A
Esquerda "Neoclássica"
Em
artigo recente (“O governo Lula e a conciliação das
elites”– Folha de S.Paulo, 18/1/04) o ministro Tarso
Genro, com incontestável argúcia, tenta realizar um exercício
de malabarismo intelectual para convencer as vozes mais críticas
da política do governo Lula, acusando-os de resvalar para o
oportunismo e o pragmatismo “útil”, típico dos governos
anteriores. Em defesa do governo e de suas políticas,
polemiza com a oposição interna do PT e seus pressupostos
ideológicos – nem sempre explícitos – numa discussão
sobre as estratégias de desenvolvimento.
Segundo
Tarso Genro, não haveria condições de governabilidade sem
um acordo com os empresários e, tampouco, poderia haver
crescimento econômico sem uma inserção no mundo
capitalista. Ao optar por uma política mais autônoma,
rompendo com o capitalismo financeiro internacional, o governo
perderia o apoio da classe média e dos trabalhadores e, com
isto, as condições de governabilidade (curiosamente, foi
exatamente isso que sugeriu o mega-investidor George Soros, em
uma intervenção recente no Fórum Econômico Mundial,
realizado em Davos, Suíça). Medidas socializantes (?)
levariam ao rompimento da coalizão atual de forças que dá
sustento ao governo Lula no Congresso, e poderia levar o país
ao desastre, perdendo a singular oportunidade de retirá-lo do
atraso e da estagnação.
Embora
reconheça a validade da preocupação refletida nas críticas
da esquerda, o ministro recorre a um discurso rebuscado para
ocultar a guinada conservadora na política do PT, ao entrar
no segundo ano do governo Lula. Admite até, com base em
antecedentes históricos, a possibilidade de uma conciliação
dos “de cima” para resolver a questão do crescimento econômico,
porém sem distribuição de renda e sem a democratização do
Estado.
Para
dar sustento teórico ao seu discurso, Tarso Genro proclama a
necessidade de avaliar as mudanças ocorridas nos últimos
trinta anos, repisando em sua argumentação o discurso dos
defensores da Terceira Via, inclusive a do ex-presidente FHC.
O “novo” contexto exigiria, para resolver a questão
democrática sem guerra civil, um novo bloco dirigente, com
uma classe empresarial forte capaz de competir no mercado
internacional; um Estado forte, capaz de exercer o controle público
e social e uma estrutura de classes interna, baseada num forte
mercado interno, com renda bem distribuída... Somente com
base nesse “novo contrato social” seria possível
transitar para um outro modelo econômico e um futuro democrático
do país.
Tarso
Genro proclama a “eliminação” do capitalismo e do
socialismo da cena global, para justificar sua nova ideologia.
É verdade, o socialismo “real” fracassou, mas nem por
isso desapareceram as relações de produção e exploração
do sistema capitalista. Ao contrário, a expansão do
capitalismo oligopolista segue imperturbável em seu rumo,
produzindo mais riquezas e mais miséria, numa dinâmica
perversa, polarizadora e excludente, em escala global. Em
termos concretos, do contexto nacional, significa um aumento
constante do número de desempregados, desabrigados e carentes
do mínimo necessário para uma existência decente. A diminuição
da renda média do trabalho e a conseqüente redução da
massa salarial, enquanto aumentam os lucros dos bancos e dos
grandes complexos agro-industriais, são mais reveladores
sobre os rumos da política econômico–financeira do que os
discursos dos políticos, hoje reforçados pelos
ex-oposicionistas do PT.
Há
alguns anos, o então deputado federal Lula caracterizou a
maioria de seus colegas no Congresso como “picaretas”.
Hoje, vários deles, inclusive aqueles que constituíram a
“tropa de choque” de Fernando Collor de Melo, fazem parte
do bloco que apóia o governo do PT. E onde ficou o suposto
patriotismo dos empresários que passariam a investir em
empreendimentos produtivos, atendendo ao apelo do ministro?
