Memória
da resistência democrática: O Arcebispo de Olinda e Recife Dom Hélder Câmara se recusa a celebrar uma missa campal em homenagem
ao segundo aniversário da Revolução de 1964*
Durante
os primeiros anos do Regime Militar pós-1964, o arcebispo de
Olinda e Recife Dom Hélder Câmara recebeu uma certa proteção
contra perseguições diretas dos militares, em Recife,
principalmente porque mantinha um relacionamento muito bom com
Brasília, ao ponto de no final de maio de 1965 circular na
cidade a notícia de que o próprio presidente da República
Humberto de Alencar Castelo Branco havia telefonado para
Recife a fim de apurar a origem do boato de que os oficiais do
IV Exército planejavam sua prisão.
Em
sua própria avaliação, o Arcebispo considerava que tinha
sob seu controle a situação política na Arquidiocese:
"Restrição mesmo só de uma ala extremada e radical.
Mas restrição discretíssima, mesmo porque, além dos
pequenos e humildes, tenho os industriais (que me têm como
pioneiro do desenvolvimento), os comerciantes, os intelectuais
e o grosso das famílias granfinas", confidenciou em uma
correspondência.
Enquanto
Dom Hélder se mantinha inacessível aos repressores, o mesmo
não se pode dizer a respeito dos militantes da Juventude
Universitária Católica (JUC), do Movimento de Educação de
Base (MEB) e de membros do clero, que eram constantemente
perseguidos, presos e interrogados sobre suas atividades
supostamente subversivas.
O
Arcebispo achava, no entanto, que a saída para esse tipo de
problema seria melhorar o relacionamento com os militares. Em
algumas ocasiões parecia até não haver qualquer divergência
entre as duas partes. Na festa do Dia do Soldado de 1965, por
exemplo, Dom Hélder chegou a acanhar-se "com o excesso
de atenção e de homenagens da parte do general Lira",
um oficial com quem já havia se atritado anteriormente. O
Arcebispo chegou um pouco atrasado e ocupou um lugar discreto,
meio escondido. Ao revistar as tropas o general Lira percebeu
sua presença e "fez um escândalo", ordenando que
seu ajudante de
ordens o levasse para o lugar de honra no palanque.
Na
mesma ocasião, o general Antonio Carlos Muricy havia recebido
a insígnia de "Grande Oficial do Mérito Militar",
e isso fez com que Dom Hélder
resolvesse pregar um "susto" nos militares. Ele
tinha insígnia igual que lhe fora concedida pela
Marinha, Exército e Aeronáutica, e compareceu
devidamente condecorado na parada de 7 de setembro. No íntimo,
porém, ele participava a
contragosto desse tipo de solenidade. Durante a festa do dia
do soldado, ele chegou a
ficar o tempo todo
rezando pela "paz no mundo e pela rápida e total
redemocratização do país".
Um
relacionamento de cooperação camaradagem ocorreria ainda no
primeiro e parte do segundo ano após o golpe militar,
facilitado pela chegada do general Setúbal Portugal ao IV Exército.
Setúbal era primo de Franci Portugal, uma grande amiga e
antiga colaboradora de Dom Hélder no Rio de Janeiro. A partir
daí, mais de uma vez, quando passava pelo Rio o general
recebeu da prima a incumbência de levar alguma encomenda para
Dom Hélder, em Recife. O general Portugal também tinha uma
grande e velha admiração pelo Arcebispo, desde que em 1959
quando estourou o Açude de Orós, no Ceará, ele foi o
comandante da operação de salvamento das vítimas da
enchente, e "mais da metade de tudo que distribuiu"
para os flagelados tinha como origem a campanha "Orós
precisa de nós", organizada por Dom Hélder no Rio de
Janeiro.
Confronto
declarado: Dom Hélder se recusa a celebrar uma missa campal
em homenagem à Revolução de 1964.
A
situação começou a mudar radicalmente na Semana Santa de
1966. No final da Procissão de Bom Jesus dos Passos, ocorrida
na sexta-feira, na qual estiveram presentes as "mais
altas autoridades do Estado", o general Muricy resolveu
fazer a Dom Hélder um apelo de "amigo": não
passava "despercebido às Autoridades Revolucionárias"
que o Arcebispo sempre descobria "uma viagem nas grandes
datas da Revolução, chegara até a "haver apostas
dentro do IV Exército", em torno da sua presença ou
ausência nas comemorações do segundo aniversário do
regime. Por via das dúvidas, mesmo sem a concordância prévia
de Dom Hélder, já estava sendo anunciada pela televisão
sua presença nas comemorações. Para convencê-lo a se fazer
presente, o general Muricy chegou a pedir-lhe "desculpas
por haver cancelado uma semana de Estudos sobre o
Nordeste", promovida pelos estudantes e na qual o
Arcebispo falaria na abertura: "havia indícios seguros
de ligação com Cuba. Os estudantes planejavam a rearticulação
da UNE", argumentou o general.
