Por RAYMUNDO DE LIMA
Psicanalista, Professor do Departamento de Fundamentos da Educação (UEM) e doutorando na Faculdade de Educação (USP)

 

A in-compreensão da leitura

 “...é preciso que a escola amplie os seus objetivos e tente ir além das rotinas tradicionais de ensino, incorporando atividades (como a leitura, por exemplo) que fora da escola, no seu próprio ambiente familiar, a criança não terá oportunidade de praticar” (J.M.P.Azanha)[1] .

“É melhor ler do que estudar”, diz com freqüência o escritor Ziraldo. Evidentemente que o ato de estudar é imprescindível para a aprendizagem, mas o interesse de ler e compreender certamente vem em primeiro lugar. Ler, além de ser uma conquista de melhoramento do sujeito, também deveria ser um ato de prazer e não de imposição ou de obrigação.

Com as transformações que a sociedade globalizada está sofrendo, não basta saber mais ou menos ler, e mal assinar o nome. É preciso ser um “bom leitor”, isto é, ser alguém que gosta e faz da leitura um compromisso diário de informação e conhecimento. Não basta tapear saber ler e escrever. É preciso, sobretudo, compreender o que é lido, e se possível também dominar outras línguas, como é o caso do inglês e da informática[2].

Em 2003 o Brasil caiu para o vergonhoso 37º lugar em compreensão de leitura com estudantes na faixa dos 15 anos. Em 2001, o país ocupava o 32º lugar! Temos atualmente um tipo de leitor analfabeto que não consegue compreender as notícias escritas e artigos simples como esse que você está lendo. Carlos H. Cony freqüentemente recebe e-mails indignados de leitores que não entenderam o que ele escreve, “ no fundo, eles nada entendem realmente de nada”[3], desabafa.

Mais de 70% da população do Brasil não lê jornais nem revistas e o restante (30%) varia muito no grau de compreensão de texto[4]. Enquanto que a Alemanha têm um índice anual de leitura de 25 livros por habitante, o Brasil têm apenas 2 livros por habitante. Fora os didáticos, o índice per capita por ano, no Brasil, cai ainda mais, ou seja, é de 0,9 livros por pessoa. Estima que mais de 70% dos brasileiros nunca foram a uma biblioteca.

Reflexo dessa situação difícil afeta também os professores; 60 % dos professores brasileiros não têm habito de ler [5]. Em 2001, um estudo divulgado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), 41% dos docentes afirmaram ler ao menos um livro por mês, 34% deles eventualmente lêem e 25% não responderam ou não costumam ler[6]. Os motivos apontados são: baixo poder aquisitivo dos professores, preços elevados dos livros, falta de tempo e simplesmente falta de interesse para ler. 

Há quem culpe as escolas públicas e particulares que não sabem levar os alunos a experimentar o prazer da leitura. Os professores, por sua vez, culpam os pais da nova geração que não têm o hábito de ler para os filhos, como faziam alguns, antigamente. Há ainda o lamentável fato de um grande número de escolas sem biblioteca própria. E há, ainda, as escolas que apesar de valorizarem leitura, carecem de metodologias adequadas para trabalhar este aspecto da subjetividade humana. Como foi apontado acima, no fundo, o professore em geral tendem ao descompromisso com a leitura para além dos livros técnicos ou didáticos – ou dos livros obrigatórios -, por uma falha das políticas educacionais do governo. Medidas simples, mesmo locais, poderiam ser tomadas para corrigir essa de-formação dos professores[7].   

Os ambientes – escola e lar - sem livros e sem alguém como modelo de inspiração inviabiliza o desenvolvimento de hábitos saudáveis. É sabido que o professor e a mãe são as figuras que mais influenciam o gosto pela leitura[8]. Se for verdade que “um ego se forma a partir de outro ego”, as crianças que nunca viram os pais com um livro ou jamais ouviram professores falando sobre seu interesse literário, são radicalmente inibidas na construção de vir a ser um bom leitor. Ou seja, não existem “culpados” nessa história, mas certamente há “responsáveis” (ou irresponsáveis institucionais), causando um irritante aumento no analfabetismo cultural do brasileiro. 

