Identidades
em choque:
uma entrevista com Big Richard
Em
janeiro de 2004, a polêmica gerada em torno da organização
de um festival de Hip-Hop, ocorrido no Rio de Janeiro e em
Santa Catarina, expressou
uma sociedade brasileira em que grupos organizados das
periferias de grandes cidades questionam as formas de
mercantilização de suas canções, buscam abrir espaço não
somente fazendo músicas e letras de protesto e resistência,
mas também querendo manter suas identidades de periféricos.
Podemos
considerar que as sociedades
modernas se constituem da pluralidade de centros de
poder, e que são
caracterizadas pela diferença, pois
são “atravessadas por diferentes divisões e
antagonismos sociais que produzem
uma variedade de diferentes “posições de
sujeito””, como escreveu Stuart Hall. A noção de
identidades estáticas e duradouras tem sido questionada nas
sociedades contemporâneas. Conceitos como “deslocamento”,
ou a variação de diferentes “posições de sujeito”,
gerando diferentes identidades para os indivíduos - nos
remetem a reflexões sobre situações menos abstratas do que
a forma como são tratadas pelas teorias sociológicas.
A
polêmica em questão surgiu quando alguns happers
não aceitaram participar do festival por considerar que a
população “pobre” não teria acesso ao mesmo, em virtude
do valor cobrado pelo ingresso. Por sua vez, os organizadores,
empresários que ocupam posições privilegiadas socialmente,
sustentando a idéia de que o evento tinha um caráter social,
já que distribuiriam cestas básicas para a população
carente.
O
que pudemos perceber
é o choque entre os representantes de um segmento social
oriundo das elites econômicas e da indústria cultural do país,
formada por empresários objetivando lucros, de uma lado, e,
do outro lado, músicos provenientes das periferias, quase
todos pretos, também atentos por receber pelo seu trabalho,
mas ainda preocupados com
a manutenção da autenticidade e com as suas origens.
A
entrevista que segue, realizada com o ator e produtor cultural
Big Richard, traz o relato de um participante direto na polêmica
em torno do evento de Hip-Hop. A voz deste protagonista
expressa as contradições que existem na sociedade
brasileira, não só entre dominantes e dominados, ricos e
pobres, mas provenientes da emergência de diferentes
identidades, mutáveis, híbridas e contraditórias e que se
encontram e se chocam no cenário político e cultural em
busca de sua expressão autêntica e do direito de
manifestar-se segundo os seus próprios interesses e anseios
identitários.
Rosângela:
Para iniciarmos, Big, você poderia nos descrever sua
trajetória de participação em movimentos organizados na
periferia do Rio de Janeiro e de São Paulo?
BIG
RIGHARD: Comecei na militância desde que nasci, é o que
costumo dizer. Sou oriundo de uma confusa família esquerdista
dos anos 70, a base ideológica da família era meu avô, um
marxista radical membro do MR-8 da época (Hoje ele nega
tudo). E nasci no meio desta efervescência cultural/política
da Zona Norte do Rio de Janeiro, recebendo políticos em casa,
políticos estes que iam de Roberto Medina a Leonel Brizola,
passando por Marcelo Alencar, Miro Teixeira e tantos outros.
Daí você vê que eu não tinha como escapar, alienado é que
eu não poderia vir a ser.
Porém,
me descubro de verdade enquanto um ser inserido no contexto,
politicamente ativo, quando entrei para o escotismo, sim, fui
um bom escoteiro. Pertencia ao Grupo 41 Redentor, que ficava
ba Tijuca, também Zona Norte carioca ao lado da Igreja de São
Sebastião. Ali comecei a descobrir meu caminho, ali tive noções
de liderança, e descobri que neste mundo o negro que se
omite, se propõe imparcial, raramente sobrevive. Esta noção
de sobrevivência amadureceu quando fui obrigado a prestar
serviço militar, onde fiquei lotado no 1º BG (Primeiro
Batalhão de Guardas), bem no período Collor. Após isto
decidi abraçar de vez a militância no Movimento Hip Hop, foi
onde conheci o CEAP (Centro de Articulação das Populações
Marginalizdas) localizado na Rua da Lapa, nº 200, centro do
Rio de Janeiro, e lá eles davam apoio a todas as formas de
manifestação da juventude negra carioca, tendo até um
departamento para ajudar na instrumentalização disto, que
era o "Programa Racial", que passados alguns meses
eles me chamaram para trabalhar e fazer parte da ONG, e dar
mais consistência ao trabalho que já vinha sendo
desenvolvido junto a juventude do Hip Hop.
Nesta
época eu tinha um grupo de Rap chamado "Consciência
Urbana", e tocávamos em qualquer buraco possível, na
intenção de apresentar o trabalho do grupo e "levar
consciência" através de nosso trabalho. Junto ao CEAP,
desenvolvemos e produzimos o primeiro disco de Hip Hop
brasileiro, então intitulado "Tiro Inicial". Após
isto, enrabichado com uma paulistana maravilhosa que conheci
em uma das muitas viagens Brasil afora que nesta época já
vinha fazendo, incentivado pela incompreensão da família em
relação ao Hip Hop e a forma de vida escolhida por mim, e
com algumas boas ofertas de trabalho na terra dos
bandeirantes, resolvi arriscar a vida e meu futuro por aqui,
com o apoio da minha então namorada, pela qual eu estava
enrabichado, mudei de mala e cuia para São Paulo, trazendo na
bagagem diversos bons contatos e supostos apoios de aliados
locais.
