O golpe de 64: o aborto de uma nação
O extraordinário crescimento econômico do país, sobretudo a partir da segunda
metade da década de cinqüenta, produziu expectativas otimistas
em quase todos os setores da sociedade brasileira. O milagre
econômico aparecia de forma concreta na construção de Brasília,
na presença dos primeiros automóveis fabricados no país,
na quadruplicação da malha viária nacional em poucos anos,
na execução de grandiosos projetos nas áreas de siderurgia,
geração de energia elétrica, fabricação de fertilizantes
e cimento e de construção naval e na disseminação de bens
duráveis de consumo como rádios, aparelhos de televisão,
geladeiras e outras utilidades de uso doméstico. Era difícil,
diante de evidências palpáveis, conter a fé na possibilidade
da superação dos entraves coloniais que mantinham o país
no subdesenvolvimento.
As realizações no plano cultural podem ter, inclusive, reforçado as expectativas
otimistas no plano econômico. Em 1962, o filme O Pagador
de Promessas, dirigido por Anselmo Duarte, conquistava a
Palma de Ouro em Cannes, a primeira façanha importante do
cinema nacional. No mesmo ano, a bossa-nova brasileira era
apresentada ao público norte-americano no Carnegie Hall de Nova York com grande sucesso. Contribuíam
para o clima de efervescência cultural o Cinema Novo, os
grupos de teatro Arena e Oficina e o Centro Popular de Cultura
da UNE. A produção cinematográfica era significativa. Somente
em 1963 foram produzidos, dentre outros filmes, Beijo no
Asfalto, de Flávio Tamberlini; Garrincha, Alegria do Povo,
de Joaquim Pedro de Andrade; Gimba, de Flávio Rangel; Zumbi
dos Palmares, de Cacá Diegues; Seara Vermelha, de Alberto
Daversa; Os Fuzis, de Rui Guerra; Deus e o Diabo na Terra
do Sol, de Glauber Rocha; e o estupendo Vidas Secas, de
Nelson Pereira dos Santos. A arquitetura de Niemeyer contribuía,
do mesmo modo, para reafirmar as potencialidades da nação
emergente. As revistas Brasiliense e Anhembi, as editoras
Civilização Brasileira, Zahar
e Difusão Européia do Livro, a criação da Universidade
de Brasília e o ISEB fermentavam o ambiente de debate intelectual
no país.
Podem ter contribuído para a disseminação da euforia também nas camadas
populares a consagração de Ieda Maria Vargas, como Miss
Universo de 1963, complementando a vitória obtida alguns
anos antes por uma outra mulher brasileira, Maria Ester
Bueno, no torneio de Tênis de Wimbledon, enquanto Eder Jofre
tornava-se campeão mundial de box na categoria dos pesos
galos. O Brasil era também bicampeão mundial de futebol
ao conquistar a taça Jules Rimet na Suécia, em 1958, e no
Chile, em 1962, após a imensa frustração das Copas de 1950
e 1954. E, neste ambiente de euforia, o Santos Futebol Clube
vencia duas vezes seguidas o campeonato mundial interclubes
contando com Pelé que era considerado o maior jogador de
futebol do planeta. Depois de séculos de convivência com
a obscuridade no plano internacional, o Brasil parecia emergir,
de repente e com muita intensidade, como nação promissora
o que possibilitava diluir de certo modo os sentimentos
de nação subdesenvolvida profundamente arraigados no povo.
As conquistas e o reconhecimento de alguns brasileiros no
plano internacional constituíam a prova de que o passado
colonial e a situação de nação subdesenvolvida eram estigmas
que poderiam ser vencidos pela vontade transformada em ação.
O sopro de otimismo vinha, inclusive, de fora. Em 1962, o movimento de
libertação das colônias alcançava expressiva vitória com
a independência da Argélia. Mas era a revolução cubana o
fato que produzia os maiores efeitos no ambiente de euforia
instalado no país. Quando os cubanos rechaçaram a tentativa
de invasão organizada pelos Estados Unidos na Baía dos Porcos,
em abril de 1961, pareciam demonstrar a viabilidade da libertação
dos povos latino-americanos da opressão imperialista norte-americana.
Em 1960, Jean Paul Sartre, em visita ao Brasil, contribuindo para ativar
os anseios de libertação nacional emergentes, declarava
que “É preciso que os cubanos triunfem, ou perderemos tudo,
até a esperança”. Estes anseios de emancipação já vinham
se manifestando no país desde o começo da década de cinqüenta
com a campanha “o petróleo é nosso” e posteriormente pelo
rompimento do governo Kubitschek com o FMI, em julho de
1959, e, depois, ainda, com a política externa independente
de Quadros que propugnava a manutenção de relações diplomáticas
com todos os governos, independentemente de seus regimes
sociais ou de suas ideologias, e defendia o princípio da
não-intervenção e da autodeterminação dos povos.
