O
Mito do Neo-Anti-Semitismo
Todos nós judeus militantes de todas as tendências
políticas temos sido bombardeados por artigos que tentam
mostrar o surgimento de uma nova onda anti-semita no mundo. De
um lado o governo de Israel em uma desesperada ação de
marketing, busca justificar os ataques ao seu governo como
ataques que visam a sua destruição. De outro as lideranças
das comunidades judaicas que buscam justificar as ações do
governo de Israel como autodefesa. Qualquer um que ouse
denunciar estas ações, é imediatamente rotulado como
anti-semita.
O anti-semitismo tem muitas faces e faz parte da
cultura mundial desde que o povo judeu se formou. Assim sendo,
podemos afirmar sem margem de erro, que a história do povo
judeu sempre esteve vinculada ao anti-semitismo. Qualquer
criança judia pode mencionar passagens de nossa história que
lembram as piores perseguições que fomos vítimas. A maior
delas, acabou com seis milhões de mortos. Foi uma tentativa
de uma solução final para o problema judaico: exterminá-lo
da face da terra.
Existem anti-semitas em todas as camadas sociais, em
qualquer opção sexual, de diferentes etnias, cores, religiões,
idades etc. As razões são as mais diversas e nem sempre
obedecem a uma lógica, ou muito menos obedecem à razão. Em
comum apenas o ódio aos judeus.
Podemos tentar separar este fenômeno em passado e
presente. No presente, em antes e depois da criação do
Estado de Israel. Isto não muda em nada com relação aos
anti-semitas, mas é fundamental para nós judeus. Antes do
ressurgimento de nosso lar nacional, fomos forçados a nos
mover por todos os cantos da terra em busca de um lugar onde fôssemos
aceitos. Depois da independência de Israel, todos os judeus
do mundo sentiram-se mais seguros e com um salvo conduto a mão
no caso de novas perseguições.
O apoio ao Estado de Israel por parte da população
judaica mundial não é unânime. Existem judeus não
sionistas que aceitam sua existência, e outros que não. Até
mesmo uma seita ultra-conservadora de judeus religiosos, os
Naturei Karta, que não apóiam um estado judeu que não tenha
surgido pelas mãos do messias, que eles aguardam. Israel, no
entanto, tem o apoio da quase totalidade dos judeus dá diáspora.
A concentração de judeus em um estado nacional
judaico sempre foi motiva de atenção. A guerra de independência,
a absorção dos refugiados, a luta para tornar fértil o
deserto, o Kibutz etc. Raramente Israel esteve fora do noticiário
mundial em todos estes anos. Os anti-semitas passaram a ter um
alvo.
Nas nações européias conhecidas por seu
anti-semitismo, como a França, Polônia e Áustria, e outras
não tão conhecidas como Portugal e Espanha sempre ocorreram
ondas anti-semitas. Ora com maior intensidade, ora com menos.
Nos EUA, o anti-semitismo sempre esteve presente protegido por
uma legislação que permite a livre expressão. Na Rússia,
conhecida por seus pogroms, ao permitirem o direito de ir e
vir, mais de um milhão de judeus partiram, a maioria para
Israel. Lá o anti-semitismo sempre existiu e vai continuar
existindo. Na América Latina o anti-semitismo nunca foi muito
virulento devido principalmente à índole dos povos. Ele
existe com maior intensidade na Argentina e no Chile.
Se o anti-semitismo sempre existiu, o que foi que
mudou nos últimos dois anos? A resposta está estampada em
todas as manchetes de jornais diários: a segunda Intifada
palestina.
O conflito com os palestinos precede o surgimento do
Estado de Israel. Já durante o Mandato Britânico a tensão
era enorme diante da possibilidade de que fosse criado um lar
nacional judaico no seio da comunidade árabe. Não cabe aqui
a discussão inócua de quem teria chegado primeiro, ou quem
tinha maior população na época. Nem mesmo a discussão
sobre a existência, ou não de um povo palestino serve para
diminuir a gravidade do problema. Apenas tenta mover o foco do
problema para discussões acadêmicas que na melhor das hipóteses,
satisfazem os egos de alguns eruditos.
