Por EDELYN SCHWEIDSON

Mestre e Doutora em Psicologia Clínica pela New School for Social Sciences, New York. Pós-doutora em pesquisa científica pelo CNPq:pesquisa-ação (intervenção terapêutica) num trabalho com meninos de rua do Rio de Janeiro e suas narrativas ficcionais. Formação psicanalítica realizada em parte no William Alanson White em Nova Iorque e parte na SPID (Sociedade Psicanalítica Iracy Doyle), no Rio de Janeiro. Autora de textos sobre a psicanálise e o pensamento de Walter Benjamin, sobre o testemunhar de vítimas de traumas, sobre inscrições traumáticas e a obra de Primo Levi, publicados em revistas psicanalíticas nacionais e internacionais. Membro do Amigos Brasileiros do Paz Agora.

 

Tariq Ali e suas platéias

 

Dois de novembro de 2003. Tariq Ali, escritor paquistanês, autor de Confronto de Fundamentalismos e de Bush na Babilônia: A Recolonização do Iraque, apresentado como historiador, fez uma palestra para mais de 600 psicanalistas de várias nacionalidades e instituições reunidos no Rio por ocasião do II Encontro Mundial dos Estados Gerais da Psicanálise.

De imediato, conquista a platéia ao pleitear sua indulgência, declarando ser a primeira vez que se dirige a psicanalistas. Diz que abordará alguns conceitos, como o do fundamentalismo na sua relação com o fanatismo, palavra de origem religiosa, por derivar do grego antigo templo. Cita Rousseau, para quem, segundo ele, um certo grau de fanatismo seria indispensável para a ação[1]. A seguir, explica que a palavra “fanatismo” indicaria a atitude de se fazer o que fosse, em nome da própria fé. Mais tarde, teria surgido a palavra “fundamentalismo”, de origem cristã. Segundo o palestrante, esta palavra não existe em árabe e teria surgido quando os protestantes se separaram do catolicismo durante as guerras da Reforma. A origem dos Estados Unidos estaria nesse fundamentalismo, reivindicado pelos protestantes que lá aportaram após fugirem da Inglaterra para ocupar país alheio. Apesar de a constituição americana ser inteiramente secular, uma forte corrente de fundamentalismo protestante permaneceu na cultura.

A historiadora Sônia Ramagem (correspondência pessoal) comenta que, já de início, Ali demonstra sua inépcia como historiador pelo desconhecimento de um elemento histórico simplíssimo: o termo “fundamentalismo” foi criado em 1912, nos EUA a partir de um texto escrito para os batistas e outros grupos evangélicos. Por acharem que o cristianismo estava sendo deturpado, um grupo de milionários encomendou a intelectuais cristãos a tarefa de determinar os fundamentos da fé cristã que consideravam corretos. Só recentemente, quando os iranianos invadiram a embaixada dos EUA em Teerã, é que o termo passou a ser utilizado pela imprensa em seu sentido atual.

Prosseguindo, Ali diz que estará revertendo o modo habitual de se discutir o fundamentalismo ao mostrá-lo oriundo do cristianismo e atuante no país mais poderoso dos nossos dias. Ridiculariza os americanos por sua religiosidade, citando estatísticas que mostram que 90% dos americanos crê na divindade, enquanto que 70% em anjos; a seu ver seria mais progressista se fosse o contrário, 90% acreditando em anjos e 70% na divindade. O público ri muito, já cúmplice de Ali no juntos investirmos contra os americanos, prato cheio para o ridículo. Seligmann (correspondência particular) aponta para “... a contradição na estratégia discursiva de Tariq Ali: por uma lado ele valoriza o fanatismo/fundamentalismo e, por outro, acusa os americanos de fundamentalistas. Esta estratégia (?) de pensamento pode ser interpretada tanto como uma falta de clareza por parte do orador, como também como um método de destruir conceitos e apagar fronteiras: típico de um pensamento conservador que pretende, por exemplo, como é o caso de Tariq Ali, fundir judeus e nazistas em uma mesma imagem.”

A cumplicidade entre platéia e orador parece basear-se em comprovarmos juntos que os poderosos só se sustentam como objeto de um riso contagioso que nos irmana ludicamente contra eles.

Assim como o terceiro estado que saiu vitorioso dos embates contra tiranias, representaríamos nos Estados Gerais essa crítica ao status quo; daí que o convite a Tariq Ali para que fosse orador talvez se deva a ter ele se tornado um ícone do movimento anti-globalização na sua proposta de criticar e corrigir as injustiças do mundo e, em conseqüência, possível chamariz para grandes platéias.

Boa parte dos psicanalistas quer contribuir para um mundo melhor e, talvez uma certa ingenuidade diante dos “poderosos” da mídia, de “estrelas” de platéia garantida, dificulte-lhes uma análise crítica de discursos dessa natureza. A isso soma-se o fato de TA não ter procurado uma interlocução com a psicanálise, a qual, com a maior tranqüilidade, demonstrou desconhecer pelo uso errôneo de seus conceitos (por exemplo, o de transferência). Essa atitude de flagrante desinteresse pela psicanálise parecia transmitir que os psicanalistas só teriam a aprender com as novas do mundo “real” que, como “expert” ele traria, e com seus conselhos de como politizarem a psicanálise a fim de lutar contra as injustiças. Ele nada teria a aprender.

Ali diz que pela primeira vez na história, os Estados Unidos têm um presidente que é fundamentalista e um ministro da justiça fundamentalista também, e relata episódios cômicos sobre esses personagens. A platéia ri e Ali faz como se limpasse um pigarro, em contraponto. Ele repetirá esse “sinal” através da palestra, como uma “ancoragem” para o riso que provoca. Em seguida, critica o subsecretário americano da inteligência para a defesa, que teria dito que seu Deus cristão sempre triunfará sobre Alá e que a religião islâmica é adoradora de ídolos. Comenta o Islã ser notoriamente hostil a ídolos, e absurdo o desconhecimento desse general, afinal um representante do único império dos dias atuais. Diz que é a isto que chama de fundamentalismo – fonte de todos os demais fundamentalismos, sob o controle de pessoas desse naipe, com essa combinação de poder militar, poder econômico e essa crença particular. (A meu ver, nada dissera até então sobre o fundamentalismo).

Já carregava numa risada frouxa a todos. Do meu ângulo de visão, pareceu-me que essa risada geral nos unia e ao orador. Seria a combinação do rir-se dos poderosos, a expectativa criada pelos próprios Estados Gerais, onde a palavra de ordem é a análise crítica do social e a perspectiva de conseguirmos juntos mudar o estado atual das coisas, o que levava o orador a exercer esse poder de sedução sobre a platéia? Talvez também influísse a reversão das expectativas pois, ao invés de um discurso teórico árido e conceitual, encontrava-se o talento literário de Ali a possibilitar esse desfazer lúdico de personagens pomposos. A sua fala agia sobre a platéia transformando-a em terceiro estado e promovendo através desse novo estado de espírito a vitória sobre as tiranias atuais.

Ramagem comenta que Ali demonstrou mais uma vez seu desconhecimento acadêmico de historiador suposto, ao dizer que os EUA são fundamentalistas. Ao fazê-lo, ele se esquiva da constituição multi-cultural dos EUA, em termos étnicos, lingüísticos e religiosos. Não lhe interessa mencionar que um juiz de uma suprema corte estadual teve que tirar do prédio da corte os Dez Mandamentos, por ordem da justiça, por infringir a separação entre religião e Estado.

