Uma
“Paixão” para nossos dias
Bem, esta
talvez não seja a única ocasião em que alguém faz o comentário
de um filme que não assistiu.
Mas eu acho que as chances
são muito boas de ser esta a primeira vez que alguém - neste
caso eu mesma - não viu e nem vai ver o filme, mas que se
sente bem capaz de fazer a resenha. Estamos falando do recém-lançado
aqui nos Estados Unidos "A Paixão do Cristo".
Para que
este filme espetacular se tornasse realidade o diretor Mel
Gibson não só aplicou 25 milhões de dólares de seu próprio
dinheiro, mas também participou na escrita do script e,
com certeza, está por trás de toda a maquinaria de propaganda.
De acordo com informações na página do filme, este projeto
levou 12 anos para ser concretizado. Aliás, parece que o
filme estava pronto já há algum tempo, mas tudo estava bem
calado com relação a ele. Quem sabe, esperando a ocasião
mais propícia para o lançamento, um momento em que o assunto
tivesse mais impacto.
Então, devagarinho,
devagarinho, começaram a aparecer menções ao filme, como
num movimento de música em que os violinos começam no fundo
e o som vai aos poucos aumentando, aumentando, outros instrumentos
se juntam e mais outros, e o som aumenta, aumenta, até que
se chega ao som de uma orquestra inteira. Estamos agora
quase no ponto da orquestra inteira. Já na televisão tivemos
entrevistas com Mel Gibson, que contou como foi emocionante
participar na feitura do filme. No site do filme há uma
citação do que Gibson disse, que ele espera que este
filme afete as pessoas "em um nível profundo e que
os alcance com uma mensagem de fé, esperança, amor e perdão".
Também no site se explica que o filme representa uma "incrível
oportunidade para que Cristãos de todos os lugares ajudem
seus amigos e vizinhos que não acreditam (em Jesus Cristo)
a compreenderem o significado da vida, morte e ressurreição
de Jesus, e que por fim aceitem Cristo como seu Senhor e
Salvador" (ver www.thepassionoutreach.com ). A
distribuidora do filme (Outreach) se prontifica a ajudar
igrejas a coordenarem mostras do filme, para que os fiéis
experimentem a Páscoa mais completamente. O zum-zum-zum
está com certeza aumentando. Já teve gente comentando que
o filme não é antijudeu. Outros disseram que sim, é antijudeu.
No final da semana passada foi a vez do ator James Caviezel,
que é o Jesus do filme. Ele contou para os entrevistadores
que fazer o filme foi muito difícil para ele, porque não
só teve que passar horas sendo maquiado para as cenas da
tortura e da crucificação, mas também acabou sendo realmente
ferido nas filmagens, atingido por um raio na cena no Gólgota.
Além de tudo, ainda pegou pneumonia. Tudo isto faz parte
do "crescendo" dos instrumentos se juntando pra
fazer a orquestra.
O filme estreou
para o público aqui no dia 25 de fevereiro, quarta-feira
de cinzas. Mas já desde a semana anterior muitas pessoas
viram o filme. O que os promotores decidiram fazer foi oferecer
bilhetes a grupos de igrejas que queriam ter a oportunidade
de ver "A Paixão" antes que fosse mostrado nos
cinemas. E aqui começa a parte cantada
(ou chorada) desta composição.
Na televisão,
agora, todos os dias, desde que o filme começou a ser mostrado,
os noticiários têm que ter uma seção sobre como as pessoas
estão reagindo. E as reações são muito uniformes: as pessoas
saem dos cinemas chorando, enxugando os olhos. Quando entrevistadas,
as reações também são bastante parecidas: todos estão muito
comovidos com o sacrifício de Jesus, alguns se dizem renovados
em sua fé, outros dizem que vão trazer a família inteira
para ver o filme. Já no dia 25 de fevereiro, uma mulher
em Kansas teve um ataque cardíaco quando estava assistindo
ao filme e morreu.
Como podemos
compreender tal reação? Afinal, até agora, mais ou menos
cem filmes sobre Jesus já foram feitos. O que tem este de
especial? Primeiro, tem o fato que quem está bancando o
projeto é um ator famoso em Hollywood, e ele diz, na página
do filme, que ele quis envolver-se neste projeto porque
ele achava que a história da morte e da ressurreição de
Jesus nunca tinha sido bem contada em filme. Ainda de acordo
com ele, a brutalidade física a que Jesus foi sujeito nunca
foi corretamente dramatizada.
Vamos concentrar-nos
por agora na questão da brutalidade. A própria página do
filme sublinha que esta versão das últimas 12 horas da vida
de Jesus mostra "dramaticamente e graficamente"
a violência contra ele. Por que ela é necessária neste
momento? Eu creio que posso salientar pelo menos três
razões. Duas são óbvias, e a terceira talvez não tão óbvia.
