A Mulher Essencial
Dizem que Deus foi o arquiteto do
universo. Ao que parece, porém, Ele foi arquiteto e engenheiro.
Engenheiro quando criou o homem e arquiteto ao gerar a mulher.
Ao homem coube a maior força física, a estrutura necessária
para o embate com as adversidades da vida, quando a força
bruta ainda se fazia necessária à sobrevivência. Ao lado
do homem caçador, guerreiro e competitivo ficava a mulher,
em geral fisicamente mais frágil, mas trazendo em si a força
da feminilidade: a sensibilidade, a ternura, a intuição,
a cooperação, a capacidade de gerar novas vidas. Forças
complementares, masculino e feminino possuem dentro de si
um germe de seu gênero oposto, embora as sociedades patriarcais
tenham cuidado de estabelecer a noção de “homem” e “mulher”
como entes separados, opostos, cada qual ocupando espaços
distintos na sociedade.
Sob a força física, estruturou-se
grande parte das sociedades humanas. Patriarcais, determinaram
espaços e horários essencialmente masculinos às suas organizações.
O “lugar da mulher” foi delimitado entre as paredes de sua
casa. A carga horária do trabalho nas empresas não se fez
para quem cuida de filhos e da manutenção de um lar, tarefas
atribuídas à mulher, e a esta não se permitia o poder decisório
nas questões sociais.
Em busca de libertar-se do jugo masculino,
impelida pela vida que procura seu equilíbrio, a mulher
lutou pelo seu natural espaço na sociedade. Mas diante do
machismo, provar seu valor passava pela prova de
competência no que o universo masculino valorizava. Devia
a mulher ser também competitiva, forte, “guerreira” no trabalho.
Resultou disso a absorção de parte
do arquétipo masculino pela mulher. Assumiu ela características
masculinas em detrimento das femininas, fortaleceu o animus
em detrimento da anima e, paradoxalmente, perdeu
parte da sua força essencial ao tentar conquistar um melhor
lugar em um universo masculino e incompleto, necessitado
exatamente do aspecto vital feminino.
Segundo a fonoaudióloga Maruska Freire
Rameck, em matéria da revista Época, mulheres executivas
tendem a imitar o jeito de falar masculino a fim de obter
respeito e credibilidade. Em sua tese de doutorado “Dinâmica
da voz e do gênero: uma questão de poder”, em que faz uma
comparação entre a voz de donas-de-casa, executivas e profissionais
liberais, ela aponta a tendência das executivas a reproduzirem
o tom de voz identificado pela sociedade como um padrão
de poder, o que normalmente ocorre de forma inconsciente,
em função da pressão a que as mulheres são submetidas quando
tentam ocupar lugares tradicionalmente masculinos. Evidentemente,
falar em tons graves e fortes não implica em capacidade
de liderança e pode até passar a idéia de arrogância, mas
trata-se de um modelo já existente e aceito no mercado de
trabalho quando este passou a receber profissionais mulheres.
Também é fácil perceber a incorporação
de modelos masculinos ao guarda-roupa feminino. “Existiam
até roupas com ombreiras. Era como se quiséssemos estar
ombro a ombro com os homens”, observou a jornalista Ana
Paula Padrão, sobre a moda nos anos 80, na matéria citada.
Os chamados terninhos são um exemplo típico de vestuário
feminino originado do figurino masculino.
Nas atitudes, no vocabulário, em
quase todos os aspectos da vida da mulher a entrada de elementos
masculinos é perceptível, o que pode ser visto como uma
evolução no comportamento humano enquanto tal alteração
significa a quebra das barreiras do preconceito e a negação
à subserviência historicamente imposta às mulheres, mas
também como um desequilíbrio na estrutura social quando
a mulher perde sua feminilidade primordial ao assumir o
que de pior se encontra no arquétipo masculino.
Independentemente do que pode afirmar
a astrologia, chegamos a 2004 sob a regência de Marte: guerras
e atentados, competitividade desagregadora nas metodologias
de administração das empresas e o capitalismo selvagem alastrando-se
pelo globo são alguns dos aspectos masculinos mais patentes
em nosso quadro histórico. “A universidade, a cultura moderna
e o processo técnico-científico são produções do patriarcado.
Por isso ele é violento, dilacerador e produtor de dualidades
e rupturas”, observa o teólogo e filósofo Leonardo Boff.
Lembrando que a mulher “tem uma experiência holística, inclusiva
e globalizadora”, ressalta que, “por serem as principais
portadoras da anima (princípio feminino), as mulheres
têm uma visão mais integradora, que não dissocia, está mais
próxima da Fonte e por isso é muito mais espiritual.” É
a partir desse aspecto de integração, de colaboração, que
pode ser originada uma revolução na sociedade, carente do
equilíbrio gerador da paz.