A segunda Intifada trouxe com ela uma mudança na
política israelense, um governante da direita que prometia
paz e segurança. Não demorou muito para mostrar o que ele
entendia por paz e segurança. Logo o clima de intransigência
tomou o lugar da negociação e os radicais de ambos os lados
passaram a ditar o rumo do desentendimento. Em pouco tempo as
conquistas dos acordos de Oslo deram lugar a um conflito
sangrento que vem vitimando inocentes quase que diariamente.
Um Mapa da Paz apresentado pelos EUA, Rússia, ONU e UE, visto
com esperança pelos dois povos, foi sendo descumprido por
suas lideranças até ser totalmente esquecido e jogado de
lado.
Pode-se buscar os diversos culpados pela situação
presente, mas quero aqui demonstrar que em meio ao conflito,
vimos surgir uma nova versão de anti-semitas, aqueles que
discordam da política israelense nos territórios ocupados.
Versão esta, que tentam impor as comunidades judaicas da diáspora
e até mesmo difundir aos quatro cantos do mundo não judaico.
Este novo anti-semita pode ser até mesmo um judeu. Qualquer
um que acuse o governo de Israel de cometer atrocidades, passa
a ser imediatamente rotulado. Este é o neo-anti-semita.
O povo judeu é conhecido de diversas maneiras. O
Povo do Livro, os que receberam os Dez Mandamentos, pelo número
de Prêmios Nobel, pela ética contida na Torá, pela
solidariedade com outros povos e principalmente por sua
capacidade em sobreviver a perseguições através de três
mil anos de história. Nenhum outro povo foi capaz disso. Isto
explica em parte por que somos foco de atenção. Um povo com
esta bagagem deveria servir de exemplo para as nações.
Ariel Sharon veio para mostrar que mesmo irradiando
luz, o estado judeu é capaz de mostrar o seu lado mais
perverso. O governo de Israel dá ao mundo uma visão de nossa
capacidade de matar e destruir nunca antes vista fora das
guerras. Pela primeira vez presenteamos aos meios de comunicação
como pilotos israelenses são capazes de matar crianças
inocentes ao perseguirem militantes palestinos. De que forma
tratores destroem as casas dos familiares de terroristas numa
forma de punição coletiva. Ensinamos que a melhor forma de
enfrentar o conflito é escondê-lo por de trás de um muro,
mesmo que para isso seja necessário isolar populações das
terras que lhes garantiam o sustento.
O Professor Mark Strauss, editor da Revista Foreign
Policy em seu artigo A Globalização e o Anti-Semitismo,
pergunta por que somente Israel. A China invadiu o Tibet, a Rússia
massacrou a Chechênia, Índia e Paquistão lutam pela
Cashemira etc. Por que aqueles que lutam por um mundo
melhor não apóiam a luta destes povos por sua liberdade?
Pode-se acrescentar a ditadura Cubana, ou da Coréia do Norte
para indagar-se também a direita neoliberal.
Este tipo de questionamento também é totalmente inócuo.
Pode-se fazer diversas dissertações, escrever teses para
explicar este fenômeno que de nada irá adiantar. Isto não
muda a postura dos anti-semitas e tão pouco ajuda a resolver
o conflito israelense-palestino.
As razões para sermos condenados, mesmo que
exclusivamente pelo que estamos promovendo nos territórios
ocupados, são perfeitamente compreensíveis. Se os
anti-semitas estão se aproveitando disso, somos nós que
estamos dando a eles os motivos para isso. Se outras nações
também deveriam ser condenadas, é uma questão secundária.
Somos obrigados a olhar primeiro para dentro de nós mesmos e
nos perguntar: estamos agindo de forma correta? O que estamos
fazendo com um povo que clama por seu lugar de direito, é
moralmente aceitável? Nossas atitudes na busca de uma solução
são éticas?
Qualquer um diante de um quadro de horror
representado pela explosão de um ser humano em meio a cidadãos
comuns, diria que sim. Mas todos aqueles que sabem da importância
de se agir de forma racional, dirão que não. O que estamos
fazendo nos territórios ocupados está destruindo nossa
integridade humana, semeia a discórdia entre nós e fornece
combustível a fogueira dos anti-semitas que desejam nos
queimar a todos. Torna o homem bomba aceitável como um herói
que entrega sua vida pela causa da liberdade, numa total
distorção da realidade.
