Os
simplificadores
abusivos e o conflito do Oriente Médio
O
retrato de Israel feito pelos historiadores revisionistas,
locução doravante referida pelas iniciais RH ("revisionismo
histórico"), ultrapassa quase sempre o âmbito da análise
crítica e ingressa no terreno da calúnia pura e simples.
Tudo na posição desses satanizadores do sionismo é passível
de contestação, começando pela descrição do movimento
sionista, passando pelas críticas dirigidas à suposta índole
discriminatória das suas leis e concluindo com a
respectiva visão do conflito árabe-israelense.
A
concepção do RH a respeito do sionismo repousa sobretudo
em juízos de valor, tributários de uma posição ideológica
professada por certos setores da esquerda que, coincidência
ou não, assemelha-se muito ao ideário do Bund. Esse
movimento político, criado no final do século XIX por
judeus socialistas da Europa Oriental, antagonizava o
sionismo na mesma medida em que defendia a participação
organizada dos trabalhadores judeus na luta pela
transformação da sociedade européia. O Bund entendia
que regimes progressistas guiados pelo ideal socialista
eliminariam as tensões sociais, erradicando assim as
precondições do anti-semitismo. Como era praxe nos
movimentos revolucionários e reformistas da época, o
nacionalismo era considerado uma expressão ideológica
das classes dominantes, inerentemente belicoso, e nessa
medida um anacronismo a ser superado pela solidariedade
entre os povos.
A
análise do nacionalismo judeu feita pelo RH é
surpreendentemente precária por não levar em conta que o
sionismo se caracteriza, acima de tudo, como movimento
popular destinado à emancipação de uma minoria
(definida em termos mais culturais do que étnicos) não só
discriminada mas freqüentemente perseguida e massacrada.
Em relação à divisão da esquerda judaica, entre
socialistas não sionistas e socialistas sionistas, o
surpreendente é que, contra todas as previsões,
os visionários ganharam a aposta. Tanto na União
Soviética como nos países do leste europeu o
anti-semitismo não só continuou a existir como fez uma
contribuição à vasta nomenclatura da discriminação, o
eufemismo "cosmopolitismo burguês".
O
RH passa por alto essa questão na medida em que ela
perturba seu esquema apriorístico, tributário do maniqueísmo
ideológico e das ilusões iluministas. Às últimas se
poderia atribuir sem ressalvas o epíteto do anacronismo.
O RH não compreendeu bem o significado da famosa frase de
Sartre: se o judeu não existisse, o anti-semita o
inventaria. O anti-semitismo inventou de fato o judeu como
sinônimo de pária e lhe deu a função de válvula de
escape para regular a pressão da caldeira social. A esse
papel no imaginário da cultura ocidental nenhum projeto
de assimilação ou integração faz frente, como o
destino da comunidade judaica européia no século XX
demonstra à perfeição. O lugar dado ao judeu pelo
nazismo e o eco que teve nos países ocupados não
constitui um acidente; é o corolário lógico de um
processo que remonta à idade média.
O
sionismo, enquanto expressão do nacionalismo judeu, não
é excludente. Pelo contrário, representa a reação dos
excluídos e incorpora o ideal do respeito ao outro. Em
nenhum país árabe ou muçulmano o homem comum goza de
cidadania. Em Israel, o estatuto do cidadão árabe é idêntico
ao do cidadão judeu. Os árabes votam, organizam-se em
partidos políticos e têm representantes na Knesset. Há
apenas duas diferenças, não discriminatórias. O estado
não incentiva a imigração de árabes, assim como não
incentiva a imigração de pessoas de qualquer outra
nacionalidade ou etnia, apenas de judeus (incluindo
pessoas casadas com judeus e seus descendentes, além de
grupos e comunidades que se convertem ou retornam ao judaísmo).
Além disso, os cidadãos árabes de Israel não servem o
exército, por razões óbvias. Com relação às outras
minorias, drusos e beduínos, essa última restrição não
se aplica. Todos os países do mundo possuem políticas de
imigração. A Itália, a Espanha e a Alemanha concedem
cidadania aos descendentes de nacionais que emigraram e o
respectivo direito de retorno ao país. Não constitui
racismo estipular uma política semelhante com referência
a judeus que desejem emigrar para Israel, ainda mais
levando em consideração os séculos de discriminação e
perseguição.
