Tariq
Ali e suas platéias
Dois
de novembro de 2003. Tariq Ali, escritor paquistanês, autor
de Confronto de Fundamentalismos e de Bush na Babilônia:
A Recolonização do Iraque, apresentado como historiador,
fez uma palestra para mais de 600 psicanalistas de várias
nacionalidades e instituições reunidos no Rio por ocasião
do II Encontro Mundial dos Estados Gerais da Psicanálise.
De
imediato, conquista a platéia ao pleitear sua indulgência,
declarando ser a primeira vez que se dirige a psicanalistas.
Diz que abordará alguns conceitos, como o do fundamentalismo
na sua relação com o fanatismo, palavra de origem religiosa,
por derivar do grego antigo templo. Cita Rousseau, para
quem, segundo ele, um certo grau de fanatismo seria indispensável
para a ação.
A seguir, explica que a palavra “fanatismo” indicaria a
atitude de se fazer o que fosse, em nome da própria fé. Mais
tarde, teria surgido a palavra “fundamentalismo”, de
origem cristã. Segundo o palestrante, esta palavra não
existe em árabe e teria surgido quando os protestantes se
separaram do catolicismo durante as guerras da Reforma. A
origem dos Estados Unidos estaria nesse fundamentalismo,
reivindicado pelos protestantes que lá aportaram após
fugirem da Inglaterra para ocupar país alheio. Apesar de a
constituição americana ser inteiramente secular, uma forte
corrente de fundamentalismo protestante permaneceu na cultura.
A
historiadora Sônia Ramagem (correspondência pessoal) comenta
que, já de início, Ali demonstra sua inépcia como
historiador pelo desconhecimento de um elemento histórico
simplíssimo: o termo “fundamentalismo” foi criado em
1912, nos EUA a partir de um texto escrito para os batistas e
outros grupos evangélicos. Por acharem que o cristianismo
estava sendo deturpado, um grupo de milionários encomendou a
intelectuais cristãos a tarefa de determinar os fundamentos
da fé cristã que consideravam corretos. Só recentemente,
quando os iranianos invadiram a embaixada dos EUA em Teerã,
é que o termo passou a ser utilizado pela imprensa em seu
sentido atual.
Prosseguindo,
Ali diz que estará revertendo o modo habitual de se discutir
o fundamentalismo ao mostrá-lo oriundo do cristianismo e
atuante no país mais poderoso dos nossos dias. Ridiculariza
os americanos por sua religiosidade, citando estatísticas que
mostram que 90% dos americanos crê na divindade, enquanto que
70% em anjos; a seu ver seria mais progressista se fosse o
contrário, 90% acreditando em anjos e 70% na divindade. O público
ri muito, já cúmplice de Ali no juntos investirmos contra os
americanos, prato cheio para o ridículo. Seligmann
(correspondência particular) aponta para “... a contradição
na estratégia discursiva de Tariq Ali: por uma lado ele
valoriza o fanatismo/fundamentalismo e, por outro, acusa os
americanos de fundamentalistas. Esta estratégia (?) de
pensamento pode ser interpretada tanto como uma falta de
clareza por parte do orador, como também como um método de
destruir conceitos e apagar fronteiras: típico de um
pensamento conservador que pretende, por exemplo, como é o
caso de Tariq Ali, fundir judeus e nazistas em uma mesma
imagem.”
A
cumplicidade entre platéia e orador parece basear-se em
comprovarmos juntos que os poderosos só se sustentam como
objeto de um riso contagioso que nos irmana ludicamente contra
eles.
Assim
como o terceiro estado que saiu vitorioso dos embates contra
tiranias, representaríamos nos Estados Gerais essa crítica
ao status quo; daí que o convite a Tariq Ali para que
fosse orador talvez se deva a ter ele se tornado um ícone do
movimento anti-globalização na sua proposta de criticar e
corrigir as injustiças do mundo e, em conseqüência, possível
chamariz para grandes platéias.
Boa
parte dos psicanalistas quer contribuir para um mundo melhor
e, talvez uma certa ingenuidade diante dos “poderosos” da
mídia, de “estrelas” de platéia garantida,
dificulte-lhes uma análise crítica de discursos dessa
natureza. A isso soma-se o fato de TA não ter procurado uma
interlocução com a psicanálise, a qual, com a maior tranqüilidade,
demonstrou desconhecer pelo uso errôneo de seus conceitos
(por exemplo, o de transferência). Essa atitude de
flagrante desinteresse pela psicanálise parecia transmitir
que os psicanalistas só teriam a aprender com as novas do
mundo “real” que, como “expert” ele traria, e
com seus conselhos de como politizarem a psicanálise a fim de
lutar contra as injustiças. Ele nada teria a aprender.
Ali
diz que pela primeira vez na história, os Estados Unidos têm
um presidente que é fundamentalista e um ministro da justiça
fundamentalista também, e relata episódios cômicos sobre
esses personagens. A platéia ri e Ali faz como se limpasse um
pigarro, em contraponto. Ele repetirá esse “sinal” através
da palestra, como uma “ancoragem” para o riso que provoca.
Em seguida, critica o subsecretário americano da inteligência
para a defesa, que teria dito que seu Deus cristão sempre
triunfará sobre Alá e que a religião islâmica é adoradora
de ídolos. Comenta o Islã ser notoriamente hostil a ídolos,
e absurdo o desconhecimento desse general, afinal um
representante do único império dos dias atuais. Diz que é a
isto que chama de fundamentalismo – fonte de todos os demais
fundamentalismos, sob o controle de pessoas desse naipe, com
essa combinação de poder militar, poder econômico e essa
crença particular. (A meu ver, nada dissera até então sobre
o fundamentalismo).
Já
carregava numa risada frouxa a todos. Do meu ângulo de visão,
pareceu-me que essa risada geral nos unia e ao orador. Seria a
combinação do rir-se dos poderosos, a expectativa criada
pelos próprios Estados Gerais, onde a palavra de ordem é a
análise crítica do social e a perspectiva de conseguirmos
juntos mudar o estado atual das coisas, o que levava o orador
a exercer esse poder de sedução sobre a platéia? Talvez
também influísse a reversão das expectativas pois, ao invés
de um discurso teórico árido e conceitual, encontrava-se o
talento literário de Ali a possibilitar esse desfazer lúdico
de personagens pomposos. A sua fala agia sobre a platéia
transformando-a em terceiro estado e promovendo através desse
novo estado de espírito a vitória sobre as tiranias atuais.
Ramagem
comenta que Ali demonstrou mais uma vez seu desconhecimento
acadêmico de historiador suposto, ao dizer que os EUA são
fundamentalistas. Ao fazê-lo, ele se esquiva da constituição
multi-cultural dos EUA, em termos étnicos, lingüísticos e
religiosos. Não lhe interessa mencionar que um juiz de uma
suprema corte estadual teve que tirar do prédio da corte os
Dez Mandamentos, por ordem da justiça, por infringir a separação
entre religião e Estado.
