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Por RAYMUNDO DE LIMA
Psicanalista,
Professor do Departamento de Fundamentos da Educação (UEM) e
doutorando na Faculdade de Educação (USP)
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A
in-compreensão da
leitura
“...é
preciso que a escola amplie os seus objetivos e tente ir além
das rotinas tradicionais de ensino, incorporando atividades
(como a leitura,
por exemplo) que fora da escola, no seu próprio ambiente
familiar, a criança não terá oportunidade de praticar” (J.M.P.Azanha)
.
“É
melhor ler do que estudar”, diz com freqüência o escritor
Ziraldo. Evidentemente que o ato de estudar é imprescindível
para a aprendizagem, mas o interesse
de ler e compreender certamente vem em primeiro lugar. Ler, além de ser uma
conquista de melhoramento do sujeito, também deveria ser um
ato de prazer e não de imposição ou de obrigação.
Com as transformações que a sociedade globalizada está sofrendo,
não basta saber mais ou menos ler, e mal assinar o nome. É
preciso ser um “bom leitor”, isto é, ser alguém que
gosta e faz da leitura um compromisso diário de informação
e conhecimento. Não basta tapear saber ler e escrever. É
preciso, sobretudo, compreender
o que é lido, e se possível também dominar outras línguas,
como é o caso do inglês e da informática.
Em 2003 o Brasil caiu para o vergonhoso 37º lugar em compreensão de leitura
com estudantes na faixa dos 15 anos. Em 2001, o país ocupava
o 32º lugar! Temos atualmente um tipo de leitor analfabeto
que não consegue compreender as notícias escritas e artigos
simples como esse que você está lendo. Carlos H. Cony freqüentemente
recebe e-mails indignados de leitores que não entenderam o
que ele escreve, “ no fundo, eles nada entendem realmente de
nada”,
desabafa.
Mais de 70% da população do Brasil não lê jornais nem revistas e
o restante (30%) varia muito no grau de compreensão de texto.
Enquanto que a Alemanha têm um índice anual de leitura de 25
livros por habitante, o Brasil têm apenas 2 livros por
habitante. Fora os didáticos, o índice per
capita por ano, no Brasil, cai ainda mais, ou seja, é de
0,9 livros por pessoa. Estima que mais de 70% dos brasileiros
nunca foram a uma biblioteca.
Reflexo dessa situação difícil afeta também os professores; 60
% dos professores brasileiros não têm habito de ler .
Em 2001, um estudo divulgado pela Confederação Nacional dos
Trabalhadores em Educação (CNTE), 41% dos docentes afirmaram
ler ao menos um livro por mês, 34% deles eventualmente lêem
e 25% não responderam ou não costumam ler.
Os motivos apontados são: baixo poder aquisitivo dos
professores, preços elevados dos livros, falta de tempo e
simplesmente falta de interesse para ler.
Há
quem culpe as escolas públicas e particulares que não sabem
levar os alunos a experimentar o prazer da leitura. Os
professores, por sua vez, culpam os pais da nova geração que
não têm o hábito de ler para os filhos, como faziam alguns,
antigamente. Há ainda o lamentável fato de um grande número
de escolas sem biblioteca própria. E há, ainda, as escolas
que apesar de valorizarem leitura, carecem de metodologias
adequadas para trabalhar este aspecto da subjetividade humana.
Como foi apontado acima, no fundo, o professore em geral
tendem ao descompromisso com a leitura para além dos livros técnicos
ou didáticos – ou dos livros obrigatórios -, por uma falha
das políticas educacionais do governo. Medidas simples, mesmo
locais, poderiam ser tomadas para corrigir essa de-formação
dos professores.
Os
ambientes – escola e lar - sem livros e sem alguém como
modelo de inspiração inviabiliza o desenvolvimento de hábitos
saudáveis. É sabido que o professor e a mãe são as figuras
que mais influenciam o gosto pela leitura.
Se for verdade que “um ego se forma a partir de outro
ego”, as crianças que nunca viram os pais com um livro ou
jamais ouviram professores falando sobre seu interesse literário,
são radicalmente inibidas
na construção de vir a ser um bom
leitor. Ou seja, não existem “culpados” nessa história,
mas certamente há “responsáveis” (ou irresponsáveis
institucionais), causando um irritante aumento no
analfabetismo cultural do brasileiro.
