Por ESTHER KUPERMAN

Historiadora e Doutoranda em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e membro dos Amigos Brasileiros do Paz Agora

 

 

As duas faces do pensamento único

Antonio Gramsci“(...) Porém, não acho que se possa comparar o ‘judaísmo-maçonaria’ com o fato de que na Polônia os judeus são comerciantes ou usurários e não camponeses. Na Geórgia eram usurários os armênios e os armênios eram os ‘judeus da Geórgia’. Em Nápoles, quando sopram ares de revolta, a polícia dá plantão nos escritórios populares de penhor porque a fúria popular se dirige contra os mesmos: se esses escritórios fossem mantidos por judeus e não por crentes de São Genaro, falaríamos de anti-semitismo em Nápoles, como há numa parte do Casalês, da Lemellina e do Alexandrino, onde os judeus são comerciantes de terra e aparecem sempre quando acontece uma ‘desgraça’ com uma família e ocorre vender ou liquidar por qualquer preço. Mas também aqui, onde ninguém está interessado em atiçar, estes sentimentos não ultrapassam modestos limites.

Abraço-a ternamente.

Antonio”

Fragmento de carta de Antonio Gramsci a Tania, escrita na Penitenciária de Turim em 21 de março de 1932. in GRAMSCI, Antonio. Cartas do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.

Este texto tem por objetivo identificar algumas relações de identidade entre posições e discursos que se apresentam, a princípio, conflitantes, mas que, em uma análise mais apurada revelam as mesmas características.

Trata-se de um fenômeno interessante, que iguala campos opostos: de um lado aqueles que expressam o pensamento progressista, crítico, ou mais especificamente “de esquerda” e de outro aqueles que a partir da posição que ocupam como dirigentes de instituições judaicas brasileiras ou lideranças comunitárias, enfim, os representantes do establishment, identificam-se como sendo porta-vozes de todos judeus brasileiros.

Estes dois segmentos, apesar de pertencerem a distintos terrenos ideológicos, ao abordarem o conflito do Oriente Médio apresentam uma argumentação bastante semelhante, formulando propostas que se aproximam, o que chama a atenção para a vizinhança destas posições sobre este assunto. Queremos dizer com isto que há, em ambas as partes um enfrentamento da questão que os iguala.

Como lembra o escritor Bruno Kampel, o próprio Edward Said, ao receber o Prêmio Príncipe Astúrias, compartilhado com Daniel Baremboim, reconheceu que uma parte da esquerda, pelo menos no que diz respeito ao conflito palestino-israelense, “deixou-se arrastar cegamente pelas consignas soviéticas e por um anti-semitismo atávico e que para atender ao seu ódio genético, deveriam apoiar regimes que matavam esquerdistas ou que os expulsavam ou condenavam à prisão perpétua, o que é o caso de todos os países árabes”.[1]

Muitos dos governos instaurados e que se perpetuam por décadas nos países árabes podem ser caracterizados, no mínimo, como autoritários, e têm entre seus métodos de coerção a eliminação de qualquer tipo de manifestação de oposição, em especial as que pertençam à esquerda. Tomemos como um dos exemplos o caso do Iraque à época de Sadam Hussein. Este, no início de sua carreira política, e contando com amplo apoio dos EUA, teve como uma de suas façanhas a eliminação física da quase totalidade do Partido Comunista Iraquiano e durante todo o período em que esteve no poder jamais permitiu qualquer tipo de organização com este matiz político.

São evidentes as perseguições movidas pela maioria dos governantes árabes aos partidos de esquerda que nesses países vivem em total clandestinidade, situação bastante semelhante às ditaduras instauradas na América Latina ao longo de algumas décadas do século passado e que as tornaram alvo de críticas por parte de inúmeros organismos internacionais, principalmente no que diz respeito ao cerceamento da livre expressão de opinião e das políticas que feriam direitos humanos.

Isto não justifica as recentes invasão e ocupação do Iraque, perpetradas pelos EUA e seus aliados, fatos que geraram uma onda crescente de manifestações de repúdio por todo o planeta e mesmo entre os próprios norte-americanos. É de conhecimento geral que, mesmo nos países que mobilizaram tropas em apoio ao exército americano havia cidadãos manifestando em público sua discordância quanto à participação de seu país na invasão do Iraque – segundo informações veiculadas na imprensa, mais de 80% dos espanhóis e a metade dos ingleses - prova de que, mesmo que estas estatísticas não sejam exatas ou que não correspondam exatamente ao montante de cidadãos que expressaram sua opinião, sempre há uma dicotomia entre governo e povo, ou, pelo menos, a existência de focos de divergências entre as decisões tomadas pelos governantes e parte dos seus governados. Mesmo nos EUA, onde a mídia contribui firmemente para a construção de um consenso em torno da necessidade de “empreender combate sem fronteiras ao terrorismo”, temos notícias de expressões qualitativa e quantitativamente importantes, por parte da população, de desacordo com a mentalidade belicista imposta pelo governo.

