Por ADRIANO OLIVEIRA

Doutorando em Ciência Política na Universidade Federal de Pernambuco

 

 

Crime organizado: é possível definir?

 

Virou moda no Brasil falar em crime organizado. Os atores estatais envolvidos no combate à criminalidade definem como crime organizado qualquer bando ou quadrilha que tem uma ação criminal eficaz. Caso ocorra um assalto a banco e o lucro dos assaltantes seja considerado alto, as manchetes dos jornais dirão que foi uma ação do crime organizado. Os atentados a postos da Polícia Militar em São Paulo, em novembro de 2003, foram denominados como ações do crime organizado. O Comando Vermelho é taxado de organização criminosa; o PCC também [1] . Fernandinho Beira-Mar, para muitos policiais, é um dos grandes líderes do crime organizado no Brasil. Mas, afinal, o que é crime organizado?

Recentemente, o Ministro da Justiça, Márcio Tomaz Bastos, ao criar, no âmbito do seu ministério, um órgão para o combate a lavagem de dinheiro, declarou ser necessária a definição de crime organizado. Corroboro com o ministro. A definição é importante por conta de que no Brasil os órgãos do Sistema de Justiça [2] não sabem onde combater o crime organizado – embora pareça evidente os âmbitos da sua atuação. Além disso, o Ministério Público, por exemplo, não tem como enquadrar juridicamente os atos que porventura tenham sido praticados por organizações criminosas [3] .

A construção do conceito do que é crime organizado não é fácil. Aspectos econômicos e institucionais devem ser levados em consideração. Inicialmente, é de vital importância tentar descobrir quais são as características – que estão no âmbito econômico e institucional – que permitem que um grupo de indivíduos que pratica atos ilícitos possa ser classificado como organização criminosa. Dentre essas características devem ser observados o modus operandi dos atores na operacionalização dos atos criminosos, as estruturas de sustentação e ramificações do grupo, as divisões de funções no interior do grupo e o seu tempo de existência. 

Além disso, as organizações criminosas devem ser analisadas também por meio de suas dimensões de atuação. Ou seja: existem organizações que atuam apenas em nível local, sem conexão com outros grupos no âmbito nacional ou internacional. Por outro lado, existem organizações que são nacionais ou transnacionais, as quais criam uma cadeia de iteração nas esferas local, nacional e internacional. Os poderes econômico e político devem ser analisados também por meio das dimensões.

Ao fazer uma revisão dos conceitos de crime organizado em órgãos de pesquisa, em organizações policiais e na literatura acadêmica encontrei similaridades de características, mas nenhuma definição objetiva e abrangente do que seja crime organizado. Contudo, ressalto que é possível definir o que é crime organizado – apesar da sua complexidade.

Os especialistas do Fundo Nacional Suíço de Pesquisa Científica afirmam que existe crime organizado, especificamente o transnacional, quando uma organização tem o seu funcionamento semelhante ao de uma empresa capitalista, pratica uma divisão muito aprofundada de tarefas, busca interações com os atores do Estado, dispõe de estruturas hermeticamente fechadas, concebidas de maneira metódica e duradoura, e procura obter lucros elevados. Para as Nações Unidas, organizações criminosas são àquelas que possuem vínculos hierárquicos, usam da violência, da corrupção e lavam dinheiro [4] .

O Federal Bureau of Investigations (FBI) define crime organizado como qualquer grupo que tenha uma estrutura formalizada cujo objetivo seja a busca de lucros através de atividades ilegais. Esses grupos usam da violência e da corrupção de agentes públicos. Para a Pennsylvania Crime Commision, as principais características das organizações criminosas são a influência nas instituições do Estado, altos ganhos econômicos, práticas fraudulentas e coercitivas [5] .

A Academia Nacional de Polícia Federal do Brasil enumera 10 características do crime organizado: 1) planejamento empresarial; 2) antijuridicidade; 3) diversificação de área de atuação; 4) estabilidade dos seus integrantes; 5) cadeia de comando; 6) pluralidade de agentes; 7) compartimentação [6] ; 8) códigos de honra; 9) controle territorial; 10) fins lucrativos [7] . 

O professor de Direito Penal da Universidade de Frankfurt, Winfried Hassemer, afirma que dentre as características de atuação das organizações criminosas estão a corrupção do Judiciário e do aparelho político (Ziegler, 2003: p. 63). Tokatlian (2000: p. 58 a 65), constata que na Colômbia as organizações criminosas atuam de modo empresarial, procuram construir redes de influência, inclusive com as instituições do Estado, e, conseqüentemente, estão sempre em busca de poder econômico e político.

