, visto que a sentença do
Juiz Maynard fêz com o General o que eu fiz ontem com uma
pulga: enrolou-o bem enroladinho entre a ponta dos dedos.
Muito breve entrará em julgamento o processo do Vítor
Freire, culpado do crime igual ao meu - querer ‘o petróleo’,
e é indispensável que os abençoados dedos enrolem-no ainda
mais. Ficará restando apenas o estalo final com a unha - o
que compete ao Presidente da República, na
decisão do recurso da ‘Cia. Matogrossense’. Nesse
glorioso dia, o Petróleo Nacional terá ganho a sua batalha
do Marne - e três meses depois jorrará em Mato Grosso.(...)
Mais
uma vez os meus agradecimentos, Sr. Dr. Getúlio, e sinceros
votos para menos retratos nas paredes e mais coragem no coração
dos que lhe escrevem.' E assinando-se o ‘impertinente’
Monteiro Lobato, acrescenta ainda um pequeno post-scriptum:
‘Pelo amor de Deus, não mande esta carta ao Conselho do
Petróleo.’
E,
finalmente, a propósito do dia do aniversário do Presidente,
19 de Abril, o escritor envia-lhe nova carta que, além da
ousadia de tentar ludibriar o Chefe da Nação com a idéia de
economizar a poupança popular com a produção nacional de
combustível, substituindo as importações do mesmo,
apresenta a seguinte sugestão:
“Se
o Sr. Presidente examinar esta minha proposta, verá que é
perfeita e atende maravilhosamente aos altos interesses da nação
brasileira. Permite até o aproveitamento do Conselho Nacional
do Petróleo. O general comandante desse Conselho e os mais
membros que o compõem, caso empregados como combustivel nas
fornalhas das sondas, darão para mover as maquinas por uns
dois ou tres dias - vantagem que positivamente não é de
desprezar....” (LOBATO,1959,199-200).
Foi
a gota d’água. No dia 21 de maio de 1941, Lobato foi
condenado pelo Tribunal Pleno, em segundo julgamento, a seis
meses de cadeia. A tragédia, porém, não foi capaz de apagar
o riso lobatiano. Mesmo atrás das grades, ele continuou a
ecoar para além dos corredores da Casa de Detenção.
Post
Scriptum
O
carnaval enquanto festa ou mesmo espetáculo popular é tido,
por teóricos do estofo de Mickhail Bakhtin, além de espaço
por excelência do riso, como a única manifestação cultural
e artística que não separa a vida da arte. Nesse espaço
bufo circense, a cultura oficial e conservadora é subvertida,
e o mundo colocado de cabeça para baixo. Mas depois de
testemunhar a consagração da sensualidade ingênua da
“rainha dos baixinhos” e a execração do discurso/ético/sexual
emancipador de Joãozinho Trinta, em plena Marquês de Sapucaí,
percebi que no “carnabusiness” brasileiro as coisas estão
indubitavelmente de cabeça para cima.