A questão está em evitar um posicionamento maniqueísta, angelizando o governo e o regime iraquianos apenas porque, no início da invasão ao Iraque este se apresentava como um contraponto ao governo americano. Não podemos esquecer que apoiar Sadam Hussein, tal como foi feito por alguns setores progressistas nas manifestações contra a invasão do Iraque, significa dar suporte a um regime autoritário e anti-esquerdista que nunca representou necessariamente ao povo iraquiano, este último duplamente penalizado: por um lado pela invasão americana e por outro pela ditadura imposta pelo partido de Hussein. É preciso que se dissocie a rejeição à ocupação do Iraque pelos norte-americanos de qualquer apoio à ditadura que a precedeu, identificando os verdadeiros representantes da resistência do povo iraquiano. A oposição à presença norte-americana no Iraque não pode ser expressa pela idéia de que seu único contraponto seria o retorno ao regime anterior.

Da mesma forma como procuramos estabelecer uma clara diferença entre o povo iraquiano e o regime de Sadam Hussein, no caso do conflito Israel/Palestina é preciso que seja estabelecida uma definição clara a respeito de quem realmente representa os interesses do povo palestino, bem como daqueles que expressam a opinião dos israelenses.

Nenhum dos países árabes, em nenhuma circunstância, destinou aos palestinos um tratamento digno. É notório que em nenhum destes países eles obtiveram apoio e muito menos cidadania. Basta examinarmos a situação em que se encontram em terras jordanianas ou libanesas: eternos refugiados, relegados a espaços delimitados e a acampamentos provisórios que se perpetuam. Como bem define Bruno Kampel:

“Da mesma forma em que não poucos governos israelenses provocaram miséria dor e morte nos territórios ocupados, o maltratado povo palestino não recebeu nenhuma ajuda daqueles que tanto gostam de falar em seu nome. Muito pelo contrário, foram e são marginalizados e explorados por emires, reis e presidentes que mandam nessas terras circundantes como verdadeiros senhores de escravos que são.” [2]

Mas - é importante ressaltar – tais práticas referem-se a atos ou a políticas cujos responsáveis são os governantes árabes e não seus governados. Estes últimos experimentam situação de miséria e opressão semelhante à que se encontram os refugiados palestinos que se abrigam em seus territórios.

Desta forma cria-se um discurso maniqueísta, no qual elegem-se os israelenses e os judeus como os únicos responsáveis pela situação do povo palestino. Não há porque negar o peso e a responsabilidade das políticas belicistas produzidas por inúmeros governos israelenses que trabalham para criar um “Grande Israel”, expulsando palestinos ou construindo muros que representam a ampliação e a consolidação da ocupação. Não há por que minimizar o peso e a responsabilidade da presença do Estado de Israel nesta guerra.

Entretanto há que retificar a análise que o identifica como único fator que desencadeou este conflito. Ignorar a existência de um conjunto de outras questões, apontando apenas a existência do Estado de Israel como único vetor deste processo e passando a responsabilizá-lo inteiramente pela perpetuação do exílio palestino torna a análise reducionista. Considerar a criação do Estado de Israel como a origem de todos os males existentes no Oriente Médio significa tornar parcial e subjetiva a percepção dos fatos, deixando de observar outros componentes e interesses presentes na região.

Não resta dúvida que o conflito Israel/Palestina tem suas raízes históricas em 1948 e foi agravado ao longo das últimas décadas pelos inúmeros momentos em que as fronteiras estabelecidas pela ONU foram ultrapassadas, permitindo a anexação de territórios que originalmente não pertenciam ao Estado de Israel, principalmente após a guerra de 1967. Não vamos aqui colocar em discussão os fatos que geraram os inúmeros confrontos entre Israel e seus vizinhos, que tiveram como conseqüência a ampliação do território israelense, pois o que está em questão não é este conflito mas sim um de seus desdobramentos, que é a questão palestina. Nas últimas décadas, em razão da eleição de governos cujas posições baseiam-se na intransigência em recuar para as fronteiras anteriores a 1967 e no incentivo à criação de assentamentos nestes territórios – alegando tratar-se de uma forma de garantir a segurança nacional – houve uma intensificação do conflito e um aumento considerável de ações, de ambas as partes, que visam atingir locais estratégicos ou lideranças políticas, mas que, em sua maior parte penalizam populações civis dos dois lados.