Por
outro lado, Israel participa dos intercâmbios
internacionais sem restrições, como acontece com
qualquer país — ou qualquer país não ditatorial . É
comum encontrar estudantes não judeus que passam as férias
em kibutzim, ajudando na colheita e participando da vida
cultural, ou viajando pelo país, fazendo turismo,
incorporando-se a trabalhos arqueológicos, etc. O país
está inserido na vasta rede de cooperação acadêmica e
de pesquisa nas mais diversas áreas, tendo feito
contribuições importantes à agricultura, medicina,
dessalinização de água, cooperativismo, computação e
outros. Existe
uma minoria religiosa fanática, fechada, o que não
constitui novidade; em qualquer religião ou país é possível
encontrar grupos semelhantes. A minoria religiosa
mencionada não afeta a legislação israelense, que como
todo país democrático reconhece a liberdade de culto e
pensamento.
Como
muitas questões de alto teor emocional, o conflito do
Oriente Médio coloca obstáculos imensos à objetividade.
A isenção constitui a única atitude válida para um
debate dessa natureza, por difícil que seja alcançá-la.
Não obstante, e apesar do desagrado que opiniões
diferentes costumam suscitar, a argumentação é preferível
à exaltação de ânimos, sobretudo quando se considera
que a meta legítima de todo debate é a ampliação do
conhecimento. Diálogo, porém, não é sinônimo de
acomodação, falsa anuência, concessões simpáticas ou
ecletismo. Pode-se respeitar as opiniões dos
historiadores revisionistas e daqueles que se pautam pela
mesma perspectiva, bem como seu direito a expressá-las, e
discordar delas.
Antes
de entrar no mérito da questão, é preciso assinalar que
o presente debate coloca em pauta uma questão cuja importância
não poderia ser negligenciada. Trata-se da pergunta
referente a como se diferenciam e/ou se articulam a crítica
a Israel e o anti-sionismo. Em seguida, é preciso
transpor a mesma interrogação para a relação entre
'anti-sionismo' e 'anti-semitismo'. Obviamente, nem toda
crítica a Israel é anti-sionista, mas muitas podem sê-lo.
Já com referência ao elo entre anti-sionismo e
anti-semitismo, a correlação é bem mais alta. A não
aceitação da existência do estado judeu está
fortemente vinculada à não aceitação da existência do
judeu enquanto judeu.
Não
somente o RH não aprendeu nada com o Holocausto, mas
parece ter esquecido a situação dos judeus na Rússia
Czarista, na União Soviética (inclusive a condenação
dos médicos judeus acusados de envenenar Stalin), a execução
sumária de judeus no Iraque e no Irã a pretexto de
espionagem, a expulsão de 750 mil judeus do Islam na década
de 50, e um longo etc. Com relação ao último exemplo,
pode-se alegar que a hostilidade árabe se deve à fundação
de Israel. O argumento, porém, fracassa em justificar as
medidas mencionadas bem como as prisões, assassinatos e
confisco de bens que a acompanharam. Em acréscimo, cabe
lembrar que muito antes da fundação de Israel o estatuto
dos judeus nas sociedades muçulmanas era o de dhimmis,
ou seja, cidadãos de segunda classe. Jamais, nem em relação
à Alemanha nazista nem durante os pogroms da Rússia
Tzarista ou em qualquer outro caso houve alguma mobilização
internacional sistemática e eficaz; no máximo, debéis
protestos e apelos à boa vontade dos algozes. Passando à
contemporaneidade, o governo de Chirac custou a admitir
que os incêndios de sinagogas e escolas judaicas bem como
agressões a rabinos e alunos judeus do ensino público não
eram simples atos de vandalismo e violência comum. A
mudança de atitude dos ministros franceses refletiu, em
grande parte, o impacto das denúncias israelenses.