Ali a seguir fala da grande concentração de pessoas num estádio em Nova Iorque, duas semanas depois do 11/9, da qual participaram o presidente, the big thinker himself (risadas) e o reverendo Billy Graham, grande pensador e pregador evangélico, (mais risadas), que, dirigindo-se ao público para prantear as vítimas, teria dito que, de todo o país, perguntavam-lhe por que Deus permitira que fizessem isso com eles, e confessando que não sabe o porquê. A platéia riu, talvez expressando a cumplicidade de conhecermos a resposta: ao contrário do que faz supor a resposta de Graham, a “inocência” do Império atacado, nós saberíamos que este não é inocente nem seriam inocentes os que nele se encontravam, as vítimas do ataque.

Ao referir-se a essa reunião num estádio, Ali qualifica 11/9 de tragédia. Mas feita a continência ao luto, passa a obscenamente ridicularizar a situação, com o efeito de dissipar a tragédia no riso geral. Além de expor a ignorância e arrogância dos poderosos (o famoso reverendo não sabe por que Deus permitiu que isso acontecesse), de novo Ali arma com a platéia uma cumplicidade no saber (ao não formular a resposta, cria a ilusão de que esta é inevitável e que não foi ele a sugeri-la) que 11/9 foi conseqüência das faltas do Império. Os que morreram não podem ser considerados vítimas inocentes, parece sugerir Ali, e o sofrimento, porque castigo justo, pode ser apagado pelo riso. Zizek (2003) comenta que, do ponto de vista moral, as vítimas são inocentes e o ato terrorista de 11/9 um crime abominável, mas que essa inocência não é em si inocente. Isto porque no mundo capitalista, onde há uma ligação entre os países do primeiro mundo, como os Estados Unidos que financiam ditadores criminosos e misérias no terceiro mundo, além de adestrar para seu uso os que depois saem do seu controle e se tornam os terroristas que nos ameaçam, não se pode falar de “inocência”. Por outro lado, a pergunta do reverendo é imoral porque não se trata de dizer que o terror não deveria ter ocorrido nos Estados Unidos, mas sim que é um crime horrendo e não deveria ocorrer em nenhum lugar do mundo. Jacques Derrida, em 22 de dezembro de 2002, ao receber o prêmio Theodor Adorno, referiu-se aos ataques: “Minha compaixão incondicional dirigida às vítimas de 11 de setembro não evita que eu afirme em alto e bom som: com relação a esse crime, não acredito que alguém seja inocente” (in Zizek, 2003. p. 74). Ao se auto-relacionar, Derrida aponta para a implicação de todos nós nas questões do mundo, não podendo  inocentar-nos daquilo que ocorre. Não é o que sugere Tariq Ali através do efeito perverso do seu discurso, de provocar o riso diante do sofrimento: para ele, as vítimas são culpadas.

A seguir, Ali fala da necessidade de se pôr o fanatismo em perspectiva. Diz que devemos ter nossos fanáticos na psicanálise também, o que provoca risadas de reconhecimento, como se fôssemos pilhados em flagrante. (Aqui já somos não só cúmplices dos que percebem o fanatismo como mola necessária de qualquer ação como também fanáticos nós próprios). Introduz então o que denomina de tópico muito controverso: homens-bomba (suicide bombing) hoje. Comenta uma notícia de que homens-bomba mataram-se e a civis num café, e agrega que é horrível. E de um só fôlego, acrescenta: ”But to completely dissociate what the suicide bomber has done from the reality of the occupation, that is not permissible…”.[2] Ali mostra que conhece a arte da manipulação oratória, e o discurso de Marco Antonio vem à cabeça: “vim aqui para enterrar César, não para elogiá-lo...”, sim, os homens-bomba são horríveis, nós sabemos, mas... e aqui começa o elogio, não se pode dissociá-los inteiramente da ocupação. Este mas transforma as vítimas em ninguém. O que sobrevive a um mas?

Não teria sido um mas que deu origem ao revisionismo histórico que nega a existência dos campos de concentração e de extermínio? Seria análogo a se começar por dizer que os campos existiram mas que os culpados foram os judeus, de modo que, a responsabilidade cabendo às vítimas, elas passam a merecer o que sofreram. Deste raciocínio – os sofrimentos foram merecidos - ao de negar o escândalo do sofrimento inumano é um passo, e ele foi dado pelo revisionismo histórico, que concretizou essa negação ao afirmar que os campos de extermínio não teriam existido

Aliás, são sobretudo os poderosos os que usam o mas, porque é estratégia do poder fazer como se houvesse um respeito pela opinião do outro, para em seguida esmagá-la com um mas que inicia o verdadeiro intento do discurso.

Nós sabemos disto, é horrível. Quem é esse nós? Os que normatizam o fanatismo mero pecadilho encontrável até entre os psicanalistas, como Ali nos revela? Os que encontram motivo para riso num momento de luto em que se pranteava as vítimas do ataque terrorista de 11/9? Os que morreram, tornados invisíveis pelo riso, passam metonimicamente a ser tão risíveis quanto os que os pranteiam. Com essa manobra, Tariq nos fez rir a todos.

Continua: “... Recently a very moving article was written by a man called Avraham Burg, ...one of the founding fathers of Israel. A zionist…. ”I feel very ashamed of being an Israeli and a zionist because of what we are doing to the Palestinians… If you treat them like this, the way we treat them, when life is no longer worth living, why shouldn’t they go and kill themselves and take a few of us as well?”[3] (2003).

Avraham Burg é figura altamente respeitada e conhecida em Israel por sua devoção à causa da paz. Ele não é um dos “founding fathers of Israel” como Ali o qualifica: seu pai é que foi um dos fundadores de Israel, ao passo que ele é um homem jovem, que até um par de anos atrás era o presidente do parlamento israelense.

Mas há falsificações - e não só incorreções - de conseqüências graves no discurso de Ali. A luta pela paz é o que contextualiza o que diz Burg. Quando fala de sua vergonha pelas ações do atual governo israelense contra os palestinos, ele o faz a fim de chamar seus compatriotas a também se envergonharem dessas ações que afrontam os princípios sobre os quais o Estado de Israel foi erigido, e é na doação da sua dor e da sua vergonha em prol da paz que Burg fala. Trata-se de um ato político que tem como seu a priori a confiança necessária em seus interlocutores palestinos, correligionários na luta pela paz. A “citação” que faz Tariq Ali do discurso de Avraham Burg é apócrifa. Segundo Ali, Burg teria dito: “... if you treat them like this, they way we treat them, when life is no longer worth living, why shouldn’t they go and kill themselves and take a few of us as well?.”[4] Mas Burg não disse “... and take a few of us as well[5], adição não ingênua de Ali, e isso porque Burg nunca teria justificado a matança de inocentes: sua luta pela paz é ação política revolucionária e não pode ser instrumentalizada para justificar e encorajar o terrorismo, como Ali falsifica.