Mingardin (1996: p. 69) aponta quinze características do crime organizado. São elas: 1) práticas de atividades ilícitas; 2) atividade clandestina; 3) hierarquia organizacional; 4) previsão de lucros; 5) divisão do trabalho; 6) uso da violência; 7) simbiose com o Estado; 8) mercadorias ilícitas; 9) planejamento empresarial; 10) uso da intimidação; 11) venda de serviços ilícitos; 12) relações clientelistas; 13) presença da lei do silêncio; 14) monopólio da violência; 15) controle territorial.

Chama-me a atenção de que em todas as características apontadas, a não ser as enumeradas pela Academia Nacional de Polícia Federal do Brasil, a relação entre Estado e crime organizado está presente. Portanto, uma das características do crime organizado é buscar apoio para a sua atuação no âmbito institucional – instituições do Estado. Um outro ponto importante é que as ações do crime organizado têm como engrenagem o sistema capitalista. Por meio dos benefícios do capitalismo, como, por exemplo, a interação dos mercados financeiros, é possível tornar as atividades das organizações criminosas bastante lucrativas. A interação dos mercados financeiros proporciona, é importante ressaltar, a lavagem de dinheiro.

As divisões de funções e a presença da hierarquia são outras características apontadas por quase todas as fontes mostradas. Neste sentido, as organizações criminosas têm o seu funcionamento parecido com uma empresa capitalista, onde funções são estabelecidas para cada um de seus integrantes – funções estas, obedecendo ao princípio da hierarquia. A atuação à margem dos poderes do Estado, através de atos que contraria a ordem jurídica, é uma característica apontada por todas as fontes citadas. As atividades do crime organizado se contradiz com o ordenamento jurídico oficial. Neste sentido, apesar da contradição, afirmo que as atividades das organizações criminosas precisam dos atores estatais para ser lucrativa e ter uma vida durável. Portanto, o crime organizado é a película cinzenta do Estado.

Por conta de o crime organizado ser a película cinzenta do Estado, a prestação de contas (accountability) das instituições estatais fica prejudicada. O Estado, motivado pelo fato de que os modus operandi das organizações criminosas requisitam os atores públicos para serem parceiros no desenvolvimento das atividades ilícitas, perde a sua transparência, e acima de tudo, passa a funcionar guiado pelos interesses dos senhores do crime.

Diante das argumentações expostas, o que seria crime organizado? Ao meu entender, crime organizado caracteriza-se por ser um grupo de indivíduos que tem as suas atividades ilícitas sustentadas por atores estatais (por meio do oferecimento de benesses ou atos de cooperação), onde os sujeitos criminais desenvolvem ações que exigem a presença do mercado financeiro, para que isso possibilite, às vezes, a lavagem de dinheiro, e conseqüentemente, a lucratividade do crime. Por fim, são grupos que relativamente atuam por um considerável período de tempo, tendo as suas funções estabelecidas, com hierarquia, para cada membro.

O importante é saber que as estruturas do crime organizado são o poder institucional (Estado) e o econômico. O modus operandi das organizações precisam dos poderes citados para sobreviverem, e por conseqüência, serem lucrativos. Além disso, as organizações criminosas podem dominar uma parcela do mercado econômico ou um território geográfico – onde nestes exercem os seus poderes político e econômico. Tanto Fiorentini (1995), Bailey (2000), Magalhães (2000) e Lupo (2002) corroboram, através das suas argumentações, embora não definam o que seja crime organizado, com esta minha afirmação.  

É importante ressaltar, e isso é de suma importância para a análise de uma organização criminosa, que as organizações criminosas não possuem poderes idênticos – os seus poderes devem ser classificados por dimensões. Determinadas organizações possuem um maior poder de influência, e conseqüentemente um sustentáculo mais rígido, ou seja, difícil de ser combatido, do que outras, nos âmbitos econômico e institucional. Além disso, a lavagem de dinheiro não é praticada por toda organização criminosa. Isto é: a lucratividade da atividade criminal da organização pode não ser tão alta para possibilitar a lavagem de dinheiro.

O quadro abaixo evidencia as dimensões do crime organizado. Friso, no entanto, que o quadro mostra o crime organizado na sua atividade de tráfico de drogas. Porém, as organizações criminosas têm diversas atividades, entre estas: roubos de cargas [8] , fraudes em licitações públicas [9] , tráfico de òrgãos [10] , tráfico de seres humanos, venda de sentenças judiciais, etc.

 

Quadro I – Características das dimensões das organizações criminosas – Atividade: tráfico de drogas [11]

Características

Dimensão Macro

Dimensão Meso

Dimensão Micro

Território

Relações com diversos países. Poder global.

Relações em um mesmo país e com muitas áreas em uma mesma região. Podem ocorrer relações com outros países, mas não na envergadura da dimensão macro.

Relações escassas. E quando ocorre, se dar numa mesma região. 