Em agosto de 1961, San Tiago Dantas, ministro das
Relações Exteriores do gabinete Tancredo Neves, no governo
parlamentarista, reafirmava na Conferência de Punta del
Este a orientação independente do Brasil em relação à sua
política exterior atuando de forma a embaraçar decisivamente
a aprovação de uma ação mais agressiva dos Estados Unidos
sobre Cuba via Organização dos Estados Americanos.
Além do sentimento nacionalista, o sopro de otimismo e esperança que vinha
de fora fomentava o reformismo. Após o Concílio Vaticano
II, — que legitimava a intervenção da Igreja nos assuntos
políticos, econômicos e sociais —, setores católicos do
país passaram a se engajar no processo político sensibilizados
com os ideais de transformação social inspirados por Roma.
O cardeal de São Paulo, D. Carmelo Mota, declarava na época:
“Ou justiça social ou o fim do mundo civilizado”. O interesse
da Igreja pelas reformas seria consolidado pelas Encíclicas
Sociais do papa João XXIII, a Mater et Magistra e
a Pacem in Terris, esta última de 10 de abril de
1963, que o governo soviético qualificou de “encíclica histórica”.
A leitura das Encíclicas papais teria, inclusive, impressionado
muito o presidente Goulart pois estas davam suporte à sua
política reformista numa conjuntura em que o seu governo
era pressionado por setores direitistas com acusações de
“infiltração comunista” em alguns de seus postos. E o governo
Kennedy, através do programa denominado Aliança para o Progresso,
defendia também uma reforma agrária mais ou menos radical
na América Latina como meio de impedir o alastramento da
guerrilha de tipo cubano no continente.
Coloquemos os fatos políticos promissores em sequência para avaliar o seu
poder de despertar a confiança e o fervor reformista: —
em primeiro lugar, a revolução cubana e o fracasso da tentativa
de invasão da ilha por tropas formadas por exilados anticastristas
organizadas pela CIA; posteriormente, a vitória expressiva
de Jânio Quadros em 1960, fato que anunciaria a “emergência
do povo como protagonista eminente do processo político”,
segundo observação feita por um analista na época; a Cadeia
da Legalidade de Brizola que revelava o potencial extraordinário
da combinação entre mobilização de forças populares e apoio
de setores estratégicos das Forças Armadas; as duas greves
gerais de cunho político em 1962 que confirmavam a eficácia
da aliança entre forças populares e militares na pressão
sobre o Congresso Nacional; a emergência de um membro do
PTB na presidência da República, legítimo herdeiro de Vargas
e reformista apoiado pelo PCB; o crescimento surpreendente
da bancada do PTB na Câmara federal nas eleições de 1962;
a ascensão do PTB como a maior bancada nessa casa do Congresso
com a adesão de alguns parlamentares do PSD ao final de
1963; a vitória de Arraes nas eleições para o governo de
Pernambuco após séculos de predomínio oligárquico; a vitória
expressiva de Goulart no plebiscito de janeiro de 1963 por
9.457.448 votos a favor da restituição das prerrogativas
de chefe de governo ao presidente da República contra 2.073.582
votos a favor da manutenção do parlamentarismo; a conquista
do 13º salário aos trabalhadores; a aprovação da Lei de
Remessa de Lucros contra o capital estrangeiro; a concretização,
com vinte anos de atraso, do Estatuto do Trabalhador Rural;
a encampação de algumas empresas estrangeiras concessionárias
de serviços públicos; o suposto controle dos sargentos das
Forças Armadas por Brizola e o “dispositivo militar” de
Goulart que parecia consolidar uma fortaleza invencível
contra os golpistas; a possibilidade de hegemonia do PTB
reformista na política nacional com o avanço do trabalhismo
no campo via sindicatos rurais; as perspectivas de aprovação
da reforma agrária graças à ampla mobilização da opinião
pública, dos sindicatos, dos estudantes e intelectuais,
e devido ao apoio de setores das Forças Armadas e da Igreja,
do governo norte-americano e do Vaticano. A sequência de
fatos promissores poderia explicar o otimismo eufórico dos
setores considerados progressitas e, quem sabe, justificar
a ilusão libertária de que a vontade poderia transformar-se
em realidade através da agitação e da mobilização política.
A Cadeia da Legalidade, movimento pela posse de Goulart, constituiu, certamente,
um marco importante na disseminação da euforia política.
