Degeneração
e amnésia
A proposta apresentada pelo novo ministro da Educação,
Tarso Genro, na última semana, para ampliar o número de
vagas “públicas” nas escolas privadas de ensino superior,
é mesmo de arrepiar o mais conservador educador e de deixar
sem fôlego milhares de militantes do PT, partido do ministro,
que durante anos debateram e elaboraram inúmeras propostas
do partido para a educação.
Em vez de investir pesado na ampliação de vagas nas
universidades públicas, prioridade histórica do partido
e da sociedade brasileira, o ministro pretende “comprar”
vagas nas escolas particulares, ou seja, transferir recursos
públicos para a atividade privada da educação.
Mais do que isso, a proposta visa não apenas assegurar
vagas nas escolas particulares em troca da isenção de impostos,
mas, também, liberar o lucro para as universidades que operam
atualmente sem fins lucrativos, como as fundações, as comunitárias
e as confessionais.
Levada ao pé da letra, a proposta simplesmente fortalece
e coloca como referência nacional da educação superior as
escolas mercantis, de proprietários privados geralmente
sem escrúpulos, que montaram verdadeiras fábricas de diplomas
e que jamais se preocuparam com a qualidade do ensino, com
a pesquisa, com o projeto de desenvolvimento do País e com
a condição social do aluno e do povo brasileiro.
Se quisesse uma alternativa mais decente, o ministro
Tarso Genro poderia ter considerado a “compra” de vagas
apenas e tão somente nas instituições sem fins lucrativos,
e desde que se colocasse para elas a obediência a determinadas
regras para assegurar a qualidade do ensino, a transparência
de todas as contas, a participação democrática da comunidade
e o respeito aos direitos dos trabalhadores administrativos
e docentes.
Mas não, o ministro petista não apenas quer promover
o que há de pior no meio educacional, que são as grandes
redes de supermercados do ensino (Unip, Unibam etc), como
tenta arrastar para o mesmo esgoto as instituições filantrópicas,
que são particulares, são sustentadas pelas mensalidades,
mas não podem ter lucro (nem donos para se apropriarem desse
lucro) com a atividade educacional.
Durante décadas, pelo menos, milhares de educadores
brasileiros, muitos deles companheiros do ministro Tarso
Genro, defenderam nas várias trincheiras da luta política
a universidade pública e gratuita, que é a única que possibilita
o acesso de todos, independentemente da classe social e
da condição econômica. Essa sempre foi a prioridade número
um.
Por isso mesmo causa perplexidade geral no País que
o Governo Lula, depois de um ano sem formular nada de sério
na área da educação, faça essa inversão de valores contida
na proposta de Tarso Genro. Ou o ministro é vítima dessa
amnésia epidêmica que costuma ocorrer em Brasília ou entrou
mesmo nesse terrível processo de degeneração que toma conta
de boa parte do PT, por coincidência a parte que assentou
praça no Palácio do Planalto e na Esplanada dos Ministérios.