Por HENRIQUE RATTNER
Professor da FEA (USP) e membro da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças (ABDL)

 

Israel e os Judeus no mundo

 

Quem é judeu?

Paradoxalmente, mesmo após a criação do Estado de Israel, há meio século, continua a polêmica sobre as características e atributos que definiriam os judeus. Abandonou-se o conceito de raça, mas não foi possível estabelecer um consenso: seria um grupo étnico, uma nacionalidade, uma religião, ideologia ou estilo de vida? Apenas um terço dos judeus no mundo vive em Israel, e mesmo aqueles que optaram pela Terra Santa como lar, não compartilham da mesma cultura. Uma minoria, embora crescente, considera a religião como seu atributo cultural mais importante, entre estes, a ala mais extremista e fundamentalista, com claras aspirações hegemônicas, ocupa uma posição forte e militante.

Tomando em consideração a extensão - embora em novos espaços geográficos e políticos - da Diáspora e os tênues laços de solidariedade que ligam as diversas comunidades espalhadas pelo mundo, a definição mais apropriada para o povo judeu talvez seja a de “uma comunidade do destino”. Destino esse marcado pela História, remota e recente, que teve como corolário a criação do Estado de Israel. A continuidade das tendências centrífugas da Diáspora, reforçadas pelo êxodo de centenas de milhares de jovens israelenses, deixa patente a necessidade de se redefinir as relações entre Israel e a Diáspora, a fim de manter a coesão e solidariedade, vitais para a sobrevivência.

Importa reconhecer que um dos fatores essenciais para a travessia de séculos de trevas e obscurantismo foi a tolerância para com os “outros”, que paulatinamente permeou os espíritos e normas legais das sociedades ocidentais a partir do Iluminismo e contribuiu decisivamente para a adaptação e integração dos judeus às sociedades modernas.

A lição a ser extraída da trajetória dos judeus, sobretudo no século passado, é o imperativo de tolerância mútua que leva à cooperação e fortalece os laços de solidariedade - interna e externa. Em outras palavras, o destino do povo judeu parece inextricavelmente ligado ao futuro da democracia, único sistema a conferir liberdade ao indivíduo, com base nos Direitos Humanos e nas responsabilidades da cidadania.

Durante a maior parte da história moderna, o Judaísmo europeu teve seu centro cultural e espiritual nos países da Europa Oriental. Vivendo sob regimes de discriminação e, não raras vezes, de perseguição, os judeus conseguiram desenvolver um rico patrimônio cultural que - junto com as conquistas da Emancipação, do Iluminismo e os direitos políticos obtidos em conseqüência da Revolução Francesa - constituíram os pilares e o manancial do Judaísmo moderno, até o cataclismo do Holocausto.

É no século vinte, com a emigração em massa para o Novo Mundo e, particularmente, entre as duas grandes guerras, que o Judaísmo norte-americano passou a ocupar uma posição de liderança, imprimindo sua visão pragmática e valores calcados na cultura norte-americana dentro das organizações representativas da coletividade judaica mundial. O peso do crescimento demográfico, da afluência econômico-financeira e os valores políticos conservadores, aliados a um estilo de vida e filosofia ancorados em um empirismo estreito e positivista reforçado pelo sucesso nos negócios, marcaram profundamente o perfil e a atuação das organizações judaicas no mundo. Tornando-as também dependentes das contribuições financeiras e do “lobby“ dos judeus junto à Casa Branca e ao Congresso norte-americano. 

As relações do Estado de Israel com os judeus da Diáspora tem sido marcado pela ambigüidade, desde sua fundação, em 1948. Afinal, a “lei do retorno” não surtiu os efeitos esperados. A imensa maioria dos judeus na Diáspora preferiu permanecer em seus respectivos países, limitando seu apoio aos israelenses a eventuais contribuições financeiras e uma atuação discreta - com exceção dos norte-americanos - de “lobby“ junto aos seus respectivos governos. Essa falta de “patriotismo” por parte dos judeus da Diáspora criou um sentimento de superioridade e uma atitude de condescendência, na melhor das hipóteses, do lado dos cidadãos de Israel.