Onde havia  uma assunção de uma responsabilidade revolucionária para que se transformem as condições propiciadoras da violência, um confiar num movimento idêntico que viesse do seu interlocutor para que juntos enfrentassem os exploradores do desespero dos dois povos, Ali coloca a sua incitação à violência obscena. Os nossos dos quais Burg não fala mas sim Ali, não foram oferecidos em holocausto para serem estourados junto com os homens-bomba, como tenta fazer crer: Burg compreende o desespero que o inunda de dor e de vergonha como cidadão de Israel, mas não justifica o terrorismo que igualmente inunda de vergonha e dor os palestinos do campo pacifista. Tariq continua: “Now it was very important that this was said by a zionist leader in Israel, because if people like me say it they say you are encouraging terrorism…”[6]

E insiste: “That’s how the language has become debased, especially since 9/11, but even before that”.[7] Tariq Ali aqui avilta a língua para concretizar sua traição ao acordo pela paz. Enquanto Burg percebe seus interlocutores como formando com ele um novo nós a criar revolucionariamente as condições para a paz, superados os falsos antagonismos que os separam, Ali corrompe suas palavras para fundamentar seu direito a defender o terrorismo.

Deste modo Ali engambela: afinal, quantos da platéia conheceriam o discurso de Avraham Burg? Enquanto que Ali é estrela midiática, apresentado com historiador, tendo estudado em Oxford, redator em chefe (no passado ou ainda agora) de renomada revista de esquerda, a New Left Review, Avraham Burg não é conhecido em nosso país. Mas com certeza não foi nesta ocasião que Ali deu início à fabricação espúria de citações adulteradas para iludir seu público. No livro Confronto de Fundamentalismos (Ed. Record, 2002), há várias citações sem as referências bibliográficas necessárias. Por exemplo, às páginas 136-137 uma “citação” que Ali faz dos diários de Herzl aparece sem qualquer referência, com o objetivo de fazer crer que o criador do sionismo tinha objetivos deletérios para com os palestinos; no entanto, não encontrei nos diários de Herzl o que Ali diz ter de lá extraído. A maioria das “citações” entre aspas sem referência bibliográfica no mesmo livro vai na mesma direção: seriam de sionistas, membros do exército ou do governo de Israel, e revelariam intenções maléficas para com os palestinos. O que intriga é o fato desse desrespeito constante aos mínimos parâmetros da produção intelectual ser aparentemente ignorado pelas platéias de Ali. Estaríamos diante de um fenômeno de massa já nessa instância, onde a idealização de um personagem impede a análise crítica de sua obra? Tais citações espúrias não condizem com as insígnias de um historiador e sim com as de um propagandista, ou seja, alguém sem nenhum compromisso com a verdade histórica. Seria esperável uma recepção menos ingênua por parte de psicanalistas, mas teria aí também atuado o jogo das “idealizações”?

Em relação ao discurso de Burg, portanto, o palestrante usou a técnica de atribuir ao adversário a defesa de sua posição, para isso não hesitando em adulterar-lhe as palavras. De libelo pela paz, Ali delas fez armas de guerra.

Avraham Burg pertence ao grupo que durante três anos preparou em sigilo o acordo de Genebra, do qual participam israelenses e palestinos dedicados conjuntamente ao trabalho pela paz, desenvolvendo a aptidão de olhar nos olhos do adversário, que dessa maneira e pouco a pouco se transforma em interlocutor. Muitas desconfianças foram enfrentadas, estereótipos, ódios e, como escreve Amos Oz (2003), trata-se de um divórcio depois de um casamento de muitos anos, onde difíceis concessões recíprocas têm que ser feitas. Deste acordo participam palestinos que estiveram reclusos em prisões israelenses e israelenses profundamente sionistas (como o próprio Avraham Burg), todos lutando palmo a palmo pela paz, sobressaltados por súbitos duplos sentidos talvez em grande parte inconscientes, como quando um israelense dirige-se a um palestino perguntando-lhe: “posso deter-te por um momento?” (pedindo um aparte), ou um palestino vocifera: “neste ponto eu vou fazer explodir a reunião” (sugerindo sub-dividir a pauta). Oz escreve que ao contrário dos que lutam pela paz, enfrentando conflitos a cada passo, os extremistas de ambos os lados estão unidos, irmanados contra a paz pelo mesmo fanatismo que Tariq Ali advoga.

Ali faz irromper o riso para evitar que se perceba seu intento, a violência que ele banaliza, enquanto que, no trabalho árduo pela paz, irrompem o susto e a desconfiança, porque há dores por perdas nunca banalizáveis que separam os dois povos, embora os sofrimentos por essas perdas sejam comuns a ambos. Para que cesse a violência, será preciso interromper a escalada do terror que o fanatismo provoca e mantém através dos atos performáticos que, segundo Zizek (2003), se opõem a ações políticas conseqüentes que visem mudar a própria definição dos conflitos.

Para Zizek, uma “paixão pelo real” estaria na origem tanto dos atos revolucionários do século passado quanto do terrorismo com suas ações espetaculares, que encobrem os reais antagonismos na base dos conflitos. Zizek correlaciona o terrorismo  com a má paixão pelo real, cujo motor está na idéia de que “... a única experiência potente é a experiência de transgressão, seja na figura da violência política, da sexualidade sadomasoquista, etc... [O terrorismo] é o resultado de uma paixão daqueles que afirmam: “Vamos agir brutalmente”, mas seu efeito final é o de um grande espetáculo explosivo que nos fascina...” (2003, p. 5). Nessa paixão negativa, entraria o aspecto batalliano de transgressão, de experiência extrema e de estetização da violência. Já a paixão positiva pelo real, para Zizek, envolveria a noção lacaniana de “real”, em que a referência é a de uma limitação no simbólico, “uma impossibilidade lógica que marca um antagonismo irredutível...” (2003, p. 5).

O ato político revolucionário, que decorre da paixão positiva pelo real e que Zizek exemplifica com Lênin, é aquele “...que indica o ponto de inconsistência do sistema social, e através disso ele pode mudar as próprias coordenadas do sistema...” (idem); na paixão negativa pelo real, ao contrário, ocultar-se-iam, através do espetáculo, os verdadeiros antagonismos, onde pulsões mortíferas repetiriam a escalada da destruição afastando-se cada vez mais de uma possível redefinição das coordenadas situacionais.

A proposta de Tariq Ali parece esgotar-se nesse terror-espetáculo a que ele incita ao demonizar o Ocidente em clima de tantos risos, sem qualquer menção a um possível horizonte de paz. Na ausência desta menção encontra-se sua tática de cegar fascinando com o espetáculo da violência, para que a sua platéia não perceba a inexistência de qualquer projeto que transcenda o espetáculo. Em entrevista ao programa Millenium do canal de televisão Globo News, Tariq Ali revela essa ausência de projetos na idealização que faz de Saddam Hussein, segundo ele alguém que permitia um bem viver a todos, desde que não se lhe fizesse oposição política. Como se na descrição de um cenário idílico, Ali comenta que se podia até namorar de mãos dadas, sem problemas. A idealização do ditador sanguinário mostra que é no passado que Tariq Ali haure forças para seu nacionalismo extremista, na ausência de qualquer perspectiva de um futuro que instaure um mundo mais justo. Tariq Ali diz desejar o fim da ocupação do Iraque e da Palestina, mas nada fala sobre um depois.