Cada família poderia ser orientada a fazer sua parte. Assim como é mais fácil ensinar a criança comer verduras a partir do exemplo dos pais, o mesmo acontece com o hábito de ler. Ler para os filhos antes de dormir estimula a curiosidade, solta a imaginação e cria neles o hábito. Ler em sala de aula produz o mesmo efeito. O problema é que hoje a escola anda tão apostilada, os textos lidos já vem tão fragmentados que boicota a possibilidade de se extrair prazer na leitura. Há ainda o problema da realidade que vemos hoje ter sido antes filtrada pela realidade televisiva, diz Postman[9]. Existem educadores que criticam a televisão por tomar o tempo que poderia ser dedicado à leitura, e também por ela impedir o desenvolvimento da imaginação. E, sem imaginação não é possível ter pensamento, nem escrever. Mas, será mesmo que a televisão e o computador boicotam a criança ler?[10]

 ‘Mais bibliotecas públicas!” (um slogan que não se ouve)

Observamos nos últimos anos que alguns governos locais bem intencionados se ocupam mais em construir creches e escolas, porém, infelizmente faltam-lhes visão, ousadia e coragem de fazer mudanças radicais na metodologia do ensino, cuja valorização da língua portuguesa é imprescindível. Falta investimento na cultura em geral, e as coitadas das bibliotecas terminam sendo desprezadas em termos de prioridade administrativa e visibilidade social.

As bibliotecas públicas, quando existem, são insuficientes para a população. Crianças, adolescentes e adultas, lá buscam ler não só livros, mas também revistas, jornais, procuram emprego, informação sobre eventos, acontecimentos culturais da cidade, etc. A maioria das bibliotecas sobrevive de doações esporádicas; são profundamente carentes de livros, revistas, periódicos, jornais, bem como boas condições físicas para temos uma leitura com prazer. Existem bibliotecas ‘modernas’ ainda sendo construídas sem rampa de acesso para deficientes físicos, sem livros escritos em braile para os deficientes visuais, entre outros.  Mesmo na região Sul do país, as bibliotecas públicas não são vistas com seriedade ou prioridade pelos governantes locais[11]. Eles pensam que livros, jornais, revistas, fitas de vídeo, dvd, são “gastos” desnecessários; não enxergam como “investimento” de informação e de conhecimento. E, ainda ousam discursar sobre ‘cidadania’...

Os livros e revistas são artigos caros no Brasil[12]. Na contramão da falta de dinheiro ou de recursos públicos, uma nova geração de sebos vem se instalando nas cidades do interior, contribuindo sobremaneira  para democratizar o acesso aos livros, revistas, discos, cds, etc. Trata-se de um negócio, mas um negócio que muito contribui para melhorar a cultura literária de qualquer cidade.  

Uma medida de governo certamente poderia elevaria o nível cultural de uma cidade ou região: a cada igreja autorizada a funcionar a prefeitura se obrigaria a criar mais uma nova biblioteca pública[13].  Há que se fazer muito para reverter esse vergonhoso 37º lugar em compreensão de leitura do Brasil.

Lutar pelo ensino público, gratuito e de qualidade é também exigir que os governantes e a sociedade civil implementem políticas educativas que incentivem à leitura da população.  Os pais, por sua vez, precisam lutar permanentemente pela melhoria da nossa escola - pública e privada, pois esta última, nesse aspecto, não é diferente da primeira. Para transformarmos o aluno em pesquisador – no sentido amplo da palavra – e um bom cidadão, essas condições são imprescindíveis.


[1]  Azanha, J.M.P. 1995 : 93. [O Prof. José Mário Pires Azanha, da FEUSP e do Conselho Estadual de Educação de São Paulo,  faleceu em 09/jan/2004. Ao Prof. Azanha, que dedicou toda sua vida à causa da educação pública, gratuita e de qualidade, dedicamos esse artigo].

[2]  Algumas universidades, como a Universidade Estadual de Londrina, estão adotando um sistema de provas que exige que o candidato seja “um leitor competente”, que saiba compreender primeiro o sentido de cada questão para saber respondê-la com segurança. Isto é prioridade, por exemplo, nas provas de Filosofia da UEL, declarou o Prof. Dr. Elve Miguel Cenci, em mesa-redonda na III Semana de Filosofia da UEM, em 26/11/03.

[3] Folha de S.Paulo, 31/03/2002.

[4] Veja, 30/04/03, p. 33.

[6] Instituto Paulo Montenegro, citado p/ revista Educação/ artigo de MILANI, A., ano 07, n. 77, set/2003

[7] Medidas simples como: deixar os livreiros locais fazerem exposições ou feiras de livros em frente ou dentro dos colégios e universidade; fazer parcerias proporcionando descontos em livros e revistas, promover eventos de valorização do livro e dos escritores. O secretário da Educação de São Paulo, Gabriel Challita, têm sido inventivo em aproximar o professor da leitura de revistas culturais e jornais, pelo menos durante o mês do dia do Professor (ver nota da revista Educação, ano 07, n. 77, set/2003)

[8] Instituto Paulo Montenegro, citado revista Educação/03, op. cit.

[9] Postman, N., 1994.