Ali
a seguir fala da grande concentração de pessoas num estádio
em Nova Iorque, duas semanas depois do 11/9, da qual
participaram o presidente, the big thinker himself (risadas)
e o reverendo Billy Graham, grande pensador e pregador
evangélico, (mais risadas), que, dirigindo-se ao público
para prantear as vítimas, teria dito que, de todo o país,
perguntavam-lhe por que Deus permitira que fizessem isso com
eles, e confessando que não sabe o porquê. A platéia riu,
talvez expressando a cumplicidade de conhecermos a resposta:
ao contrário do que faz supor a resposta de Graham, a “inocência”
do Império atacado, nós saberíamos que este não é
inocente nem seriam inocentes os que nele se encontravam, as vítimas
do ataque.
Ao
referir-se a essa reunião num estádio, Ali qualifica 11/9 de
tragédia. Mas feita a continência ao luto, passa a
obscenamente ridicularizar a situação, com o efeito de
dissipar a tragédia no riso geral. Além de expor a ignorância
e arrogância dos poderosos (o famoso reverendo não sabe por
que Deus permitiu que isso acontecesse), de novo Ali arma com
a platéia uma cumplicidade no saber (ao não formular a
resposta, cria a ilusão de que esta é inevitável e que não
foi ele a sugeri-la) que 11/9 foi conseqüência das faltas do
Império. Os que morreram não podem ser considerados vítimas
inocentes, parece sugerir Ali, e o sofrimento, porque castigo
justo, pode ser apagado pelo riso. Zizek (2003) comenta que,
do ponto de vista moral, as vítimas são inocentes e o ato
terrorista de 11/9 um crime abominável, mas que essa inocência
não é em si inocente. Isto porque no mundo capitalista, onde
há uma ligação entre os países do primeiro mundo, como os
Estados Unidos que financiam ditadores criminosos e misérias
no terceiro mundo, além de adestrar para seu uso os que
depois saem do seu controle e se tornam os terroristas que nos
ameaçam, não se pode falar de “inocência”. Por outro
lado, a pergunta do reverendo é imoral porque não se trata
de dizer que o terror não deveria ter ocorrido nos Estados
Unidos, mas sim que é um crime horrendo e não deveria
ocorrer em nenhum lugar do mundo. Jacques Derrida, em 22 de
dezembro de 2002, ao receber o prêmio Theodor Adorno,
referiu-se aos ataques: “Minha compaixão incondicional
dirigida às vítimas de 11 de setembro não evita que eu
afirme em alto e bom som: com relação a esse crime, não
acredito que alguém seja inocente” (in Zizek, 2003.
p. 74). Ao se auto-relacionar, Derrida aponta para a implicação
de todos nós nas questões do mundo, não podendo
inocentar-nos daquilo que ocorre. Não é o que sugere
Tariq Ali através do efeito perverso do seu discurso, de
provocar o riso diante do sofrimento: para ele, as vítimas são
culpadas.
A
seguir, Ali fala da necessidade de se pôr o fanatismo em
perspectiva. Diz que devemos ter nossos fanáticos na psicanálise
também, o que provoca risadas de reconhecimento, como se fôssemos
pilhados em flagrante. (Aqui já somos não só cúmplices dos
que percebem o fanatismo como mola necessária de qualquer ação
como também fanáticos nós próprios). Introduz então o que
denomina de tópico muito controverso: homens-bomba (suicide
bombing) hoje. Comenta uma notícia de que homens-bomba
mataram-se e a civis num café, e agrega que é horrível. E
de um só fôlego, acrescenta: ”But to completely
dissociate what the suicide bomber has done from the reality
of the occupation, that is not permissible…”.
Ali
mostra que conhece a arte da manipulação oratória, e o
discurso de Marco Antonio vem à cabeça: “vim aqui para
enterrar César, não para elogiá-lo...”, sim, os
homens-bomba são horríveis, nós sabemos, mas... e aqui começa
o elogio, não se pode dissociá-los inteiramente da ocupação.
Este mas transforma as vítimas em ninguém. O que
sobrevive a um mas?
Não
teria sido um mas que deu origem ao revisionismo histórico
que nega a existência dos campos de concentração e de
extermínio? Seria análogo a se começar por dizer que os
campos existiram mas que os culpados foram os judeus, de modo
que, a responsabilidade cabendo às vítimas, elas passam a
merecer o que sofreram. Deste raciocínio – os sofrimentos
foram merecidos - ao de negar o escândalo do sofrimento
inumano é um passo, e ele foi dado pelo revisionismo histórico,
que concretizou essa negação ao afirmar que os campos de
extermínio não teriam existido
Aliás,
são sobretudo os poderosos os que usam o mas, porque
é estratégia do poder fazer como se houvesse um respeito
pela opinião do outro, para em seguida esmagá-la com um mas
que inicia o verdadeiro intento do discurso.
Nós
sabemos disto, é horrível. Quem
é esse nós? Os que normatizam o fanatismo mero pecadilho
encontrável até entre os psicanalistas, como Ali nos revela?
Os que encontram motivo para riso num momento de luto em que
se pranteava as vítimas do ataque terrorista de 11/9? Os que
morreram, tornados invisíveis pelo riso, passam
metonimicamente a ser tão risíveis quanto os que os
pranteiam. Com essa manobra, Tariq nos fez rir a todos.
Continua:
“... Recently
a very moving article was written by a man called Avraham Burg,
...one of the founding fathers of Israel. A zionist…. ”I
feel very ashamed of being an Israeli and a zionist because of
what we are doing to the Palestinians… If you treat them
like this, the way we treat them, when life is no longer worth
living, why shouldn’t they go and kill themselves and take a
few of us as well?”
(2003).
Avraham
Burg é figura altamente respeitada e conhecida em Israel por
sua devoção à causa da paz. Ele não é um dos “founding
fathers of Israel” como Ali o qualifica: seu pai é que foi
um dos fundadores de Israel, ao passo que ele é um homem
jovem, que até um par de anos atrás era o presidente do
parlamento israelense.
Mas
há falsificações - e não só incorreções - de conseqüências
graves no discurso de Ali. A luta pela paz é o que
contextualiza o que diz Burg. Quando fala de sua vergonha
pelas ações do atual governo israelense contra os
palestinos, ele o faz a fim de chamar seus compatriotas a também
se envergonharem dessas ações que afrontam os princípios
sobre os quais o Estado de Israel foi erigido, e é na doação
da sua dor e da sua vergonha em prol da paz que Burg fala.
Trata-se de um ato político que tem como seu a priori a
confiança necessária em seus interlocutores palestinos,
correligionários na luta pela paz. A “citação” que faz Tariq
Ali
do discurso de Avraham Burg é apócrifa. Segundo Ali, Burg teria
dito: “... if you treat them like this, they way we treat
them, when life is no longer worth living, why shouldn’t
they go and kill themselves and take a few of us as well?.”
Mas
Burg não disse “... and take a few of us as well“,
adição não ingênua de Ali, e isso porque Burg nunca teria
justificado a matança de inocentes: sua luta pela paz é ação
política revolucionária e não pode ser instrumentalizada
para justificar e encorajar o terrorismo, como Ali falsifica.