Atividades da economia/Poder econômico

Lavagem de dinheiro envolvendo grandes somas de capital e empresas com sedes em várias localidades do mundo. Geralmente, o dinheiro é escondido em paraísos fiscais.

Lavagem de dinheiro no âmbito nacional e até no internacional. Caso ocorra o processo de internacionalização financeira, este não é tão acentuado como na dimensão macro.

Não existe o processo de lavagem de dinheiro. O lucro obtido só serve para comprar mais drogas. 

Poder institucional

Associação com atores institucionais relevantes. Contam com o apoio destes nos mais diversos países.

Associação com atores institucionais nacionais e internacionais. No caso internacional, são atores institucionais de pouca expressão.

Geralmente contam com o apoio de algum político da localidade. Como prefeito, vereador ou líder comunitário.

Poder de ação

Desenvolve as suas atividades nos mais diferentes países. Não possui controle de áreas específicas.

Podem estar associados a grupos terroristas. Ou estarem praticando atos terroristas.

Atua em nível nacional, e, às vezes, internacionalmente. Exerce controle sobre áreas. A organização criminosa pode estar associada a grupos terroristas; ou estarem praticando atos terroristas.

Exerce controle apenas da sua boca de fumo.

 

De acordo com o quadro acima, a suposta organização criminosa comandada por Fernandinho Beira-Mar estaria em que dimensão? E a do Leonardo Mendonça, acusado pela Polícia Federal, através da Operação Diamante, e pelo Governo Americano, de ser um dos maiores traficantes do mundo? No caso de Beira-Mar, baseado nas obras de Barcellos (2003), Amorim (2003), e de entrevistas com policiais federais, suponho que esteja na dimensão meso. No caso do Leonardo Mendonça, suponho que ele esteja na mesma dimensão do Beira-Mar – neste caso estou tomando como base conversas com policiais federais. 

Saliento, contudo, que o Leonardo Mendonça estar aguardando julgamento em um presídio no estado de Goiás. Friso, ainda, que é importante, e isso é uma exigência do rigor científico, que diversas fontes sejam pesquisadas; inclusive, entrevistas com os próprios acusados devem ser feitas para que a classificação da dimensão dos seus poderes não seja guiada pela mídia e nem por policiais desejosos de fama.

Para consolidar a minha definição de crime organizado, trago, como exemplo, algumas operações feitas pela Polícia Federal. Dentre estas, destaco, a Operação Anaconda. Esta foi desenvolvida por agentes da Polícia Federal de Brasília no estado de São Paulo. Após anos de trabalho, a Polícia Federal conseguiu prender oito pessoas; dentre estas: um juiz federal, um policial e um delegado federal, e uma auditora da Receita Federal. Os atores criminais presos pela Operação atuavam na intermediação de venda de sentenças, e soltura de criminosos – como contrabandistas e traficantes de drogas.

Uma outra Operação importante foi a Planador. Esta possibilitou a prisão de doleiros e 12 polícias federais em agosto de 2003. Os atores criminais estão sendo acusados de facilitar contrabando, falsificação de passaportes e lavagem de dinheiro – neste último, o dinheiro era proveniente da Previdência Social. A Polícia Federal deve ter encontrado dimensões – inclusive, é claro, variações de poder – diferenciadas em cada organização criminal investigada [12] .

É importante trazer à tona as diversas operações policiais contra o Comando Vermelho no Rio de Janeiro – se é que ele existe. Dentre estas, destaco a Operação Mosaico, realizada pela Polícia Federal, na década de 90 [13] . Nesta Operação foi tornado público que bicheiros estavam atrelados a traficantes de drogas dos morros cariocas. além disso, muitos deputados federais e estaduais, e vereadores recebiam apoio dos traficantes e bicheiros nas suas campanhas eleitorais. Em troca, o poder político, por meio (e isso era um dos meios) de interferência nas forças policiais, protegia as ações dos traficantes.

Diante do que foi dito, em que dimensão o Comando Vermelho está inserido? Baseado nas obras de Amorim (2003) e Barcellos (2003) afirmo, caso ele exista, que o Comando Vermelho está inserido na sua dimensão meso.  No entanto, faço uma ressalva: a análise do Comando Vermelho deve ser feita numa época específica, pois esta organização (caso tenha durado tanto tempo assim) teve o seu período de pujança nas décadas de 80 e início de 90, mas depois, assim entendo, tornou-se uma marca/grife, onde todo grupo de indivíduos que passa a obter sucesso no crime frisa logo que é do Comando Vermelho.