Já no trabalho pela paz realizado pelos que assinaram o acordo de Genebra encontra-se em minha opinião o melhor exemplo de ação revolucionária advinda de uma “paixão pelo real” positiva - no sentido que lhe dá  Zizek - que reformula as coordenadas do conflito e abre perspectivas de um real entendimento entre palestinos e israelenses. Esta ação revolucionária implica na percepção de que os antagonismos são de classe – e não entre os dois povos - e que os palestinos também estão sendo oprimidos nos países árabes cujos governos são financiados pelas grandes potências; este trabalho pela paz representa ademais uma luta pelo bem-estar e direitos dos dois povos e contra os que em cada lado ganham com o terrorismo e a violência (os que lucram fanatizando e financiando homens-bomba, ditadores como Saddam Hussein e ideólogos como Tariq Ali cuja retórica mistura e confunde o discurso de uma “esquerda” anti-globalizante - que mescla Estados Unidos, sionismo, Israel, judeus, como fetiches crescentemente indiferenciáveis – com o discurso de uma direita cuja intolerância ao multi-culturalismo e à diferença também se expressa por uma estetização da violência). Citando Zizek: “... a posição a ser adotada é aceitar a necessidade de lutar contra o terrorismo, mas redefinir e expandir os termos, de forma a incluir também (alguns) atos dos americanos e de outras potências ocidentais: a opção entre Bush e Bin Laden não é a nossa escolha: os dois são “Eles” contra Nós. O fato de o capitalismo global ser uma totalidade significa que ele é uma unidade dialética de si mesmo e de seu outro, das forças que resistem a ele por razões ideológicas “fundamentalistas”. (2003, p. 67).

Os antagonismos ocultados na “paixão negativa pelo real” que demanda a violência referem-se entre outros aos países árabes cujas classes dominantes querem evitar o confronto devido à exploração que exercem sobre o povo e sobretudo sobre os refugiados palestinos, instigados a um ódio crescente contra Israel, sionismo, judeus. Esses três significantes vêm sendo crescentemente confundidos por uma propaganda anti-semita que se nutre de velhos preconceitos onde o judeu é apresentado como a causa de todos os males (velhas teorias conspiratórias em ação, uso de antigos panfletos racistas como os Protocolos dos Sábios de Sião, versões cristãs e nazistas superpostas pregando a destruição dos judeus, etc.). Para isto se lança mão de um nacionalismo árabe extremado, em que a religião é usada para exacerbar seu potencial fascista[8] a fim de mobilizar o ódio e a destrutividade contra o que está fora, o inimigo extimo, o judeu historicamente recorrente. Este judeu historicamente recorrente, segundo Zizek, (2003), vem sido usado como o espectro fantasmal, a Coisa Real, para ocultar os antagonismos sociais e fazer crer que a totalidade social é um Todo orgânico (foi o que aconteceu no nazismo e está acontecendo nos países árabes dominados por governos dissolutos, que assim fomentam a crença em uma união ideal entre todos os árabes). Assim que de um lado temos a exploração do povo árabe por ditadores corruptos e do outro o terrorismo que mantém a barbárie dos estados de exceção, como no exemplo extremo de Guantânamo.

Ali ataca em seguida por um outro viés. Fala sobre coragem e consciência e exemplifica com a Venezuela, onde o povo é consciente do que Chávez tem feito em seu benefício apesar da televisão privatizada atacá-lo, e onde um jovem tocador de trombeta do exército recusou as ordens de tocar para um corrupto negociante local que os Estados Unidos, através de um golpe de estado, quiseram colocar na presidência do país. Seu ato de bravura o tornou intocável e ninguém o puniu.

A seguir, Ali discorre sobre a importância do humor em convulsões políticas e em situações sociais confusas. Exibe a foto-montagem de um menino iraquiano urinando  na cabeça de um soldado americano, o que provoca hilaridade na platéia. Fala da resistência de crianças: a fim de fazer crer que estavam sendo bem-vindos no Iraque, os oficiais do exército de ocupação davam-lhes chocolates para que posassem para as fotos apertando suas mãos e sorrindo. Mas, enquanto sorriam, as crianças diziam palavrões em árabe que os jornalistas ocidentais não compreendiam. Explica que as crianças fazem isso por sentirem a dor da ocupação muito mais do que seus pais. Do mesmo modo agiriam as crianças palestinas que atiram pedras nos soldados israelenses. Aqui, o apelo ao rousseaunismo, com a valorização das crianças como “bons selvagens” que agem “naturalmente”, atirando pedras, por exemplo, por serem guiadas por “instintos” e não pela “razão” (Sonia Ramagem), já anteriormente desvalorizada pelo orador.

Cita a seguir um “coronel israelense” que teria dito que se fossem forçados a ocupar as cidades e os campos de refugiados palestinos de novo, teriam que usar as mesmas táticas usadas pelos alemães no gueto de Varsóvia. Diz que nenhum jornal americano noticiou isto. E continua dizendo que “when people ask the question how come that people who were themselves tortured, massacred, killed, suffered during the II World War how they can behave like this to another people we have to say that’s why: they have learned too many bad things which you do as well from that particular experience.”[9]

Eis aí a identificação que ele começa a fazer entre Israel e o Terceiro Reich, considerada por Mark Strauss (2003) como a forma mais vil de revisionismo do Holocausto, pois carreia a mensagem de que a única “solução” para o conflito israelense-palestino está na destruição completa do Estado judaico. O “coronel judeu” citado, sem menção de seu nome nem de onde ou quando teria dito o que Ali “cita”, é utilizado nessa mesma direção, visando a identificação de Israel com a Alemanha nazista. Os judeus seriam os nazistas atuais e a limpeza étnica é mencionada no livro supra citado de Tariq Ali como proposta por Ben Gurion (novamente há aqui uma citação entre aspas sem referência bibliográfica e que, já então mais versada em Tariq Ali, penso coerentemente espúria) para os palestinos. Assim, para Ali, os judeus teriam aprendido com os nazistas a serem como eles, daí serem os nazistas atuais a oprimirem os palestinos, e, portanto, se justificaria eliminar o Estado de Israel, solução final para o problema.

Ali menciona Victor Klemperer, alemão judeu que sobreviveu à II Guerra por ser casado com uma alemã, o que lhe evitou a deportação para um campo de extermínio. Diz que para Klemperer, o pior da sua experiência num período de 12 anos, tinha sido a humilhação sofrida quando os judeus foram feitos cidadãos de segunda classe na Alemanha e forçados a usar a estrela amarela. Klemperer teria escrito que essa humilhação tinha sido o pior, pior do que ser preso ou ser levado para um campo de concentração, embora, “... o que poderia ter sido pior do que isto?...”, concede Tariq retoricamente. Continua: “... E quando você lê as descrições que Klemperer faz das humilhações que lhe foram infligidas... e aí você lê descrições do que sofrem os palestinos... como são tratados pelos soldados israelenses que os tratam como se fossem Untermensch, uma espécie subumana...” Segundo Ali, Klemperer escreveu que Hitler teria encontrado o conceito de um povo judeu, de uma nação judaica, como se os judeus fossem um grupo monolítico, todos pensando igual, na literatura sionista de Herzl. Porque antes disso, continua Ali supostamente citando Klemperer, a maioria dos judeus estava integrada em diferentes partes da Europa, sobretudo na Europa ocidental, e pensavam a si próprios como alemães, franceses, ou ingleses.