Onde
havia uma assunção
de uma responsabilidade revolucionária para que se
transformem as condições propiciadoras da violência, um
confiar num movimento idêntico que viesse do seu interlocutor
para que juntos enfrentassem os exploradores do desespero dos
dois povos, Ali coloca a sua incitação à violência
obscena. Os nossos dos quais Burg não fala mas sim
Ali, não foram oferecidos em holocausto para serem estourados
junto com os homens-bomba, como tenta fazer crer: Burg
compreende o desespero que o inunda de dor e de vergonha como
cidadão de Israel, mas não justifica o terrorismo que
igualmente inunda de vergonha e dor os palestinos do campo
pacifista. Tariq
continua: “Now it was very important that this was said
by a zionist leader in Israel, because if people like me say
it they say you are encouraging terrorism…”
E
insiste: “That’s how the language has become debased,
especially since 9/11, but even before that”.
Tariq
Ali aqui avilta a língua para concretizar sua traição ao
acordo pela paz. Enquanto Burg percebe seus interlocutores
como formando com ele um novo nós a criar revolucionariamente
as condições para a paz, superados os falsos antagonismos
que os separam, Ali corrompe suas palavras para fundamentar
seu direito a defender o terrorismo.
Deste
modo Ali engambela: afinal, quantos da platéia conheceriam o
discurso de Avraham Burg? Enquanto que Ali é estrela midiática,
apresentado com historiador, tendo estudado em Oxford, redator
em chefe (no passado ou ainda agora) de renomada revista de
esquerda, a New Left Review, Avraham Burg não é conhecido em
nosso país. Mas com certeza não foi nesta ocasião que Ali
deu início à fabricação espúria de citações adulteradas
para iludir seu público. No livro Confronto de
Fundamentalismos (Ed. Record, 2002), há várias citações
sem as referências bibliográficas necessárias. Por exemplo,
às páginas 136-137 uma “citação” que Ali faz dos diários
de Herzl aparece sem qualquer referência, com o objetivo de
fazer crer que o criador do sionismo tinha objetivos deletérios
para com os palestinos; no entanto, não encontrei nos diários
de Herzl o que Ali diz ter de lá extraído. A maioria das
“citações” entre aspas sem referência bibliográfica no
mesmo livro vai na mesma direção: seriam de sionistas,
membros do exército ou do governo de Israel, e revelariam
intenções maléficas para com os palestinos. O que intriga
é o fato desse desrespeito constante aos mínimos parâmetros
da produção intelectual ser aparentemente ignorado pelas
platéias de Ali. Estaríamos diante de um fenômeno de massa
já nessa instância, onde a idealização de um personagem
impede a análise crítica de sua obra? Tais citações espúrias
não condizem com as insígnias de um historiador e sim com as
de um propagandista, ou seja, alguém sem nenhum compromisso
com a verdade histórica. Seria esperável uma recepção
menos ingênua por parte de psicanalistas, mas teria aí também
atuado o jogo das “idealizações”?
Em
relação ao discurso de Burg, portanto, o palestrante usou a
técnica de atribuir ao adversário a defesa de sua posição,
para isso não hesitando em adulterar-lhe as palavras. De
libelo pela paz, Ali delas fez armas de guerra.
Avraham
Burg pertence ao grupo que durante três anos preparou em
sigilo o acordo de Genebra, do qual participam israelenses e
palestinos dedicados conjuntamente ao trabalho pela paz,
desenvolvendo a aptidão de olhar nos olhos do adversário,
que dessa maneira e pouco a pouco se transforma em
interlocutor. Muitas desconfianças foram enfrentadas, estereótipos,
ódios e, como escreve Amos Oz (2003), trata-se de um divórcio
depois de um casamento de muitos anos, onde difíceis concessões
recíprocas têm que ser feitas. Deste acordo participam
palestinos que estiveram reclusos em prisões israelenses e
israelenses profundamente sionistas (como o próprio Avraham
Burg), todos lutando palmo a palmo pela paz, sobressaltados
por súbitos duplos sentidos talvez em grande parte
inconscientes, como quando um israelense dirige-se a um
palestino perguntando-lhe: “posso deter-te por um momento?”
(pedindo um aparte), ou um palestino vocifera: “neste
ponto eu vou fazer explodir a reunião” (sugerindo
sub-dividir a pauta). Oz escreve que ao contrário dos que
lutam pela paz, enfrentando conflitos a cada passo, os
extremistas de ambos os lados estão unidos, irmanados contra
a paz pelo mesmo fanatismo que Tariq Ali advoga.
Ali
faz irromper o riso para evitar que se perceba seu intento, a
violência que ele banaliza, enquanto que, no trabalho árduo
pela paz, irrompem o susto e a desconfiança, porque há dores
por perdas nunca banalizáveis que separam os dois povos,
embora os sofrimentos por essas perdas sejam comuns a ambos.
Para que cesse a violência, será preciso interromper a
escalada do terror que o fanatismo provoca e mantém através
dos atos performáticos que, segundo Zizek (2003), se opõem a
ações políticas conseqüentes que visem mudar a própria
definição dos conflitos.
Para
Zizek, uma “paixão pelo real” estaria na origem tanto dos
atos revolucionários do século passado quanto do terrorismo
com suas ações espetaculares, que encobrem os reais
antagonismos na base dos conflitos. Zizek correlaciona o
terrorismo com a má paixão pelo real, cujo motor está na idéia de
que “... a única experiência potente é a experiência
de transgressão, seja na figura da violência política, da
sexualidade sadomasoquista, etc... [O terrorismo] é o
resultado de uma paixão daqueles que afirmam: “Vamos agir
brutalmente”, mas seu efeito final é o de um grande espetáculo
explosivo que nos fascina...” (2003, p. 5). Nessa paixão
negativa, entraria o aspecto batalliano de transgressão, de
experiência extrema e de estetização da violência. Já a
paixão positiva pelo real, para Zizek, envolveria a noção
lacaniana de “real”, em que a referência é a de uma
limitação no simbólico, “uma impossibilidade lógica
que marca um antagonismo irredutível...” (2003, p. 5).
O
ato político revolucionário, que decorre da paixão positiva
pelo real e que Zizek exemplifica com Lênin, é aquele “...que
indica o ponto de inconsistência do sistema social, e através
disso ele pode mudar as próprias coordenadas do sistema...”
(idem); na paixão negativa pelo real, ao contrário,
ocultar-se-iam, através do espetáculo, os verdadeiros
antagonismos, onde pulsões mortíferas repetiriam a escalada
da destruição afastando-se cada vez mais de uma possível
redefinição das coordenadas situacionais.
A
proposta de Tariq Ali parece esgotar-se nesse terror-espetáculo
a que ele incita ao demonizar o Ocidente em clima de tantos
risos, sem qualquer menção a um possível horizonte de paz.
