Por ELVE MIGUEL CENCI

Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina e Doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

 

A Experiência da Filosofia no Vestibular da Universidade Estadual de Londrina*

 

Mesmo com boa infra-estrutura e com corpo docente titulado, por muitos anos a Universidade Estadual de Londrina pagou para que a Fundação Carlos Chagas do Rio de Janeiro elaborasse as questões do seu vestibular. Dentre os argumentos usados para a defesa desse procedimento constavam “segurança”, “qualidade das provas”, “falta de experiência”, etc. Essa transferência de competência sempre causou um certo mal estar dentro da UEL já que gerava uma pergunta óbvia: Será que uma instituição com mais de 500 doutores e 600 mestres não estava capacitada para realizar o seu próprio vestibular? A partir da segunda metade da década de noventa, finalmente o vestibular da UEL começou a sofrer  modificações. Implantou-se o duplo vestibular com um único ingresso e as provas sofreram alterações leves na forma de abordar os conteúdos. O efeito imediato de dois vestibulares foi o aumento do grau de dificuldade para ingresso e, em tese, a melhora da qualidade dos alunos. Sob o ponto de vista financeiro, representou um aumento de receita para a UEL proveniente das inscrições dos candidatos.

Entretanto, apesar da grande procura e de gozar de credibilidade, crescia internamente na Universidade um sentimento de insatisfação nutrido também pelo tipo de prova confeccionada pela fundação que, segundo professores de diversas áreas, ficava à distância das  perspectivas de ensino adotadas no Paraná.

Finalmente, a partir de 1999, a idéia de elaborar o próprio vestibular tomou corpo. O primeiro passo foi, como já citado, solicitar à fundação Carlos Chagas uma mudança no perfil das questões; na seqüência houve a dispensa da fundação para, em seguida, se firmar uma parceria com a Universidade Federal do Paraná com o objetivo de elaborar as provas em conjunto e adquirir experiência para, após o domínio pleno dos procedimentos, desfazer a parceria e realizar autonomamente todo o processo.

Num primeiro momento, em parceria com a UFPR, tentou-se mudar ainda mais o perfil das questões, enfatizando gradualmente não mais a memorização, mas a interpretação e compreensão dos conteúdos. Enquanto isso, um novo modelo de vestibular estava sendo gestado. Esse período de transição visava preparar não apenas a UEL, mas também alunos e escolas para o novo modelo a ser implantado em 2002. No entanto, uma série de fatores (greve, problemas internos, etc) fizeram com que este novo formato fosse adiado por um ano. Portanto, o primeiro vestibular com perfil distinto somente teve sua implantação em 2003. 

O QUE O “NOVO” VESTIBULAR TEM DE DIFERENTE

Em primeiro lugar, o formato do novo vestibular representa o coroamento de um processo que começou a ser executado há bastante tempo e que, gradativamente, foi sendo posto em prática. O objetivo sempre foi o de mudar a forma de avaliação dos egressos do ensino médio, abandonando-se procedimentos de “treinamento e memorização”, feitos sobretudo pelos cursinhos, enfatizando processos como interpretação e compreensão. Em segundo lugar, esvaziou-se o poder absoluto do quadrinômio Quimica-Fisica-Biologia-Matemática para se pensar um modelo que desse um peso eqüitativo para todas as áreas do conhecimento (caso do primeiro dia) e, ao mesmo tempo, cobrasse dos candidatos conhecimentos específicos em disciplinas relacionadas com o curso pretendido (caso do terceiro dia). Além desses dois fatores, houve ainda a inclusão de três disciplinas que normalmente eram banidas dos vestibulares e do currículo da maior parte das escolas: Filosofia, Artes e Sociologia. Dessa forma, o novo vestibular passou a contar com nove áreas do conhecimento (Química, Física, Biologia, Matemática, História, Geografia, Sociologia, Artes e Filosofia) e nova estrutura: três dias assim distribuídos:

PRIMEIRO DIA:

Todos os alunos fazem uma prova de conhecimentos gerais,  com sessenta questões e de caráter interdisciplinar (estilo ENEM), envolvendo as nove áreas do conhecimento citadas. Dessa forma, do candidato ao curso de Medicina ao de Matemática ou Filosofia, indistintamente, todos respondem a  questões de Filosofia que aparecem relacionadas com outras áreas do conhecimento. 

SEGUNDO DIA

O segundo dia é dedicado às provas de Língua Portuguesa, Literatura Brasileira e Portuguesa, Língua Estrangeira e Redação.  No entanto a redação também mudou. Sai o esquema tópico frasal/introdução/desenvolvimento/conclusão para que no lugar ocorra a inserção de um texto  com outras características. O vestibulando passa a ter a opção de elaborar um texto narrativo ou dissertativo tendo por base o contato “com outros textos verbais ou não verbais”.

