Por NELSON PILETTI

Professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP)

WALTER PRAXEDES

Docente na Universidade Estadual de Maringá (UEM)

 

Dom Hélder Câmara: Entre o poder e a profecia (São Paulo, Ática, 1997 / Brescia (It.), Editrice Queriniana, 1999). Autores de Dom Hélder Câmara: Entre o poder e a profecia (São Paulo, Ática, 1997 / Brescia (It.), Editrice Queriniana, 1999). 

 

 

Memória da resistência democrática: O Arcebispo de Olinda e Recife Dom Hélder Câmara se recusa a celebrar uma missa campal em homenagem ao segundo aniversário da Revolução de 1964*

 

Dom Hélder Câmara: Entre o poder e a profecia (São Paulo, Ática, 1997 / Brescia (It.), Editrice Queriniana, 1999). Durante os primeiros anos do Regime Militar pós-1964, o arcebispo de Olinda e Recife Dom Hélder Câmara recebeu uma certa proteção contra perseguições diretas dos militares, em Recife, principalmente porque mantinha um relacionamento muito bom com Brasília, ao ponto de no final de maio de 1965 circular na cidade a notícia de que o próprio presidente da República Humberto de Alencar Castelo Branco havia telefonado para Recife a fim de apurar a origem do boato de que os oficiais do IV Exército planejavam sua prisão.

Em sua própria avaliação, o Arcebispo considerava que tinha sob seu controle a situação política na Arquidiocese: "Restrição mesmo só de uma ala extremada e radical. Mas restrição discretíssima, mesmo porque, além dos pequenos e humildes, tenho os industriais (que me têm como pioneiro do desenvolvimento), os comerciantes, os intelectuais e o grosso das famílias granfinas", confidenciou em uma correspondência.

Enquanto Dom Hélder se mantinha inacessível aos repressores, o mesmo não se pode dizer a respeito dos militantes da Juventude Universitária Católica (JUC), do Movimento de Educação de Base (MEB) e de membros do clero, que eram constantemente perseguidos, presos e interrogados sobre suas atividades supostamente subversivas.

O Arcebispo achava, no entanto, que a saída para esse tipo de problema seria melhorar o relacionamento com os militares. Em algumas ocasiões parecia até não haver qualquer divergência entre as duas partes. Na festa do Dia do Soldado de 1965, por exemplo, Dom Hélder chegou a acanhar-se "com o excesso de atenção e de homenagens da parte do general Lira", um oficial com quem já havia se atritado anteriormente. O Arcebispo chegou um pouco atrasado e ocupou um lugar discreto, meio escondido. Ao revistar as tropas o general Lira percebeu sua presença e "fez um escândalo", ordenando que seu  ajudante de ordens o levasse para o lugar de honra no palanque.

Na mesma ocasião, o general Antonio Carlos Muricy havia recebido a insígnia de "Grande Oficial do Mérito Militar", e isso fez com que Dom Hélder resolvesse pregar um "susto" nos militares. Ele tinha insígnia igual que lhe fora concedida pela Marinha, Exército e Aeronáutica, e compareceu devidamente condecorado na parada de 7 de setembro. No íntimo, porém, ele participava a contragosto desse tipo de solenidade. Durante a festa do dia do soldado, ele chegou a ficar o tempo todo rezando pela "paz no mundo e pela rápida e total redemocratização do país".

Um relacionamento de cooperação camaradagem ocorreria ainda no primeiro e parte do segundo ano após o golpe militar, facilitado pela chegada do general Setúbal Portugal ao IV Exército. Setúbal era primo de Franci Portugal, uma grande amiga e antiga colaboradora de Dom Hélder no Rio de Janeiro. A partir daí, mais de uma vez, quando passava pelo Rio o general recebeu da prima a incumbência de levar alguma encomenda para Dom Hélder, em Recife. O general Portugal também tinha uma grande e velha admiração pelo Arcebispo, desde que em 1959 quando estourou o Açude de Orós, no Ceará, ele foi o comandante da operação de salvamento das vítimas da enchente, e "mais da metade de tudo que distribuiu" para os flagelados tinha como origem a campanha "Orós precisa de nós", organizada por Dom Hélder no Rio de Janeiro.

Confronto declarado: Dom Hélder se recusa a celebrar uma missa campal em homenagem à Revolução de 1964.

