Somos todos responsáveis
“Kol Israel areivin séh baséh”
“Todo o povo de Israel é responsável, um pelo outro”
do Talmud, Tratado Shavuoth, 39 – 1.
O presente texto pretende discutir
a necessidade do envolvimento e participação das comunidades
judaicas na Diáspora nos esforços para fazer avançar o processo
de construção da Paz entre israelenses e palestinos. Questiona-se
o silêncio dessas comunidades, apesar de manifestações cada
vez mais virulentas de grupos antijudaicos e da própria
política irracional do governo de Ariel Sharon.
O aparente fracasso da iniciativa
do “Acordo de Genebra” criou um novo impasse e reforçou
os sentimentos de impotência na busca por uma solução para
o conflito. Será o destino do Acordo de Genebra o mesmo
das outras e inúmeras tentativas – Oslo, Taba, Wye Plantation
– de estabelecer a paz na região?
Na ausência de uma proposta construtiva
que reúna o consenso dos dois lados, prossegue o círculo
vicioso de violência, com ataques suicidas seguidos por
retaliações do exército israelense. O clamor pela vingança
dos mortos suscita o grito de “olho por olho”, expressão
retrograda em termos do lento e penoso avanço das normas
jurídicas, nacionais e internacionais, ao longo dos últimos
séculos.
Ficam fortalecidas as facções extremistas
dos dois lados, enquanto cresce o desanimo das maiorias
silenciosas.
Entre os palestinos, movimentos radicais
como o Hamas e a Jihad Islâmica ganham adesões da juventude
frustrada e revoltada, enquanto entre os israelenses crescem
manifestações de protesto entre os soldados convocados para
servir nos territórios ocupados.
Os países árabes – em que pesem os
tímidos contatos de aproximação por parte do Egito, Jordânia
e Marrocos – continuam a repetir o discurso radical de “apagar
Israel do mapa”. O que apenas serve aos radicais israelenses
que persistem na visão de um Estado integrando as áreas
ocupadas durante a guerra dos seis dias.
A paralisação das negociações revela
a incapacidade dos governantes, de ambos os lados, imporem
moderação às respectivas forças radicais, enquanto a escalada
nas operações militares afasta o objetivo de se construir
uma sociedade mais justa e sustentável para os dois povos.
Há um número crescente de vítimas
dos dois lados que assistem suas famílias e comunidades
serem atingidas pelas operações militares que deixam em
seu rastro edifícios e terras destruídas e, sobretudo, mentes
e corações traumatizados.
É mister lançar uma ampla campanha
de conscientização e mobilização das comunidades judaicas
e sírio-libanesas espalhadas pelo mundo, na América Latina,
na Europa e nos Estados Unidos, para que se manifestem a
favor da pacificação e do desarmamento.
A multiplicação de ataques a sinagogas,
escolas e a profanação de cemitérios nos últimos meses mostra
que a situação de impasse criada tende a ser aproveitada
pelos grupos de extrema direita (às vezes, também da esquerda)
para se lançarem em ações que também colocam em risco a
vida de judeus na Diáspora. Enfraquece-se assim o sonho
de um Estado protetor dos judeus, no país e no mundo, que,
por sua vez, não falharam em sua solidariedade ao povo de
Israel, confirmando a definição de uma comunidade destino,
com responsabilidades e direitos mútuos e recíprocos.
Por que, então, o silêncio das comunidades
judaicas com relação à política irracional do governo Sharon,
sua indecisão e, não raras vezes, truculência, apesar de
sofrer diretamente as reações e ataques virulentos de grupos
de extremistas que confundem sentimentos anti-israelenses
com anti-judaismo e com anti-semitismo? Recentemente, o
ex-prefeito de Jerusalém, Ehud Olmert, atualmente ministro
de Finanças do governo Sharon, causou impacto na opinião
pública ao exigir, através da mídia escrita e falada, que
as tropas israelenses se retirassem unilateralmente, mesmo
sem acordo prévio, dos territórios que irão constituir o
futuro Estado palestino.