O
comentário feito por Dom Hélder a essa justificativa deve
ter desagradado seu interlocutor:
-
General Muricy, até quando a Revolução pretende manter os
jovens em estado de frustração generalizada?
Não
se sabe qual foi a resposta, mas o resultado imediato da ação
do general Dom Hélder percebeu assim que voltou para o Palácio de
Manguinhos: "a meninada me aguardava em casa. Feliz com a
promoção (é propaganda imensa a freiada que lhes deu o IV
Exército)".
Na
segunda-feira, 28 de março de 1966, o general Muricy resolveu
dar uma passada por Manguinhos e achou que o Palácio
"lembrava a ONU", tal era a quantidade de visitantes
estrangeiros ao redor de Dom Hélder, entre eles um padre
Anglicano inglês e uma Comissão de deputados e senadores
franceses. O general insistia para que Dom Hélder celebrasse
a missa campal em homenagem ao aniversário da "Revolução".
A insistência soou ao Arcebispo como um "amável
ultimatum" colocando-o
em uma verdadeira sinuca de bico: "Ir é horrível.
Não ir, é passar o recibo de adversário da Revolução",
pensava ele. Para pressioná-lo ainda mais o IV Exército
instruiu a Agência Nacional de notícias a cobrar-lhe uma
declaração sobre a "Revolução", o que Dom Hélder
não pretendia fazer: "Se eu der a que a minha consciência
me inspira, é impublicável! Que fez esta pobre Revolução
em dois anos?... E como vai sair da situação que armou? Se
ao menos me deixasse em paz!"
A
"Revolução" e os "revolucionários" não
pretendiam deixá-lo em paz. O IV Exército insistentemente
divulgava pelo rádio e pela televisão a presença do
Arcebispo como celebrante da missa campal. Dom Hélder sabia
dos interesses políticos em torno da comemoração. O
Ministro da Guerra, general Costa e Silva, estaria presente
para divulgar sua candidatura à presidência da República e
o general Muricy pretendia se lançar candidato ao governo de
Pernambuco.
Na
noite de terça-feira vários amigos, colaboradores, padres,
militantes de Ação Católica chegaram ao palácio para
insistir pela não ida de Dom Hélder à solenidade. "Não
é fácil ser Bispo", concluiu ele, sem saber o que fazer
para livrar-se do embaraço causado propositalmente pelos
militares. Mas, atendendo aos apelos dos seus amigos e
assessores resolveu pela não ida. No dia 30 foi o Capelão
Militar Chefe quem levou uma carta, dirigida ao general do IV
Exército:
"Em
consciência, acabei sentindo a impossibilidade de celebrar a
Missa Campal de abertura dos festejos do segundo aniversário
da Revolução. A cerimônia é tipicamente cívico-militar e
não religiosa. E há sérias razões para nela descobrir uma
indiscutível nota política. O Capelão Chefe celebrará a
Santa Missa. Privadamente, pedirei a Deus que ilumine os
Chefes Revolucionários, de modo a poderem corresponder,
sempre mais, às graves responsabilidades que assumiram ante o
País. Disponha sempre, Excia. do amigo em J.C."
Dom
Hélder não esperava que a reação do general do IV Exército
à sua decisão fosse tão dura. Pessoas de sua confiança
ouviram do general algumas frases com um conteúdo inequívoco:
"Vamos partir para liquidar este homem";
"Precisamos tirar esta pedra do caminho"; "Já
está sobrando este cavalheiro". O general Muricy em um
pronunciamento na televisão condenou a "interpretação
malévola e inconcebível da mais alta Autoridade Eclesiástica
de Pernambuco que descobriu intenções políticas nas
comemorações da Revolução". Para Dom Hélder ficava
claro que ocorreriam represálias.
O
IV Exército divulgou uma nota oficial sobre o episódio
no dia 1º de abril. Depois de anunciar o sucesso da
comemoração, a nota lamentava a explosão, em vários pontos
da cidade, de nove bombas, no dia 31 de março, insinuando que
teriam alguma relação com a atitude de Dom Hélder de se
recusar a celebrar a missa de aniversário da "Revolução".
Era
de se esperar o pior. No mesmo dia da nota do IV Exército vários
militantes do movimento estudantil, do MEB e da JUC foram
presos, entre eles a irmã do atual arcebispo e dirigente da
CNBB Dom Marcelo Carvalheira, na época reitor do Seminário
Regional. Envolvendo-o pessoalmente, Dom Hélder recebe
informações confidenciais de que a cúpula militar do Estado
o denunciara aos seus superiores como comunista e "pessoa
não grata à Revolução". Os militares reivindicavam
seu afastamento de Recife.