A situação começou a mudar radicalmente na Semana Santa de 1966. No final da Procissão de Bom Jesus dos Passos, ocorrida na sexta-feira, na qual estiveram presentes as "mais altas autoridades do Estado", o general Muricy resolveu fazer a Dom Hélder um apelo de "amigo": não passava "despercebido às Autoridades Revolucionárias" que o Arcebispo sempre descobria "uma viagem nas grandes datas da Revolução, chegara até a "haver apostas dentro do IV Exército", em torno da sua presença ou  ausência nas comemorações do segundo aniversário do regime. Por via das dúvidas, mesmo sem a concordância prévia  de Dom Hélder, já estava sendo anunciada pela televisão sua presença nas comemorações. Para convencê-lo a se fazer presente, o general Muricy chegou a pedir-lhe "desculpas por haver cancelado uma semana de Estudos sobre o Nordeste", promovida pelos estudantes e na qual o Arcebispo falaria na abertura: "havia indícios seguros de ligação com Cuba. Os estudantes planejavam a rearticulação da UNE", argumentou o general.

O comentário feito por Dom Hélder a essa justificativa deve ter desagradado seu interlocutor:

- General Muricy, até quando a Revolução pretende manter os jovens em estado de frustração generalizada?

Não se sabe qual foi a resposta, mas o resultado imediato da ação do general  Dom Hélder percebeu assim que voltou para o Palácio de Manguinhos: "a meninada me aguardava em casa. Feliz com a promoção (é propaganda imensa a freiada que lhes deu o IV Exército)".

Na segunda-feira, 28 de março de 1966, o general Muricy resolveu dar uma passada por Manguinhos e achou que o Palácio "lembrava a ONU", tal era a quantidade de visitantes estrangeiros ao redor de Dom Hélder, entre eles um padre Anglicano inglês e uma Comissão de deputados e senadores franceses. O general insistia para que Dom Hélder celebrasse a missa campal em homenagem ao aniversário da "Revolução". A insistência soou ao Arcebispo como um "amável ultimatum" colocando-o  em uma verdadeira sinuca de bico: "Ir é horrível. Não ir, é passar o recibo de adversário da Revolução", pensava ele. Para pressioná-lo ainda mais o IV Exército instruiu a Agência Nacional de notícias a cobrar-lhe uma declaração sobre a "Revolução", o que Dom Hélder não pretendia fazer: "Se eu der a que a minha consciência me inspira, é impublicável! Que fez esta pobre Revolução em dois anos?... E como vai sair da situação que armou? Se ao menos me deixasse em paz!"

A "Revolução" e os "revolucionários" não pretendiam deixá-lo em paz. O IV Exército insistentemente divulgava pelo rádio e pela televisão a presença do Arcebispo como celebrante da missa campal. Dom Hélder sabia dos interesses políticos em torno da comemoração. O Ministro da Guerra, general Costa e Silva, estaria presente para divulgar sua candidatura à presidência da República e o general Muricy pretendia se lançar candidato ao governo de Pernambuco.

Na noite de terça-feira vários amigos, colaboradores, padres, militantes de Ação Católica chegaram ao palácio para insistir pela não ida de Dom Hélder à solenidade. "Não é fácil ser Bispo", concluiu ele, sem saber o que fazer para livrar-se do embaraço causado propositalmente pelos militares. Mas, atendendo aos apelos dos seus amigos e assessores resolveu pela não ida. No dia 30 foi o Capelão Militar Chefe quem levou uma carta, dirigida ao general do IV Exército:

"Em consciência, acabei sentindo a impossibilidade de celebrar a Missa Campal de abertura dos festejos do segundo aniversário da Revolução. A cerimônia é tipicamente cívico-militar e não religiosa. E há sérias razões para nela descobrir uma indiscutível nota política. O Capelão Chefe celebrará a Santa Missa. Privadamente, pedirei a Deus que ilumine os Chefes Revolucionários, de modo a poderem corresponder, sempre mais, às graves responsabilidades que assumiram ante o País. Disponha sempre, Excia. do amigo em J.C."

Dom Hélder não esperava que a reação do general do IV Exército à sua decisão fosse tão dura. Pessoas de sua confiança ouviram do general algumas frases com um conteúdo inequívoco: "Vamos partir para liquidar este homem"; "Precisamos tirar esta pedra do caminho"; "Já está sobrando este cavalheiro". O general Muricy em um pronunciamento na televisão condenou a "interpretação malévola e inconcebível da mais alta Autoridade Eclesiástica de Pernambuco que descobriu intenções políticas nas comemorações da Revolução". Para Dom Hélder ficava claro que ocorreriam represálias.

O IV Exército divulgou uma nota oficial sobre o episódio  no dia 1º de abril. Depois de anunciar o sucesso da comemoração, a nota lamentava a explosão, em vários pontos da cidade, de nove bombas, no dia 31 de março, insinuando que teriam alguma relação com a atitude de Dom Hélder de se recusar a celebrar a missa de aniversário da "Revolução".