A
questão da origem étnica daquele(s) que professa(m) idéias
como as defendidas pelo RH em relação a Israel é de
somenos importância. Há muitas outras pessoas, judeus e
não judeus, cujas atitudes são muito diferentes ou
totalmente opostas. Assim como oficiais do exército
israelense se negam a servir na margem ocidental por
considerar que se trata de uma agressão injustificada ao
povo palestino, outros
(em número incomparavelmente maior) aceitam arriscar suas
vidas nessa tarefa porque acreditam que é a melhor
maneira de proteger Israel dos atentados terroristas que
mataram mais de mil pessoas nos últimos três anos e
feriram e mutilaram um número ainda maior.
A imprensa tem focalizado apenas o primeiro grupo.
Os
adversários de Israel e do sionismo freqüentemente usam
argumentos proferidos por israelenses e/ou judeus com o
comentário implícito de que "se até mesmo"
eles fazem tal ou qual crítica, então a mesma é
indubitavelmente verdadeira. Entretanto, trata-se de uma
falácia tão evidente que dispensa demonstração. Talvez
alguns defensores de Israel compartilhem a idéia de que
críticas a Israel feitas por israelenses e/ou judeus
tenham algo de especial, daí sua indignação. Tal
atitude não passa de um erro que ironicamente respalda os
críticos. Qualquer idéia vale o que vale em virtude do
seu teor, não da sua procedência. Se é tão difícil
encontrar palestinos que critiquem a ditadura de Arafat ou
pessoas de origem árabe que critiquem as ditaduras do
Oriente Médio o motivo não é o caráter imaculado das
mesmas, mas o medo.
Do
ponto de vista teórico, defender a idéia de que o estado
judeu deixe de sê-lo equivale a defender o princípio de
que todo judeu deve assimilar-se. Do ponto de vista prático,
e se levarmos em conta tudo o que foi dito e feito pelo
anti-semitismo europeu clássico e pelo
anti-sionismo/anti-semitismo islâmico atual, as implicações
da eliminação do caráter judeu do Estado de Israel são
bem mais graves.
Assim
como muitos judeus reagiram ao anti-semitismo propondo a
assimilação, por entender que a responsabilidade pelo
anti-semitismo era dos próprios judeus, teimosamente
aferrados à sua diferença, o RH propõe que
Israel enquanto estado judeu desapareça porque atualmente
constitui a principal causa do anti-semitismo.
Não
faltará quem considere o RH como uma posição
caracterizada por críticas destinadas especificamente às
ações do governo Sharon. Contudo, como todos os
primeiros ministros e membros da Knesset, anteriores e
atuais, Sharon foi eleito (por uma grande diferença de
votos, aliás). Em acréscimo, a esquerda sionista não
somente participou como foi a principal força política
responsável pela criação do Estado de Israel. Segundo o
RH, Israel constitui um estado nacionalista e
expansionista fundado na identidade étnica e trafega
ostensivamente na contramão do admirável mundo novo
multicultural. Portanto, e de acordo com a nova tese do
pecado original, tendo nascido judeu o Estado de Israel não
poderia senão chegar onde chegou, isto é, no beco sem saída
de um execrável nacionalismo.
O
RH freqüentemente afirma que os Estados Unidos são um
fantoche manipulado por Israel. A idéia não é muito
original; assemelha-se à declaração feita pelo
ex-premier da Malásia na última cúpula de estados islâmicos.
Para Mahathir Mohamed, os judeus regem o mundo por procuração.Tampouco
Mahathir foi tão criativo assim, já que muito antes dele
observadores argutos haviam denunciado o pérfido projeto
judeu de dominação. Um lugar de destaque entre os
pioneiros deve ser concedido aos autores de "Os
Protocolos dos Sábios de Sião", líbelo escrito no
final do século XIX pelo departamento literário da
Okhrana, a polícia secreta do regime tzarista.
O
RH também se caracteriza pela tese da "equivalência
moral": Sharon seria o similar israelense de Arafat.