TERCEIRO DIA

No terceiro dia reside a maior novidade: cada curso escolheu, dentre as nove áreas do primeiro dia, duas que melhor moldam o perfil do aluno a ser selecionado. Por exemplo, o curso de Filosofia entendeu que História e Filosofia eram as disciplinas mais adequadas para preparar o futuro egresso, já Direito escolheu Filosofia e Sociologia. Da mesma forma procederam todos os outros cursos.

COMO A UNIVERSIDADE E O DEPARTAMENTO SE PREPARARAM PARA O NOVO VESTIBULAR

Num primeiro momento, essa nova proposta foi pensada por uma comissão e amplamente discutida nos diversos cursos da Universidade; após foi levada ao Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE) para aprovação. Curiosamente, muitos cursos, mesmo não escolhendo Filosofia no terceiro dia, mostraram-se bastante receptivos à sua introdução. No entanto essa mesma aceitação não foi sentida na totalidade dos cursinhos e escolas particulares de ensino médio. Muitos argumentos foram usados para tentar dissuadir a Universidade de levar adiante o novo vestibular, não exatamente o modelo, mas a inclusão das três novas disciplinas (Filosofia, Sociologia e Artes). Foram utilizados argumentos tais como: “não existe uma tradição nas escolas, pois a Filosofia ainda não foi implantada”, “vamos esperar primeiro que haja essa tradição”, etc, enquanto isso vamos suspender essas disciplinas. Esses argumentos foram prontamente rebatidos pela Universidade, através do então coordenador do vestibular, que as refutou citando que a LDB prescrevia Filosofia e Sociologia como obrigatórias nas escolas  e que muitas escolas públicas já tinham a disciplina implantada.

Na esfera do Departamento de Filosofia, em várias ocasiões, os docentes se mostraram preocupados quanto à necessidade de que as escolas fossem acompanhadas para evitar um cenário futuro que poderia eleger a Filosofia como “bode expiatório”, caso os alunos fossem mal sucedidos nas provas. Felizmente isso não aconteceu. Algumas medidas foram tomadas visando não só preparar os alunos para o vestibular, mas também chegar até as escolas, sobretudo as públicas. Nesse sentido convém destacar um projeto que o departamento mantém já há bastante tempo, via On-line, chamado FILOONLINE. Outra iniciativa ocorreu pouco antes do vestibular 2003. Um grupo de professores do departamento, juntamente com alunos das últimas séries, ofereceram na própria Universidade um “cursinho” de Filosofia ofertado aos sábados. A procura foi significativa e muitos alunos foram aprovados.

A PROVA DE FILOSOFIA

Em primeiro lugar, como ressaltado, no primeiro dia, conteúdos de Filosofia são utilizados na confecção da prova de conhecimentos gerais. No entanto essa prova tem um perfil especial, já que é interdisciplinar. No terceiro dia, o aluno, que escolheu um dos oito cursos que indicaram Filosofia  (Direito, Psicologia, Serviço Social, Filosofia, Música, Artes, Moda e Biblioteconomia), faz uma prova específica com peso de 50%. Essa prova de Filosofia é composta por 20 questões organizadas segundo competências e habilidades, seguindo três eixos de conteúdos, levando-se em conta o caráter formativo específico da Filosofia no Ensino Médio de acordo com o que prescrevem os PCNS.

A prova de Filosofia, em 2003, apresentou questões com níveis distintos de complexidade. Algumas questões dispensavam um conhecimento maior de Filosofia para serem respondidas, bastando a leitura atenta aliada a certa dose de interpretação; já outras exigiram conhecimento filosófico. Ao término, os candidatos avaliaram as provas como fáceis e elogiaram o vestibular. Em nosso entendimento, essa avaliação positiva  se deveu ao fato de que a Universidade elaborou um novo modelo de vestibular que valorizou mais a reflexão e a interpretação do que propriamente a memorização de fórmulas ou algo similar, como se fazia até pouco tempo atrás. Isto fez com que a os candidatos bem preparados (e não treinados) tivessem bom desempenho, sobretudo aqueles que cultivam o hábito da leitura e possuem boa capacidade interpretativa. Um dado interessante é que a diferença entre o primeiro e o último colocado na maioria dos cursos não oscilou significativamente.

