A Experiência da Filosofia no Vestibular da Universidade
Estadual de Londrina*
Mesmo com boa infra-estrutura e com corpo docente
titulado, por muitos anos a Universidade Estadual de Londrina
pagou para que a Fundação Carlos Chagas do Rio de Janeiro
elaborasse as questões do seu vestibular. Dentre os argumentos
usados para a defesa desse procedimento constavam “segurança”,
“qualidade das provas”, “falta de experiência”, etc. Essa
transferência de competência sempre causou um certo mal
estar dentro da UEL já que gerava uma pergunta óbvia: Será
que uma instituição com mais de 500 doutores e 600 mestres
não estava capacitada para realizar o seu próprio vestibular?
A partir da segunda metade da década de noventa, finalmente
o vestibular da UEL começou a sofrer
modificações. Implantou-se o duplo vestibular com
um único ingresso e as provas sofreram alterações leves
na forma de abordar os conteúdos. O efeito imediato de dois
vestibulares foi o aumento do grau de dificuldade para ingresso
e, em tese, a melhora da qualidade dos alunos. Sob o ponto
de vista financeiro, representou um aumento de receita para
a UEL proveniente das inscrições dos candidatos.
Entretanto, apesar da grande procura e de gozar de
credibilidade, crescia internamente na Universidade um sentimento
de insatisfação nutrido também pelo tipo de prova confeccionada
pela fundação que, segundo professores de diversas áreas,
ficava à distância das perspectivas de ensino adotadas no Paraná.
Finalmente, a partir de 1999, a idéia de elaborar
o próprio vestibular tomou corpo. O primeiro passo foi,
como já citado, solicitar à fundação Carlos Chagas uma mudança
no perfil das questões; na seqüência houve a dispensa da
fundação para, em seguida, se firmar uma parceria com a
Universidade Federal do Paraná com o objetivo de elaborar
as provas em conjunto e adquirir experiência para, após
o domínio pleno dos procedimentos, desfazer a parceria e
realizar autonomamente todo o processo.
Num primeiro momento, em parceria com a UFPR, tentou-se
mudar ainda mais o perfil das questões, enfatizando gradualmente
não mais a memorização, mas a interpretação e compreensão
dos conteúdos. Enquanto isso, um novo modelo de vestibular
estava sendo gestado. Esse período de transição visava preparar
não apenas a UEL, mas também alunos e escolas para o novo
modelo a ser implantado em 2002. No entanto, uma série de
fatores (greve, problemas internos, etc) fizeram com que
este novo formato fosse adiado por um ano. Portanto, o primeiro
vestibular com perfil distinto somente teve sua implantação
em 2003.
O
QUE O “NOVO” VESTIBULAR TEM DE DIFERENTE
Em primeiro lugar, o formato do novo vestibular representa
o coroamento de um processo que começou a ser executado
há bastante tempo e que, gradativamente, foi sendo posto
em prática. O objetivo sempre foi o de mudar a forma de
avaliação dos egressos do ensino médio, abandonando-se procedimentos
de “treinamento e memorização”, feitos sobretudo pelos cursinhos,
enfatizando processos como interpretação e compreensão.
Em segundo lugar, esvaziou-se o poder absoluto do quadrinômio
Quimica-Fisica-Biologia-Matemática para se pensar um
modelo que desse um peso eqüitativo para todas as áreas
do conhecimento (caso do primeiro dia) e, ao mesmo tempo,
cobrasse dos candidatos conhecimentos específicos em disciplinas
relacionadas com o curso pretendido (caso do terceiro dia).
Além desses dois fatores, houve ainda a inclusão de três
disciplinas que normalmente eram banidas dos vestibulares
e do currículo da maior parte das escolas: Filosofia, Artes
e Sociologia. Dessa forma, o novo vestibular passou a contar
com nove áreas do conhecimento (Química, Física, Biologia,
Matemática, História, Geografia, Sociologia, Artes e Filosofia)
e nova estrutura: três dias assim distribuídos:
PRIMEIRO DIA:
Todos os alunos fazem uma prova de conhecimentos gerais,
com sessenta questões e de caráter interdisciplinar
(estilo ENEM), envolvendo as nove áreas do conhecimento
citadas. Dessa forma, do candidato ao curso de Medicina
ao de Matemática ou Filosofia, indistintamente, todos respondem
a questões de Filosofia que aparecem relacionadas
com outras áreas do conhecimento.
SEGUNDO
DIA
O segundo dia é dedicado às provas de Língua Portuguesa,
Literatura Brasileira e Portuguesa, Língua Estrangeira e
Redação. No entanto
a redação também mudou. Sai o esquema tópico frasal/introdução/desenvolvimento/conclusão
para que no lugar ocorra a inserção de um texto
com outras características. O vestibulando passa
a ter a opção de elaborar um texto narrativo ou dissertativo
tendo por base o contato “com outros textos verbais ou não
verbais”.