O que suponho, e isto requer uma argumentação mais apurada, é que o Comando Vermelho não existe mais. De fato, o que existe, especificamente no Rio de Janeiro, são organizações criminosas, com amplitudes de poderes diferenciados, que atuam nos asfaltos e nos morros cariocas. Estas organizações, com o objetivo de se diferenciarem de outras organizações, se auto definem como o Comando Vermelho. No entanto, quem é o líder atual desta grande organização denominada Comando Vermelho? Quem são os seus integrantes? Existem relações de família, assim como possui a máfia italiana, para justificar a hereditariedade do poder [14] ? As respostas destes questionamentos deixarei para um próximo artigo.

O leitor deve encarar este paper como uma contribuição teórica para a definição do que seja crime organizado e de uma reflexão em torno das suas ações. È claro, que críticos irão aparecer. Esclareço, contudo, que decidi escrever este artigo por conta de que me incomoda muito ver nos jornais diários declarações das mais diversas autoridades de que qualquer crime bem sucedido é uma ação do crime organizado. Além disso, os atores responsáveis pelo combate ao crime parecem sofrer de miopia, pois demonstram não conseguir ver as dimensões das organizações e nem seus sustentáculos. Até quando?


Bibliografia

AMORIM, Carlos. CV e PCC: a irmandade do crime. Rio de Janeiro: Record, 2003.

BAILEY, John; GODSON, Roy. Organized crime and democratic governability: Mexico and the U.S.: Mexican Borderlands. Pittsburgh: University of Pittsburgh Press, 2000.

BARCELLOS, Caco. Abusado. Rio de Janeiro: Record, 2003.   

FIORENTINI, Gianluca; PELTZMAN, Sam. The economics of organised crime. Cambridge: University Press, 1995.

LUPO, Salvatore. História da máfia: das origens aos nossos dias. Tradução Álvaro Lorencine. São Paulo: Unesp, 2002.

MAGALHÃES, Mário. O narcotráfico. São Paulo: Publifolha, 2000.

MINGARDI, Guaracy. O Estado e o crime organizado. 1996. Tese (Doutorado) - Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. São Paulo, 1996.

“Polícia de prevenção e repressão a entorpecentes” – Departamento de Polícia Federal. Brasília: 2001.

TOKATLIAN, Juan. Globalización, narcotráfico y violencia – Siete ensayos sobre Colombia. Buenos Aires: Norma, 2000.

ZIEGLER, Jean. Os senhores do crime: as novas máfias contra a democracia. Tradução Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2003.

 

     LEIA +

A máfia na Itália e no Brasil – Fenômenos similares? - (Livro: História da Máfia: das origens aos nossos dias, de Salvatore Lupo. São Paulo, Unesp, 2002)

 

A necessidade de um novo modelo policial (Jorge ZAVERUCHA. Polícia Civil de Pernambuco: o desafio da reforma. Recife: Editora Universitária, 2003. 194 págs.)

 

[1] Sobre isto ver a importante obra jornalística de Amorim, 2003.

[2] Os órgãos do Sistema de Justiça a que me refiro são: Polícias, Poder Judiciário e Ministério Público.

[3] No Código Penal Brasileiro (Decreto Lei 2.848/40) existe a definição de Quadrilha ou Bando. 

[4] Essas definições são encontradas em Ziegler (2003: p. 55 e 56). 

[5] Essas definições são encontradas em Mingardi (1996: p. 27 e 28).

[6] “Esta característica faz com que as atividades das diversas etapas ou níveis de organização não sejam conhecidas por ouros setores. Presta-se, principalmente, como elemento de segurança contra as tentativas de infiltração das Agências de Controle” (Polícia de prevenção e repressão a entorpecentes – Departamento de Polícia Federal, 2001).

[7] Sobre esta definição ver “Polícia de prevenção e repressão a entorpecentes” – Departamento de Polícia Federal, 2001.

[8] Sobre isso ver Mingardi (1996).

[9] Sobre isso ver Fiorentini (1995).

[10] Em novembro de 2003 foi presa em Pernambuco pela Polícia Federal uma organização criminosa que tinha como atividade o tráfico de órgãos. Cada vítima recebia oito mil Reais por órgão – no caso de um rin.

[11] Esse quadro é construído com base em dados empíricos e informações coletadas. Contudo, esclareço que o leitor deve compreendê-lo como uma hipótese teórica que deve ser confirmada. Tento através do quadro se aproximar teoricamente da realidade.

[12] Faz-se necessário, e é importante, um estudo mais apurado destas Operações. Pois, através deste estudo, ficará mais nítido o poder das organizações criminosas mostradas.

[13] Sobre esta Operação ver Amorim, 2003.

[14] É impossível, e isso os estudos sobre máfias comprovam, que uma organização criminosa dure muito tempo sem a presença da hereditariedade do poder. Saliento, no entanto, que esta hereditariedade, só é possível quando existem laços familiares.  No caso do Comando Vermelho, este já tem a sua duração por mais de 20 anos. Isso é possível sem laços familiares?

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