O
necessário aggiornamento do PT
Constitui uma das singularidades
da eleição de 2002 o fato de que a esquerda vitoriosa não
provém da melhor tradição do comunismo brasileiro. Uma tradição
que, no seu tempo de maior gravitação, foi reconhecida por
consideráveis parcelas da classe política como vetor de
moderação e lucidez. Aos olhos de hoje, o PCB representa
uma das matrizes do frentismo pluriclassista com base na
democracia política, como se conheceu durante a resistência
democrática do MDB, como se testou na eleição de Tancredo
e depois se ensaiou, também pelo PMDB, nos governos Sarney
e Itamar, tempos que representaram oportunidade para as
correntes de esquerda e de centro-esquerda mais ativas procurarem
influir nos processos transicionais e, sobremaneira, na
Constituinte de 1988, à frente Ulysses Guimarães.
Essa lembrança volta agora
com a celeuma interna do PT sobre o continuísmo do governo
Lula, pondo em dúvida as possibilidades de mudança pela
política que a história contemporânea afirmou no país. Em
sentido positivo, tal passado também já vem sendo referido
nas reclamações contra o estilo autocentrado com que o PT
arregimenta as forças heterogêneas indispensáveis para o
reformismo que ele pretende realizar a partir da Presidência
da República. Trazida por um ou outro registro, aí está
a decisiva questão da visão da esquerda vitoriosa sobre
como governar em pluralismo partidário. Mesmo encoberta
pelo tema da economia - como dizem, o epicentro da conjuntura
atual -, por aquela questão da postura petista passa boa
parte da sorte do governo Lula. Hoje, a figura do presidente,
com seu elevado apoio na opinião pública, ainda ofusca a
função da política, lugar onde, no desdobramento do processo
de governo ora em curso, as coisas irão ter sustentação.
Ante a impressionante vitória
do PT, soa contra a corrente dizer que esse partido conquistou
a Presidência sem dispor de um campo de cultura política
hábil para configurar um lastro de centro-esquerda, à altura
do desafio de dirigir um país complexo como o Brasil. Desde
o debilitamento do PCB, após a anistia de 1979, largas áreas
da esquerda orientaram-se pela denúncia da política de frente
única; no entanto, esta política esteve presente no espírito
das coisas que moveram a vitória eleitoral petista em 2002.
Entre a posse e a revelação da nova política econômica,
ficou claro que, mesmo plebiscitária, a eleição de Lula
não coroava suas sucessivas candidaturas anteriores. Nas
postulações anteriores foi bem determinante uma correlação
mais real entre a base de interesses que o PT polarizava
e os seus apelos ao social, numa chave de desconfiança em
relação à política. Aí radicava a falta de amplitude das
candidaturas de Lula em 1989, 1994 e 1998, à diferença do
que, pragmaticamente, o PT fez com êxito em 2002 e até agora
continua fazendo, ante responsabilidades cada vez maiores.
Ao comparar esse paradoxo
- um partido bastante outsider no sistema político e crescido
contra aquele frentismo pluriclassista e que obtém sucesso
efetivo - com o paradoxo da esquerda histórica - que só
viu afirmadas suas teses, com a vitória de Tancredo contra
a ditadura e com os governos Sarney e Itamar, na hora do
seu próprio esgotamento -, percebe-se que, em 2002, o PT
realizou uma operação de frente única, mas não como coligação
de partidos desde o início, diferentemente do velho PCB,
que estimulava o frentismo, mesmo enfraquecendo a possibilidade
futura do próprio hegemonismo. Os amplos apoios, que o PT
recebeu no final mas não preparou numa interação prévia,
dão-se em torno de um símbolo como recurso eficaz para conquistar
a Presidência, sabendo os autores da estratégia não constituírem
o PT e seus pequenos aliados do primeiro turno maioria social
e política no conjunto da vida nacional.