Cada
família poderia ser orientada a fazer sua parte. Assim como
é mais fácil ensinar a criança comer verduras a partir do
exemplo dos pais, o mesmo acontece com o hábito de ler. Ler
para os filhos antes de dormir estimula a curiosidade, solta a
imaginação e cria neles o hábito. Ler em sala de aula
produz o mesmo efeito. O problema é que hoje a escola anda tão
apostilada, os textos lidos já vem tão fragmentados que
boicota a possibilidade de se extrair prazer na leitura. Há
ainda o problema da realidade que vemos hoje ter sido antes
filtrada pela realidade televisiva, diz Postman.
Existem educadores que criticam a televisão por tomar o tempo
que poderia ser dedicado à leitura, e também por ela impedir
o desenvolvimento da imaginação. E, sem imaginação não é
possível ter pensamento, nem escrever. Mas, será mesmo que a
televisão e o computador boicotam a criança ler?
‘Mais bibliotecas públicas!” (um slogan que não se ouve)
Observamos nos últimos anos que alguns governos locais bem
intencionados se ocupam mais em construir creches e escolas,
porém, infelizmente faltam-lhes visão, ousadia e coragem de
fazer mudanças radicais na metodologia do ensino, cuja
valorização da língua portuguesa é imprescindível. Falta
investimento na cultura em geral, e as coitadas das
bibliotecas terminam sendo desprezadas em termos de prioridade
administrativa e visibilidade social.
As bibliotecas públicas, quando existem, são insuficientes para a
população. Crianças, adolescentes e adultas, lá buscam ler
não só livros, mas também revistas, jornais, procuram
emprego, informação sobre eventos, acontecimentos culturais
da cidade, etc. A maioria das bibliotecas sobrevive de doações
esporádicas; são profundamente carentes de livros, revistas,
periódicos, jornais, bem como boas condições físicas para
temos uma leitura com prazer. Existem bibliotecas
‘modernas’ ainda sendo construídas sem rampa de acesso
para deficientes físicos, sem livros escritos em braile para
os deficientes visuais, entre outros.
Mesmo na região Sul do país, as bibliotecas públicas
não são vistas com seriedade ou prioridade pelos governantes
locais.
Eles pensam que livros, jornais, revistas, fitas de vídeo,
dvd, são “gastos” desnecessários; não enxergam como
“investimento” de informação e de conhecimento. E, ainda
ousam discursar sobre ‘cidadania’...
Os livros e revistas são artigos caros no Brasil.
Na contramão da falta de dinheiro ou de recursos públicos,
uma nova geração de sebos
vem se instalando nas cidades do interior, contribuindo
sobremaneira para
democratizar o acesso aos livros, revistas, discos, cds, etc.
Trata-se de um negócio, mas um negócio que muito contribui
para melhorar a cultura literária de qualquer cidade.
Uma
medida de governo certamente poderia elevaria o nível
cultural de uma cidade ou região: a
cada igreja autorizada a funcionar a prefeitura se obrigaria a
criar mais uma nova biblioteca pública. Há
que se fazer muito para reverter esse vergonhoso 37º lugar em
compreensão de leitura do Brasil.
Lutar pelo ensino público, gratuito e de qualidade é também
exigir que os governantes e a sociedade civil implementem políticas
educativas que incentivem à leitura da população. Os
pais, por sua vez, precisam lutar permanentemente pela
melhoria da nossa escola - pública e privada, pois esta última,
nesse aspecto, não é diferente da primeira. Para
transformarmos o aluno em pesquisador
– no sentido amplo da palavra – e um bom cidadão,
essas condições são imprescindíveis.
Azanha, J.M.P. 1995 : 93. [O
Prof. José Mário Pires Azanha, da FEUSP e do Conselho
Estadual de Educação de São Paulo,
faleceu em 09/jan/2004. Ao Prof. Azanha, que
dedicou toda sua vida à causa da educação pública,
gratuita e de qualidade, dedicamos esse artigo].