A criação do Estado de Israel veio apenas somar-se aos problemas de ordem econômica e política latentes na região, dentre eles as inúmeras formas de resistência à ocidentalização, que hoje em dia se aprofunda sob a forma de retorno às organizações grupais e ao fortalecimento das diversas correntes fundamentalistas, algumas das quais responsáveis por práticas que podem ser consideradas condenáveis do ponto de vista humanitário. Algumas destas práticas podem ser observadas e entendidas a partir de seu significado: são formas de resistência cultural, estratégias encontradas para fazer frente à penetração de valores e comportamentos que poderiam produzir rupturas ou dissoluções no sentimento de identidade étnica que muitas vezes é fator de coesão dentre estes grupos sociais.

Mas, mesmo estas formas, que na maioria das vezes adquirem um caráter autoritário, não representam uma alternativa aceita pela totalidade dos cidadãos árabes e no caso do povo palestino, constituem apenas maneiras de preservar uma identidade ameaçada, não sendo sua opção preferencial:

“Pesquisas de opinião sugerem que a maioria dos palestinos prefere um regime democrático de livre mercado e deseja copiar modelos como os da Suécia ou Suíça. Isso apontaria uma escolha claramente secular, não sectária. Possivelmente também um regime que combinasse liberdade política com proteção contra os assaltos do capitalismo selvagem além de um pouco de previdência social”.[3]

A criação do Estado de Israel, após a Segunda Guerra, veio também somar-se à penetração das grandes potências, interessadas em ocupar espaços estratégicos na região, principalmente na conjuntura da Guerra Fria. Da mesma maneira que o Estado de Israel era acusado de ser “ponta de lança dos interesses americanos” na região - e por isto jamais obteve, por parte da esquerda seu reconhecimento - regimes autoritários, excludentes e até sanguinários eram apoiados e armados pela antiga URSS com propósitos semelhantes. Mas este apoio nunca foi motivo de reflexão ou de manifestação crítica por parte da esquerda – e aqui nos referimos também aos setores não identificados com o PCURSS - nem mesmo quando o próprio regime stalinista e seus crimes tornaram-se alvo de discussão entre os comunistas em todo o mundo ocidental. Como se explica tal fato?

É notório que a imigração de judeus para o Oriente Médio contou não só com o apoio da antiga URSS[4], como também com o incentivo dos partidos comunistas de todo o mundo e que somente alguns anos mais tarde é que o Estado de Israel passou a ser considerado um projeto colonialista por parte dos comunistas.

Mesmo que, em alguns momentos, ao analisar a questão nacional, os comunistas soviéticos não considerassem a criação do Estado de Israel como solução para o problema da nacionalidade judaica mas, como defendia Trotsky, esta e outras questões ligadas às nacionalidades seriam resolvidas a partir de uma reformulação coerentemente internacionalista da sociedade, tal posição foi um pouco atenuada pelo nazismo. Numa entrevista em 1937 o mesmo Trotsky declarou: “depois da experiência do nazismo era difícil acreditar na assimilação dos judeus por ele esperada”.[5] O sionismo por si só não resolveria o problema mas mesmo no socialismo talvez fosse necessário aos judeus instalarem-se num território separado. Mesmo contando com todos estes exemplos e abordagens de parte de diferentes matrizes do pensamento marxista, tais posições não são levadas em conta quando se trata de examinar a questão judaica e principalmente a existência do Estado de Israel, principalmente por parte da esquerda. A explicação para tal fato encontra-se em vários autores que se debruçaram sobre o tema, especialmente em Jayme Brener:

“Ao longo da história, a conversão de grupos e dirigentes de esquerdas à xenofobia – y compris o anti-semitismo – ocorre diante de situações de crise. Slobodan Milosevic, ex –dirigente do PC Iugoslavo, quando pressentiu o colapso do regime socialista, transformou-se, da noite para o dia, em ultranacionalista sérvio e detonou a guerra civil que ceifou dezenas de milhares de vidas no país. Em 2002, o ultradireitista e xenófobo Jean-Marie Lê Pen chegou ao segundo turno das eleições presidenciais na França com os votos de bolsões operários, de tradicional influência comunista. O motivo era simples: Le Pen e seu discurso antiimigrantes conquistaram os corações de muitos esquerdistas que sentiam-se ameaçados por trabalhadores estrangeiros. Entre esses eleitores, muitos certamente acreditavam defender posições de esquerda, ao opor-se a estrangeiros que se dispõem a trabalhar por qualquer salário, pisoteando décadas de conquistas dos sindicatos de esquerda...

Em momentos como esse, desastres colhidos pelo internacionalismo tradicional ou o puro e simples oportunismo cedem à tentação de usar o ultranacionalismo como atalho para os corações e mentes das massas”.[6]

A que se atribui que o Mufti de Jerusalém, nos anos 40 um aliado explícito de Hitler, seja tratado por historiadores e pela esquerda em geral como um campeão da democracia?

