Refugiados
na França
A França, antiga anfitriã, continua a receber refugiados
políticos e inaugurou, no último dia 04 de dezembro a Casa dos Jornalistas, com capacidade para
abrigar 15 pessoas, em quartos individuais, durante seis
meses. A primeira idéia foi de se fazer uma associação,
por iniciativa de Danièle Ohayon, jornalista da "France
Info", e de Philippe Spinau, organizador; em seguida,
abriram suas portas em 06 de maio de 2002, em Bobigny (grande
Paris), contando com pouquíssimo espaço. Com a ajuda de
fundos europeus, da prefeitura de Paris, do Conselho Regional
do Departamento de Ile-de-France e tendo alguns apadrinhamentos, pôde mudar-se para um
bairro central de Paris, aumentando e aprimorando o espaço
físico, ainda pequeno, mas considerado um bom começo.
Os refugiados com direito de asilo dispõem, além de
uma refeição diária, de um salário que não atinge 300 euros.
Eles considerariam-se "bem", se não fossem as
marcas que os acompanham, os motivos pelos quais asilaram-se
e a preocupação com muitos companheiros que ainda não têm
para onde ir.
Duas outras associações são freqüentemente procuradas
pelos refugiados: France
Terre d'Asile
(França Terra de Asilo) e Refugiés Sans Frontières (Refugiados Sem
Fronteiras). Entretanto, as associações que os ajudam estão
em situação difícil, e até mesmo, ameaçadas em sua existência;
este é o caso de Gisti - Groupe d'information et de soutien
des immigrés (Grupo de informação e apoio aos imigrantes)
que por falta de renda tem restringido sua ajuda e, ela
mesma, vem sendo amparada por outras, como a Associação
Emmaüs.
O "Hotel
de la Paix" (Hotel da Paz), na "Cidade Luz",
acolhe aproximadamente 30 famílias em situação de miséria
completa, porém, regularizadas. Perto de 5000 pessoas são
hospedadas diariamente em hotéis como esse, das quais 60%
são exilados oriundos de vários países. Esses, em situações
mais difíceis, são a prioridade da "Fondation
Abbée Pierre" (Fundação Abade Pierre) que sobrevive
de doações e da ajuda de voluntários.
A imprensa francesa tem, não só enfocado o problema
imediato, como também o que será depois. Existe uma discussão
sobre o destino dos países que deixaram a ditadura, o Brasil
é um dos exemplos citados. Nesses casos, há a necessidade
de uma re-fundação ideológica, uma nova perspectiva filosófica
fundamentada na própria essência humana, que balanceie a
ideologia e o empirismo. Somos levados à retomada radical
de nossos fundamentos conceituais diante da exigência da
construção de novas estruturas de credibilidade.
É preciso o "despertar
do sono dogmático" (Kant) para superar a filosofia
encurralada entre o idealismo e o empirismo. Essa superação não quer referir-se à opção entre uma e outra, e sim ao
ir além de uma e de outra.
A passagem da ditadura para a democracia exige uma
transformação individual que provoque uma mudança social
em direção à libertação da pessoa humana. Os anos ditatoriais
castram o "cuidado de si" (Platão), sobretudo
no sentido intelectual que, uma vez prejudicado, não fortalece
o "homem" para engrenar no círculo "indivíduo-sociedade-libertação"
visando superar definitivamente o autoritarismo. Por isso,
entre outras, a permanência de lideranças e atitudes ditadoras
em sociedades ditas democráticas e seu enfraquecimento educacional.
Refugiados, de hoje e de ontem, continuam, como o
cantor Chico Buarque, a perguntar "...o que é que a
vida vai fazer de mim?" Até quando o destino dessas
sociedades será carregado pela "Roda-Viva" da
desigualdade e da ditadura camuflada? Quantos terão, ainda,
que deixar sua terra pra poder expressar-se livremente?
E quantos, em sua própria terra, serão obrigados a "engolir
os sapos do caminho" em busca do igualitarismo que
foi danificado pela repressão?
Todo processo de mudança é lento, mas é preciso não
esmorecer-se com a demora e partir em combate contra a opressão.
Não deixar que a política repressora, seja ela declaradamente
ditadora ou não, tome conta da situação e continue a degradar
a humanidade. Acreditar em uma nova visão educacional, começando
pela mudança pessoal, é urgente. No entanto, não é suficiente
sonhar, é preciso apropriar-se do sonho para criar uma realidade
que não seja restrita a uma minoria, mas que universalize-se
para, com força e vigor, enfrentar "os alemães e seus
canhões".