Chegado
aqui, na cinzenta terra dos bandeirantes fui descobrindo que
nem tudo era atitude e ideal, fui descobrindo que se não
rebolasse a vida me engolia, daí em diante com as oportunidades
criadas, fé em Deus, apoio de alguns poucos e bons e da minha
mulher, fui trilhando o meu caminho e fazendo as minhas produções,
que hoje já se tornaram públicas e notórias.
Rosângela:
Em quais projetos você está envolvido atualmente?
BIG
RICHARD: Atualmente estou envolvido em quatro bons
projetos, isto porque acabei ficando muito seletivo, e não
aceito qualquer proposta de parceria que aparece. Em primeiro
lugar preciso sentir seriedade e confiança nos parceiros.
Caso contrário quando olhar para trás posso descobrir que
abracei a idéia e acabei ficando sozinho.
O
único projeto o qual estou envolvido, e que gostaria de falar
neste momento, é o Portal Social que estou montando, www.portalbig.com.br
Será
o primeiro Portal Social/Periférico e de negócios do Brasil.
Até o fim de fevereiro estará no ar. O que posso adiantar é
que lá estaremos criando oportunidade de negócios que
envolvam responsabilidade social, apresentando problemas e
buscando soluções com os parceiros ao redor do Brasil.
Outro
projeto que muito me empolga, é minha ONG, porém dei uma
reduzida ma velocidade com a qual estávamos tocando o
negócio, para deixar ele amadurecer um pouco mais e também
para avaliarmos se estamos no caminho verdadeiramente certo.
De fato, sou um tanto quanto perfeccionista, não gosto de
saber que estou dando margem para erros, então não me
permito fazer nada que não tenha 100% de quase segurança.
Rosângela:
Você poderia explicar melhor quais são os objetivos desses
projetos?
BIG
RICHARD: Algumas vezes costumo brincar com os amigos
próximos, dizendo que só sou envolvido até os ossos com
projetos sociais, porque sou egoísta. E que como artista, sou
narcisista, tenho necessidade de sair na frente, de me
destacar, de buscar ser e divulgar exemplos, mostrar para os
moleques da minha comunidade, que existem outras formas de
fugir do destino "traçado", que não o crime.
O
pontapé inicial para o meu envolvimento com este tipo de
projeto é porque sempre sonhei em ser rico, tenho interesse
em possuir o capital, assim como a maioria dos moleques de
favela e comunidades pobres, eu também queria ter o carrão,
a bela casa, o conforto que a opressão não proporcionou que
meus pais conseguissem, e já que vivemos num país
capitalista, não tenho intenção de mudar o sistema, mas a
forma como ele trata os despossuídos, entende?
Porém,
como um jovem negro, pobre e de origem e de origem excluída
com a minha teria condições de chegar ao topo? Organizando-me,
organizando os meus, acreditando que podemos criar armas e
soldados para revolucionar de verdade.
Rosângela:
Como as pessoas conhecem, aproximam-se e participam desses
projetos? Há critérios pré-estabelecidos para a participação?
BIG
RICHARD: De maneira alguma, diga-se de passagem, chamo
todo mundo para esta grande corrente da mudança, mas a
questão é que nem todos estão preparados para este
verdadeiro e sério comprometimento social, entende? É muito
mais que fazer uma doação em dinheiro ou que dedicar algumas
horas. É sim carregar esta vontade de ver um mundo diferente
no sangue, 24 horas por dia.
Rosângela:
Será que nós podemos dizer que existe atualmente um
“discurso da periferia”? E se existe, qual é este
discurso?
BIG
RICHARD: Sim, existe, inclusive isto está tão visível,
que já está sendo absorvido pela classe média. É o
discurso da Irmandade, "da união para alcançar o
determinado objetivo. É a linguagem da solidariedade que em
muitos casos vem a favorecer os tubarões que montam ONGs para
enviar e receber dinheiro do exterior".
Rosângela:
Como você avalia a evidenciação da “periferia” no cenário
político e cultural nacional?
BIG
RICHARD: Por um lado é positivo, haja visto que nós
mesmo lutamos para dar mais visibilidade aos nossos problemas,
porém, é necessário entender como esta máquina funciona.
Penso que poucos entendem.
Rosângela:
Para terminarmos, a polêmica em torno da participação no
festival de Hip-Hop pode ser analisada como estratégia de
evidenciação das diferenças raciais, sociais, econômicas e
de classe em
nosso país?
BIG
RICHARD: Ela serviu para mostrar que não é tão fácil
se apropriar da cultura alheia, não estamos mais no tempo do
samba submisso, muito menos acreditamos que vivemos num mar de
rosas, onde todos são iguais. Hoje em dia no mundo, está
mais organizado, a Web colabora muito para que isto aconteça.
Polêmicas como aquela, só existem porque a burguesia
continua tentando arrombar a porta da casa do pobre, ao invés
de pedir licença. Eles agem da mesma forma que Portugal
quando encontrou o Brasil, roubaram eles os índios. Mas hoje,
vivemos outros tempos.