Ali pretende igualar os sofrimentos dos judeus durante o Terceiro Reich com os dos refugiados palestinos e, para isso, submete a História a todas as deturpações. Menciona os campos de concentração mas de modo a apagá-los do cenário (mera menção para não parecer dizer o que diz - que o pior sofrimento é o dos palestinos submetidos aos israelenses que identifica com os nazistas). Um dos seus objetivos não explicitados é o de negar a Israel o direito de existir, através da negação da necessidade que levou à sua existência (“Os judeus estavam muito bem na Europa”, diz o historiador Tariq Ali). Do modo como argumenta, além de não ter esse direito a existir, sua fundação representou um crime para com um outro povo. Num malabarismo, ao ocultar os campos de concentração e usar os palestinos como sendo os judeus de hoje, os que são ameaçados de limpeza étnica, Ali elimina a dimensão histórica, reduzindo o passado à sua presença nos dias de hoje, ao construir um cenário que o reproduz e ao mesmo tempo o esconde enquanto passado. Ao mencionar en passant os campos, sem de fato se referir a eles, Tariq Ali está fazendo o trabalho dos revisionistas que negam sua existência. Fazendo-o melhor do que eles, porque ao mencionar sem levar em conta, ao reduzir os piores sofrimentos àqueles narrados por Klemperer, que nada conheceu do horror do Holocausto, os campos são apagados da História. A fim de ainda mais reduzir as diferenças entre nazistas e judeus, em seguida Tariq Ali diz que os palestinos são tratados como Untermensch, usando a palavra alemã como estratagema para apagar ainda mais nos seus ouvintes a diferença entre os nazistas e os judeus. É esse o seu intuito: fazer crer que os israelenses seriam os nazistas, que os palestinos sofrem o que os judeus sofreram e que Israel não tem direito a existir.

Klemperer escreveu: “Herzl antes de tudo não visa jamais a opressão e ainda menos a destruição de povos estrangeiros, ele não defende em nenhum ponto essa idéia, que está na base de todas as atrocidades nazistas, da ‘eleição’ e da pretensão de domínio de uma raça ou de um povo diante do conjunto da humanidade inferior. Apenas pede a igualdade de direitos para um grupo de oprimidos, um espaço de dimensões modestas, um espaço seguro, para um grupo de seres maltratados e perseguidos. Ele só usa o adjetivo ‘subumano’ quando fala do tratamento subumano que é dado aos judeus da Galícia. [enquanto que Hitler se refere aos judeus como Untermensch]... Ao contrário de Hitler, ele não é um fanático... entre seus planos, apenas um foi desenvolvido em seus detalhes: é preciso criar um país para as massas dos judeus do leste que não foram emancipados, que se mantiveram como um povo e que estão sendo oprimidos...” (1996, p. 269). Isso, Tariq Ali não menciona: os judeus estavam sendo perseguidos e de há muito, de modo recorrente. Klemperer, como outros, quis assimilar-se. Assim pensavam evitar os sofrimentos que lhes traria a condição de judeus. Houve os que, como Freud que escreveu sobre a amargura de ser judeu (1985)[10], afirmaram seu pertencimento. Não foi Herzl quem influenciou Hitler, mas é esta mensagem sibilina e absurda que Tariq Ali quer passar, dos sionistas como sendo a raiz do nazismo, para com isso negar o direito à existência do estado de Israel e apaziguar as consciências dos que querem lançar os judeus aos mares ou explodi-los com os homens-bomba.

A arte de dizer mentiras ofusca o conhecimento da História: o sionismo, longe de ser como Ali diz, através de um Klemperer apócrifo, a fonte do nazismo, foi a resposta a um estado de coisas em que os judeus eram sistematicamente escolhidos como bodes expiatórios e onde leis de emancipação eram rapidamente substituídas por novas restrições alimentadas por velhos preconceitos.

Ali usa o falseamento da História para negá-la, apenas como modo de recorrer aos sofrimentos infligidos a vítimas do passado através de termos que os evocam (limpeza étnica, Untermensch), e dizê-los acontecendo agora, com os palestinos submetidos aos judeus que identifica aos nazistas. Weintrater (1994) fala dos disfarces do anti-semitismo, quando este deixou de ser socialmente bem aceito depois do Holocausto e teve que se esconder sob novas máscaras: não se falava mais do mau judeu mas do lobby sionista, do mau judeu sionista (que se dizia ser diferente do bom judeu não sionista), ou do judeu israelense, invasor das terras palestinas e que se diferençaria do judeu da diáspora. No entanto todos esses deslizamentos entre significantes forjam novos tentáculos para o anti-semitismo para o qual o “mau judeu de Sion” (referência à presença no inconsciente coletivo das reiteradas acusações feitas aos judeus através da história, das quais os Protocolos dos Sábios de Sião representam o paradigma) continuará a existir.

Durante toda a palestra, surpreendeu a reação da platéia que aplaudia Tariq Ali. Seria de se supor algum conhecimento da História por parte de psicanalistas, ao menos na referência ao que Freud sofreu e escreveu a respeito, por ter vivido através de tantas discriminações por sua condição de judeu nunca por ele renegada e que testemunhou uma Europa onde essa condição significava amarguras (Freud, 1985). Houve os que se beneficiaram por um tempo curto das leis emancipatórias e os que se converteram, como Klemperer, filho de um rabino, que assim pensava obter a plena realização européia que aos judeus era negada. Além disso, havia as multidões dos judeus destituídos da Europa oriental, que sofriam constantes progroms (ondas de ataques a comunidades judias) e que lutavam pela sobrevivência. Foi pensando em salvá-los, em reconhecer-lhes o direito à vida e à cidadania, ao estatuto de um povo não mais sujeito a progroms, que o sionismo foi idealizado. Tariq Ali confiou no desconhecimento da História por parte do seu auditório para dizer suas inverdades. A reação de boa parte dos que o ouviam faz pensar que teve razão.

Tariq Ali menciona os que resistem do lado israelense, os pacifistas que se recusam a lutar além das fronteiras de 67, e que ajudam os palestinos; no mesmo fôlego diz que crianças palestinas baleadas por soldados israelenses, em 90% das vezes o são em suas cabeças, o que não é verificável em nenhuma das fontes que consultei. É horrível haver crianças baleadas, e também horrível tentar manipular uma platéia com dados que falseiam tudo, sendo que o mais grave é o não mencionar que são crianças dos dois lados que estão sendo vitimadas por todo esse horror que Tariq, ao distorcer, advoga.

Ele atira a inverdade que passa a ser verdade para a platéia mesmerizada. Pergunta porque o mundo não diz nada a respeito das crianças palestinas – em momento nenhum menciona as crianças israelenses mortas pelo terrorismo palestino - e responde que, para os oficiais israelenses os palestinos são Untermensch, para os oficiais americanos os palestinos são todos terroristas, e para os regimes venais árabes que existem na região, os palestinos são causa de vergonha.

É o primeiro momento em que menciona os demais países árabes, mas não como instigadores da violência palestina contra Israel; e em nenhum momento examina o uso desse ódio contra Israel para cimentar um nacionalismo árabe cuja argamassa tem sido um islamismo fanatizante que prega a violência e a cruzada contra os infiéis.

Ali tenta construir um mundo de oposições intransponíveis entre os povos que só atos terroristas parecem por momentos questionar, no momento da explosão e do espetáculo. Porém tais atos apenas reforçam as oposições e tornam remota a superação dos falsos antagonismos por meio de atos autenticamente políticos que impliquem na percepção de que muitos dos conflitos são transponíveis. Porque nos dois lados – o palestino e o israelense – os que lutam pela paz têm um antagonismo fundamental contra o terror.