Theotônio dos Santos, um dos ideólogos da POLOP, organização
marxista da época, diz que, depois desse movimento, “criou-se
no Brasil uma aspiração de transformação social. O povo
percebeu que era possível derrotar os militares. Então se
radicalizaram as demandas sociais, imensamente”. Garantida
a posse de Goulart, Brizola passaria, de fato, a assumir
uma postura radical eufórica. Dizia o líder petebista:
“Tenho a certeza inabalável de que amanhã não seremos
apenas nós, mas milhões de outros brasileiros que não hesitarão
em trilhar os caminhos da revolução, se os caminhos das
reformas não levarem o nosso país à posse de seu destino”.
Depois de forçar os ministros militares de Quadros a um
recuo, Brizola assinalava que “Ninguém mais, neste país,
dará um golpe por telefone!”.
Luís Carlos Prestes, secretário geral do PCB, parece, da mesma forma, ter-se
embriagado politicamente por esta onda efusiva de otimismo,
tanto é que chegou a acreditar que “Já estamos no governo,
só falta alcançar o poder”. O essencial a observar é que
esse clima de euforia favorecerá a radicalização ideológica
febril dos grupos nacionalistas-reformistas constituindo
assim um outro fator fundamental da crise do regime de 46.
João Pinheiro Neto, ministro do Trabalho no gabinete Brochado da Rocha,
declarava em novembro de 1962 que “O Brasil vive uma fase
adolescente e, como todo adolescente, procura ansioso as
suas soluções, verdadeiramente suas, para as dúvidas e os
problemas que o atormentam”. O ímpeto juvenil e o clima
de otimismo eufórico devem ter impedido uma avaliação mais
atenta por parte dos nacionalistas-reformistas dos oito
golpes, deposições ou renúncias que ocorriam na América
Latina entre 1962 e 1963. Inclusive, na vizinha Argentina,
onde as Forças Armadas executavam a deposição do presidente
Arturo Frondizi, em março de 1962.
Conclusão
As Ciências Sociais têm um papel importante na produção de conhecimentos
para subsidiar a construção de uma sociedade de acordo com
os interesses próprios conscientes da coletividade. As teorias
políticas no Brasil, antes do golpe de 64, estavam excessivamente
contaminadas pela ideologia, inclusive importada da União
Soviética.
Isso contribuiu para o aborto de um projeto de construção de uma nação
independente em termos políticos, econômicos e culturais
com uma distribuição mais justa da renda. O Brasil hoje
poderia ter uma cara bem diferente da que tem, sem Rede
Globo, com um cinema e um teatro engajados na construção
de uma identidade para o povo brasileiro, com uma Universidade
engajada na luta pela independência tecnológica do país,
na luta pela solução efetiva dos problemas sociais e fonte
de fermentação de debate e de agitação cultural e artística.
A semente que estava brotando na década de cinqüenta e início
dos anos sessenta foi destruída de forma implacável. A ditadura
militar esmagou lideranças políticas e sufocou a formação
de lideranças com uma mentalidade diferente. Tornou o Brasil
prisioneiro do capital financeiro internacional, tornou
o país culturalmente colonizado, esterilizado pelo positivismo
que passou a ser dominante nas ciências humanas.
Poderíamos não ter atingido a posição significativa de 8ª economia do planeta.
Mas não teríamos um povo tão massacrado pela miséria, pela
opressão cultural e de mercado e por formas diversas de
analfabetismo que podem se constatadas até dentro da Universidade.
Foi, de fato, bem triste o que aconteceu com um país que hoje poderia ter
milhares de artistas e intelectuais do porte de Caetano
Veloso, Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Oscar
Niemeyer, Tom Jobim, Hélio Oiticica, Cândido Portinari,
José Celso Martinez, Elis Regina, Milton Nascimento, Celso
Furtado, Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, Caio Prado Jr.,
Sérgio Buarque de Hollanda, Florestan Fernandes, Octávio
Ianni, Raymundo Faoro, Carlos Drummond de Andrade, Gilberto
Freyre e, quem sabe, até alguns prêmios Nobel.
É difícil explicar por que a fonte secou? Existe ambiente de agitação cultural
na Universidade para possibilitar o surgimento de novos
caetanos velosos? Seria possível o surgimento de intelectuais
como Gilberto Freyre dentro de um modelo burocratizado de
Universidade que nos força à ultra-especialização?
A cultura dominante pós-64 nos oferece Xuxa, Ratinho, Ana Maria Braga e
Galvão Bueno. E nós, intelectuais de academia, estamos oferecendo
algo de significativo para a transformação da realidade
social e cultural brasileira? Ou fomos, também, absorvidos
pela cultura dominante na Universidade, burocrática, corporativa
e positivista?