Segundo Bernard Lewis:

Já em 1933, imediatamente após a subida de Hitler ao poder, o Mufti de Jerusalém, Haj Amin al-Husayni, nomeado pelos britânicos, entrou em contato com o cônsul alemão, declarando apoio e oferecendo ajuda. Após anos de luta irreconciliável contra os britânicos e os judeus, o Mufti deixou a Palestina e, com escalas em Beirute, Bagdá e Teerã, chegou a Berlim em 1941. A mais importante dessas paradas ocorreu em Bagdá, onde um político iraquiano chamado Rashid Ali al-Gaylani, tomou o poder com apoio militar e estabeleceu um regime pró-Eixo. (...)” [7]

Como justificar que este mesmo Mufti tenha incentivado explicitamente a retirada dos habitantes da região na qual iria se instalar o Estado de Israel por decisão da ONU, sob a alegação de que aquela situação não se perpetuaria e que todos os árabes voltariam aos seus lares após a eliminação física dos judeus que ali se instalavam após a Guerra?

“Durante a guerra, duas solicitações foram repetidamente apresentadas às partes em guerra - por organizações judaicas em Londres e Washington, insistindo com seus governos para que bombardeassem os campos de extermínio de Auschwitz, e pelo escritório do Mufti em Berlim, instando com o governo alemão para que bombardeasse Tel Aviv."[8]

Não seria essa uma indicação de que o aprendiz de feiticeiro considerava viável uma nova proposta de aniquilação dos judeus, a exemplo do que já fizera seu mestre? Tais fatos e atitudes são desconsiderados quando se trata de debater as origens do conflito entre Israel e Palestina. Esta é uma omissão que não pode ser ignorada, pois representa um grave erro, ou mesmo uma distorção dos fatos, mas se repete, numa clara manifestação de revisionismo histórico. Deveríamos, portanto, perguntar-nos por que o Mufti, já que se tratava de um “democrata”, jamais acenou com a perspectiva de uma negociação entre os árabes e os judeus, mas ao contrário, conspirou para provocar o desmoronamento do incipiente Estado de Israel. “A falsificação sistemática do passado não é apenas deplorável em si, como exerce conseqüências humanas graves, como estamos voltando a ver.”[9]

Por outro lado é fato que não houve, por parte dos judeus que iniciaram a construção do Estado de Israel, iniciativas no sentido de coabitar com os árabes que ali estavam instalados. A chamada Guerra de Independência caracterizou-se pela expulsão dos antigos ocupantes da região e é precisamente neste momento que podemos identificar a gênese do conflito entre israelenses e palestinos que no decorrer das décadas seguintes tem se intensificado até tornar-se um confronto com as proporções que hoje conhecemos.

Mas nenhum destes dois fatos, por mais que tenham construído sólidas fundações de um conflito que se multiplica num moto perpétuo no qual os dois lados se alimentam mutuamente pode servir de argumento para que a cada lado desta trincheira renovem-se e perpetuem-se os projetos de eliminação do inimigo como solução.

Ainda há uma outra questão à qual pode ser atribuída igual ou maior importância: trata-se de um comportamento originado por um erro conceitual que pode ser ou não intencional, no qual o ESTADO de Israel é confundido com o GOVERNO de Israel e estes dois com seu POVO. Será esta uma demonstração de que nossos acadêmicos e também os meios de comunicação não conhecem a distinção entre estas idéias? Ou será que a maior parte de nossos “intelectuais” não tem a informação necessária para, além de distinguir que são conceitos diferentes, entender que há em Israel uma alternância no poder que, por vezes, abre espaço para a ascensão de partidos cujo programa baseia-se na negociação e na procura da solução para o conflito e, em outras, de partidos cujo programa defende claramente a alternativa da guerra como solução para os problemas da região, como é o caso do governo de Ariel Sharon. Mas são apenas governos e, mesmo que eleitos a partir dos processos democráticos conhecidos no mundo ocidental, não representam a totalidade da opinião pública israelense ou muitas vezes esquecem as promessas feitas em campanha e agem de forma contrária. Aqui nos remetemos novamente ao caso do governo Sharon: eleito para trazer segurança e paz, promove a guerra e insegurança.

A opinião pública israelense se encontra, como qualquer outra, dividida entre partidos e agrupamentos políticos que se caracterizam por plataformas que vão desde a defesa de um “Israel Bíblico” até a idéia da criação de um Estado binacional onde israelenses e palestinos possam conviver em igualdade de condições, tanto políticas quanto sociais. Qualquer análise que não leve estes dados em consideração não pretende reconhecer a existência de uma pluralidade dentro de qualquer sociedade e, conseqüentemente não considera os israelenses como um povo com direito a um Estado, tão legítimo quanto o direito do povo palestino.

