Democracia
na Universidade
A Lei de Diretrizes e
Bases da Educação Nacional que está em vigor, assinada por
FHC há oito anos, instituiu, através de seu artigo 87, a
Década da Educação. Essa década se completará no final de
dezembro de 2007. A lei determinou o prazo de dez anos para
a execução de ações básicas, próprias a qualquer país civilizado
que se preocupe com a educação de qualidade: recenseamento
de educandos, matrícula de todas as crianças a partir dos
seis anos, provimento de cursos para jovens e adultos insuficientemente
escolarizados, programas de capacitação para todos os professores,
regime de tempo integral nas escolas, etc, etc.
A Década da Educação ainda
está em curso, rumo ao fiasco, e o governo Lula, voltando-se
à parte de um todo, se empenha em uma nova reforma universitária
com indícios de retrocesso cheio de emendas neoliberais
piores que o soneto.
A mesma LDB, em seu artigo
56, confirmou o princípio da gestão democrática nas instituições
públicas de educação superior, tal como em todas as reformas
do tempo da ditadura militar. O problema é que "gestão
democrática" é expressão que adquire diferentes acepções,
conforme a arrogância do usurpador de plantão. A reforma
de FHC estabeleceu que, na tal gestão democrática, os docentes
ocupam setenta por cento dos assentos no colégio eleitoral
de escolha de dirigentes. Assim, nas eleições para Reitor,
os outros trinta por cento ficam divididos entre os segmentos
que formam a maioria da comunidade universitária: alunos
e funcionários.
A lei em
vigor é mais elitista e discriminatória que a dos tempos
dos generais. A Reforma do Ensino, assinada por Costa e
Silva e Tarso Dutra um mês antes do AI 5, era mais benévola
com o corpo discente. O artigo 38 da Lei de 28 de novembro
de 1968 dava à representação estudantil o direito de ocupar
um quinto do poder decisório. Trocando em miúdos, enquanto
no governo Costa e Silva os estudantes detinham 20% de participação
nas decisões, no governo FHC passaram a ter apenas 15% de
participação.
A verdadeira
gestão democrática da Universidade só terá lugar a partir
do momento em que os três segmentos - alunos, funcionários
e professores - tiverem participação paritária nas representações
e nas decisões. Isso significaria uma percentagem de 33,33%
para cada segmento. Esse é o único critério que se harmoniza
com a designação "universidade", que nos remete à dimensão de totalidade
e de conjunto. O conceito original de Universitas é o de
congregação de todos os entes que compõem o "universo".
Universidade que se pretende universalidade, tem que estar
paritariamente distribuída no que se refere à responsabilidade
e à construção. A Universidade brasileira precisa buscar
nova etapa em sua história, que recupere o ideal do coletivo.
A universitas magistrorum et scholarium da tradição parisiense
deve dar lugar a um novo modelo em que alunos, docentes
e corpo administrativo, com poderes paritários, norteiem
novos caminhos que rompam com o corporativismo continuista.
Enfim, a nova Universidade
a ser reinventada tem que deixar de ser um mero conjunto
de edificações ou um círculo de saberes, para se tornar
uma congregação de pessoas. Para que a Universidade contribua
com o fim do sistema social de apartação é preciso que ela,
antes, extirpe as desigualdades de seu interior.
A reforma
universitária vem aí. O golbery do Lula disse, recentemente,
que "o pau vai quebrar" nas Universidades. O Ministro
que vaticinou a violência ainda era um jovem estudante não
politizado quando em 1962 foi deflagrada a famosa Greve
do Um Terço. Essa foi a mais longa greve nacional em que
os estudantes lutamos por uma Reforma Universitária que
contemplasse o corpo discente com um terço de representação
nos orgãos colegiados.
Se é verdade
que o pau vai quebrar, também é verdade que estudantes conscientes
existem a dar com pau. Ministros cara-de-pau hão de ver
com quantos paus se faz uma reforma: a comunidade universitária
do século XXI pode deflagrar uma nova "greve do um
terço", garantir a verdadeira gestão democrática da
Universidade e … matar a pau!
A comunidade
universitária, de que falam todas as leis atinentes à educação,
é formada de alunos, professores e funcionários, nesses
incluídos os terceirizados. Quando os três segmentos tiverem
igual participação na escolha de dirigentes, estarão assegurados
respeitos mútuos e responsabilidades que vão dar lugar à
consecução dos objetivos da educação, da pesquisa, do ensino
e da extensão em toda plenitude: respeito à liberdade, apreço à tolerância, exercício da solidariedade
humana, pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para
o exercício da cidadania, sua qualificação para o trabalho
e formação de sua inquietação crítica e especulativa que
vai garantir boas transformações para a sociedade futura.