É bom que se ressalte aqui algumas
diferenças entre a visão do papel da mulher entre os diferentes
povos do globo, as quais poderíamos representar pelas figuras
de Maria, Eva e Shakti. Enquanto no ocidente o princípio
feminino dividiu-se entre a fêmea orgulhosa, corruptora
e geradora do “pecado original” – Eva –, e a virgem imaculada,
mãe misericordiosa – Maria –, encontramos entre os hindus
a deusa Shakti, fusão das imagens de Eva e Maria e representação
da maternidade e da energia primordial geradora da vida.
A “divisão simbólica da feminilidade em duas imagens antagônicas
provocou uma profunda fratura e graves lesões no inconsciente
coletivo da cristandade”, lembra Cécile Sagne, em “O Erotismo
Sagrado”. Dessa forma, a mulher só deixa de representar
Eva, a pecadora, no momento da maternidade, quando ocorre
sua redenção ao assumir o arquétipo de Maria. Lembrando
a visão hinduísta de que “toda mulher é, para sua família,
seu marido, seus filhos, uma manifestação de Shakti, uma
encarnação da deusa que põe em marcha o universo das formas,
engendra a vida e em seguida se sacrifica, se devota, dá-se
continuamente aos seus como alimento, assumindo seu destino
de esposa e de mãe”, Sagne assinala que, sob essa ótica,
“em que a condição feminina é exaltada, valorizada ao máximo,
a mulher não tem absolutamente a impressão de exercer um
papel subalterno, assumindo tarefas que o Ocidente despreza
mas que a Índia cerca de um respeito e veneração quase místicos.
Neste aspecto, o estatuto da mulher no lar, como mãe de
família, é investido de uma divindade, de uma grandeza que
mal podemos imaginar.” Entretanto, não se deve “romantizar”
em demasia a forma como algumas culturas orientais enxergam
a mulher. Se é verdade que a mulher é merecedora de maior
respeito no papel de mãe e zeladora do lar entre certos
povos, também é verdade que o sentimento de posse sobre
a esposa também está presente, notadamente em sociedades
polígamas, o que é facilmente perceptível pelas penas severas
impostas às mulheres que praticam o adultério ou simplesmente
desobedecem seus maridos.
No Ocidente, por outro lado, não
se pode alardear a liberdade da mulher sem levar em consideração
que todos nós, homens e mulheres, somos prisioneiros de
um sistema sufocante. “Após um duro dia de trabalho, muitas
vezes repetitivo e extenuante, a fadiga suplementar dos
transportes e o enervamento das horas de pique, qual a energia,
qual a autêntica disponibilidade que o marido e a mulher
ainda têm, tanto um para o outro quanto para com os filhos?
Que lhes resta para oferecer de si mesmos, além de esgotamento
e irritabilidade?”, questiona Sagne, na obra citada.
A asfixia dos valores femininos nas
sociedades ocidentais é perceptível pelo que caracteriza
os objetivos impostos a seus membros. Ainda citando Cécile
Sagne: “Os ideais e modelos que nos apresentam orientam-se
cada vez mais no sentido da velocidade, da violência, da
competição, da conquista, da agitação frenética e de uma
tensão explosiva, ao mesmo tempo física, emocional e mental.
Os mitos modernos exaltam os superativos, os superexcitados
e os supermachos – detetive, bandido, assaltante, mercenário,
grande fera ou Super-Homem das finanças e da política.”
Se antes a mulher era pressionada a assumir o papel de mãe
e dona-de-casa a fim de ser reconhecida como um membro útil
e bem-sucedido da comunidade, hoje a medida de seu sucesso
é dada pela sua capacidade profissional.
Insatisfeitas com o rumo dado a suas
vidas, começam a surgir mulheres empenhadas em defender
o sistema social pré-feminista como ideal, normalmente não
considerando a importância das revoluções de costumes no
processo de construção de uma sociedade mais equilibrada
e harmônica. Recentemente, um texto antifeminista, supostamente
elaborado por uma mulher, espalhou-se via correio eletrônico.
Lembrando as obrigações antes masculinas que a chamada mulher
moderna passou a ter, descreve uma época referenciada como
sendo do “tempo das nossas avós” de forma bastante pueril,
elaborando uma cena semelhante às apresentadas pela Rede
Globo de Televisão em mini-séries e novelas, quando a vida
de esposas de grandes fazendeiros é representada. Ignorando
completamente o fato de que grande parte das mulheres não
pertencia a famílias ricas, cabendo a elas o trabalho cotidiano
do lar, afirma que as mulheres “passavam o dia a bordar,
a trocar receitas com as amigas, ensinando-se mutuamente
segredos de molhos e temperos, de remédios caseiros, lendo
bons livros das bibliotecas dos maridos, decorando a casa,
podando árvores, plantando flores, colhendo legumes das
hortas, educando crianças, freqüentando saraus. A vida era
um grande curso de artesanato, medicina alternativa e culinária.”