Na ausência desta menção encontra-se sua tática de cegar
fascinando com o espetáculo da violência, para que a sua
platéia não perceba a inexistência de qualquer projeto que
transcenda o espetáculo. Em entrevista ao programa Millenium
do canal de televisão Globo News, Tariq Ali revela essa
ausência de projetos na idealização que faz de Saddam
Hussein, segundo ele alguém que permitia um bem viver a
todos, desde que não se lhe fizesse oposição política.
Como se na descrição de um cenário idílico, Ali comenta
que se podia até namorar de mãos dadas, sem problemas. A
idealização do ditador sanguinário mostra que é no passado
que Tariq Ali haure forças para seu nacionalismo extremista,
na ausência de qualquer perspectiva de um futuro que instaure
um mundo mais justo. Tariq Ali diz desejar o fim da ocupação
do Iraque e da Palestina, mas nada fala sobre um depois.
Já
no trabalho pela paz realizado pelos que assinaram o acordo de
Genebra encontra-se em minha opinião o melhor exemplo de ação
revolucionária advinda de uma “paixão pelo real”
positiva - no sentido que lhe dá
Zizek - que reformula as coordenadas do conflito e abre
perspectivas de um real entendimento entre palestinos e
israelenses. Esta ação revolucionária implica na percepção
de que os antagonismos são de classe – e não entre os dois
povos - e que os palestinos também estão sendo oprimidos nos
países árabes cujos governos são financiados pelas grandes
potências; este trabalho pela paz representa ademais uma luta
pelo bem-estar e direitos dos dois povos e contra os que em
cada lado ganham com o terrorismo e a violência (os que
lucram fanatizando e financiando homens-bomba, ditadores como
Saddam Hussein e ideólogos como Tariq Ali cuja retórica
mistura e confunde o discurso de uma “esquerda”
anti-globalizante - que mescla Estados Unidos, sionismo,
Israel, judeus, como fetiches crescentemente indiferenciáveis
– com o discurso de uma direita cuja intolerância ao
multi-culturalismo e à diferença também se expressa por uma
estetização da violência). Citando Zizek: “... a posição
a ser adotada é aceitar a necessidade de lutar contra o
terrorismo, mas redefinir e expandir os termos, de forma a
incluir também (alguns) atos dos americanos e de outras potências
ocidentais: a opção entre Bush e Bin Laden não é a nossa
escolha: os dois são “Eles” contra Nós. O fato de
o capitalismo global ser uma totalidade significa que ele é
uma unidade dialética de si mesmo e de seu outro, das forças
que resistem a ele por razões ideológicas
“fundamentalistas”. (2003, p. 67).
Os
antagonismos ocultados na “paixão negativa pelo real” que
demanda a violência referem-se entre outros aos países árabes
cujas classes dominantes querem evitar o confronto devido à
exploração que exercem sobre o povo e sobretudo sobre os
refugiados palestinos, instigados a um ódio crescente contra
Israel, sionismo, judeus. Esses três significantes vêm sendo
crescentemente confundidos por uma propaganda anti-semita que
se nutre de velhos preconceitos onde o judeu é apresentado
como a causa de todos os males (velhas teorias conspiratórias
em ação, uso de antigos panfletos racistas como os
Protocolos dos Sábios de Sião, versões cristãs e nazistas
superpostas pregando a destruição dos judeus, etc.). Para
isto se lança mão de um nacionalismo árabe extremado, em
que a religião é usada para exacerbar seu potencial fascista a fim de mobilizar o ódio
e a destrutividade contra o que está fora, o inimigo extimo,
o judeu historicamente recorrente. Este judeu historicamente
recorrente, segundo Zizek, (2003), vem sido usado como o
espectro fantasmal, a Coisa Real, para ocultar os antagonismos
sociais e fazer crer que a totalidade social é um Todo orgânico
(foi o que aconteceu no nazismo e está acontecendo nos países
árabes dominados por governos dissolutos, que assim fomentam
a crença em uma união ideal entre todos os árabes). Assim
que de um lado temos a exploração do povo árabe por
ditadores corruptos e do outro o terrorismo que mantém a barbárie
dos estados de exceção, como no exemplo extremo de Guantânamo.
Ali
ataca em seguida por um outro viés. Fala sobre coragem e
consciência e exemplifica com a Venezuela, onde o povo é
consciente do que Chávez tem feito em seu benefício apesar
da televisão privatizada atacá-lo, e onde um jovem tocador
de trombeta do exército recusou as ordens de tocar para um
corrupto negociante local que os Estados Unidos, através de
um golpe de estado, quiseram colocar na presidência do país.
Seu ato de bravura o tornou intocável e ninguém o puniu.
A
seguir, Ali discorre sobre a importância do humor em convulsões
políticas e em situações sociais confusas. Exibe a
foto-montagem de um menino iraquiano urinando na cabeça de um soldado americano, o que provoca hilaridade
na platéia. Fala da resistência de crianças: a fim de fazer
crer que estavam sendo bem-vindos no Iraque, os oficiais do exército
de ocupação davam-lhes chocolates para que posassem para as
fotos apertando suas mãos e sorrindo. Mas, enquanto sorriam,
as crianças diziam palavrões em árabe que os jornalistas
ocidentais não compreendiam. Explica que as crianças fazem
isso por sentirem a dor da ocupação muito mais do que seus
pais. Do mesmo modo agiriam as crianças palestinas que atiram
pedras nos soldados israelenses. Aqui, o apelo ao
rousseaunismo, com a valorização das crianças como “bons
selvagens” que agem “naturalmente”, atirando pedras, por
exemplo, por serem guiadas por “instintos” e não pela
“razão” (Sonia Ramagem), já anteriormente desvalorizada
pelo orador.
Cita
a seguir um “coronel israelense” que teria dito que se
fossem forçados a ocupar as cidades e os campos de refugiados
palestinos de novo, teriam que usar as mesmas táticas usadas
pelos alemães no gueto de Varsóvia. Diz
que nenhum jornal americano noticiou isto. E continua dizendo
que “when people ask the question how come that people
who were themselves tortured, massacred, killed, suffered
during the II World War how they can behave like this to
another people we have to say that’s why: they have learned
too many bad things which you do as well from that particular
experience.”
Eis
aí a identificação que ele começa a fazer entre Israel e o
Terceiro Reich, considerada por Mark Strauss (2003) como a
forma mais vil de revisionismo do Holocausto, pois carreia a
mensagem de que a única “solução” para o conflito
israelense-palestino está na destruição completa do Estado
judaico. O “coronel judeu” citado, sem menção de seu
nome nem de onde ou quando teria dito o que Ali “cita”, é
utilizado nessa mesma direção, visando a identificação de
Israel com a Alemanha nazista. Os judeus seriam os nazistas
atuais e a limpeza étnica é mencionada no livro supra citado
de Tariq Ali como proposta por Ben Gurion (novamente há aqui
uma citação entre aspas sem referência bibliográfica e
que, já então mais versada em Tariq Ali, penso coerentemente
espúria) para os palestinos. Assim, para Ali, os judeus
teriam aprendido com os nazistas a serem como eles, daí serem
os nazistas atuais a oprimirem os palestinos, e, portanto, se
justificaria eliminar o Estado de Israel, solução final para
o problema.