O que se pode dizer deste vestibular é que ele atingiu plenamente o seu objetivo no sentido de ser bem aceito pela comunidade e se impor como um novo modelo de avaliação. Nesse sentido, a Filosofia, ao contrário do que poderia ter acontecido, não recebeu  ataques e críticas. Foi recebida com naturalidade. O perfil mais “fácil” da prova de Filosofia tem dois lados: um positivo, provocou a aceitação ou a não rejeição por parte da “comunidade”. Mas há um efeito colateral: Como as provas foram relativamente fáceis, muitos cursinhos e escolas atribuíram a disciplina de Filosofia a professores de outras disciplinas, como anunciou uma escola num “outdoor”. Penso ser esse um problema menor,  que a médio prazo a própria competição entre escolas deverá resolver. O importante é que em várias escolas e cursinhos já existem professores habilitados trabalhando, incluindo ex-alunos e até graduandos. Portanto, abriu-se um mercado de trabalho significativo para o licenciado em Filosofia. Resta no entanto a preocupação com as escolas da rede pública, já que poucas adotaram Filosofia e Sociologia como disciplina e menor ainda é o número de professores habilitados nessas áreas.

Poderíamos ressaltar ainda uma série de aspectos relevantes deste novo vestibular, no entanto, como conclusão, gostaríamos de expor apenas algumas questões:

Uma primeira diz respeito ao próprio vestibular em si como meio de avaliação. Até o momento existem poucos instrumentos alternativos de seleção que possam substituir o tradicional vestibular. Portanto, até que não apareça uma forma mais aperfeiçoada, esta é sem dúvida a “melhor” fórmula. O importante é aperfeiçoá-la sempre.

De um modo geral, a primeira experiência do “novo vestibular” foi positiva, no entanto restaram alguns questionamentos. A proposta do vestibular foi pensada nos moldes do ENEM, com questões interdisciplinares enfatizando a interrelação de conteúdos e, é claro, o desenvolvimento de certas habilidades e competências em sintonia com o que está prescrito quando se pensa o Ensino Médio. Evidentemente que esse é um processo extremamente exigente e que requer constante aperfeiçoamento. Por outro lado, não é plenamente desta forma que os alunos do ensino médio estão acostumados a trabalhar os conteúdos. Isso implica uma dificuldade adicional, o que não invalida e muito menos tira a legitimidade das provas.

Há que se considerar também um efeito colateral muito positivo decorrente da presença da Filosofia no vestibular dentro da própria universidade: a Filosofia traz ganhos importantes quanto à qualidade de escrita e capacidade de resolução de problemas por parte dos universitários, até mesmo nas áreas técnicas. Este resultado foi constatado em Uberlândia. No caso da UEL, a capacidade reflexiva e de compreensão de textos filosóficos dos alunos do curso de Direito no ano de  2003 merece destaque especial.

Há ainda outros efeitos decorrentes da própria estrutura do novo vestibular: cursos como Psicologia, que escolheram Biologia e Filosofia, obrigam o candidato a fazer sua escolha com bastante antecedência para que ele possa se preparar adequadamente. O vestibular coloca antecipadamente (no primeiro ano do Ensino Médio) o dilema dos alunos quanto à escolha do curso.

O mais adequado para uma prova de Filosofia no vestibular seria se ela fosse composta por questões discursivas. O problema é que se questões discursivas fizessem parte da prova do primeiro dia, a comissão encarregada da correção teria que corrigir (no caso do vestibular de 2004 que teve 36.755 inscritos) mais de 200.000 questões. Mesmo que fossem apenas as questões específicas do terceiro dia, teríamos 6824 candidatos e 136.480  questões sem considerarmos as questões de Sociologia.

Sob o ponto de vista do mercado de trabalho e da importância que a Filosofia passou a ter, o vestibular se revelou muito importante. Neste processo, se somarmos os oito cursos  que optaram por Filosofia no último dia das provas, teremos a cifra de 6.824 candidatos. Assim, a Filosofia, que sequer era mencionada na maioria das escolas particulares, passou a ser muito importante, isso porque a Filosofia corresponde a mais de 10% da primeira prova bem como 50% da terceira prova. Para o aluno que quer ser aprovado em Direito, é crucial que ele estude muito mais Filosofia e Sociologia do que qualquer outra disciplina. Como já foi ressaltado, muitos ex-alunos formados pela UEL e até mesmo alunos da graduação já trabalham com Filosofia. É claro que este é um argumento menor quando se pondera que Filosofia e Sociologia devam ter seu lugar ao sol no Ensino Médio ou no vestibular, mas também merece ser considerado. É muito cômodo pensar a Filosofia apenas a partir da ótica da academia e imaginar que os alunos da graduação estão ali exclusivamente por amor ao saber.

Muitos desafios permanecem para a Universidade, um deles é o constante aperfeiçoamento dessa proposta que até o momento tem colhido bons frutos e representa um avanço importante na construção de uma Universidade mais crítica, reflexiva e aberta a novos tempos e a novos problemas.

Obs - Todos os dados sobre as provas do vestibular de 2003 da UEL podem ser obtidos pelo site www.uel.br/vestibulares

 

 
* Palestra proferida na III Semana de Filosofia da UEM, em 26/11/03.

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