Israel
e os Judeus no mundo
Quem
é judeu?
Paradoxalmente,
mesmo após a criação do Estado de Israel, há meio século,
continua a polêmica sobre as características e atributos que
definiriam os judeus. Abandonou-se o conceito de raça, mas não
foi possível estabelecer um consenso: seria um grupo étnico,
uma nacionalidade, uma religião, ideologia ou estilo de vida?
Apenas um terço dos judeus no mundo vive em Israel, e mesmo
aqueles que optaram pela Terra Santa como lar, não
compartilham da mesma cultura. Uma minoria, embora crescente,
considera a religião como seu atributo cultural mais
importante, entre estes, a ala mais extremista e
fundamentalista, com claras aspirações hegemônicas, ocupa
uma posição forte e militante.
Tomando
em consideração a extensão - embora em novos espaços geográficos
e políticos - da Diáspora e os tênues laços de
solidariedade que ligam as diversas comunidades espalhadas
pelo mundo, a definição mais apropriada para o povo judeu
talvez seja a de “uma comunidade do destino”. Destino esse
marcado pela História, remota e recente, que teve como corolário
a criação do Estado de Israel. A continuidade das tendências
centrífugas da Diáspora, reforçadas pelo êxodo de centenas
de milhares de jovens israelenses, deixa patente a necessidade
de se redefinir as relações entre Israel e a Diáspora, a
fim de manter a coesão e solidariedade, vitais para a
sobrevivência.
Importa
reconhecer que um dos fatores essenciais para a travessia de séculos
de trevas e obscurantismo foi a tolerância para com os
“outros”, que paulatinamente permeou os espíritos e
normas legais das sociedades ocidentais a partir do Iluminismo
e contribuiu decisivamente para a adaptação e integração
dos judeus às sociedades modernas.
A
lição a ser extraída da trajetória dos judeus, sobretudo
no século passado, é o imperativo de tolerância mútua que
leva à cooperação e fortalece os laços de solidariedade -
interna e externa. Em outras palavras, o destino do povo judeu
parece inextricavelmente ligado ao futuro da democracia, único
sistema a conferir liberdade ao indivíduo, com base nos
Direitos Humanos e nas responsabilidades da cidadania.
Durante
a maior parte da história moderna, o Judaísmo europeu teve
seu centro cultural e espiritual nos países da Europa
Oriental. Vivendo sob regimes de discriminação e, não raras
vezes, de perseguição, os judeus conseguiram desenvolver um
rico patrimônio cultural que - junto com as conquistas da
Emancipação, do Iluminismo e os direitos políticos obtidos
em conseqüência da Revolução Francesa - constituíram os
pilares e o manancial do Judaísmo moderno, até o cataclismo
do Holocausto.
É
no século vinte, com a emigração em massa para o Novo Mundo
e, particularmente, entre as duas grandes guerras, que o Judaísmo
norte-americano passou a ocupar uma posição de liderança,
imprimindo sua visão pragmática e valores calcados na
cultura norte-americana dentro das organizações
representativas da coletividade judaica mundial. O peso do
crescimento demográfico, da afluência econômico-financeira
e os valores políticos conservadores, aliados a um estilo de
vida e filosofia ancorados em um empirismo estreito e
positivista reforçado pelo sucesso nos negócios, marcaram
profundamente o perfil e a atuação das organizações
judaicas no mundo. Tornando-as também dependentes das
contribuições financeiras e do “lobby“ dos judeus junto
à Casa Branca e ao Congresso norte-americano.
As
relações do Estado de Israel com os judeus da Diáspora tem
sido marcado pela ambigüidade, desde sua fundação, em 1948.
Afinal, a “lei do retorno” não surtiu os efeitos
esperados. A imensa maioria dos judeus na Diáspora preferiu
permanecer em seus respectivos países, limitando seu apoio
aos israelenses a eventuais contribuições financeiras e uma
atuação discreta - com exceção dos norte-americanos - de
“lobby“ junto aos seus respectivos governos. Essa falta de
“patriotismo” por parte dos judeus da Diáspora criou um
sentimento de superioridade e uma atitude de condescendência,
na melhor das hipóteses, do lado dos cidadãos de Israel.