As transformações ocorridas na sociedade israelense acentuaram o antigo cisma entre Ashkenazim e S’faradim, reforçando a polarização crescente entre liberais e conservadores, judeus secularizados e ortodoxos. Com a abertura do mercado mundial e a penetração do ideário neoliberalista perdeu-se o espírito pioneiro e redentor próprio ao movimento kibbutziano. O enfraquecimento dos valores humanistas de cooperação e solidariedade gerou naquela sociedade um estilo de vida materialista-hedonista, típico de sociedades de consumo afluentes, mas, neste caso, agravado pela pressão praticamente ininterrupta de uma situação de conflitos e guerras com os árabes, no último meio século.

O crescimento econômico e o desenvolvimento material, associados à construção de um potencial científico-tecnológico impressionante, sem falar das “vitórias“ nos campos de batalha em 1956, 1967 e 1973, transformaram o “ethos” da sociedade israelense. Os sucessos ofuscaram as lições da história milenar sobre a importância da coesão e solidariedade na trajetória de um povo, valores esses fundamentados em uma forte identidade grupal e num destino comum.

Apostou-se, novamente sob a influência da ideologia norte-americana, no êxito do “melting pot”, o cadinho das diferentes correntes migratórias, carregando heranças étnicas e culturais tão distintas, como os imigrantes da ex-União Soviética ou os Falasha da Etiópia. As dificuldades de absorção e integração desses grupos, agravadas pela resistência do setor ortodoxo de reconhecer a “judaicidade” desses imigrantes, mormente daqueles oriundos de casamentos mistos, estimularam os preconceitos e suscitaram situações de conflito que atravessam as linhas de divisão de etnias e de classes sociais.

Acrescenta-se a orientação equivocada da política externa de Israel, buscando aproximação com os regimes mais retrógrados e feudais do mundo árabe, enquanto resistiu a um acordo e a pacificação com os palestinos, povo com propensão para a criação de um Estado de Direito e um regime democrático, capaz de fortalecer futuramente a posição do Estado de Israel, num mundo árabe visceralmente hostil a uma sociedade laica, aberta e democrática. Paradoxalmente, são os Palestinos, embora sejam tratados como inimigos e cidadãos de segunda classe, que serão os primeiros aliados dos israelenses na construção de um Oriente Médio democrático, uma vez silenciada a voz dos fuzis e canhões.

Tendências e perspectivas

Partimos da premissa sobre a importância de se estudar e interpretar corretamente o passado, a fim de melhor compreender o presente que nos revela as opções do futuro desejável, a ser construído.

O movimento de retorno à terra dos antepassados nasceu no fim do século XIX, na Europa Oriental, inicialmente com pouca repercussão entre as massas empobrecidas de judeus nos antigos impérios austro-húngaro e czarista. Foram poucos os seguidores dos “Biluím“ e dos “Hovevei Sion“ e, mesmo após a fundação dos movimentos sionistas halutzianos (os pioneiros), estes nunca chegaram a constituir-se em maioria entre os ativistas judeus, estes mesmos uma minoria entre uma população apática e oprimida, conforme tão bem a descreve I.B.Singer em seus romances.

No seio da intelectualidade travava-se um árduo debate entre os esquerdistas do “Bund” - organização social-democrata dos trabalhadores judeus - e os defensores da luta revolucionária que militavam nos partidos bolchevique ou menchevique, ou no movimento anarquista dos social-revolucionários, que preconizavam uma mudança revolucionária dos regimes opressores. A proeminência dos judeus nos movimentos da “esquerda” prolongou-se, apesar dos julgamentos e execuções de Stalin, antes e depois da segunda guerra mundial. As mudanças e o distanciamento ocorreram de forma decisiva apenas com a crise ideológica da esquerda comunista, após a divulgação do relatório de Khrushev, no 20º Congresso do PCUS - o Partido Comunista da União Soviética. As revelações sobre os crimes, traições e perseguições do Stalinismo desferiram um golpe fatal à esquerda, pondo fim à efervescência ideológica, e levaram ao abandono da visão idealista e transformadora, no mundo todo.