Aliada a esta falta de compreensão e “compreensões” sobre a diferença entre Estado e governo ainda nos deparamos com a incapacidade ou desinteresse em reconhecer a distinção entre o que é ser judeu ou israelita e o que significa ser israelense. Trata-se do desconhecimento de que a população do Estado de Israel não é composta unicamente por judeus, mas também por árabes, cristãos ou outros grupos étnicos ou de diferentes orientações religiosas, e que, independente da diversidade cultural, habitam o território de Israel e possuem cidadania israelense. Já os judeus ou israelitas são aqueles que praticam a religião judaica ou que, mesmo não sendo religiosos, possuem laços de identidade com o judaísmo laico e que se encontram espalhados por todo o mundo, possuindo a cidadania dos países onde nasceram e habitam. Portanto, nem todo israelense é judeu ou israelita e nem todo israelita ou judeu é israelense.

O resultado de todos estes mal entendidos, “incompreensões” e erros conceituais é o que temos visto enquanto manifestação de repúdio às políticas do atual governo de Israel, o que é legítimo, caso sejam manifestações voltadas contra um governo específico, mas que perde a sua legitimidade quando são atribuídas a todos os israelenses e extensivamente aos judeus de todo o mundo. Numa perigosa atitude de generalização, todos são responsabilizados pelos bombardeios de aldeias e cidades palestinas. Mas, em nenhum momento todos os palestinos são responsabilizados pelo ataque de um suicida num jardim de infância em Israel. De todos os israelenses e de todos os judeus cobra-se toda e qualquer ação armada perpetrada pelo exército de Israel, mas não se acusa às senhoras de Gaza ou de Ramalla pelas mortes provocadas por uma suicida num restaurante em Haifa. Não se reivindica, com isto, que generalizações sejam feitas em todas as direções, culpando de forma aleatória aqueles que não participam e nem mesmo apóiam ações que são empreendidas e defendidas por minorias. Pretende-se apenas que o mesmo tratamento seja dado aos dois lados, numa análise eqüidistante.

Mesmo sabendo-se que diminui, dia a dia, a credibilidade da sociedade israelense na eficácia da guerra como garantia de segurança, ainda assim mantém-se a generalização. A avaliação sobre como os israelenses encaram o cotidiano da guerra tem sido feita sem tomar em conta o medo lógico da população inocente que espera aterrada o momento em que uma bomba de um suicida faça com que a pizzaria na qual está jantando voe pelos ares. Da mesma forma que, ao descrever o estado de espírito da população palestina a respeito dos efeitos das incursões armadas nos territórios ocupados, ressalta-se a idéia de que todos, sem exceção, incentivam as iniciativas dos grupos extremistas e que estes possuem sólidas bases de apoio dentre as populações dos territórios ocupados.

Neste momento, até mesmo dentro das fileiras do exército israelense já não mais existe consenso a respeito da ocupação, bem como dessas ações, o que pode ser visto através das notícias publicadas nos jornais a respeito de oficiais que se negam a cumprir as ordens de bombardear alvos civis ou que por proximidade geográfica possam produzir muitas vítimas inocentes nos territórios ocupados. São os refuseniks:

A cada semana, dois ou três militares aderem. Espero que, com o tempo, nossos rapazes usem a cabeça e se recusem a servir nos territórios palestinos, afirma Arik Diamant, 30, sargento da reserva de uma unidade de pára-quedistas -parte da elite militar de Israel.[10]

Cresce a cada dia o número de militares israelense que, mesmo sob ameaça de prisão por indisciplina, não cumprem ordens que contrariem seus princípios. O próprio comandante das Forças Armadas de Israel, general Moshe Yaalon, afirmou publicamente que as táticas do Exército incentivam o terrorismo, em vez de suprimi-lo. Todos estes movimentos e declarações refletem uma tendência na sociedade israelense que, embora ainda incipiente, tem tido enorme repercussão tanto em Israel como em todo o mundo, mas parte da esquerda parece não perceber ou querer perceber estes fatos. Da mesma forma parece que há uma falta de percepção generalizada a respeito dos movimentos equivalentes no lado palestino, como o recém formado Alternativa Palestina.