Os Estados Unidos mantêm no poder várias ditaduras corruptas em países árabes por favorecerem o seu controle sobre a região e suas riquezas. Comentando a capa de um livro de Tariq Ali em que aparece Bush vestido como fundamentalista islâmico, Zizek escreve que não é que estejamos diante de um choque de fundamentalismos, o que essa capa – e o título do livro - propõem, mas que os fundamentalistas maometanos já são “modernistas”, um produto do capitalismo global moderno, e representam a forma como o mundo árabe luta para se ajustar a ele.(p. 69). Esses países árabes dominados por corruptos que escravizam o povo na pobreza e na falta de horizontes usam os palestinos para ocultar o que eles próprios fazem com suas populações, arregimentando a todos no ódio contra Israel. Numa dessublimação repressiva, ordenam o gozo do ato terrorista, como o fazia Saddam Hussein, que pagava às famílias dos que fanatizava para serem homens-bomba. A respeito da dessublimação repressiva, Adorno comenta que, no mundo administrado contemporâneo, não se trata mais da velha lógica da repressão do Id e seus impulsos, mas sim de um pacto perverso direto entre o Supereu (autoridade social) e o Id (impulsos agressivos ilícitos) em prejuízo do ego. Algo semelhante, no nível político de hoje, ao estranho pacto entre o capitalismo global pós-moderno e as sociedades pré-modernas em prejuízo da modernidade propriamente dita (in Zizek,  ps. 168-69). Tahar Ben Jelloun escreve em A prisão árabe (12/12/2003): “... o plano de paz de Genebra demonstra que os palestinos compreenderam que só podiam contar com eles mesmos e com a evolução da sociedade israelense. Se esta paz for possível, ela constituirá uma porta aberta, bela e portadora de esperança, nos muros da prisão árabe...”. Nesse sentido, só na percepção de um “nós” constituído por palestinos e israelenses e que enfrenta os que se opõem à paz na região, que se dará a possibilidade da construção de pontes ao invés de muros excludentes para todos. 

Tariq Ali refere-se à guerra de independência da Argélia para dizer que todo aquele que participa de uma guerra, seja ela de resistência, de liberação ou uma  guerra qualquer, é possivelmente um homem-bomba porque pode vir a morrer. Ao criticar a declaração de Bush de que quem não estiver conosco estará contra nós, o que colocaria do lado dos terroristas todos os que se opusessem à sua política, Tariq Ali faz justo o contrário afirmando uma positividade no terrorismo e dizendo ser terrorista todo aquele que participa de uma guerra de resistência, por estar sujeito a morrer. Com a expansão semântica desse significante, perde o mesmo sua carga específica de violência performática e de ato homicida que alveja inocentes indiscriminadamente, para tornar-se um conceito confundível com os de resistência, coragem, martírio, todos eles com conotações positivas.

A leitura de Sonia Ramagem aponta para o anti-semitismo aberto do discurso de Tariq Ali no momento em que menciona a declaração supra citada de Bush, comentando que todos passam a acreditar no que a mídia divulga (ideologia), e ela não divulga senão os interesses do império, pois é controlada pelas mesmas fontes que criaram e lideram a globalização, as fontes que levam às guerras, que lideram o “main stream”. Segundo Ramagem, Ali não menciona os judeus, mas está claro quais são as “fontes”. Ele teria feito a leitura dos “Protocolos dos Sábios de Sião”, sem citar a fonte. A diabolização do judeu, as teorias de um complô judaico para o domínio do mundo, o uso da fobia ao judeu, que permaneceu no inconsciente coletivo da História através das constantes demonizações da sua figura em todas as épocas, seriam as referências do orador, que bebe no ódio dos falsários que criaram os “protocolos”, que estão na base de perseguições e assassinatos de judeus da Europa Oriental, e atualmente são usados como material didático em vários países árabes. Por outro lado, segundo Mark Strauss, esse anti-semitismo recrudesceu com a ação militar contra o Iraque, quando juntou-se ao movimento contra a guerra e ao crescente anti-americanismo. Imaginou-se que teria sido o lobby judaico que levara o presidente americano a investir contra um país que nunca atacara os Estados Unidos, a fim de proteger Israel. Para o ressurgimento da fobia contra os judeus teriam ademais contribuído  as grandes mudanças no mundo atual com a intensificação das conexões internacionais, os fluxos de capitais, a ausência de fronteiras, culpabilizando-se o judeu por tudo. Strauss comenta que o movimento anti-globalização uniu todos os grupos políticos contra o judeu como inimigo comum. E menciona que esse novo anti-semitismo está sendo chamado de aliança “marrom-verde-vermelha anti-semita”, porque une os ultra nacionalistas, os do movimento verde populista e os comunistas, contra os judeus. Ainda segundo Strauss, trata-se de um agregado das várias formas do velho anti-semitismo: “a imagem do judeu como um quinta-coluna, leal apenas para com ele mesmo, destruindo a soberania econômica e a cultura nacional, a idéia da extrema esquerda de que o judeu seria capitalista e usurário, controlando o sistema econômico internacional, e o judeu como assassino e opressor colonialista dos dias de hoje.”

Ali retorna ao fundamentalismo dos Estados Unidos e de sua necessidade  de um inimigo para manter um império, de forma que 11/9 teria representado a materialização de uma fantasia desejante do país, o qual seria responsável portanto por sua ocorrência. Sem ter desenvolvido o que entende por fundamentalismo, além dos erros históricos quanto à origem do termo, diz que é esse fundamentalismo que leva o império a precisar criar inimigos. Diz ainda que a ocupação está levando as pessoas a se tornarem terroristas para se oporem ao fundamentalismo do império e sua crença de que os Estados Unidos são o modelo para o mundo. Conclama os países da América Latina a resistirem, assim como está sendo feito no Iraque, unirem-se para lutar contra um modelo fundamentalista em que tudo é determinado pelo dinheiro, tudo é privatizado, e não há provisão por parte do estado. Zizek observaria que está em pauta é o ideal fascista do nacionalismo, no qual se busca a pureza de um mundo pré-capitalista, um capitalismo sem capitalismo, assim como pensavam os intelectuais alemães que almejavam a “pureza” de um mundo pré-capitalista, o que deu origem ao romantismo e ao nacionalismo alemães precursores do nazismo (Ramagem).

Não estaria Ali exacerbando aqui um nacionalismo até levá-lo ao espetáculo terrorista que tenta fazer passar por “martírio”? (No entanto, martírio não seria a  doação da vida pela vida dos outros? E no terrorismo, ao contrário, não se trataria da perda da vida a serviço da morte de muitos? Geraldo Costa, correspondência particular). Essas diferenças são escamoteadas por Ali.

Terminado o discurso muito aplaudido, abriu-se um tempo para perguntas. Alguém se levanta para dizer o quanto Ali vinha ao encontro do desejo dos psicanalistas de serem contra a guerra, contra o irracionalismo (foi como entendeu a valorização que ele fez do fanatismo), e seria desejável que os analistas se alinhassem aos que tendem a resistir e a denunciar a intencionalidade destrutiva explicitada nas ocorrências da guerra. A pessoa em pauta propunha uma adesão a movimentos como os do Fórum Social Mundial e dos jornalistas, e fez-se evidente que muitos da platéia não perceberam exatamente do que falara o orador.

Ao responder a uma pergunta sobre os homens-bomba, Ali falou em coragem e na resistência na França aos nazistas, quando houve quem sacrificasse a própria vida para estourar linhas e estações de trem; então, mencionou os judeus como contraponto, porque eles “deveriam” ter resistido, estourado alguma coisa, porque afinal iam morrer mesmo, mas que ao invés disso se deixaram levar como carneiros para o abatedouro. A obscenidade desse comentário é seu próprio comentário.