Repetida como uma litania, essa comparação, próxima à
equiparação entre Israel e
nazismo, outra peça muito popular no repertório
da multicultural orquestra anti-sionista, formada por
virtuosos destros e canhotos, é acrescida, quando se
trata de Sharon, do epíteto "carrasco de Sabra e
Chatila". Que o massacre nesses campos de refugiados
palestinos do Líbano tenha sido cometido por Elie Hobeika,
líder da Falange, milícia libanesa cristã, em represália
pelo assassinato do então primeiro ministro libanês, o
cristão Bachir Gemayel, não perturba absolutamente os
detratores de Sharon. Estes tampouco se incomodam com o
fato de que Sharon, então ministro de defesa, foi julgado
em Israel, não pelo massacre, que não ordenou, mas por
ter deixado de prever que Hobeika seria capaz de perpetrá-lo.
A milícia cristã foi autorizada a entrar na região
controlada por tropas israelenses para capturar o comando
palestino responsável pelo assassinato de Gemayel.
Preferiu simplificar a tarefa matando não só os responsáveis
mas também centenas de civis. Essa ação dantesca, aliás,
se insere sem sobressaltos na lógica da guerra civil
libanesa, onde atos semelhantes foram praticados por ambas
as facções, a muçulmana e a cristã, anos a fio. Dos
cem mil mortos estimados da citada guerra civil apenas uma
pequena porcentagem corresponde a combatentes. Na época,
Sharon foi destituído, julgado e condenado a dez anos de
ostracismo político, mas no Líbano as coisas se passaram
de maneira muito diferente. Hobeika foi nomeado ministro
em duas ocasiões e eleito deputado em outras duas.
Quem
quiser ver na incriminação de Sharon e na absolvição
de Hobeika o pendant contemporâneo da condenação
dos judeus pela crucificação de Cristo e a
correspondente saída dos romanos pela porta dos fundos da
história não poderá ser acusado de delírio. A satanização
de Sharon, incessantemente promovida, vale-se freqüentemente
de argumentos e ilustrações
que evocam as acusações pelo deicídio, talvez a mais
antiga fonte de ódio anti-semita.
O
RH também afirma que os palestinos estão atualmente
encurralados em enclaves incomunicáveis entre si,
impedidos de criar o seu estado. Não menciona, porém, a
razão dessa situação, ou seja, o terrorismo, que tem
impelido o exército israelense a bloquear freqüentemente
as cidades palestinas onde os terroristas mantém suas
bases com a total anuência de Arafat. O RH também omite
as propostas israelenses feitas em Camp David (julho e
dezembro de 2000) e Taba (2001), que restituíam à
Autoridade Palestina primeiramente 92% e depois 97% da
margem ocidental, bem como a soberania compartilhada sobre
Jerusalém. O então primeiro ministro Barak propôs
igualmente a devida compensação pelas regiões da margem
ocidental a serem incorporadas a Israel por razões de
segurança, cedendo ao futuro Estado Palestino territórios
israelenses contíguos a Gaza.
O
RH comete o erro crasso de não levar em conta as notáveis
peculiaridades que resultaram na fundação do Estado de
Israel, processo sem paralelo na história. O país
simplesmente não existia, deveria ser habitado e construído
em condições particularmente difíceis, além de ainda
ter que reivindicar o reconhecimento internacional. Os
judeus que se radicaram na Palestina tiveram a tarefa
colossal de erguer o país do zero. Para isso foi necessário
nada menos do que ressuscitar uma língua morta, o
hebraico, que como o latim sobrevivia penosamente na
liturgia. Os imigrantes precisaram transformar
radicalmente o seu perfil profissional, abandonando
profissões centradas em atividades intelectuais,
artesanais, empresariais e comerciais para dedicar-se à
agricultura e à construção. A proletarização de uma
população que durante gerações havia exercido ofícios
urbanos foi uma verdadeira epopéia, possibilitada
unicamente pela crença de que o anti-semitismo na Europa
era irrevogável. Suplementarmente, tornou-se imprescindível
adquirir habilidades de defesa para proteger-se dos saques
empreendidos pela população local, atiçada pelos "effendis",
proprietários que vendiam terras inférteis a preços
extorsivos e posteriormente, quando devidamente
recuperadas pelos judeus, procuravam reavê-las através
de ameaças, intimidação e ataques.