Algumas universidades, como a Universidade Estadual
de Londrina, estão adotando um sistema de provas que
exige que o candidato seja “um leitor competente”, que
saiba compreender primeiro o sentido de cada questão para
saber respondê-la com segurança. Isto é prioridade, por
exemplo, nas provas de Filosofia da UEL, declarou o Prof.
Dr. Elve Miguel Cenci, em mesa-redonda na III Semana de
Filosofia da UEM, em 26/11/03.
Folha de S.Paulo, 31/03/2002.
Instituto Paulo Montenegro, citado p/ revista Educação/
artigo de MILANI, A., ano 07, n. 77, set/2003
Medidas simples como: deixar os livreiros locais fazerem
exposições ou feiras de livros em frente ou dentro dos
colégios e universidade; fazer parcerias proporcionando
descontos em livros e revistas, promover eventos de
valorização do livro e dos escritores. O secretário da
Educação de São Paulo, Gabriel Challita, têm sido
inventivo em aproximar o professor da leitura de revistas
culturais e jornais, pelo menos durante o mês do dia do
Professor (ver nota da revista Educação, ano 07, n. 77,
set/2003)
Instituto Paulo Montenegro, citado revista Educação/03,
op. cit.
Conversando por e-mail com a Profa. Eva Paulino Bueno,
também colunista desta revista, ela me retornou com uma
interessante observação: a leitura é um ato anti-social
e necessariamente silencioso. Ora, os jovens sempre foram
mais propensos aos encontros de turma do que ao encontro
com os personagens de uma ficção escrita num livro. Também,
nossa época, tudo parece tão acelerado e sem tempo, como
querendo boicotar os espaços e momentos de silêncio
necessários para a leitura. Parece estar mesmo difícil
levar os jovens (e adultos também) a desenvolver sua própria
demanda pela leitura.
Kanitz, S. rev. Veja, 14/05/2003.
Sai mais barato imprimir um livro em Roma e vendê-lo no
Brasil por R$ 2,00 (dois reais), do que imprimir nas
nossas gráficas-editoras, saindo nas livrarias por cerca
de R$10,00. Tomo por referencia a coleção Clássicos
Econômicos Newton, da Newton Compton Editorial (Roma, Itália),
fazendo parceria com jornais do Brasil, publicou
Nietzsche, Baudelaire, Lobato,
Wilde, etc. Vale a pena comparar.
Uma cidade tão jovem, moderna, arborizada e com muitos
edifícios, como Maringá, Pr, de 300 mil habitantes, e têm
cerca de 500 igrejas de todas as denominações e apenas
cinco bibliotecas públicas que pertencem a Prefeitura
Municipal (4
distribuídas nos bairro e a Biblioteca Central que sempre
ocupou um prédio completamente inadequado para essa
finalidade). Existe ainda uma grande biblioteca que fica
no campus da
Universidade Estadual. Trata-se de uma cidade situada no
interior do Paraná, de espírito agro-industrial, que
recentemente também vem tomando gosto pela vocação
universitária, tendo em vista o crescente número de
estudantes que vem para a cidade estudar. Provavelmente, o
reflexo do espírito ignorante que ainda atravessa o
Brasil, onde os pesquisadores não são reconhecidos como
importantes para o desenvolvimento do país, onde ainda um
professor gasta metade de seu tendo de aula para explicar
aos alunos a importância de se fazer pesquisa (conferir
livro de Oliveira, 1985), também é difícil aos
governantes locais – inclusive da esquerda petista –
investirem nas bibliotecas públicas. Mal comparando, uma
cidade norte-americana, Phillips
Exeter, com cerca de
30.000 habitantes, no desconhecido Estado de New
Hampshire, têm uma biblioteca numa de suas escolas, de
nove andares, com mais de 145.000 obras. A Biblioteca Mário
de Andrade, da cidade de São Paulo, tem 350.000. A
bibliotecária americana ganhava mais do que alguns dos
professores, ao contrário do que ocorre no Brasil, o que
demonstra o enorme valor que se dá às bibliotecas nos
Estados Unidos. (Kanitz, S. rev. Veja, 14/05/2003).
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Referências bibliográficas
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