Porém,
o prestígio de Dom Hélder no Vaticano e o desejo do governo
brasileiro em não se indispor com a Igreja
pesaram muito mais do que a capacidade de pressão do
IV Exército, o que garantiu sua
permanência em Recife.
A
propósito das explosões, Dom Hélder sequer sabia de onde
vinham: "não sei de onde partem os gestos insensatos,
absurdos e contraproducentes de terrorismo... Tenho horror a
qualquer tipo de guerra. Tenho mais que horror às guerrilhas,
que me parecem essencialmente traiçoeiras e anti-cristãs".
Como
pessoa muito bem relacionada nos círculos do poder, não
teria sido difícil, muito menos surpreendente, que Dom Hélder
tivesse celebrado a missa campal. No entanto optou pela não
ida à festa de aniversário do golpe de 31 de março. No ano
seguinte, o IV Exército já estava sob o comando do General
Souza Aguiar, que voltou a convidá-lo para o mesmo tipo de
solenidade. Desta vez a negativa de Dom Hélder em aceitar o
convite foi justificada em sua costumeira correspondência aos
amigos do Rio:
Recife,
30/31.3.1967
3o.
Aniversário da Revolução Brasileira. Vigília mais
longa pedindo por nossa terra.
O
General do IV Exército esteve em nossa Casa, para visitar-me
e fazer-me apelo de amigo: que eu celebrasse a Missa de
aniversário da Revolução... Que ao menos dela participasse!
Fui
amavelmente firme. Intransigente. Sou Pastor. Se tenho filhos
que vêem no Movimento de 31.3/1964 a salvação nacional,
tenho outros, não menos numerosos, feridos, esmagados, de
maneira injusta, pelo aludido Movimento.
Nem
sequer neguei o meu próprio pensamento: o Movimento não
merece ainda o nome de Revolução; impediu, em grande parte,
a arrancada do desenvolvimento, pelo bom pretexto de sanear
nossa moeda; sacrificou demais o Povo; humilhou demais o
Brasil diante dos USA.
No
balanço realizado pelo Arcebispo, muito mais do que seus vínculos
com os "filhos" que ajudaram a instalar o regime
autoritário, pesou o sofrimento dos filhos "feridos,
esmagados, de maneira injusta" pelo novo regime. E que
filhos eram estes? Desde que se tornara vice-assistente
nacional da Ação Católica Brasileira, no final dos anos
quarenta, Dom Hélder incentivara o nascimento dos movimentos
leigos especializados como a JUC, JEC, JOC etc... Entre 1952 e
1962 foi ele o Assistente Nacional da Ação Católica. Seu
mandato coincidiu, não por acaso, com um crescente
engajamento desses movimentos nas lutas políticas pela
transformação estrutural da sociedade brasileira.
Por
conta de sua radicalização política, nos anos sessenta a
JUC tornou-se a principal força do movimento estudantil
brasileiro. Em 1962, esse processo de radicalização culminou
na fundação de um movimento livre do controle da hierarquia
da Igreja, a Ação Popular, criada para preparar a revolução
brasileira através da mobilização popular. Na liderança da
nova organização, entre outros, estavam Herbert José de
Souza, o Betinho, Luís Alberto Gomes de Souza, Haroldo Lima e
Aldo Arantes.
Durante
o governo de João Goulart a Ação Popular teve um considerável
crescimento de sua influência política, não só no
movimento estudantil, mas também entre operários e
camponeses, principalmente do nordeste, onde a organização
atuava junto ao Movimento de Educação de Base.
Dom
Hélder considerava
seus "filhos espirituais" todos os militantes
oriundos dos movimentos de Ação Católica, rurais ou
urbanos, e os educadores do MEB, justamente os alvos
principais da repressão política iniciada
com o golpe de 1964. Embora ele mantivesse estreitos laços de
amizade com vários integrantes da cúpula militar do país,
desde que percebera que seus "filhos espirituais"
estavam sofrendo nas prisões ou no exílio, passou a usar sua
influência para protegê-los. Esse foi o principal ponto de
discórdia que levou à crise de relacionamento entre ele e os
generais do IV Exército, a partir de abril de 1966.
*Nota:
Os
trechos entre aspas foram extraídos da correspondência
privada de Dom Hélder Câmara (ainda inédita) à qual
tivemos acesso na pesquisa que realizamos para a elaboração
da biografia Dom Hélder
Câmara: entre o poder e a profecia. São Paulo, Ática,
1997; e Brescia (Itália), Editrice Queriniana, 1999.