Doenças
como malária e tracoma eram comuns. As terras em sua
maior parte eram pedregosas, pantanosas ou arenosas. Ao
contrário dos outros países, em que tudo já estava
pronto, só faltava a soberania, foi necessário lutar
contra uma topografia inóspita. No século XIX, a região
que foi chamada pelos romanos de Palestina encontrava-se
em situação deplorável. Em termos do processo que levou
à independência de Israel, o Império Britânico foi
desalojado pela luta armada, opção decorrente da patente
preferência dos ingleses pelos interesses das lideranças
árabes hostis ao sionismo.
Ao
contrário das conquistas efetuadas pelas nações
coloniais européias, empreendidas pelos respectivos exércitos,
os imigrantes judeus entraram em contato com as armas pela
primeira vez para proteger-se de matanças e saqueios. O movimento de povoação da então Palestina não
teve um caráter militar, muito pelo contrário. A leitura
do romance programático Altneuland (Velha Nova Pátria)
(1902), de Hertzl, expõe o ideário do movimento
sionista. O livro comprova que o fundador do sionismo
idealizou um país com características semelhantes às
preconizadas pelo RH, um verdadeiro estado bi-nacional
cujo modelo era a Suíça, fundado sobre a aliança entre
árabes e judeus, os primeiros contribuindo com seu
conhecimento da região, os segundos trazendo a
bagagem tecnológica e cultural da experiência européia.
E de fato, levando em conta a ideologia socialista
professada pela maioria dos imigrantes, intimamente
associada à diretriz da proletarização, seria
inteiramente incongruente que a relação com o povo árabe
se definisse com base na concepção colonialista.
Cabe
lembrar ainda que a população local na época das
primeiras ondas migratórias (final do século XIX, início
do século XX), ou seja, durante o domínio otomano, era
calculada em 600 mil pessoas e habitava alguns bolsões de
fertilidade numa região fundamentalmente árida e
pantanosa. O crescimento da população árabe se deveu em
grande medida ao processo de migração de regiões
vizinhas que hoje corresponderiam à Síria, ao Líbano e
à Jordânia. Essa afluência à região ocorreu em função
do processo de desenvolvimento econômico desencadeado
pelos judeus. Sugerir, mesmo indiretamente, que o
povoamento da então Palestina se deu de maneira análoga
a, por exemplo, a colonização da América, ou seja,
através da expulsão, do confinamento e da dizimação da
população nativa, é pura falta de conhecimento... ou
algo pior: má fé.
Com
relação aos refugiados, é preciso lembrar que o
conflito de 1948 foi provocado pelos países árabes e que
o abandono da Palestina por parcela da população árabe
ocorreu primeiramente em função da própria situação
de guerra e secundariamente como temor de uma possível
represália por parte dos vencedores. Sem dúvida houve
atos de injustiça por parte dos judeus, mas eles devem
ser julgados dentro do respectivo contexto. A derrota não
teria tido outra conseqüência para os judeus senão um
novo genocídio. A captura dos povoamentos judaicos pelos
exércitos invasores era seguido invariavelmente de roubo,
violações, execuções e mutilação de cadáveres. O
temor que levou muitos árabes da Palestina a fugir não
se deveu, em sua maior parte,
a qualquer ameaça dos judeus, mas foi a conseqüência
lógica da mentalidade que rege até os dias de hoje o
Oriente Médio. O massacre e a expulsão dos palestinos da
Jordânia pelo rei Hussein, a guerra civil libanesa, o
conflito entre Egito e Iêmen, a matança dos habitantes
de Hama por Hafez Assad e o morticínio entre iraquianos e
iranianos são testemunhos eloqüentes.
Em
1948, levando em conta que o grito de guerra dos exércitos
invasores era "vamos jogar os judeus no mar", não
surpreende o temor de que os israelenses fossem vingar-se.