Alguém denunciou que no discurso de Ali não ocorrera nem uma só vez a a palavra paz, que teria mudado todo o teor do que fora dito; outra omissão fora a de ter falado dos judeus que se recusavam a lutar contra os palestinos, sem mencionar os palestinos que se recusavam ao terrorismo contra os judeus.

Sobre a paz, Ali mencionou as multidões em todo o mundo que marcharam contra a invasão do Iraque sem resultado. Segundo ele, os americanos só entendem a linguagem da violência e as pessoas perceberam que têm que resistir violentamente. Aqui é bom lembrar que Zizek escreveu que, em nome da defesa do ideário liberal e contra regimes ditatoriais, os Estados Unidos se igualam àqueles aos quais criticam por seu desrespeito aos direitos dos cidadãos; do mesmo modo, em nome de ser diferente dos EUA que não ouviram os apelos pela paz, Tariq advoga a violência de que acusa os EUA.

Ali diz que há duas ocupações simultâneas no mundo árabe, a da Palestina pelos israelenses e a do Iraque pelo ocidente, ambas ocupações violentas, realizadas através da força militar. Quanto à Palestina, continua, é uma questão diferente, porque são dois movimentos nacionais, sendo que o movimento nacional judaico, o sionismo, se apoderou da terra que pertencia a outros e se instalou ali. Os palestinos dentro de Israel estariam sendo tratados como cidadãos de segunda classe e os de fora de Israel foram transformados em refugiados. Os palestinos precisam do seu próprio Estado, e o que Israel ofereceu até agora era inaceitável. Diz querer a paz mas não a dos túmulos. Depois dessa tirada foi muito aplaudido.

Ali associou paz a túmulos, nessa sua resposta. É costume pensar a paz como representando uma garantia para que se possa simbolizar a morte, sem inscrição inconsciente, através de rituais apaziguadores da dor. E também se pensa em geral a violência como ameaça às conquistas da cultura que permitem essa simbolização (violência que negou a inscrição simbólica às vítimas de genocídios e aos “desaparecidos” dos regimes totalitários). Nesse arroubo, o orador parece querer fascinar a sua platéia com a violência, única alternativa à paz, que ele junta ao significante túmulo (paz remetendo à morte em oposição a guerra remetendo à vida?), sem apontar para o aspecto de trabalho e construção que esta paz envolve.

Corinne Daubigny referiu-se ao anti-semitismo do fundamentalismo luterânico e de como ele está sendo difundido através dos sites islâmicos da net. Rebate a afirmação de Ali de que Hitler teria encontrado suas idéias em Herzl e expõe as idéias centrais deste, onde não havia a intenção de dominar outro povo mas, ao contrário, a idéia um pouco ingênua de proporcionar riquezas para todos.

Tariq Ali reage negando ter dito o que Daubigny reportava, sendo que apenas citara Klemperer (sempre alguém é porta-voz de Tariq Ali; ele não se responsabiliza pelo que faz os outros dizerem, falseando suas palavras para que digam o que ele quer, ao mesmo tempo em que usa o subterfúgio de negar ser ele a dizê-las); além do mais, continua, não se pode jamais esquecer que um lado é o oprimido e o outro o opressor.

Neste final, numa casca de noz, está a declaração contra a paz de Ali. Porque, se não houver, como cuidou de estabelecer o Acordo de Genebra, um ponto zero de onde começar a construir, sem recriminações e mágoas, sem ressentimentos nunca saciados e que clamam por vingança e por mais concessões, sem esse ponto zero ao menos como ideal a ser atingido, a paz não pode ser construída. Foi esse trabalho de zerar as dores para um começo num agora não sobrecarregado de passados, onde tem início a tarefa de merecer a confiança um do outro, o trabalho do luto permitido para a possibilidade de uma reconciliação futura, que as pessoas envolvidas no acordo de Genebra fizeram; esse acordo não foi nem uma vez sequer mencionado por Tariq Ali que, por essa omissão, se revela.

Ao não mencionar o trabalho pela paz, Tariq faz o trabalho da guerra. Ao não mencionar o acordo, Tariq Ali o desfaz para a platéia que, ou desconhecedora dos fatos, ou desconhecedora de si própria e da sua capacidade de alienar-se na massa e no líder que a mesmeriza, ou ainda desconhecedora o que a norteia, cujas pegadas talvez se encontrem no desejo  de muitos (como expresso pela primeira pessoa a elogiar Tariq Ali após sua palestra) de uma declaração dos psicanalistas como entidade maciça – oposta à proposta da psicanálise de que cada um fale em seu próprio nome –, posicionando-se pormenorizadamente diante das mazelas do mundo (mal entendidas por quem formulou tal empenho), afiliando-se aos movimentos da moda, como o da anti-globalização, e na efusão dos aplausos a quem visa mobilizar e banalizar a violência, se deixa tomar por quem prega o terrorismo.

Teria sido o fascínio pelo espetáculo da violência presente na fala de Tariq, que faz rir do luto e das vítimas, num fazer violência ao respeito esperado ao sofrimento, o que conquistou a platéia? Como se fosse apenas um brincar de ridicularizar os poderosos e o que é convencional? Convencional como o respeito aos mortos e a compaixão pelas vítimas? Tal violência no discurso é isomórfica à violência que ele promove e à qual incita.

Teria sido o desejo de fundir-se na massa, cada um abdicando de sua capacidade crítica, de sua herança freudiana que valoriza o diferençar-se de maiorias manipuláveis por um Führer? Ou tudo isso e também o apelo do movimento anti-globalização, o sentirem-se participantes de um pensamento que julga os tempos atuais, une a todos como membros de uma entidade orgânica (os psicanalistas) contra alvos pouco específicos (O “capitalismo”, complôs obscuros, Os “Estados Unidos”), e instiga à violência contra eles? Toda a platéia chamada a participar do espetáculo? Assim estaríamos todos à salvo de dúvidas e mal-estares, num além Freud: os emissários da realidade nos diriam o que pensar e contra quem e como lutar, do mesmo modo que o fizeram com os homens-bomba.

Evidenciou-se talvez alguma orfandade por parte dos psicanalistas presentes? Afinal há todo um instrumental psicanalítico para pensar o mundo e entrar em interlocução com outros pensamentos. No episódio desse discurso que propõe a violência e que arrebatou a platéia, pareceu-me perceber a abdicação quanto a essa herança da psicanálise. De onde teria surgido esse ímpeto aparentemente suicida de ovacionarem alguém que propõe a “resistência” dos homens-bomba? A proposta de Ali faz pouco da busca de acordos por descrer das palavras da interlocução. Em seu lugar, propõe a Babel da violência, escombro das palavras, que surge do cinismo diante do sofrimento. Os psicanalistas abdicaram de si próprios? Ou quem sabe algo de muito arcaico, desconhecido deles, tenha sido despertado por Tariq Ali, num chamado à destruição e à busca de bodes expiatórios, a fim de não se enfrentar o mal-estar do mundo?

Conversei com alguns colegas depois. Houve os que ouviram o que não havia no discurso, que para eles teria sido pela paz; houve quem apontou para o fato de que profissionais na moda, intelectuais valorizados, membros de academias, terem gostado, o que garantia ter sido bom. Não pareciam perceber que assim revelavam abdicar de uma audição própria. Houve ainda os que comentaram que nós judeus ouvimos diferente porque somos judeus – embora houvesse não judeus que ouviram “diferente” e psicanalistas judeus que ouviram como a maioria - mas que isso não era empecilho a sermos todos amigos porque afinal Freud falara sobre o narcisismo das pequenas diferenças e nós temos que respeitar as diferenças. Nesse admoestar-me, pareceu-me perceber que eu teria transgredido algum princípio psicanalítico do qual aquelas pessoas eram guardiãs, ao chamá-las para perceber o que fora dito e que não teriam ouvido (embora algumas delas insistissem que o ouvir judaico seria diferente).