A primeira
delas, começando pela mais desinteressante, é que talvez
Mel Gibson realmente acredite que este filme vá trazer fé,
esperança, amor e perdão. Como ele é ator e diretor em filmes,
nada mais lógico que usar sua ferramenta de trabalho para
criar algo em que ele acredita.
A segunda
é que, nesta competição que existe em Hollywood em que um
diretor está sempre querendo ultrapassar o outro em efeitos
especiais, corridas de carro incríveis, vôos, lutas sangrentas,
mortes por esquartejamento, etc, etc, por que não fazer
um filme em que toda esta técnica fosse posta a serviço
de uma história que, a) todos conhecem, e b) transforma
todos os cristãos em potenciais parte da audiência? Já no
dia 26 de fevereiro, quando escrevo este texto, as pessoas
começaram a perguntar-se quando vão ver o tal filme. Mesmo
aqueles que nem sequer são cristãos escapam.
A terceira
razão, que me parece a mais interessante, tem a ver com
o momento político que o país está atravessando. Não estou
dizendo que Mel Gibson, ou qualquer pessoa diretamente ligada
ao filme tenha se envolvido no projeto por ordem de algum
chefão político. Por outro lado, se analisarmos o tipo de
histeria religiosa que este filme parece capaz de criar,
não podemos deixar de lembrar que, de uma forma ou de outra,
o que este filme traz à tona é o fato de que religião e
política estão sempre juntas. E que, ainda por cima, as
guerras que os Estados Unidos estão lutando no momento podem
ser vistas como guerras religiosas. Se dermos ouvidos a
alguns programas de rádio comandados por fanáticos neste
país, as duas guerras – Afeganistão e Iraque – são guerras
contra os infiéis, contra aqueles que são não-cristãos;
pior ainda: estes infiéis matam os cristãos. E, se por acaso
deste lado alguém tiver se esquecido em que se baseia a
religião cristã, aqui está o filme mostrando a incrível
brutalidade cometida contra Jesus Cristo. De uma certa maneira,
é possível imaginar tirar que alguns dos que assistam ao
filme saiam das
salas de projeções achando que, de fato, podemos reagir
brutalmente contra os que atacam os cristãos. Afinal, Jesus
Cristo não foi barbaramente torturado e morto? Embora Mel
Gibson afirma que sua intenção é que o filme traga paz e
amor, muitos dos que estão assistindo já apregoam que este
não é meramente um filme, mas uma experiência que muda a
vida das pessoas. O New York Times de 26 de fevereiro traz quase uma página dedicada a
“A Paixão do Cristo”, e cita uma pessoa cujo testemunho
ilustra este problema. Uma mulher diz que o filme vai levar
as pessoas a verem que a paixão de Cristo significa vida
e perdão. Já na sentença seguinte ela afirma que este filme
vai fazer as pessoas se converterem. (New
York Times, A14, 26 de fevereiro de 2004). E se a pessoa
não se converter? E se a pessoa, como eu, não tem interesse
em filmes religiosos? Ou se a pessoa, também como eu, por
princípio não assiste a filmes violentos? A paz e o amor
vão alcançar a todos, ou só aos que “se converterem”?
Mas talvez
todas estas razões sejam meras impressões de quem não assistiu
nem pretende assistir a este filme. Eu não posso entender
como assistir a um filme que se concentra na incrível brutalidade
cometida há dois mil anos possa me transformar – ou a qualquer
um que assista ao filme – em uma pessoa mais crente na doutrina
da religião cristã. Assistir a repetidas imagens de tortura,
eu creio, pode provocar horror ou provocar a crença que qualquer um que não está comigo está contra mim, ou o que é
pior, estes filmes violentos podem anestesiar a pessoa para
a realidade da dor do outro, do que é diferente de uma maneira
ou de outra. Este último fenômeno é o que o excessivo jogo
de vídeo games violentos provoca em crianças e adolescentes,
que perdem a noção de que uma bala entrando no corpo de
uma pessoa é uma coisa horrível, e que a dor é insuportável,
e que a conseqüência pode ser a morte.
Não estou
nem por um momento dizendo que o filme "A Paixão de
Cristo", por si só, vá causar tudo isto. O que estou
dizendo é que este filme participa em toda uma "economia
da violência" dos filmes americanos produzidos em Hollywood,
com vistas a ganhar muito dinheiro. É como se a audiência,
sedenta de sangue (ou de imagens de sangue), quisesse sempre
mais violência, mais efeitos especiais, mais cenas chocantes.
O resultado é que bem pouco choca, hoje em dia. Então Mel
Gibson está correto neste ponto ao dizer que esta técnica toda nunca tinha sido aplicada
às 12 últimas horas da vida de Jesus. Sorte dele. Com toda
esta maquinaria de propaganda, ele certamente vai recuperar
os 25 milhões que investiu no projeto. O resto? O resto
é silêncio. Ou uma cacofonia de vozes chorando na saída
dos cinemas. Cada um mais pronto que o outro a ser mais
cristão que o outro. Vai ser um Deus nos acuda, com certeza.