Ignorar a existência de movimentos voltados para a construção da paz, tais como o Shalom Achshav (Paz Agora), Gush Shalom (Corpo da Paz), Iesh Gvul (Há Limite), Rabbis for Human Rights, Women in Black e tantos outros, é considerar que a sociedade israelense, bem como que todos os judeus do mundo pensam da mesma maneira, o que é algo inconcebível, em se tratando de seres humanos. Não levar em consideração que estes mesmos movimentos reúnem milhares de cidadãos israelenses em ações afirmativas de oposição ao governo de Israel, contra os bombardeios nos territórios ocupados e contra a própria ocupação, e que possuem “exércitos” de militantes e simpatizantes entre os judeus de vários países é cair na perigosa trilha da generalização que alimenta ódios, fortalecendo aos que defendem a guerra e a opressão como únicas formas viáveis de relação entre os dois povos.

É inegável que existe em Israel uma maioria silenciosa, cujo único desejo é viver em paz, e que muitas vezes apóia atos bárbaros praticados pelo governo. O que explica este apoio é o medo muito humano de vir a morrer dentro de um ônibus, num restaurante, na porta de um colégio, ou no mercado, vitima de um suicida palestino. Sem dúvida, a cultura da violência fortaleceu, dentre os israelenses, a noção de que “os árabes só entendem a linguagem da força”. A disseminação desta idéia, que poderíamos comparar à ideologia de segurança nacional vigente no Brasil dos anos 70 - cuja melhor tradução era a expressão “Brasil, ame-o ou deixe-o” - favoreceu a aplicação das políticas do governo Sharon, mas nunca representaram a totalidade da opinião pública israelense, da mesma maneira como a idéia de que aquele que não concordava com os militares era inimigo da pátria não representava o pensamento de todos os brasileiros.

Do outro lado da fronteira encontramos na maioria silenciosa palestina este mesmo medo de vir a morrer na cama, assistindo TV ou indo visitar um parente no hospital, vítima dos bombardeios do exército de Israel sobre a população civil dos territórios ocupados. Tanto a maioria israelense como a palestina são vítimas da manipulação da opinião pública feita desde os respectivos governos.

O entendimento dos mecanismos que produzem esta incapacidade de distinguir tais disparidades pode nos indicar o caminho de sua superação. Mas, em lugar de compreender a origem deste discurso, busca-se dissemina-lo, homogeneizando idéias. E aqui identificamos uma feroz parcialidade, justamente entre aqueles que perante outros processos históricos se esforçam por produzir uma análise equilibrada e apresentar uma posição eqüidistante. Novamente nos vemos frente a manifestações do pensamento único, modernizado por novas embalagens oferecidas pela linguagem acadêmica, mas tão antigo quanto aquele que sempre foi alvo das críticas de todos aqueles que, em outros tempos, foram vítimas do autoritarismo e que agora com ele se confundem.

Da mesma forma que este comportamento se apresenta no campo da esquerda brasileira, constatamos que existem mecanismos que procuram conduzir, por parte daqueles que pertencem ao establishment judaico no Brasil, à idéia de que todos os judeus e todos os israelenses pensam da mesma maneira. São os que não admitem a existência de posições divergentes no seio da sociedade israelense e que também não permitem a exposição de vozes dissonantes no interior das coletividades judaicas – comunidades de judeus que vivem fora de Israel. Desta forma, não aceitam a existência dos movimentos pacifistas com seu alcance mundial e acusam todo judeu que expressa alguma crítica às políticas de Sharon de estar “agindo contra Israel” e, em última instância “ser contra o povo judeu”.

Há aqui também uma clara mistificação, que procura ignorar a diferença entre governo e povo, bem como entre israelenses e judeus. Ao ocultar diferenças não dando voz às dissidências que naturalmente existem em todo grupo social produzem uma imagem de que todos são iguais, pensam e agem da mesma forma. Os discordantes são tratados como inimigos e muitas vezes até acusados de serem anti-semitas. Os dissidentes recebem uma espécie de “atestado de inimigo de Israel”, pois esse discurso único transforma a pluralidade - que é a marca registrada do povo judeu ao longo de milhares de anos - numa imagem sem tons nem nuances, apresentando um perfil falso e definitivamente prejudicial dos judeus brasileiros, transformando-os em apêndices do governo de Israel.

Há que reconhecer a existência de laços de solidariedade entre os judeus de todo o mundo e o Estado de Israel e que este constitui uma referência para todas as comunidades judaicas. Trata-se de referência nacional, sentimental e também religiosa e se manifestam de forma diferente, em consonância com o perfil ideológico de cada judeu. Mas este dado não significa, de forma nenhuma, um alinhamento automático e absoluto com qualquer posição ou política adotada pelo governo israelense, seja ele qual for. São relações diferentes que não apresentam nenhuma forma de dependência entre si: uma faz parte da construção da identidade judaica, outra constitui uma tentativa de homogeneização das posições políticas, tanto de judeus quanto de israelenses.