Talvez caiba aqui a metáfora das andorinhas que são enviadas para dentro de minas na terra a fim de averiguarem as condições vigentes: se morrem, é prova de que a poluição está em níveis insuportáveis,e isto evita a morte de outros. Talvez sejamos, nós que nos alarmamos, judeus e não judeus, os que primeiro percebemos as ameaças porque tantas vezes na História os que não seguem acriticamente as massas – judeus e não judeus – foram as andorinhas das condições do mundo. Talvez.

O ato revolucionário, aludido por Zizek, sem que me pareça dar-se conta de toda a dimensão de diferença que ele implicaria [11] traduzir-se-ia por uma terceira margem, que permitisse a saída da situação especular das duas margens antagônicas instaurada pelos defensores da violência, sempre justificada como resposta à violência do oponente. É assim que fazem escalada as destruições, e que se fortalecem os instigadores do terrorismo, confiando no fascínio mórbido pelo espetáculo do horror que tem sua origem na paixão negativa pelo real da qual fala Zizek. A saída para a terceira margem teria como exemplo magno o trabalho pela paz daqueles que assinaram o acordo de Genebra, mostrando com isso que as duas margens do conflito estão sendo falsamente exacerbadas como antagônicas, e que é indispensável, para que haja a paz, que se redefinam as coordenadas do conflito: esse novo nós, que congrega israelenses e palestinos que querem a paz, percebe que há que fazer frente ao terrorismo obsceno, aos que lucram com os conflitos irresolúveis, a fim de traçar um novo mapa a partir dessa terceira margem, que não exclua os respectivos povos - que se destruiriam se não forem redefinidos os conflitos subjacentes aos aparentes impasses.

Uma platéia de psicanalistas pegando carona no movimento da moda, o da anti-globalização, aplaude acriticamente um orador carismático que propõe o terrorismo travestido de significantes atraentes como coragem, consciência, martírio, resistência. Quando um orador que não tem a seriedade intelectual necessária para ser levado a sério foi entretanto levado a sério e conquista cada vez mais nichos em nossos meios intelectuais, o anjo de Benjamin, arrastado para o futuro, olha para o passado e vê os escombros que se acumulam. O discurso de Ali faz pensar nas circunstâncias aterradoras a que esse anjo se encontra submetido e a reação da platéia aflige por não opor resistência a esse convite para arrasar a terra soterrando-a cada vez mais sob seus escombros.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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BEN JELLOUN, Tahar. La Prisión  Árabe. La Vanguardia, 2003. 2003/12/12 http://www.lavanguardia.es?web/20031212?5114874064.html)

BURG, Avraham A Failed Israeli Society Collapses While Its Leaders Remain Silent. FORWARD: Forward Forum, August 29, 2003 (www.forward.com/issues/2003/03.08.29/oped3.html).

FREUD, Sigmund – “Résultats, idées, problèmes”, II, 1921-1936, P.U.F., Paris, 1985.

KLEMPERER, Victor. LTI La langue du III Reich., Paris: Éditions Albin Michel, S.A., 1996.

OZ, Amos. “Nós Limpamos o Terreno para a Paz”, publicado no The Guardian em 17/10/03, traduzido para a lista Paz Agora/Brasil (http://groups.yahoo/group/pazagorabr/

RAMAGEM, Sônia. Artigo enviado  através da internet, 2003.

SELIGMAN-SILVA, Marcio. Correspondência particular,.2004. 

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WAINTRATER, Meïr (1994) Le Mauvais juif de Sion  Antisionisme et antisémitisme: les fortunes d’un concept in Léon Poliakov, “Histoire de l’Antisémitisme”, Paris: Éditions du Seuil, 1932.

ZIZEK, Slavoj. Bem-Vindo ao Deserto do Real! .São Paulo: Boitempo, 2003.

ZIZEK. Slavoj. “A Paixão pelo Real”. In: Folha de São Paulo, São Paulo, 30 de novembro de 2003. Caderno Mais!. Pág. 47.

 

 

[1] Márcio Seligmann (correspondência particular) comenta que, ao apropriar-se do discurso do filósofo e sem mencionar o contexto em que teria defendido o fanatismo, o orador usa do recurso, que repetirá muitas vezes na sua palestra, de canalizar o prestígio de alguém conhecido para o seu moinho.

[2] “Mas dissociar completamente o que fez o homem-bomba suicida da realidade da ocupação, isto não é permissível...”.

[3] "Recentemente, um artigo muito comovente foi escrito por um homem chamado Avraham Burg... um dos fundadores de Israel. Um sionista... “Eu sinto-me envergonhado de ser um israelense e um sionista por causa do que estamos fazendo aos palestinos... Se você os trata assim, do modo como os tratamos, quando a vida não vale mais a pena de ser vivida, por que eles não se matariam levando com eles alguns dos nossos também?”

[4] “... Se você os trata dessa maneira, do modo como os tratamos, quando a vida não vale mais a pena de ser vivida, por que não deveriam eles se matarem levando como eles alguns dos nossos também?”

[5] “... Levando com eles alguns dos nossos também”.

[6] “É muito importante isso ter sido dito por um líder sionista em Israel, porque se pessoas como eu o dizem eles dirão: você está encorajando o terrorrismo...”

[7] “É deste modo que a língua se aviltou, especialmente desde 11/9, mas mesmo antes disto”.

[8] Seligmann comenta que esse potencial não é apanágio do nacionalismo árabe mas possivelmente comum a todos os nacionalismos.

[9] “Quando as pessoas se perguntam como é que um povo que foi ele próprio torturado, massacrado, morto, sofreu o que sofreu durante a II Guerra Mundial, como é que eles podem comportar-se dessa maneira com outro povo, devemos dizer: essa é a razão, eles aprenderam demasiadas coisas ruins, que você aprende também, daquela experiência particular.”

[10] Freud escreve, a propósito de Popper-Lynkeus:  “...une singulière sympathie m’attirait vers lui du fait que manifestement lui aussi avait douloureusemnt ressenti l’amertume de la vie des Juifs et la vacuité des idéaux contemporains...” (p. 202).

[11] Zizek usa como exemplo de ato revolucionário o episódio em que uma bailarina judia é chamada a dançar para oficiais nazistas que a humilhariam; ela pega numa arma e mata os oficiais, mudando assim a situação e evitando que outras pessoas fossem torturadas por esses oficiais. Embora não houvesse outro ato possível nas circunstâncias, não me parece este um exemplo que mostre todas as potencialidades do ato político revolucionário, que redefine as coordenadas na base do conflito. Um ato. político que de fato abriu para novos desenvolvimentos e que não apresenta nenhum efeito de espetáculo, foi o da assinatura do acordo de Genebra, que permitiu a saída para fora do círculo de violência e de falsas definições dos antagonismos. Zizek não o menciona possivelmente porque seu livro teria sido escrito antes da revelação do acordo. Mas cita os refuseniks, oficiais do exército israelense que se recusam a servir nos territórios ocupados, como exemplares de atos éticos políticos.

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