Sem dúvida, na dinâmica do sistema capitalista, o
investimento constitui a chave–mestra do crescimento da
economia. Mas a experiência secular e sempre recorrente nos
ensina que os donos do capital não respondem a apelos patrióticos,
para investirem nos setores produtivos. Preferem os títulos
do governo, com altas taxas de juros, especulam com câmbio
ou, melhor ainda, expatriam seus recursos para os paraísos
fiscais. Investimentos produtivos somente quando o retorno é
rápido, elevado e sem risco.
Em
que pesem os apelos do governo e os discursos patéticos dos
novos donos do poder, os investimentos produtivos no Brasil
(e, por extensão, também na América Latina) continuam num
patamar muito baixo, insuficiente para estimular a retomada do
crescimento. Ao mesmo tempo, segue a drenagem impiedosa dos
parcos recursos do país, para atender o serviço das dívidas
externa e interna, inviabilizando uma mudança na política
econômica que seria condição sine qua non para a
construção de uma sociedade verdadeiramente democrática. O
governo revela-se incapaz de controlar o fluxo de capitais e a
concentração crescente de capitais nas mãos de
relativamente poucos mas poderosos conglomerados, empresas e
bancos transnacionais cujas atividades têm impactos
extremamente negativos nas economias nacionais, mormente nos
países “emergentes”.
Diariamente,
circulam pelo espaço virtual mais de um trilhão de dólares,
elevando ou derrubando as cotações das moedas nacionais e os
preços de bens e serviços, sem que a maioria dos governos
nacionais tenha condições (ou vontade) de sustar esse fluxo
pernicioso. Somente o controle seletivo da movimentação de
capitais, tal como fazem a China e a Índia que estabelecem
prazos mínimos de permanência dos investimentos no país,
permitiria ao governo planejar melhor suas atividades a prazos
mais longos.
A
esperada resistência das instituições financeiras,
nacionais e internacionais, teria que ser enfrentada se o
governo e a sociedade brasileiros pretenderem efetivamente
mudar sua política econômica e reduzir sua dependência de
fontes externas. Estimativas do próprio BC apontam que os
desembolsos com juros e amortização da dívida externa
exigirão em 2004 por volta de US$ 55 bilhões - 11 bilhões a
mais do que em 2003. Novamente, o governo terá que frear a
economia para economizar e alcançar o superávit fiscal
exigido pelo FMI, mantendo elevada a taxa de juros e cortando
os gastos sociais e os investimentos em infraestrutura.
Para
escapar dessa armadilha e evitar uma explosão social, o
governo do PT deveria examinar seriamente a oportunidade de
declarar uma moratória, tal como o fizeram a Argentina no ano
passado e a Rússia, após a crise e o colapso de suas finanças,
em 1998.
Para
completar essas medidas de redenção da economia nacional –
a fiscalização dos movimentos de capitais estrangeiros e uma
moratória – seria necessário também elevar a carga tributária,
única forma de assegurar maior autonomia e redução da
dependência externa do Estado brasileiro.
Os
debates travados no Congresso sobre a Reforma Tributária
levam a antecipar a resistência encarniçada a uma eventual
proposta do Executivo de elevar as alíquotas do Imposto de
Renda, com o surrado argumento da perda de competitividade
internacional.
Entretanto,
a revista The Economist, de 25-31 de outubro de 2003, publicou
uma tabela comparativa da carga tributária em vários países.
Segundo a revista britânica, a carga tributária em termos
percentuais do PIB, é de 50% na Suécia e Dinamarca; 46% na Bélgica,
44% na França e na Áustria e 40% na Itália e nos Países
Baixos. Em vez de perder competitividade internacional, esses
países ostentam os melhores índices de IDH (índice de
desenvolvimento humano) segundo levantamentos do PNUD – o
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Suas
populações usufruem melhor qualidade de vida, com mais
segurança e menos desemprego.