Ali
menciona Victor Klemperer, alemão judeu que sobreviveu à II
Guerra por ser casado com uma alemã, o que lhe evitou a
deportação para um campo de extermínio. Diz que para
Klemperer, o pior da sua experiência num período de 12 anos,
tinha sido a humilhação sofrida quando os judeus foram
feitos cidadãos de segunda classe na Alemanha e forçados a
usar a estrela amarela. Klemperer teria escrito que essa
humilhação tinha sido o pior, pior do que ser preso ou ser
levado para um campo de concentração, embora, “... o
que poderia ter sido pior do que isto?...”, concede
Tariq retoricamente. Continua: “... E quando você lê as
descrições que Klemperer faz das humilhações que lhe foram
infligidas... e aí você lê descrições do que sofrem os
palestinos... como são tratados pelos soldados israelenses
que os tratam como se fossem Untermensch, uma espécie
subumana...” Segundo Ali, Klemperer escreveu que Hitler
teria encontrado o conceito de um povo judeu, de uma nação
judaica, como se os judeus fossem um grupo monolítico, todos
pensando igual, na literatura sionista de Herzl. Porque antes
disso, continua Ali supostamente citando Klemperer, a maioria
dos judeus estava integrada em diferentes partes da Europa,
sobretudo na Europa ocidental, e pensavam a si próprios como
alemães, franceses, ou ingleses.
Ali
pretende igualar os sofrimentos dos judeus durante o Terceiro
Reich com os dos refugiados palestinos e, para isso, submete a
História a todas as deturpações. Menciona os campos de
concentração mas de modo a apagá-los do cenário (mera menção
para não parecer dizer o que diz - que o pior sofrimento é o
dos palestinos submetidos aos israelenses que identifica com
os nazistas). Um dos seus objetivos não explicitados é o de
negar a Israel o direito de existir, através da negação da
necessidade que levou à sua existência (“Os judeus estavam
muito bem na Europa”, diz o historiador Tariq Ali). Do modo
como argumenta, além de não ter esse direito a existir, sua
fundação representou um crime para com um outro povo. Num
malabarismo, ao ocultar os campos de concentração e usar os
palestinos como sendo os judeus de hoje, os que são ameaçados
de limpeza étnica, Ali elimina a dimensão histórica,
reduzindo o passado à sua presença nos dias de hoje, ao
construir um cenário que o reproduz e ao mesmo tempo o
esconde enquanto passado. Ao mencionar en passant os
campos, sem de fato se referir a eles, Tariq Ali está fazendo
o trabalho dos revisionistas que negam sua existência.
Fazendo-o melhor do que eles, porque ao mencionar sem levar em
conta, ao reduzir os piores sofrimentos àqueles narrados por
Klemperer, que nada conheceu do horror do Holocausto, os
campos são apagados da História. A fim de ainda mais reduzir
as diferenças entre nazistas e judeus, em seguida Tariq Ali
diz que os palestinos são tratados como Untermensch,
usando a palavra alemã como estratagema para apagar ainda
mais nos seus ouvintes a diferença entre os nazistas e os
judeus. É esse o seu intuito: fazer crer que os israelenses
seriam os nazistas, que os palestinos sofrem o que os judeus
sofreram e que Israel não tem direito a existir.
Klemperer
escreveu: “Herzl antes de tudo não visa jamais a opressão
e ainda menos a destruição de povos estrangeiros, ele não
defende em nenhum ponto essa idéia, que está na base de
todas as atrocidades nazistas, da ‘eleição’ e da pretensão
de domínio de uma raça ou de um povo diante do conjunto da
humanidade inferior. Apenas pede a igualdade de direitos para
um grupo de oprimidos, um espaço de dimensões modestas, um
espaço seguro, para um grupo de seres maltratados e
perseguidos. Ele só usa o adjetivo ‘subumano’ quando fala
do tratamento subumano que é dado aos judeus da Galícia.
[enquanto que Hitler se refere aos judeus como Untermensch]...
Ao contrário de Hitler, ele não é um fanático... entre
seus planos, apenas um foi desenvolvido em seus detalhes: é
preciso criar um país para as massas dos judeus do leste que
não foram emancipados, que se mantiveram como um povo e que
estão sendo oprimidos...” (1996, p. 269). Isso, Tariq
Ali não menciona: os judeus estavam sendo perseguidos e de há
muito, de modo recorrente. Klemperer, como outros, quis
assimilar-se. Assim pensavam evitar os sofrimentos que lhes
traria a condição de judeus. Houve os que, como Freud que
escreveu sobre a amargura de ser judeu (1985),
afirmaram seu pertencimento. Não foi Herzl quem influenciou
Hitler, mas é esta mensagem sibilina e absurda que Tariq Ali
quer passar, dos sionistas como sendo a raiz do nazismo, para
com isso negar o direito à existência do estado de Israel e
apaziguar as consciências dos que querem lançar os judeus
aos mares ou explodi-los com os homens-bomba.
A
arte de dizer mentiras ofusca o conhecimento da História: o
sionismo, longe de ser como Ali diz, através de um Klemperer
apócrifo, a fonte do nazismo, foi a resposta a um estado de
coisas em que os judeus eram sistematicamente escolhidos como
bodes expiatórios e onde leis de emancipação eram
rapidamente substituídas por novas restrições alimentadas
por velhos preconceitos.
Ali
usa o falseamento da História para negá-la, apenas como modo
de recorrer aos sofrimentos infligidos a vítimas do passado
através de termos que os evocam (limpeza étnica, Untermensch),
e dizê-los acontecendo agora, com os palestinos submetidos
aos judeus que identifica aos nazistas. Weintrater (1994) fala
dos disfarces do anti-semitismo, quando este deixou de ser
socialmente bem aceito depois do Holocausto e teve que se
esconder sob novas máscaras: não se falava mais do mau judeu
mas do lobby sionista, do mau judeu sionista (que se
dizia ser diferente do bom judeu não sionista), ou do judeu
israelense, invasor das terras palestinas e que se diferençaria
do judeu da diáspora. No entanto todos esses deslizamentos
entre significantes forjam novos tentáculos para o
anti-semitismo para o qual o “mau judeu de Sion” (referência
à presença no inconsciente coletivo das reiteradas acusações
feitas aos judeus através da história, das quais os
Protocolos dos Sábios de Sião representam o paradigma)
continuará a existir.
Durante
toda a palestra, surpreendeu a reação da platéia que
aplaudia Tariq Ali. Seria de se supor algum conhecimento da
História por parte de psicanalistas, ao menos na referência
ao que Freud sofreu e escreveu a respeito, por ter vivido
através de tantas discriminações por sua condição de
judeu nunca por ele renegada e que testemunhou uma Europa onde
essa condição significava amarguras (Freud, 1985). Houve os
que se beneficiaram por um tempo curto das leis emancipatórias
e os que se converteram, como Klemperer, filho de um rabino,
que assim pensava obter a plena realização européia que aos
judeus era negada. Além disso, havia as multidões dos judeus
destituídos da Europa oriental, que sofriam constantes progroms
(ondas de ataques a comunidades judias) e que lutavam pela
sobrevivência. Foi pensando em salvá-los, em reconhecer-lhes
o direito à vida e à cidadania, ao estatuto de um povo não
mais sujeito a progroms, que o sionismo foi idealizado.