Olmert raciocina em termos da “bomba
relógio da demografia”, ou seja, dada a fecundidade das
mulheres palestinas, em poucos anos a população combinada
da Cisjordânia, da Faixa de Gaza e dos árabes que atualmente
vivem dentro do Estado de Israel irá superar o número de
judeus no país. A construção do muro/cerca, além de controvertida,
é ineficaz. Não protege contra os ataques suicidas, mas
adia a tomada de medidas, certamente dolorosas, como a desocupação
das terras do futuro Estado palestino.
É verdade, os israelenses terão que
reconhecer o fim do sonho de Grande Israel nas fronteiras
bíblicas, acalentado por todas as lideranças da nação tanto
do partido trabalhista quanto do Likud, sobretudo após 1967.
Para avançar no caminho da paz, é mister reconhecer as falhas
das lideranças dos dois lados: Arafat, depois de inúmeras
oscilações e pronunciamentos contraditórios, inclusive seu
apoio a Saddam Hussein, não parece mais ter autoridade para
impor moderação aos grupos radicais, enquanto Sharon, por
seu lado, mantém a “linha dura” e irrealista de exigir o
fim imediato de todos os ataques contra civis e militares
israelenses.
Sharon também recusou e desqualificou
o documento do “Acordo de Genebra”, alegando que seus autores
não seriam representantes legais de seus governos. Parece
ignorar ou minimizar o grau de saturação da sociedade israelense,
afligida por sua maior crise econômica e social, que provoca
literalmente a “fuga” dos jovens para o exterior, após terem
cumprido o serviço militar de três anos. Ignora, também,
as vozes da opinião pública internacional (ONU, União Européia,
Rússia e EUA), o que gera mais críticas e sentimentos anti-israelenses,
freqüentemente confundidos com anti-semitismo.
A atitude intransigente do governo
de Israel, que chama de “subversivos” os autores do “Acordo
de Genebra”, aumenta o isolamento diplomático de Israel,
com repercussões negativas sobre os judeus no mundo. Por
que as lideranças comunitárias não se manifestam, procurando
pressionar o governo de Israel no sentido de mudar sua política?
Será que caíram na armadilha da ilusão de superioridade
militar?
A História nos ensina que esta não
resolve os problemas de uma convivência pacífica entre as
nações, ao contrário, na opinião pública internacional,
Israel é concebido como maior perigo para a paz mundial,
mesmo maior do que Afeganistão, Iraque, Coréia do Norte
e Irã, segundo uma pesquisa recentemente realizada nos países
europeus.
Para o avanço nas negociações, a
participação ativa e persistente da chamada sociedade civil,
dos dois lados, é absolutamente indispensável para conter
os extremistas e pressionar os governantes para manter abertos
os canais de negociação. Como todas as manifestações em
favor da paz entre os dois povos, a assinatura simbólica
do Acordo de Genebra é válida e emblemática.
Se for correta a definição dos judeus
como “comunidade de destino”, então é inevitável inferir
a responsabilidade mútua entre o Estado e a Diáspora, que
deve participar das decisões que afetam a vida e sobrevivência
das gerações atuais e futuras.
Não é certamente por acaso que o
movimento “Paz Agora”, dentro e fora de Israel, envolve
aqueles que militam em suas respectivas sociedades pelos
Direitos Humanos, contra a discriminação e os preconceitos,
contra o desemprego e a miséria, enfim, lutam pela criação
de uma nova ordem social, econômica e cultural, eqüitativa
e justa, em escala mundial.
Precisamos de apoio e solidariedade
de todos os grupos e indivíduos para garantir a existência
de Israel, juntamente com ações adequadas que levem à paz
e a reconciliação com o povo palestino. Ao manifestarmos
nossa solidariedade com os grupos e correntes democráticos
e seculares que advogam e defendem o entendimento com os
palestinos, resistimos àqueles que em nome de promessas
bíblicas míticas e com o apoio do governo de Ariel Sharon
se opõem a um acordo e recusam a retirada dos territórios
ocupados.