TERCEIRO
DIA
No terceiro dia reside a maior novidade: cada curso
escolheu, dentre as nove áreas do primeiro dia, duas que
melhor moldam o perfil do aluno a ser selecionado. Por exemplo,
o curso de Filosofia entendeu que História e Filosofia eram
as disciplinas mais adequadas para preparar o futuro egresso,
já Direito escolheu Filosofia e Sociologia. Da mesma forma
procederam todos os outros cursos.
COMO A UNIVERSIDADE E O DEPARTAMENTO SE PREPARARAM
PARA O NOVO VESTIBULAR
Num primeiro momento, essa nova proposta foi pensada
por uma comissão e amplamente discutida nos diversos cursos
da Universidade; após foi levada ao Conselho de Ensino,
Pesquisa e Extensão (CEPE) para aprovação. Curiosamente,
muitos cursos, mesmo não escolhendo Filosofia no terceiro
dia, mostraram-se bastante receptivos à sua introdução.
No entanto essa mesma aceitação não foi sentida na totalidade
dos cursinhos e escolas particulares de ensino médio. Muitos
argumentos foram usados para tentar dissuadir a Universidade
de levar adiante o novo vestibular, não exatamente o modelo,
mas a inclusão das três novas disciplinas (Filosofia, Sociologia
e Artes). Foram utilizados argumentos tais como: “não existe
uma tradição nas escolas, pois a Filosofia ainda não foi
implantada”, “vamos esperar primeiro que haja essa tradição”,
etc, enquanto isso vamos suspender essas disciplinas. Esses
argumentos foram prontamente rebatidos pela Universidade,
através do então coordenador do vestibular, que as refutou
citando que a LDB prescrevia Filosofia e Sociologia como
obrigatórias nas escolas e que muitas escolas públicas já tinham a disciplina implantada.
Na esfera do Departamento de Filosofia, em várias
ocasiões, os docentes se mostraram preocupados quanto à
necessidade de que as escolas fossem acompanhadas para evitar
um cenário futuro que poderia eleger a Filosofia como “bode
expiatório”, caso os alunos fossem mal sucedidos nas provas.
Felizmente isso não aconteceu. Algumas medidas foram tomadas
visando não só preparar os alunos para o vestibular, mas
também chegar até as escolas, sobretudo as públicas. Nesse
sentido convém destacar um projeto que o departamento mantém
já há bastante tempo, via On-line, chamado FILOONLINE. Outra
iniciativa ocorreu pouco antes do vestibular 2003. Um grupo
de professores do departamento, juntamente com alunos das
últimas séries, ofereceram na própria Universidade um “cursinho”
de Filosofia ofertado aos sábados. A procura foi significativa
e muitos alunos foram aprovados.
A
PROVA DE FILOSOFIA
Em primeiro lugar, como ressaltado, no primeiro dia,
conteúdos de Filosofia são utilizados na confecção da prova
de conhecimentos gerais. No entanto essa prova tem um perfil
especial, já que é interdisciplinar. No terceiro dia, o
aluno, que escolheu um dos oito cursos que indicaram Filosofia
(Direito, Psicologia, Serviço Social, Filosofia,
Música, Artes, Moda e Biblioteconomia), faz uma prova específica
com peso de 50%. Essa prova de Filosofia é composta por
20 questões organizadas segundo competências e habilidades,
seguindo três eixos de conteúdos, levando-se em conta o
caráter formativo específico da Filosofia no Ensino Médio
de acordo com o que prescrevem os PCNS.
A prova de Filosofia, em 2003, apresentou questões
com níveis distintos de complexidade. Algumas questões dispensavam
um conhecimento maior de Filosofia para serem respondidas,
bastando a leitura atenta aliada a certa dose de interpretação;
já outras exigiram conhecimento filosófico. Ao término,
os candidatos avaliaram as provas como fáceis e elogiaram
o vestibular. Em nosso entendimento, essa avaliação positiva se deveu ao fato de que a Universidade elaborou
um novo modelo de vestibular que valorizou mais a reflexão
e a interpretação do que propriamente a memorização de fórmulas
ou algo similar, como se fazia até pouco tempo atrás. Isto
fez com que a os candidatos bem preparados (e não treinados)
tivessem bom desempenho, sobretudo aqueles que cultivam
o hábito da leitura e possuem boa capacidade interpretativa.
Um dado interessante é que a diferença entre o primeiro
e o último colocado na maioria dos cursos não oscilou significativamente.
O que se pode dizer deste vestibular é que ele atingiu
plenamente o seu objetivo no sentido de ser bem aceito pela
comunidade e se impor como um novo modelo de avaliação.
Nesse sentido, a Filosofia, ao contrário do que poderia
ter acontecido, não recebeu ataques e críticas. Foi recebida com naturalidade. O perfil mais
“fácil” da prova de Filosofia tem dois lados: um positivo,
provocou a aceitação ou a não rejeição por parte da “comunidade”.