Tariq Ali confiou no desconhecimento da História por parte do
seu auditório para dizer suas inverdades. A reação de boa
parte dos que o ouviam faz pensar que teve razão.
Tariq
Ali menciona os que resistem do lado israelense, os pacifistas
que se recusam a lutar além das fronteiras de 67, e que
ajudam os palestinos; no mesmo fôlego diz que crianças
palestinas baleadas por soldados israelenses, em 90% das vezes
o são em suas cabeças, o que não é verificável em nenhuma
das fontes que consultei. É horrível haver crianças
baleadas, e também horrível tentar manipular uma platéia
com dados que falseiam tudo, sendo que o mais grave é o não
mencionar que são crianças dos dois lados que estão sendo
vitimadas por todo esse horror que Tariq, ao distorcer,
advoga.
Ele
atira a inverdade que passa a ser verdade para a platéia
mesmerizada. Pergunta porque o mundo não diz nada a respeito
das crianças palestinas – em momento nenhum menciona as
crianças israelenses mortas pelo terrorismo palestino - e
responde que, para os oficiais israelenses os palestinos são Untermensch,
para os oficiais americanos os palestinos são todos
terroristas, e para os regimes venais árabes que existem na
região, os palestinos são causa de vergonha.
É
o primeiro momento em que menciona os demais países árabes,
mas não como instigadores da violência palestina contra
Israel; e em nenhum momento examina o uso desse ódio contra
Israel para cimentar um nacionalismo árabe cuja argamassa tem
sido um islamismo fanatizante que prega a violência e a
cruzada contra os infiéis.
Ali
tenta construir um mundo de oposições intransponíveis entre
os povos que só atos terroristas parecem por momentos
questionar, no momento da explosão e do espetáculo. Porém
tais atos apenas reforçam as oposições e tornam remota a
superação dos falsos antagonismos por meio de atos
autenticamente políticos que impliquem na percepção de que
muitos dos conflitos são transponíveis. Porque nos dois
lados – o palestino e o israelense – os que lutam pela paz
têm um antagonismo fundamental contra o terror.
Os
Estados Unidos mantêm no poder várias ditaduras corruptas em
países árabes por favorecerem o seu controle sobre a região
e suas riquezas. Comentando a capa de um livro de Tariq Ali em
que aparece Bush vestido como fundamentalista islâmico, Zizek
escreve que não é que estejamos diante de um choque de
fundamentalismos, o que essa capa – e o título do livro -
propõem, mas que os fundamentalistas maometanos já são
“modernistas”, um produto do capitalismo global moderno, e
representam a forma como o mundo árabe luta para se ajustar a
ele.(p. 69). Esses países árabes dominados por corruptos que
escravizam o povo na pobreza e na falta de horizontes usam os
palestinos para ocultar o que eles próprios fazem com suas
populações, arregimentando a todos no ódio contra Israel.
Numa dessublimação repressiva, ordenam o gozo do ato
terrorista, como o fazia Saddam Hussein, que pagava às famílias
dos que fanatizava para serem homens-bomba. A respeito da
dessublimação repressiva, Adorno comenta que, no mundo
administrado contemporâneo, não se trata mais da velha lógica
da repressão do Id e seus impulsos, mas sim de um pacto
perverso direto entre o Supereu (autoridade social) e o Id
(impulsos agressivos ilícitos) em prejuízo do ego. Algo
semelhante, no nível político de hoje, ao estranho pacto
entre o capitalismo global pós-moderno e as sociedades pré-modernas
em prejuízo da modernidade propriamente dita (in Zizek,
ps. 168-69). Tahar Ben Jelloun escreve em A prisão
árabe (12/12/2003): “... o plano de paz de Genebra
demonstra que os palestinos compreenderam que só podiam
contar com eles mesmos e com a evolução da sociedade
israelense. Se esta paz for possível, ela constituirá uma
porta aberta, bela e portadora de esperança, nos muros da
prisão árabe...”. Nesse sentido, só na percepção de um
“nós” constituído por palestinos e israelenses e que
enfrenta os que se opõem à paz na região, que se dará a
possibilidade da construção de pontes ao invés de muros
excludentes para todos.
Tariq
Ali refere-se à guerra de independência da Argélia para
dizer que todo aquele que participa de uma guerra, seja ela de
resistência, de liberação ou uma guerra qualquer, é possivelmente um homem-bomba porque pode
vir a morrer. Ao criticar a declaração de Bush de que quem não
estiver conosco estará contra nós, o que colocaria do lado
dos terroristas todos os que se opusessem à sua política,
Tariq Ali faz justo o contrário afirmando uma positividade no
terrorismo e dizendo ser terrorista todo aquele que participa
de uma guerra de resistência, por estar sujeito a morrer. Com
a expansão semântica desse significante, perde o mesmo sua
carga específica de violência performática e de ato
homicida que alveja inocentes indiscriminadamente, para
tornar-se um conceito confundível com os de resistência,
coragem, martírio, todos eles com conotações positivas.
A
leitura de Sonia Ramagem aponta para o anti-semitismo aberto
do discurso de Tariq Ali no momento em que menciona a declaração
supra citada de Bush, comentando que todos passam a acreditar
no que a mídia divulga (ideologia), e ela não divulga senão
os interesses do império, pois é controlada pelas mesmas
fontes que criaram e lideram a globalização, as fontes que
levam às guerras, que lideram o “main stream”.
Segundo Ramagem, Ali não menciona os judeus, mas está claro
quais são as “fontes”. Ele teria feito a leitura dos
“Protocolos dos Sábios de Sião”, sem citar a fonte. A
diabolização do judeu, as teorias de um complô judaico para
o domínio do mundo, o uso da fobia ao judeu, que permaneceu
no inconsciente coletivo da História através das constantes
demonizações da sua figura em todas as épocas, seriam as
referências do orador, que bebe no ódio dos falsários que
criaram os “protocolos”, que estão na base de perseguições
e assassinatos de judeus da Europa Oriental, e atualmente são
usados como material didático em vários países árabes. Por
outro lado, segundo Mark Strauss, esse anti-semitismo
recrudesceu com a ação militar contra o Iraque, quando
juntou-se ao movimento contra a guerra e ao crescente
anti-americanismo. Imaginou-se que teria sido o lobby
judaico que levara o presidente americano a investir contra um
país que nunca atacara os Estados Unidos, a fim de proteger
Israel. Para o ressurgimento da fobia contra os judeus teriam
ademais contribuído as grandes mudanças no mundo atual com a intensificação
das conexões internacionais, os fluxos de capitais, a ausência
de fronteiras, culpabilizando-se o judeu por tudo. Strauss
comenta que o movimento anti-globalização uniu todos os
grupos políticos contra o judeu como inimigo comum. E
menciona que esse novo anti-semitismo está sendo chamado de
aliança “marrom-verde-vermelha anti-semita”, porque une
os ultra nacionalistas, os do movimento verde populista e os
comunistas, contra os judeus. Ainda segundo Strauss, trata-se
de um agregado das várias formas do velho anti-semitismo:
“a imagem do judeu como um quinta-coluna, leal apenas para
com ele mesmo, destruindo a soberania econômica e a cultura
nacional, a idéia da extrema esquerda de que o judeu seria
capitalista e usurário, controlando o sistema econômico
internacional, e o judeu como assassino e opressor
colonialista dos dias de hoje.”