As
transformações ocorridas na sociedade israelense acentuaram
o antigo cisma entre Ashkenazim e S’faradim, reforçando a
polarização crescente entre liberais e conservadores, judeus
secularizados e ortodoxos. Com a abertura do mercado mundial e
a penetração do ideário neoliberalista perdeu-se o espírito
pioneiro e redentor próprio ao movimento kibbutziano. O
enfraquecimento dos valores humanistas de cooperação e
solidariedade gerou naquela sociedade um estilo de vida
materialista-hedonista, típico de sociedades de consumo
afluentes, mas, neste caso, agravado pela pressão
praticamente ininterrupta de uma situação de conflitos e
guerras com os árabes, no último meio século.
O
crescimento econômico e o desenvolvimento material,
associados à construção de um potencial científico-tecnológico
impressionante, sem falar das “vitórias“ nos campos de
batalha em 1956, 1967 e 1973, transformaram o “ethos” da
sociedade israelense. Os sucessos ofuscaram as lições da
história milenar sobre a importância da coesão e
solidariedade na trajetória de um povo, valores esses
fundamentados em uma forte identidade grupal e num destino
comum.
Apostou-se,
novamente sob a influência da ideologia norte-americana, no
êxito do “melting pot”, o cadinho das diferentes
correntes migratórias, carregando heranças étnicas e
culturais tão distintas, como os imigrantes da ex-União Soviética
ou os Falasha da Etiópia. As dificuldades de absorção e
integração desses grupos, agravadas pela resistência do
setor ortodoxo de reconhecer a “judaicidade” desses
imigrantes, mormente daqueles oriundos de casamentos mistos,
estimularam os preconceitos e suscitaram situações de
conflito que atravessam as linhas de divisão de etnias e de
classes sociais.
Acrescenta-se
a orientação equivocada da política externa de Israel,
buscando aproximação com os regimes mais retrógrados e
feudais do mundo árabe, enquanto resistiu a um acordo e a
pacificação com os palestinos, povo com propensão para a
criação de um Estado de Direito e um regime democrático,
capaz de fortalecer futuramente a posição do Estado de
Israel, num mundo árabe visceralmente hostil a uma sociedade
laica, aberta e democrática. Paradoxalmente, são os
Palestinos, embora sejam tratados como inimigos e cidadãos de
segunda classe, que serão os primeiros aliados dos
israelenses na construção de um Oriente Médio democrático,
uma vez silenciada a voz dos fuzis e canhões.
Tendências
e perspectivas
Partimos
da premissa sobre a importância de se estudar e interpretar
corretamente o passado, a fim de melhor compreender o presente
que nos revela as opções do futuro desejável, a ser construído.
O
movimento de retorno à terra dos antepassados nasceu no fim
do século XIX, na Europa Oriental, inicialmente com pouca
repercussão entre as massas empobrecidas de judeus nos
antigos impérios austro-húngaro e czarista. Foram poucos os
seguidores dos “Biluím“ e dos “Hovevei Sion“ e, mesmo
após a fundação dos movimentos sionistas halutzianos (os
pioneiros), estes nunca chegaram a constituir-se em maioria
entre os ativistas judeus, estes mesmos uma minoria entre uma
população apática e oprimida, conforme tão bem a descreve
I.B.Singer em seus romances.
No
seio da intelectualidade travava-se um árduo debate entre os
esquerdistas do “Bund” - organização social-democrata
dos trabalhadores judeus - e os defensores da luta revolucionária
que militavam nos partidos bolchevique ou menchevique, ou no
movimento anarquista dos social-revolucionários, que
preconizavam uma mudança revolucionária dos regimes
opressores. A proeminência dos judeus nos movimentos da
“esquerda” prolongou-se, apesar dos julgamentos e execuções
de Stalin, antes e depois da segunda guerra mundial. As mudanças
e o distanciamento ocorreram de forma decisiva apenas com a
crise ideológica da esquerda comunista, após a divulgação
do relatório de Khrushev, no 20º Congresso do PCUS - o
Partido Comunista da União Soviética. As revelações sobre
os crimes, traições e perseguições do Stalinismo
desferiram um golpe fatal à esquerda, pondo fim à efervescência
ideológica, e levaram ao abandono da visão idealista e
transformadora, no mundo todo.