Mas há um efeito colateral: Como as provas foram relativamente
fáceis, muitos cursinhos e escolas atribuíram a disciplina
de Filosofia a professores de outras disciplinas, como anunciou
uma escola num “outdoor”. Penso ser esse um problema menor, que a médio prazo a própria competição entre
escolas deverá resolver. O importante é que em várias escolas
e cursinhos já existem professores habilitados trabalhando,
incluindo ex-alunos e até graduandos. Portanto, abriu-se
um mercado de trabalho significativo para o licenciado em
Filosofia. Resta no entanto a preocupação com as escolas
da rede pública, já que poucas adotaram Filosofia e Sociologia
como disciplina e menor ainda é o número de professores
habilitados nessas áreas.
Poderíamos ressaltar ainda uma série de aspectos relevantes
deste novo vestibular, no entanto, como conclusão, gostaríamos
de expor apenas algumas questões:
Uma primeira diz respeito ao próprio vestibular em
si como meio de avaliação. Até o momento existem poucos
instrumentos alternativos de seleção que possam substituir
o tradicional vestibular. Portanto, até que não apareça
uma forma mais aperfeiçoada, esta é sem dúvida a “melhor”
fórmula. O importante é aperfeiçoá-la sempre.
De um modo geral, a primeira experiência do “novo
vestibular” foi positiva, no entanto restaram alguns questionamentos.
A proposta do vestibular foi pensada nos moldes do ENEM,
com questões interdisciplinares enfatizando a interrelação
de conteúdos e, é claro, o desenvolvimento de certas habilidades
e competências em sintonia com o que está prescrito quando
se pensa o Ensino Médio. Evidentemente que esse é um processo
extremamente exigente e que requer constante aperfeiçoamento.
Por outro lado, não é plenamente desta forma que os alunos
do ensino médio estão acostumados a trabalhar os conteúdos.
Isso implica uma dificuldade adicional, o que não invalida
e muito menos tira a legitimidade das provas.
Há que se considerar também um efeito colateral muito
positivo decorrente da presença da Filosofia no vestibular
dentro da própria universidade: a Filosofia traz ganhos
importantes quanto à qualidade de escrita e capacidade de
resolução de problemas por parte dos universitários, até
mesmo nas áreas técnicas. Este resultado foi constatado
em Uberlândia. No caso da UEL, a capacidade reflexiva e
de compreensão de textos filosóficos dos alunos do curso
de Direito no ano de 2003
merece destaque especial.
Há ainda outros efeitos decorrentes da própria estrutura
do novo vestibular: cursos como Psicologia, que escolheram
Biologia e Filosofia, obrigam o candidato a fazer sua escolha
com bastante antecedência para que ele possa se preparar
adequadamente. O vestibular coloca antecipadamente (no primeiro
ano do Ensino Médio) o dilema dos alunos quanto à escolha
do curso.
O mais adequado para uma prova de Filosofia no vestibular
seria se ela fosse composta por questões discursivas. O
problema é que se questões discursivas fizessem parte da
prova do primeiro dia, a comissão encarregada da correção
teria que corrigir (no caso do vestibular de 2004 que teve
36.755 inscritos) mais de 200.000 questões. Mesmo que fossem
apenas as questões específicas do terceiro dia, teríamos
6824 candidatos e 136.480 questões sem considerarmos as questões de Sociologia.
Sob o ponto de vista do mercado de trabalho e da importância
que a Filosofia passou a ter, o vestibular se revelou muito
importante. Neste processo, se somarmos os oito cursos que optaram por Filosofia no último dia das
provas, teremos a cifra de 6.824 candidatos. Assim, a Filosofia,
que sequer era mencionada na maioria das escolas particulares,
passou a ser muito importante, isso porque a Filosofia corresponde
a mais de 10% da primeira prova bem como 50% da terceira
prova. Para o aluno que quer ser aprovado em Direito, é
crucial que ele estude muito mais Filosofia e Sociologia
do que qualquer outra disciplina. Como já foi ressaltado,
muitos ex-alunos formados pela UEL e até mesmo alunos da
graduação já trabalham com Filosofia. É claro que este é
um argumento menor quando se pondera que Filosofia e Sociologia
devam ter seu lugar ao sol no Ensino Médio ou no vestibular,
mas também merece ser considerado. É muito cômodo pensar
a Filosofia apenas a partir da ótica da academia e imaginar
que os alunos da graduação estão ali exclusivamente por
amor ao saber.
Muitos desafios permanecem para a Universidade, um
deles é o constante aperfeiçoamento dessa proposta que até
o momento tem colhido bons frutos e representa um avanço
importante na construção de uma Universidade mais crítica,
reflexiva e aberta a novos tempos e a novos problemas.
Obs - Todos os dados sobre as provas do vestibular
de 2003 da UEL podem ser obtidos pelo site www.uel.br/vestibulares