Ali
retorna ao fundamentalismo dos Estados Unidos e de sua
necessidade de um
inimigo para manter um império, de forma que 11/9 teria
representado a materialização de uma fantasia desejante do
país, o qual seria responsável portanto por sua ocorrência.
Sem ter desenvolvido o que entende por fundamentalismo, além
dos erros históricos quanto à origem do termo, diz que é
esse fundamentalismo que leva o império a precisar criar
inimigos. Diz ainda que a ocupação está levando as pessoas
a se tornarem terroristas para se oporem ao fundamentalismo do
império e sua crença de que os Estados Unidos são o modelo
para o mundo. Conclama os países da América Latina a
resistirem, assim como está sendo feito no Iraque, unirem-se
para lutar contra um modelo fundamentalista em que tudo é
determinado pelo dinheiro, tudo é privatizado, e não há
provisão por parte do estado. Zizek observaria que está em
pauta é o ideal fascista do nacionalismo, no qual se busca a
pureza de um mundo pré-capitalista, um capitalismo sem
capitalismo, assim como pensavam os intelectuais alemães que
almejavam a “pureza” de um mundo pré-capitalista, o que
deu origem ao romantismo e ao nacionalismo alemães
precursores do nazismo (Ramagem).
Não
estaria Ali exacerbando aqui um nacionalismo até levá-lo ao
espetáculo terrorista que tenta fazer passar por “martírio”?
(No entanto, martírio não seria a
doação da vida pela vida dos outros? E no terrorismo,
ao contrário, não se trataria da perda da vida a serviço da
morte de muitos? Geraldo Costa, correspondência particular).
Essas diferenças são escamoteadas por Ali.
Terminado
o discurso muito aplaudido, abriu-se um tempo para perguntas.
Alguém se levanta para dizer o quanto Ali vinha ao encontro
do desejo dos psicanalistas de serem contra a guerra, contra o
irracionalismo (foi como entendeu a valorização que ele fez
do fanatismo), e seria desejável que os analistas se
alinhassem aos que tendem a resistir e a denunciar a
intencionalidade destrutiva explicitada nas ocorrências da
guerra. A pessoa em pauta propunha uma adesão a movimentos
como os do Fórum Social Mundial e dos jornalistas, e fez-se
evidente que muitos da platéia não perceberam exatamente do
que falara o orador.
Ao
responder a uma pergunta sobre os homens-bomba, Ali falou em
coragem e na resistência na França aos nazistas, quando
houve quem sacrificasse a própria vida para estourar linhas e
estações de trem; então, mencionou os judeus como
contraponto, porque eles “deveriam” ter resistido,
estourado alguma coisa, porque afinal iam morrer mesmo, mas
que ao invés disso se deixaram levar como carneiros para o
abatedouro. A obscenidade desse comentário é seu próprio
comentário.
Alguém
denunciou que no discurso de Ali não ocorrera nem uma só vez
a a palavra paz, que teria mudado todo o teor do que fora
dito; outra omissão fora a de ter falado dos judeus que se
recusavam a lutar contra os palestinos, sem mencionar os
palestinos que se recusavam ao terrorismo contra os judeus.
Sobre
a paz, Ali mencionou as multidões em todo o mundo que
marcharam contra a invasão do Iraque sem resultado. Segundo
ele, os americanos só entendem a linguagem da violência e as
pessoas perceberam que têm que resistir violentamente. Aqui
é bom lembrar que Zizek escreveu que, em nome da defesa do
ideário liberal e contra regimes ditatoriais, os Estados
Unidos se igualam àqueles aos quais criticam por seu
desrespeito aos direitos dos cidadãos; do mesmo modo, em nome
de ser diferente dos EUA que não ouviram os apelos pela paz,
Tariq advoga a violência de que acusa os EUA.
Ali
diz que há duas ocupações simultâneas no mundo árabe, a
da Palestina pelos israelenses e a do Iraque pelo ocidente,
ambas ocupações violentas, realizadas através da força
militar. Quanto à Palestina, continua, é uma questão
diferente, porque são dois movimentos nacionais, sendo que o
movimento nacional judaico, o sionismo, se apoderou da terra
que pertencia a outros e se instalou ali. Os palestinos dentro
de Israel estariam sendo tratados como cidadãos de segunda
classe e os de fora de Israel foram transformados em
refugiados. Os palestinos precisam do seu próprio Estado, e o
que Israel ofereceu até agora era inaceitável. Diz querer a
paz mas não a dos túmulos. Depois dessa tirada foi muito
aplaudido.
Ali
associou paz a túmulos, nessa sua resposta. É costume pensar
a paz como representando uma garantia para que se possa
simbolizar a morte, sem inscrição inconsciente, através de
rituais apaziguadores da dor. E também se pensa em geral a
violência como ameaça às conquistas da cultura que permitem
essa simbolização (violência que negou a inscrição simbólica
às vítimas de genocídios e aos “desaparecidos” dos
regimes totalitários). Nesse arroubo, o orador parece querer
fascinar a sua platéia com a violência, única alternativa
à paz, que ele junta ao significante túmulo (paz remetendo
à morte em oposição a guerra remetendo à vida?), sem
apontar para o aspecto de trabalho e construção que esta paz
envolve.
Corinne
Daubigny referiu-se ao anti-semitismo do fundamentalismo luterânico
e de como ele está sendo difundido através dos sites
islâmicos da net. Rebate a afirmação de Ali de que Hitler
teria encontrado suas idéias em Herzl e expõe as idéias
centrais deste, onde não havia a intenção de dominar outro
povo mas, ao contrário, a idéia um pouco ingênua de
proporcionar riquezas para todos.
Tariq
Ali reage negando ter dito o que Daubigny reportava, sendo que
apenas citara Klemperer (sempre alguém é porta-voz de Tariq
Ali; ele não se responsabiliza pelo que faz os outros
dizerem, falseando suas palavras para que digam o que ele
quer, ao mesmo tempo em que usa o subterfúgio de negar ser
ele a dizê-las); além do mais, continua, não se pode jamais
esquecer que um lado é o oprimido e o outro o opressor.