Sem levar em consideração a atual condição econômica que
torna a participação feminina no mercado de trabalho imprescindível
à maioria das famílias, a autora, após afirmar estar abdicando
do posto de mulher moderna pelo de “Amélia”, convida a leitora
a fazer o mesmo. Embora o texto tenha sido escrito em tom
humorístico, teve grande divulgação pela Internet, podendo
ser encontrado em diversos sites, o que valida sua menção
aqui, uma vez que representa a face mais ingênua de todo
processo de busca de libertação: a crença de que o retorno
ao antigo é a saída para a opressão do novo. Ou, em termos
mais populares: a idéia de que “antigamente é que era bom”,
e que eram “bons tempos aqueles”, etc.. Trata-se da comum
dificuldade humana em pensar em termos evolutivos. A partir
da insatisfação com o presente, analisa-se o passado em
busca “do que foi feito de errado” e, ao se identificar
bons momentos em tempos pretéritos, passa-se a viver de
forma saudosista, reclamando uma suposta vida melhor com
bases de retorno impossível. Esquece-se de conquistas valiosas
e antigos problemas para construir uma falsa imagem de um
mundo que teria sido perfeito, em um tipo de lamúria atávica
pela expulsão do Jardim do Éden.
Mencionar o fato de que a mulher
perde parte de sua força ao assumir comportamentos masculinos,
não significa, de modo algum, a defesa do retorno a uma
sociedade ainda mais machista que a atual, nem tampouco
da criação de uma nova ordem social baseada tão-somente
no arquétipo feminino, mas da necessidade da estruturação
de um sistema mais equilibrado, onde masculino e feminino
sejam aspectos igualmente importantes e complementares e
onde cada um tenha a oportunidade de crescer a partir de
sua própria individualidade. É imprescindível que a sociedade
valorize a diferenciação entre os sexos e compreenda a importância
da presença completa de ambos na vida de forma geral. Não
se trata apenas de uma diferença biológica, como bem lembra
Leonardo Boff:
“O feminino na mulher e no homem
é o esprit de finesse (...). É a capacidade de inteireza,
de percepção de totalidades orgânicas, de unicidade do processo
vital em suas mais diversas manifestações; é subjetividade,
ternura, cuidado, acolhida, nutrição, conservação, cooperação,
sensibilidade, intuição, experiência do caráter sagrado
e misterioso da vida e do mundo.
O masculino no homem e na mulher
é o esprit de géometrie, de objetividade, de análise,
de trabalho, de competição, de auto-afirmação, de racionalidade,
de capacidade de abrir caminhos, de superar obstáculos e
de concretizar com determinação um projeto.
Não devemos monopolizar o masculino
somente no homem e o feminino somente na mulher. Tal é o
equívoco da cultura dualista ocidental e de outras culturas
patriarcalistas. Olvidou-se que homem e mulher têm dentro
de si a totalidade masculina e feminina. Cada qual deve
realizar a síntese a partir de sua situação concreta ou
de homem ou de mulher.
Ambos os princípios, masculino e
feminino, devem conviver, interagir, complementar-se e construir
cada ser humano, com ternura e vigor, com subjetividade
fecunda e com objetividade segura.”
Essa noção da necessária liberação
do feminino para que a complementaridade entre os gêneros
ocorra gerando a libertação da alma humana, seja do homem
ou da mulher, também pode ser encontrada na mitologia grega,
na figura do deus Dioniso. “Essa liberação do feminino,
contudo, não deve ser confundida com o feminismo contemporâneo
como tal, apesar de as metas sociais do feminismo poderem
ser meritórias. A ênfase primordial da experiência dionisíaca
não é alcançar a mudança social, e sim liberar tudo que
é livre e primitivo na alma humana”, observa John Sanford,
em “Destino, Amor e Êxtase”. “A liberação do feminino na
alma, contudo, não é alcançada através da rejeição do logos,
os poderes do masculino. O que vemos na liberação dionisíaca
não é a vitória de um elemento sobre o outro, e sim a libertação
de tudo que pertence à alma, para que os diversos elementos
desta possam se unir”, enfatiza Sanford.
A maior presença do arquétipo feminino
nas relações sociais abre uma nova perspectiva para o futuro
do planeta. Estabelecer o que Boff chama de “uma nova aliança
homem-mulher” é a grande meta a ser alcançada no século
XXI, a maneira de substituirmos a discórdia pela união na
diversidade, a competitividade destrutiva pela colaboração
e a guerra pela paz, em um projeto de criação de uma sociedade
mais humana para todos nós, homens e mulheres.
O autor pretende elaborar um trabalho
mais amplo sobre o assunto abordado neste texto e pede a
sugestão dos leitores, que podem ser encaminhadas através
do endereço eletrônico abaixo.
Bibliografia
BOFF, Leonardo. O Despertar da
Águia. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998.
_____________. Tempo de Transcendência.
Rio de Janeiro, RJ: Sextante, 2000.
SAGNE, Cécile. O Erotismo Sagrado.
São Paulo, SP: Martins Fontes, 1986.
SANFORD,
John A.. Destino,
Amor e Êxtase.
São Paulo, SP: Paulus, 1999.
COTES, Paloma. Quem manda aqui sou
eu!. Revista Época. http://revistaepoca.globo.com.
Edição 283, 20/10/03.