Com
o fim da segunda guerra e as revelações sobre os horrores do
Holocausto, o movimento sionista cresceu e tornou-se hegemônico,
dando vazão ao nacionalismo judeu em dimensões
internacionais. A criação do Estado de Israel em 1948
parecia ter mudado a mentalidade dos judeus, ofuscando outras
visões e ideologias, a não ser a sionista e a religiosa, únicas
consideradas legítimas.
Na
Europa Central e Oriental, os judeus dividiam-se, antes da
primeira guerra mundial e até a segunda, em dois grupos
distintos: por um lado, a ortodoxia religiosa, constantemente
reforçada pelo fluxo de imigrantes ou refugiados do leste e,
por outro, um setor crescente de classe média assimilada,
considerando-se alemães ou franceses, de fé mosaica, lutando
com fervor patriótico de ambos os lados, na primeira guerra
mundial.
Voltamos
ao nosso ponto de partida - Israel e os judeus no contexto
global. O que faz a força das comunidades modernas é a
qualidade de vida de suas populações, aferida pelos índices
de desenvolvimento humano, a educação, a liberdade (e
responsabilidade) de seus cidadãos que encontram no legado
histórico, nas tradições e nos valores éticos de sua
cultura as razões mais fortes para manterem-se unidos, coesos
e solidários. São essas nações livres, mais igualitárias
e autônomas que são capazes de estabelecer laços de cooperação,
num espírito de respeito aos “outros”, de cor, religião
ou cultura diferentes.
Afirmamos
acima que a definição mais apropriada para o povo judeu
seria a de uma comunidade de destino. Temos um passado comum
e, queiramos ou não, um futuro comum. O que impacta em uma
parte do povo afeta as outras, seja onde for que estas se
encontrem. Se esta premissa for correta, ela significa que
somos todos responsáveis pelo que acontece aos judeus, em
qualquer parte do mundo. Não tem sido este o entendimento dos
dirigentes do Estado de Israel que invariavelmente tratam os
judeus da Diáspora com certa condescendência, como judeus de
segunda categoria. Afinal, não deviam todos eles
estabelecer-se em Israel, após a criação do estado?
Raramente,
os israelenses têm tentado pensar o significado de ser judeu
na Diáspora. E estes, por acomodação ou remorsos, nunca tem
reivindicado o direito de participar das decisões que afetam
o destino de todos os judeus, dentro e fora de Israel. Além
da intolerância e hostilidade frente ao movimento
nacionalista dos palestinos, tem-se cedido espaço crescente
à ortodoxia religiosa extremista. Não se ousa colocar a
questão da religião - a natureza laica ou religiosa do
Estado - em debate amplo e profundo. Resvalamos assim para uma
sociedade influenciada crescentemente por fanáticos
fundamentalistas que pregam o ódio, preconceitos e intolerância,
levando à desobediência às leis, conflitos e até
assassinatos.
Aceitar
passivamente as imposições dos fundamentalistas significa
retroceder na história, submeter-se ao obscurantismo que
deprecia o valor da vida e desfigura a visão do mundo real,
substituindo-a por uma visão delirante que intimida o
pensamento crítico. A alternativa é a construção de uma
sociedade livre, pluralista, aberta e democrática, consciente
e ciosa de seu legado histórico e espiritual, das tradições
e raízes humanistas ancoradas na justiça social.
Ao
contemplarmos, em retrospectiva a evolução da espécie e da
cultura humanas, nos últimos dez milênios, qual seria a
contribuição mais significativa que confere sentido à história
de uma coletividade e, assim, constrói os elementos para sua
continuidade? Seria o fundamentalismo religioso, cego e fanático,
um nacionalismo primitivo e militarista, ou a visão dos
profetas clamando por justiça e respeito pelos direitos dos
“outros, ainda que fossem “estrangeiros “?
Seriam
esses os valores que vão forjar a aliança e reforçar os laços
de interdependência entre Israel e os judeus do mundo? A opção
e o destino estão em nossas mãos.