Neste
final, numa casca de noz, está a declaração contra a paz de
Ali. Porque, se não houver, como cuidou de estabelecer o
Acordo de Genebra, um ponto zero de onde começar a construir,
sem recriminações e mágoas, sem ressentimentos nunca
saciados e que clamam por vingança e por mais concessões,
sem esse ponto zero ao menos como ideal a ser atingido, a paz
não pode ser construída. Foi esse trabalho de zerar as dores
para um começo num agora não sobrecarregado de passados,
onde tem início a tarefa de merecer a confiança um do outro,
o trabalho do luto permitido para a possibilidade de uma
reconciliação futura, que as pessoas envolvidas no acordo de
Genebra fizeram; esse acordo não foi nem uma vez sequer
mencionado por Tariq Ali que, por essa omissão, se revela.
Ao
não mencionar o trabalho pela paz, Tariq faz o trabalho da
guerra. Ao não mencionar o acordo, Tariq Ali o desfaz para a
platéia que, ou desconhecedora dos fatos, ou desconhecedora
de si própria e da sua capacidade de alienar-se na massa e no
líder que a mesmeriza, ou ainda desconhecedora o que a
norteia, cujas pegadas talvez se encontrem no desejo
de muitos (como expresso pela primeira pessoa a elogiar
Tariq Ali após sua palestra) de uma declaração dos
psicanalistas como entidade maciça – oposta à proposta da
psicanálise de que cada um fale em seu próprio nome –,
posicionando-se pormenorizadamente diante das mazelas do mundo
(mal entendidas por quem formulou tal empenho), afiliando-se
aos movimentos da moda, como o da anti-globalização, e na
efusão dos aplausos a quem visa mobilizar e banalizar a violência,
se deixa tomar por quem prega o terrorismo.
Teria
sido o fascínio pelo espetáculo da violência presente na
fala de Tariq, que faz rir do luto e das vítimas, num fazer
violência ao respeito esperado ao sofrimento, o que
conquistou a platéia? Como se fosse apenas um brincar de
ridicularizar os poderosos e o que é convencional?
Convencional como o respeito aos mortos e a compaixão pelas vítimas?
Tal violência no discurso é isomórfica à violência que
ele promove e à qual incita.
Teria
sido o desejo de fundir-se na massa, cada um abdicando de sua
capacidade crítica, de sua herança freudiana que valoriza o
diferençar-se de maiorias manipuláveis por um Führer?
Ou tudo isso e também o apelo do movimento anti-globalização,
o sentirem-se participantes de um pensamento que julga os
tempos atuais, une a todos como membros de uma entidade orgânica
(os psicanalistas) contra alvos pouco específicos (O
“capitalismo”, complôs obscuros, Os “Estados
Unidos”), e instiga à violência contra eles? Toda a platéia
chamada a participar do espetáculo? Assim estaríamos todos
à salvo de dúvidas e mal-estares, num além Freud: os emissários
da realidade nos diriam o que pensar e contra quem e como
lutar, do mesmo modo que o fizeram com os homens-bomba.
Evidenciou-se
talvez alguma orfandade por parte dos psicanalistas presentes?
Afinal há todo um instrumental psicanalítico para pensar o
mundo e entrar em interlocução com outros pensamentos. No
episódio desse discurso que propõe a violência e que
arrebatou a platéia, pareceu-me perceber a abdicação quanto
a essa herança da psicanálise. De onde teria surgido esse ímpeto
aparentemente suicida de ovacionarem alguém que propõe a
“resistência” dos homens-bomba? A proposta de Ali faz
pouco da busca de acordos por descrer das palavras da
interlocução. Em seu lugar, propõe a Babel da violência,
escombro das palavras, que surge do cinismo diante do
sofrimento. Os psicanalistas abdicaram de si próprios? Ou
quem sabe algo de muito arcaico, desconhecido deles, tenha
sido despertado por Tariq Ali, num chamado à destruição e
à busca de bodes expiatórios, a fim de não se enfrentar o
mal-estar do mundo?
Conversei
com alguns colegas depois. Houve os que ouviram o que não
havia no discurso, que para eles teria sido pela paz; houve
quem apontou para o fato de que profissionais na moda,
intelectuais valorizados, membros de academias, terem gostado,
o que garantia ter sido bom. Não pareciam perceber que assim
revelavam abdicar de uma audição própria. Houve ainda os
que comentaram que nós judeus ouvimos diferente porque somos
judeus – embora houvesse não judeus que ouviram
“diferente” e psicanalistas judeus que ouviram como a
maioria - mas que isso não era empecilho a sermos todos
amigos porque afinal Freud falara sobre o narcisismo das
pequenas diferenças e nós temos que respeitar as diferenças.
Nesse admoestar-me, pareceu-me perceber que eu teria
transgredido algum princípio psicanalítico do qual aquelas
pessoas eram guardiãs, ao chamá-las para perceber o que fora
dito e que não teriam ouvido (embora algumas delas
insistissem que o ouvir judaico seria diferente).
Talvez
caiba aqui a metáfora das andorinhas que são enviadas para
dentro de minas na terra a fim de averiguarem as condições
vigentes: se morrem, é prova de que a poluição está em níveis
insuportáveis,e isto evita a morte de outros. Talvez sejamos,
nós que nos alarmamos, judeus e não judeus, os que primeiro
percebemos as ameaças porque tantas vezes na História os que
não seguem acriticamente as massas – judeus e não judeus
– foram as andorinhas das condições do mundo. Talvez.
O
ato revolucionário, aludido por Zizek, sem que me pareça
dar-se conta de toda a dimensão de diferença que ele
implicaria traduzir-se-ia por uma
terceira margem, que permitisse a saída da situação
especular das duas margens antagônicas instaurada pelos
defensores da violência, sempre justificada como resposta à
violência do oponente. É assim que fazem escalada as destruições,
e que se fortalecem os instigadores do terrorismo, confiando
no fascínio mórbido pelo espetáculo do horror que tem sua
origem na paixão negativa pelo real da qual fala Zizek. A saída
para a terceira margem teria como exemplo magno o trabalho
pela paz daqueles que assinaram o acordo de Genebra, mostrando
com isso que as duas margens do conflito estão sendo
falsamente exacerbadas como antagônicas, e que é indispensável,
para que haja a paz, que se redefinam as coordenadas do
conflito: esse novo nós, que congrega israelenses e
palestinos que querem a paz, percebe que há que fazer frente
ao terrorismo obsceno, aos que lucram com os conflitos irresolúveis,
a fim de traçar um novo mapa a partir dessa terceira margem,
que não exclua os respectivos povos - que se destruiriam se não
forem redefinidos os conflitos subjacentes aos aparentes
impasses.
Uma
platéia de psicanalistas pegando carona no movimento da moda,
o da anti-globalização, aplaude acriticamente um orador
carismático que propõe o terrorismo travestido de
significantes atraentes como coragem, consciência, martírio,
resistência. Quando um orador que não tem a seriedade
intelectual necessária para ser levado a sério foi
entretanto levado a sério e conquista cada vez mais nichos em
nossos meios intelectuais, o anjo de Benjamin, arrastado para
o futuro, olha para o passado e vê os escombros que se
acumulam. O discurso de Ali faz pensar nas circunstâncias
aterradoras a que esse anjo se encontra submetido e a reação
da platéia aflige por não opor resistência a esse convite
para arrasar a terra soterrando-a cada vez mais sob seus
escombros.
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