[10] Conversando por e-mail com a Profa. Eva Paulino Bueno, também colunista desta revista, ela me retornou com uma interessante observação: a leitura é um ato anti-social e necessariamente silencioso. Ora, os jovens sempre foram mais propensos aos encontros de turma do que ao encontro com os personagens de uma ficção escrita num livro. Também, nossa época, tudo parece tão acelerado e sem tempo, como querendo boicotar os espaços e momentos de silêncio necessários para a leitura. Parece estar mesmo difícil levar os jovens (e adultos também) a desenvolver sua própria demanda pela leitura.

[11] Kanitz, S. rev. Veja, 14/05/2003.

[12] Sai mais barato imprimir um livro em Roma e vendê-lo no Brasil por R$ 2,00 (dois reais), do que imprimir nas nossas gráficas-editoras, saindo nas livrarias por cerca de R$10,00. Tomo por referencia a coleção Clássicos Econômicos Newton, da Newton Compton Editorial (Roma, Itália), fazendo parceria com jornais do Brasil, publicou Nietzsche, Baudelaire, Lobato,  Wilde, etc. Vale a pena comparar.  

[13] Uma cidade tão jovem, moderna, arborizada e com muitos edifícios, como Maringá, Pr, de 300 mil habitantes, e têm cerca de 500 igrejas de todas as denominações e apenas cinco bibliotecas públicas que pertencem a Prefeitura Municipal  (4 distribuídas nos bairro e a Biblioteca Central que sempre ocupou um prédio completamente inadequado para essa finalidade). Existe ainda uma grande biblioteca que fica no campus da Universidade Estadual. Trata-se de uma cidade situada no interior do Paraná, de espírito agro-industrial, que recentemente também vem tomando gosto pela vocação universitária, tendo em vista o crescente número de estudantes que vem para a cidade estudar. Provavelmente, o reflexo do espírito ignorante que ainda atravessa o Brasil, onde os pesquisadores não são reconhecidos como importantes para o desenvolvimento do país, onde ainda um professor gasta metade de seu tendo de aula para explicar aos alunos a importância de se fazer pesquisa (conferir livro de Oliveira, 1985), também é difícil aos governantes locais – inclusive da esquerda petista – investirem nas bibliotecas públicas. Mal comparando, uma cidade norte-americana, Phillips Exeter, com cerca de  30.000 habitantes, no desconhecido Estado de New Hampshire, têm uma biblioteca numa de suas escolas, de nove andares, com mais de 145.000 obras. A Biblioteca Mário de Andrade, da cidade de São Paulo, tem 350.000. A bibliotecária americana ganhava mais do que alguns dos professores, ao contrário do que ocorre no Brasil, o que demonstra o enorme valor que se dá às bibliotecas nos Estados Unidos. (Kanitz, S. rev. Veja, 14/05/2003).

 

 

Referências bibliográficas

ASSIS BRASIL, L. A. Vamos escrever. Rev. Mundo Jovem, nov/98.

AZANHA, J.M.P. Educação: temas polêmicos. São Paulo: M. Fontes, 1995.

BUENO, E. P. Entrevista por e-mail. Nov/2003. [Ver seus artigos in: Revista Espaço Acadêmico]

CALVINO, I. Por quê ler os clássicos? São Paulo: C. Letras, 1995.

CONY, C. H. Ler e entender. FSP, 31/03/2002.

DIMENSTEIN, G. & ALVES, R. Fomos maus alunos. Campinas: Papirus, 2003.

DOWNING, J. A influência da escola na aprendizagem da leitura. In: Os processos de leitura e escrita: novas perspectivas. P. Alegre: Artes Médicas, 1987.

DUBET, F. Quando o sociólogo quer saber o que é ser professor. In: Revista Brasileira de Educação, n. 5-6, 1997, p. 222-31.

FERREIRO, E. Os processos de leitura e escrita: novas perspectivas. P. Alegre: Artes Médicas, 1987.

GOODMAN, K. O processo de leitura: consideração a respeito das línguas e do desenvolvimento. In: Os processos de leitura e escrita: novas perspectivas. P. Alegre: Artes Médicas, 1987.

MILANI, A. Por que professor não gosta de ler? Revista Educação, Ano 07, n. 77, set/2003.

MONTEIRO, Zery. Entrevista com bibliotecária. Maringá: outubro/ 2003.

OLIVEIRA, J.B. Ilhas de competência: carreiras científicas no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1985.

POSTMAN, N. Tecnopólio. São Paulo: Nobel, 1994.

PRAXEDES, W. A compulsão pela leitura. Revista Espaço Acadêmico, nº 30 , de novembro/2003.

TREVISAN, A. Ouvir, ler e escrever. Rev. Mundo Jovem. jun/2002 : 20.  

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