A percepção dessa distância
entre revolução e maioria, desde os idos da Declaração pecebista
de março de 1958, começou a levar a esquerda histórica a
duvidar de pretensões melhoristas da sociedade brasileira
que não passassem pelo mundo da política realmente existente
no país. Levou também a ver que qualquer messianismo, mesmo
o revolucionário, com toda sua força de vontade imaginada
para resolver aquela não-coincidência, só traria equívocos
e situações desastrosas num país com as diversidades apontadas
por Gilberto Freyre, Caio Prado Jr. e Sérgio Buarque de
Hollanda, para lembrar a observação de Antonio Candido sobre
a presença dos clássicos na crítica social que emergiu ao
se iniciar a segunda grande democratização no final da Segunda
Guerra Mundial. Um espírito de crítica social que, por assim
dizer, substantivar-se-ia com a tese das “reformas parciais
e progressivas” dos tempos isebiano-cepalinos e com o aprendizado
do pluriclassismo político do MDB, acima referido, e que
chegaria, na segunda metade da década de 1970, até às discussões
sobre o eurocomunismo e à importância da questão democrática
no Brasil modernizado “ao modo prussiano”, usando a expressão
de Nelson Werneck Sodré de 1962.
Olhando a virada do PT
no governo, vêem-se - em algumas verbalizações petistas
que entendem a presidência conquistada, pela natureza do
segundo turno, como “governo de centro-esquerda” - sinais
que já espelham discursivamente o processo inaugurado com
a eleição de Lula. Começa a se explicitar no PT uma interpretação
de 2002 chamada a lastrear - sem recobrir prática anterior
considerável que induzisse ao realismo - a área de influência
petista na nova circunstância. Diferentemente do PCB, que
possuía, como disse Jaguaribe, uma tática “inteligente”
com “péssima” teoria, o PT se conformou em ruptura com a
política de esquerda mais gravitante que os comunistas desenvolveram.
Em sua novidade, o PT criou um campo formador de opinião
que se ampliou durante mais de duas décadas, sem ser interpelado
eficazmente por uma “esquerda positiva”, usando agora a
noção com que Santiago Dantas pedia moderação no pré-64;
ressalvadas em tempos mais recentes, nessa função de “esquerda
positiva”, as presenças do PPS, de áreas do PSDB e até de
quadros do próprio PT, mas sempre hostilizadas em ambientes
do campo petista muito mais ativo e hegemônico.
No entanto, já seria com
a idéia de centro-esquerda que o PT se institucionalizou
no Executivo e encaminhou a transição e o primeiro ano de
governo; e, em boa medida, obteve por conta dessa postura
o feito da tranqüilidade com que viveu o país após a posse
de um partido rebelde, e vive até hoje. O desconcerto que
vem crescendo no seu próprio campo como crise expressa o
fato de que o PT carece de uma cultura de esquerda em amparo
à moderação assumida. A controvérsia petista sobre o continuísmo
do governo não teria maior conseqüência para a nova Presidência,
se não encobrisse o cenário principal da política, paralisando
iniciativas no PT e em outros setores políticos que se sentem
responsáveis pelo atual governo, mesmo sem ter sido seus
estrategistas e condutores eleitorais.
Diferenciando-se no interior
do PT, que, em menos de um ano, já foi chamado exageradamente
de partido conservador, a esquerda desse partido agora acentua
as críticas a partir da reforma ministerial feita para incorporar
o PMDB em seu papel estabilizador do governo. Ela tampouco
reconhece o PSDB e o PPS como esquerda, menos ainda como
“esquerda moderna”, como se dizem, desde os últimos anos
80, áreas intelectualizadas tucanas e o grupo de Roberto
Freire. Sem nominar essas forças políticas, incluído o PMDB,
e chamá-las discursivamente para as mudanças exeqüíveis
e para a correção de rumos, ela concentra as vistas no seu
líder operário, inconformada diante do caminho a que chegou
o governo - previsível já a partir das candidaturas de Lula
e Serra no segundo turno. A nova esquerda petista e áreas
da intelligentsia que com ela vêm se movimentando esperam
que o próprio presidente abandone o trecho andado e opte
por outra alternativa, para a qual, todos sabemos, as margens
são estreitas e os condicionamentos estruturais bastante
fortes. Esses grupos arriscam exaurir suas energias à espera
de que novas interpelações ao social pressionem o Planalto
e de que, ao fim, sua controvérsia domine toda a discursividade
da vida nacional. Sem valorizar o Congresso Nacional e o
sistema partidário, esse tipo de reclamação direta a Lula,
em vez de contribuir para que se acumulem forças políticas
de esquerda e de centro-esquerda à volta do governo, pode
induzir Lula ao vazio a que leva todo tipo de voluntarismo
presidencial.