É
lícito indagar ao ministro sobre o papel da “classe
empresarial forte e do novo bloco dirigente” no tão
esperado processo de desenvolvimento econômico. A taxa de
investimentos nacionais é cronicamente inferior ao mínimo
necessário para induzir o crescimento e a criação de
empregos.
É
ilusão construir um plano de desenvolvimento a partir de
aporte de recursos do exterior (IDE, empréstimos e
financiamentos privados e públicos). Em pouco tempo os juros,
dividendos, royalties e amortizações terão consumido
as eventuais receitas provenientes desses investimentos,
deixando o país ainda mais endividado.
Ao
mesmo tempo, prossegue a “precarização” do trabalho,
alimentada por demissões contínuas de mão de obra. A aposta
na vinda de capital estrangeiro, supostamente atraído pelas
privatizações de empresas estatais, revelou-se uma balela
porque em vários casos a participação financeira do BNDES
foi fundamental para o êxito das operações lesa pátria.
Por mais que este governo proclame o “espetáculo de
crescimento”, as poupanças das elites brasileiras continuam
no exterior, esperando a salvação pelo investimento
estrangeiro. Soa patética a afirmação do ministro, sobre a
“economia dinâmica e socialmente integradora” que geraria
empregos, renda e, portanto, inclusão social, em conseqüência
do novo pacto social.
Enquanto
o governo não for capaz de induzir e estimular o processo de
poupança nacional, não haverá futuro para o crescimento
auto-sustentado e a autonomia política da sociedade
brasileira.
Parece
difícil imaginar que Tarso Genro ignore as mazelas e os escândalos
deste mesmo capitalismo, parasita e predatório, que sacudiram
recentemente as economias e as bolsas de valores em
praticamente todos os países. Basta lembrar os casos emblemáticos
da Enron, World Com, Tyco nos EUA, da Vivendi na França e,
mais recentemente, da Parmalat na Itália, com repercussões
globais, inclusive no Brasil. Envolvidos estavam também as
maiores firmas de auditoria – Grant Thornton, Arthur
Andersen, Deloitte & Touch –, isso sem falar no papel
dos bancos, na transferência de recursos para os paraísos
fiscais, nas fraudes de contabilidade e na elaboração de
balanços e outras informações falsificadas. No caso do
Brasil podemos refrescar a nossa memória relembrando os casos
escabrosos do Banco Nacional, Econômico da Bahia, Comércio e
Indústria, sem falar do escândalo da roubalheira praticada
pelos donos do Banco Marka–Cinda...
Como
explicar, então, essa guinada ideológica da liderança do
PT, no curto espaço de um ano no governo? Tarso Genro pauta a
inviabilidade de uma nova ordem, porque “o mundo está
dominado pelo consumismo individual, egoísmo e a ausência de
solidariedade” e, assim, pretende justificar a adesão dos
dirigentes do PT à armadilha da nova ordem, último reduto da
barbárie capitalista.
A
crise da ideologia socialista serve aos donos do poder em sua
trajetória para transformarem-se em uma nova tecnocracia, a
serviço dos poderosos e de si próprios, como tantas vezes
ocorreu na História, quando movimentos revolucionários se
esgotaram e seus lideres se tornaram outros déspotas (não
necessariamente esclarecidos). Em vez de construir um novo
bloco social e político, prestam-se à cooptação e, com o
apoio das elites tradicionais, procedem ao esmagamento da
oposição interna, enquanto para a massa crescente de
deserdados sobram as migalhas dos programas de “alívio da
pobreza”.
Apesar
de três anos de Fórum Social Mundial em Porto Alegre e, este
ano, em Mumbai (Índia), não se fala mais de democracia
participativa no âmbito do governo. Tal como FHC que disse
aos empresários da FIESP “esqueçam o que eu escrevi”,
assim também os dirigentes do PT parecem ter chegado à
conclusão que “um outro mundo não é mais possível”.