Era de se esperar o pior. No mesmo dia da nota do IV Exército vários militantes do movimento estudantil, do MEB e da JUC foram presos, entre eles a irmã do atual arcebispo e dirigente da CNBB Dom Marcelo Carvalheira, na época reitor do Seminário Regional. Envolvendo-o pessoalmente, Dom Hélder recebe informações confidenciais de que a cúpula militar do Estado o denunciara aos seus superiores como comunista e "pessoa não grata à Revolução". Os militares reivindicavam seu afastamento de Recife.

Porém, o prestígio de Dom Hélder no Vaticano e o desejo do governo brasileiro em não se indispor com a Igreja  pesaram muito mais do que a capacidade de pressão do IV Exército, o que garantiu sua  permanência em Recife.

A propósito das explosões, Dom Hélder sequer sabia de onde vinham: "não sei de onde partem os gestos insensatos, absurdos e contraproducentes de terrorismo... Tenho horror a qualquer tipo de guerra. Tenho mais que horror às guerrilhas, que me parecem essencialmente traiçoeiras e anti-cristãs".

Como pessoa muito bem relacionada nos círculos do poder, não teria sido difícil, muito menos surpreendente, que Dom Hélder tivesse celebrado a missa campal. No entanto optou pela não ida à festa de aniversário do golpe de 31 de março. No ano seguinte, o IV Exército já estava sob o comando do General Souza Aguiar, que voltou a convidá-lo para o mesmo tipo de solenidade. Desta vez a negativa de Dom Hélder em aceitar o convite foi justificada em sua costumeira correspondência aos amigos do Rio:

Recife, 30/31.3.1967

3o. Aniversário da Revolução Brasileira. Vigília mais  longa pedindo por nossa terra.

O General do IV Exército esteve em nossa Casa, para visitar-me e fazer-me apelo de amigo: que eu celebrasse a Missa de aniversário da Revolução... Que ao menos dela participasse!  

Fui amavelmente firme. Intransigente. Sou Pastor. Se tenho filhos que vêem no Movimento de 31.3/1964 a salvação nacional, tenho outros, não menos numerosos, feridos, esmagados, de maneira injusta, pelo aludido Movimento.

Nem sequer neguei o meu próprio pensamento: o Movimento não merece ainda o nome de Revolução; impediu, em grande parte, a arrancada do desenvolvimento, pelo bom pretexto de sanear nossa moeda; sacrificou demais o Povo; humilhou demais o Brasil diante dos USA.

No balanço realizado pelo Arcebispo, muito mais do que seus vínculos com os "filhos" que ajudaram a instalar o regime autoritário, pesou o sofrimento dos filhos "feridos, esmagados, de maneira injusta" pelo novo regime. E que filhos eram estes? Desde que se tornara vice-assistente nacional da Ação Católica Brasileira, no final dos anos quarenta, Dom Hélder incentivara o nascimento dos movimentos leigos especializados como a JUC, JEC, JOC etc... Entre 1952 e 1962 foi ele o Assistente Nacional da Ação Católica. Seu mandato coincidiu, não por acaso, com um crescente engajamento desses movimentos nas lutas políticas pela transformação estrutural da sociedade brasileira.

Por conta de sua radicalização política, nos anos sessenta a JUC tornou-se a principal força do movimento estudantil brasileiro. Em 1962, esse processo de radicalização culminou na fundação de um movimento livre do controle da hierarquia da Igreja, a Ação Popular, criada para preparar a revolução brasileira através da mobilização popular. Na liderança da nova organização, entre outros, estavam Herbert José de Souza, o Betinho, Luís Alberto Gomes de Souza, Haroldo Lima e Aldo Arantes.

Durante o governo de João Goulart a Ação Popular teve um considerável crescimento de sua influência política, não só no movimento estudantil, mas também entre operários e camponeses, principalmente do nordeste, onde a organização atuava junto ao Movimento de Educação de Base.

Dom Hélder considerava seus "filhos espirituais" todos os militantes oriundos dos movimentos de Ação Católica, rurais ou urbanos, e os educadores do MEB, justamente os alvos principais da repressão política iniciada com o golpe de 1964. Embora ele mantivesse estreitos laços de amizade com vários integrantes da cúpula militar do país, desde que percebera que seus "filhos espirituais" estavam sofrendo nas prisões ou no exílio, passou a usar sua influência para protegê-los. Esse foi o principal ponto de discórdia que levou à crise de relacionamento entre ele e os generais do IV Exército, a partir de abril de 1966.


*Nota: 

Os trechos entre aspas foram extraídos da correspondência privada de Dom Hélder Câmara (ainda inédita) à qual tivemos acesso na pesquisa que realizamos para a elaboração da biografia Dom Hélder Câmara: entre o poder e a profecia. São Paulo, Ática, 1997; e Brescia (Itália), Editrice Queriniana, 1999.

 

 

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