Parece custar muito a essa
nova esquerda balizar-se pela consideração de que aqui vivemos
um capitalismo estruturalmente modificado, como disse Habermas
em meados dos anos 60, referindo-se às interpenetrações
entre economia e sociedade do mundo contemporâneo, e certa
vez sugeriu Furtado, observando o grande tamanho do Estado
na economia brasileira. Como registrou Caio Prado, tivemos
uma industrialização “débil” e “desorganizada”, que nos
trouxe uma vida econômica fracamente produtiva e pouco incorporadora.
Em processo de mudanças lento, esse tipo de capitalismo
evoluiu sempre sob notável presença não só do Estado como
também da política, em tempo mais contemporâneo, e não amadureceu
de modo naturalista. Isso foi visível no decênio nacional-desenvolvimentista
de 1954/64 e foi especialmente visível quando, em lógica
de reestruturação democrática negociada, o PMDB tornou-se
governo e acentuou a politização da economia, sobremaneira
na Constituinte de 1988. Nessa ocasião, as áreas mais ativas
da frente democrática procuraram equacionar relações inovadoras
e mais justas entre economia e interesses sociais. Constitui
um valor estratégico para as esquerdas a possibilidade de
que, sobretudo depois da Carta Cidadã, os processos relevantes
na economia sejam tematizados e discutidos no Congresso,
nos partidos, na sociedade civil e na opinião pública. A
própria era tucana representou cabal comprovação de reajustamentos
suscitados a partir da política. E, agora, o PT tem à frente
oportunidade para estimular forças sociopolíticas e partidárias
a processar medidas de reestruturação da vida nacional,
no contexto do mundo político democratizado.
O terreno no qual as esquerdas
e suas áreas mais influentes terão de atuar não se constitui
no interior do PT. O lugar onde correm as possibilidades
e os condicionantes do atual processo de governo, como ilustra
o caso das reformas, está demarcado por uma correlação de
forças bem maior, pois o sistema político espelha interesses
e representações por demais variados e plurais, tanto política
quanto partidariamente. Olhando o que se tinha no passado
e em perspectiva, ao contrário do que se diz em não poucas
áreas, é fato auspicioso que hoje exista um largo campo
formado por esquerdas que não guardam fronteiras rígidas
com o centro, até mesmo algumas abrigando parcelas dele
em suas legendas. Esquerdas que se propõem melhorar a sociedade,
sem pensar em revolução, e dispõem-se a “interferir na globalização”,
já sabedoras de que, se dela não tirarmos partido e não
enfrentarmos seus efeitos perversos, será difícil falar
em incorporação social e em reformismo de esquerda como
promessas e ações de governo sustentáveis.
Em vez de se esgotar numa
reclamação ao presidente, essa nova esquerda poderia voltar
as vistas para a cena propriamente política, na qual três
vertentes “socialdemocratas” se ativam. Primeiro, está o
próprio grupo hegemônico no governo, vetor ainda não perfilado
no seu realismo; depois, a corrente representada pelo PSDB,
principalmente o seu setor mais intelectualizado; e, por
último, está a corrente menos “socialdemocrata”, pois de
raiz comunista, e pouco consolidada, que é o grupo de Roberto
Freire, que reúne os ex-pecebistas num pequeno partido,
ampliado com as duas candidaturas de Ciro Gomes. Ponto de
interrogação por muito tempo, o primeiro vetor petista começa
a se explicitar e dele, até agora, vem dependendo o andamento
do governo. Sem querer suceder ao PT na esquerda ou empolgar
uma próxima presidência, a terceira posição poderia cumprir
papel positivo. Essa vertente de raiz comunista ainda dispõe
de valores políticos bons para dar vida a um movimento de
retomada da cultura de esquerda, discursividade negada nos
procedimentos de mudança de legendas fomentados pelo partido
governamental para obter maioria numérica no Congresso.