A busca de uma solução negociável que leve a criação
de um Estado Palestino ao lado do Estado de Israel é a chave
para o fim da maioria dos problemas que nos assolam neste
momento, principalmente acabando com o círculo de violência
que consome vidas inocentes e viciosamente
se retro-alimenta.
Para se encontrar uma solução para o conflito não
faltam iniciativas, sendo que a mais recente foi a que levou
ao Acordo de Genebra. Inúmeras lideranças dos dois povos
mantêm abertos os canais de diálogo, mas são sufocadas pela
intransigência de Ariel Sharon e Yasser Arafat. Não faltam
em Israel vozes que condenem o governo Sharon. Os jornais já
mostram que além de cometer crimes de terrorismo de estado, o
primeiro ministro deverá ser acusado de receber propinas para
ajudar um empresário em um empreendimento, recebendo em troca
polpudas verbas para suas campanhas políticas.
Hoje já existem quase mil soldados que se negam a
fazer parte de um exército de ocupação. A cada dia mais e
mais cidadãos israelenses se dizem cansados da política
governista. Mais e mais vozes dentro e fora de Israel condenam
este governo pela incapacidade de encontrar uma solução
negociada. Todos eles são tachados como (neo) anti-semitas.
Entidades judaicas, que durante muitos anos
combateram o anti-semitismo e lutaram pelos direitos humanos
sucumbiram ao fantasma do mundo versus os judeus. Defendendo
com todas as suas forças o governo israelense, abriram fogo
contra todos os que delas discordam, rotulando-os como
anti-semitas. A falta de argumentos sensatos não lhes deixa
outra possibilidade. Como defender o assassinato de crianças?
Como defender a colonização do território onde irá surgir
o Estado Palestino? Como justificar a destruição de casas e
destruição de plantações de oliveiras? Como explicar a
segregação de uma população? Muito simples: nossos
acusadores são todos anti-semitas, e por isso não é preciso
explicar mais nada.
Israel e o povo judeu são muito maiores que a
pessoa de Ariel Sharon. Fomos capazes de atravessar períodos
terríveis em nossa história com nossa capacidade em
sobrepujar as adversidades e buscar nos ensinamentos de nossos
profetas, forças para encontrar uma saída. Desta vez não
será diferente. Ariel Sharon está com seus dias contados
como primeiro ministro. Nunca um ministro acusado de cometer
algum crime permaneceu no posto. Chegou a hora de começar a
pensar no próximo líder, e ao mesmo tempo repensar nossas
atitudes com relação aos próximos e aos nossos.
Quanto mais cedo chegarmos a um entendimento com o
povo palestino, mais cedo vamos poder tratar de nossas feridas
e saldar nossa dívida. A paz não é apenas uma solução
para o conflito com eles, é também uma solução para nossos
próprios conflitos internos. Chega de tampar o céu com uma
peneira. Temos muito mais amigos do que imaginamos, e muito
mais pessoas dispostas a nos ajudar a superar estes tempos difíceis
do que somos capazes de enxergar.
A eles meus agradecimentos por saberem apontar
nossos erros. Por saberem diferenciar o certo do errado. Pelo
fato de acreditarem em nós e apoiarem dois Estados, um judeu
e outro palestino, vivendo em paz e segurança lado a lado.
Amigos são para estas coisas.
Assim sendo vamos estar acabando com os
neo-anti-semitas e vamos continuar combatendo os verdadeiros
anti-semitas. Aqueles que não suportam nossa existência como
seres humanos, e que desta forma vão ficar órfãos da
companhia tentaram criar para eles.
Nunca é tarde para reconhecer quando erramos. Já
fizemos isso em outros momentos de nossa história e tivemos
um Rei, Salomão, que deixou um legado de sabedoria nesta área.
Ainda é tempo de recuperarmos nosso papel na história e
continuar fazendo amigos.
Ainda assim vão restar anti-semitas no mundo, mas
como eu disse no inicio deste artigo, eles são tão velhos
quanto nós e vão continuar por aí por que o povo judeu
segue existindo e repetindo uma antiga prece: Am Israel Hi (o
povo judeu vive).