Se, ao lado destes argumentos, considerarmos que as lideranças comunitárias na diáspora não receberam mandato para falar em nome da comunidade sobre assuntos que não sejam referentes aos interesses imediatos da coletividade, nos defrontamos com uma situação em que se configura uma representatividade desprovida de qualquer sustentação política. Como em nenhum momento, durante o processo de escolha daqueles que irão ocupar os cargos de direção nas instituições comunitárias, são colocadas em discussão as posições da coletividade sobre o conflito do Oriente Médio, portanto não é feita nenhuma opção pelos membros da comunidade a respeito deste assunto, não existe nenhuma representatividade nas opiniões emitidas sobre este assunto por parte daqueles que controlam estas instituições.

Para os dirigentes da maioria das instituições das coletividades judaicas no Brasil, ou seja, para aqueles que mantém a hegemonia política dentro destas, é necessário que haja um apoio irrestrito a todas ações perpetradas pelo atual governo de Israel, caso contrário, a própria existência deste Estado será colocada em xeque. Aqui repete-se um discurso que nos remete ao dos regimes totalitários, no qual é preciso criar um inimigo exterior como forma de gerar consenso, eliminando os conflitos existentes em uma sociedade ou em qualquer grupo social. Desta forma, segundo estes mesmos dirigentes comunitários, para que o Estado de Israel, os israelenses e os judeus não sejam “colocados em perigo” é preciso que qualquer voz dissonante e que as críticas à ocupação sejam abafadas, pois para eles, estas “servem aos interesses do inimigo”. E o apoio à política do governo israelense é sempre manifestado publicamente, em nome de todos os membros da comunidade, ignorando aos que não comungam com estas mesmas políticas.

Não seria este um mecanismo similar de transformação de Estado em governo e de nação em povo? Não seria esta uma forma de tentar criar a falsa idéia de que toda crítica é uma ferramenta de destruição, assim como uma maneira de inverter os fatos, transformando todo crítico em alvo de críticas? Para estes setores não é possível existir divergências entre os judeus. Tais grupos não admitem a exposição de que há israelenses e judeus que considerem fundamental a existência de um Estado palestino, tanto quanto a do Estado de Israel. São situações, para eles, inaceitáveis e que devem ser, no mínimo, ignoradas.

Segundo Wallerstein “os dois maiores legados da Revolução Francesa foram a idéia de que a mudança política era algo de normal, e a idéia de que a soberania não residia no governante nem num grupo de notáveis, mas sim no povo”.[11]

Trata-se, por parte deste establishment judaico, de negar aos israelenses sua soberania, para além de qualquer governante e de negar aos judeus o direito à pluralidade. Assim, acaba-se por produzir a falsa idéia de que em Israel não há uma normalidade política, visto que não há oposição. E, ao mesmo tempo, empunha-se a bandeira de que Israel é um país democrático. Mas a democracia israelense não se baseia no apoio irrestrito de todos os cidadãos ao governo, assim como nenhuma democracia se constrói desta forma. Ela baseia-se justamente na alternância do poder e no livre debate entre os opostos.

A tentativa de exibir um consenso inexistente, justificada a partir da necessidade de coesão em torno do governo de Israel em face de uma possível fragilidade do Estado de Israel, expõe uma crença subjacente de que a existência deste mesmo Estado é fluida e passível de ser contestada, caso não haja consenso em torno das políticas adotadas por seu governo. Somente desta forma podemos interpretar a atuação destes que se apresentam como representantes comunitários e que defendem a homogeneidade de idéias a qualquer custo.  E, ainda mais: não seria esta uma outra forma de coerção, com o objetivo de construir uma única maneira de pensar onde ela, na verdade, não existe?

É interessante identificar que esta crença na fragilidade política de Israel enquanto Estado aproxima estes membros das comunidades judaicas brasileiras, ainda que por razões antagônicas e objetivos totalmente opostos, daqueles que pretendem negar a existência do Estado de Israel. Ambos negam, de formas diferentes, ao Estado de Israel, sua existência e a diversidade de posições que o criaram e que estão nele contidas.

Como podemos perceber, os contrários se assemelham e, ao que tudo indica, parecem mesmo estar se atraindo. De formas diferentes, ambos, cada um à sua maneira, contestam a existência do Estado de Israel, bem como sua normalidade política e procuram consolidar estas idéias a partir da uniformização compulsória do pensamento.

Há 500 anos Bartolomeu de Las Casas defendia o direito dos povos indígenas a ter sua dignidade e sua própria terra. Por que este princípio não se aplica aos palestinos e israelenses? 

Tanto o Estado de Israel é fato consumado quanto o Estado palestino é uma necessidade premente. Pregar a destruição do primeiro e impossibilitar a consolidação do segundo são atitudes que se apresentam, aparentemente, como diametralmente opostas, mas que na prática possuem similar teor de intolerância e incompreensão da História.