Sem aprofundar um movimento
que fundamente sua moderação atual, o PT não fará o aggiornamento
requerido para a recriação do seu campo nem ajudará a nova
Presidência a evitar as muitas dificuldades que poderão
advir, inclusive à esquerda. Por sua vez, o PSDB e a vertente
dos ex-comunistas, que já demonstraram perceber a natureza
do processo aberto com a eleição de Lula, realmente podem
vir a funcionar como vetores da “esquerda positiva” desses
nossos tempos. Os tucanos não apostam no “quanto pior melhor”
e formam um campo de convergência entre governo e oposição
de muito valor, enquanto o outro agrupamento, ao menos o
núcleo próximo de Freire, emite sinais de que não se aquieta
ante a paralisia que o hegemonismo petista provoca nos aliados
incorporados ao governo. Ele sabe que o conformismo anularia
sua antiga vocação de contribuir com processos positivos,
como o do governo Lula, mesmo defrontando-se com incompreensões
entre seus protagonistas.
Depois de mais de duas
décadas de nova esquerda, numa época de novos movimentos
sociais, aludir à esquerda histórica parece exercício ocioso.
No entanto, ao grupo petista pragmático do governo poderia
ser útil interpelar, em registro positivo, o legado pecebista.
Por um caminho de pedras, o PCB viveu experiências pelas
quais agora passa o PT, pressionado a elaborar em tempo
rápido um lastro de cultura política que lhe sirva tanto
para orientar sua decisiva presença no governo como para
dinamizar a militância partidária.
As atuais tensões do PT
revivem modos de perceber questões conhecidas na cultura
de esquerda e agora repostas pela eleição de Lula. Algumas
percepções da esquerda histórica ajudam a pensar o desafio,
que o PT enfrenta agora, de se representar a circunstância
de ter que operar um governo de “união nacional”, havendo
nascido e se afirmado como esquerda social; outras têm a
ver com a maneira como o PT vai formular - em termos graduais,
como na “tática de soluções positivas” pecebista - as promessas
que lhe deram vida intensa durante 24 anos; e, por fim,
as percepções pecebistas trazem antecedentes que são úteis
para que o PT explicite a concepção com a qual continuará
as modernizações de fim de século, que ele tanto combateu
no tempo de Fernando Henrique como neoliberalismo. Essas
questões a que o PT veio se abrir ao conquistar o governo
central, a esquerda histórica amadureceu trilhando vias
custosas e não pouco contraditórias.
Dir-se-ia que, ao longo
de setenta anos, conformando sua melhor tradição, o PCB
realizou três movimentos principais. Primeiro: desde a morte
de Getúlio, ele evoluiu para a política de “frente única
permanente”, rumo por onde terminou aderindo, com o passar
dos anos cada vez com menos ambigüidades, à política como
tal, valor obtido principalmente no contexto do MDB e marca
ainda hoje dos seus remanescentes no PPS. Segundo: também
com o tempo, os pecebistas foram valorizando a democracia
política, chegando a defini-la como mecanismo por excelência
de melhora da sociedade, embora lhes custasse entender o
paradoxo de Bobbio sobre a relação entre democracia e socialismo,
sugestivamente aqui relembrado por uma recente paráfrase
de Armênio Guedes. Ao referir-se à valorização das liberdades
políticas, tema que permaneceu incompleto no comunismo,
mesmo na melhor tradição do PCI, aquele pecebista dizia,
em um debate sobre o legado italiano, que, afinal, tratava-se
não tanto de buscar uma via para um socialismo democrático,
mas de pensar uma “transição democrática para a democracia”.
Aí estaria sugerida a idéia de um processo de aperfeiçoamento
progressivo da sociedade com o fortalecimento das instituições
e a afirmação definitiva na esquerda de uma cultura política
democrática. Terceiro: nos seus últimos momentos, o PCB
também se deparou com as modernizações globalistas, tema
divisado por ocasião da recepção da perestroika soviética,
em meados da década de 1980, e do seu IX Congresso de 1991.
Estas derradeiras percepções,
já num tempo de ex-pecebistas no PPS e de grande dispersão
de militantes, serão ensaiadas num movimento de certo modo
um tanto cosmopolita, diferentemente do olhar curioso que
um outro comunista bem mais antigo tinha sobre a mundialização
anterior: Caio Prado Jr., com sua teoria da história brasileira
e a tese acima aludida sobre a nossa vida econômica contemporânea.
Lembremos aqui os termos desse autor de marxismo político:
o pouco produtivismo da nossa modernização não possibilitava
a ampliação sustentável da incorporação social e dificultava
a emergência de um sistema de partidos e o fortalecimento
entre nós do regime democrático, indispensáveis requisitos
para as “grandes reestruturações” da vida nacional. Aí estava
sua idéia de “revolução brasileira”.