Com o fim da segunda guerra e as revelações sobre os horrores do Holocausto, o movimento sionista cresceu e tornou-se hegemônico, dando vazão ao nacionalismo judeu em dimensões internacionais. A criação do Estado de Israel em 1948 parecia ter mudado a mentalidade dos judeus, ofuscando outras visões e ideologias, a não ser a sionista e a religiosa, únicas consideradas legítimas.

Na Europa Central e Oriental, os judeus dividiam-se, antes da primeira guerra mundial e até a segunda, em dois grupos distintos: por um lado, a ortodoxia religiosa, constantemente reforçada pelo fluxo de imigrantes ou refugiados do leste e, por outro, um setor crescente de classe média assimilada, considerando-se alemães ou franceses, de fé mosaica, lutando com fervor patriótico de ambos os lados, na primeira guerra mundial.

Voltamos ao nosso ponto de partida - Israel e os judeus no contexto global. O que faz a força das comunidades modernas é a qualidade de vida de suas populações, aferida pelos índices de desenvolvimento humano, a educação, a liberdade (e responsabilidade) de seus cidadãos que encontram no legado histórico, nas tradições e nos valores éticos de sua cultura as razões mais fortes para manterem-se unidos, coesos e solidários. São essas nações livres, mais igualitárias e autônomas que são capazes de estabelecer laços de cooperação, num espírito de respeito aos “outros”, de cor, religião ou cultura diferentes.

Afirmamos acima que a definição mais apropriada para o povo judeu seria a de uma comunidade de destino. Temos um passado comum e, queiramos ou não, um futuro comum. O que impacta em uma parte do povo afeta as outras, seja onde for que estas se encontrem. Se esta premissa for correta, ela significa que somos todos responsáveis pelo que acontece aos judeus, em qualquer parte do mundo. Não tem sido este o entendimento dos dirigentes do Estado de Israel que invariavelmente tratam os judeus da Diáspora com certa condescendência, como judeus de segunda categoria. Afinal, não deviam todos eles estabelecer-se em Israel, após a criação do estado?

Raramente, os israelenses têm tentado pensar o significado de ser judeu na Diáspora. E estes, por acomodação ou remorsos, nunca tem reivindicado o direito de participar das decisões que afetam o destino de todos os judeus, dentro e fora de Israel. Além da intolerância e hostilidade frente ao movimento nacionalista dos palestinos, tem-se cedido espaço crescente à ortodoxia religiosa extremista. Não se ousa colocar a questão da religião - a natureza laica ou religiosa do Estado - em debate amplo e profundo. Resvalamos assim para uma sociedade influenciada crescentemente por fanáticos fundamentalistas que pregam o ódio, preconceitos e intolerância, levando à desobediência às leis, conflitos e até assassinatos. 

Aceitar passivamente as imposições dos fundamentalistas significa retroceder na história, submeter-se ao obscurantismo que deprecia o valor da vida e desfigura a visão do mundo real, substituindo-a por uma visão delirante que intimida o pensamento crítico. A alternativa é a construção de uma sociedade livre, pluralista, aberta e democrática, consciente e ciosa de seu legado histórico e espiritual, das tradições e raízes humanistas ancoradas na justiça social. 

Ao contemplarmos, em retrospectiva a evolução da espécie e da cultura humanas, nos últimos dez milênios, qual seria a contribuição mais significativa que confere sentido à história de uma coletividade e, assim, constrói os elementos para sua continuidade? Seria o fundamentalismo religioso, cego e fanático, um nacionalismo primitivo e militarista, ou a visão dos profetas clamando por justiça e respeito pelos direitos dos “outros, ainda que fossem “estrangeiros “?

Seriam esses os valores que vão forjar a aliança e reforçar os laços de interdependência entre Israel e os judeus do mundo? A opção e o destino estão em nossas mãos.

 

 

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