Resta-nos, por fim, além de indicar esta convergência, apelar para que, ao nos debruçarmos sobre o conflito entre estes dois povos, possamos ter a isenção necessária para afastarmos a tendência à generalização que é o atalho para o pensamento autoritário, porque este só conduz ao ódio e ao fanatismo que, pelo menos em teoria, todos nós reprovamos.


[1] KAMPEL, Bruno. A esquerda e o conflito Israel-Palestina. In. www.pazagora.com - 20/10/2003.

[2] KAMPEL, Bruno. A esquerda e o conflito Israel-Palestina. In. www.pazagora.com - 20/10/2003.

[3] DEMANT, Peter. Identidades israelenses e palestinas: questões ideológicas. In DUPAS, Gilberto e VIGEVANI, Tullo. (org.) Israel-Palestina: a construção da paz vista de uma perspectiva global. São Paulo: Unesp, 2002.

[4] “...Também tortuosa foi a maneira como Stalin atuou como padrinho, em 1948, do novo Estado de Israel. Seu representante nas Nações Unidas pleiteou o reconhecimento de Israel enquanto muitos governantes do ocidente ainda discutiam a sua legalidade. Stalin encorajou vários governos da Europa Oriental a permitir que os judeus que tinham sobrevivido nos seus países a migrar para a Palestina, e mesmo a suprir os sionistas com os armamentos com que eles lutaram sua guerra de independência”.

“Os motivos dessas atitudes não são difíceis de perceber: a revolta sionista na Palestina marcava um estágio na dissolução do Império Britânico, ela apressava a retirada britânica do Oriente Médio. Como os Estados  Unidos também estavam apoiando Israel, Stalin esperava que com essa política pudesse incrementar as relações Russo-americanas.  Essa provou ser uma esperança vã. Além do mais, Israel cedo se tornou um posto avançado do Ocidente no Oriente Médio; e Stalin culparia seus líderes por essa ingratidão.” DEUTSCHER, Isaac. Stalin. A Political Biography. Penguin Books. Middlesex, England. 1976. P. 591

[5] DEUTSCHER, Isaac. Trotsky – O Profeta Armado. Rio de Janeiro. Editora Civilização Brasileira, 1968

[6] BRENER, Jayme. A esquerda e o antisemitismo.

[7] LEWIS, Bernard.O Oriente Médio. Rio de Janeiro: Zahar, 1996. Pág. 308

[8] LEWIS, Bernard. Op. Cit. Pág. 301.

[9] CHOMSKY, Noam. Falsificação do passado gera conseqüências graves. In Folha de São Paulo. 11/10/2001. Primeiro Caderno.

[10] Militar rebelde acredita em risco à Israel democrática. In Folha de São Paulo, Caderno Mundo. Domingo, 23-11-2003. Pág. A28

[11] WALLERSTEIN, Immanuel. O Albatroz Racista. Conferência proferida na Universidade de Viena em 9 de Março de 2000, no âmbito da série "Von der Notwendigkeit des Überflüssigen - Sozialwissenschaften und Gesellschaft" ("Da Necessidade do Supérfluo - Ciências Sociais e Sociedade").In: Revista Crítica de Ciências Sociais, Setembro de 2000.

 

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Bibliografia:

BRENER, J. A esquerda e o antisemitismo. Rio de Janeiro: Imago, 1989.

CHOMSKY, N. Falsificação do passado gera conseqüências graves. In Folha de São Paulo. 11/10/2001. Primeiro Caderno.

DEMANT, P. Identidades israelenses e palestinas: questões ideológicas. In DUPAS, G. e VIGEVANI, T. (org.) Israel-Palestina: a construção da paz vista de uma perspectiva global. São Paulo: UNESP, 2002.

DEUTSCHER, I. Stalin. A Political Biography. Middlesex, England: Penguin Books,1976.

___. Trotsky – O Profeta Armado. Rio de Janeiro:Civilização Brasileira 1968.

GRANSCI, Antonio. Cartas do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.

KAMPEL, B. A esquerda e o conflito Israel-Palestina. In. www.pazagora.com., 2003. 

LEWIS, B.O Oriente Médio. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.

Militar rebelde acredita em risco à Israel democrática. In Folha de São Paulo, Caderno Mundo. Domingo, 23-11-2003. Pág. A28

WALLERSTEIN, I. O Albatroz Racista. Conferência proferida na Universidade de Viena em 9 de Março de 2000, no âmbito da série "Von der Notwendigkeit des Überflüssigen - Sozialwissenschaften und Gesellschaft" ("Da Necessidade do Supérfluo - Ciências Sociais e Sociedade").In: Revista Crítica de Ciências Sociais.

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