Uma análise imparcial dos acontecimentos mostra que em
poucos casos a população árabe foi desalojada. Deir
Yassin é uma mancha para Israel, mas é preciso
acrescentar que se trata de uma exceção, enquanto a
matança enquanto prática sistemática, desde os
massacres de Hebron (1929) até os atuais atentados
terroristas, constitui a regra na atitude das milícias e
dos exércitos árabes. (E não somente em relação aos
judeus; veja-se os conflitos internos do mundo muçulmano).
Os descendentes dos árabes israelenses que não fugiram
constituem hoje um quinto da população do país. Caso a
sorte das armas fosse diferente, os judeus remanescentes
seriam tão numerosos e tão respeitados como os do Iraque
de Saddam, os do Irã dos aiatolás, os da Síria de Assad
ou os do Egito de Nasser.
Tampouco
é correta a afirmação de que os primeiros imigrantes
judeus tenham hostilizado a população árabe da então
Palestina. A relação entre as duas populações se
expressou através de uma vasta gama de atitudes que
incluiu a cooperação, a competição (a mão de obra árabe
era mais barata, o que ocasionou conflitos), e o confronto
armado (decorrente dos ataques às primeiras fazendas
coletivas). Por outro lado, o choque cultural desempenhou
um papel não desprezível. A condição da mulher entre
os judeus, por exemplo, irritou e atemorizou o
conservadorismo da cultura local.
A
mesma situação de cooperação e conflito ocorreu
durante a presença israelense na margem ocidental após
1967. Assim como aconteceu em decorrência da construção
do ishuv (comunidade) nas primeiras décadas do século
XX, o nível de vida da população local melhorou
consideravelmente. Israel ampliou a rede de distribuição
de eletricidade e água, extremamente precária sob as
administrações jordaniana e egípcia, até praticamente
estender tais benefícios à totalidade da população.
Grande parte da mão de obra e do comércio palestino
descobriu seu principal mercado em Israel, situação que
continua vigente, mesmo no âmbito de uma beligerância
considerável. A renda per capita da população
palestina entre 1967 e 1990 se aproximou e depois superou
a da dos vizinhos Egito, Síria, Líbano e Jordânia. Esse
não foi um dos menores motivos para que a Liga Árabe se
mobilizasse no sentido de que a OLP fosse autorizada a
instalar-se na margem ocidental, com a correspondente criação
da Autoridade Palestina. Muito longe de visar a construção
de um estado palestino, a finalidade desse gesto foi
bloquear o processo de cooperação econômica entre
israelenses e palestinos, sumamente perigoso para a
estabilidade das ditaduras árabe/muçulmanas do Oriente Médio.
A
relação entre israelenses e palestinos é muito
diferente da descrita pelo RH. Os palestinos, como os
outros povos árabes, são oprimidos pelos seus próprios
governos, tão autocráticos como corruptos. Não é
necessário lembrar que a renda do petróleo, em países
como Arábia Saudita, o Iraque de Saddam, o Irã e os
Emiratos do Golfo, é canalizada para gastos suntuosos, orçamentos
militares e financiamento do terrorismo. As classes
dominantes das sociedades quase feudais do Oriente Médio
não concebem seus povos como a fonte de onde emana seu
poder. Muito pelo contrário. O estatuto do povo é
praticamente equivalente ao do pária na antiga sociedade
hindu.
Afirmar
que Israel é responsável pelo sofrimento do povo
palestino constitui uma distorção colossal. Afirmar que
Israel ocupa militarmente os territórios palestinos
constitui outra distorção colossal. A realidade patente,
não enxergada apenas por aqueles que querem impor uma
camisa de força ideológica a situações sócio-econômicas
peculiares, é que a margem ocidental e Gaza são
controladas atualmente pela Síria e pelo Irã, que substituíram a ocupação
jordaniana e egípcia, em vigor até 1967. A situação
conta com o beneplácito dos outros regimes árabes. O
processo é semelhante à perda de soberania do Líbano
para a Síria e o Irã, em virtude do que é forçado a
admitir o Hezbollah em seu território. As ditaduras do
Oriente Médio financiam e dirigem milícias independentes
da própria Autoridade Palestina, que aceita o status
quo de bom grado. Afinal, Arafat deve seu poder à
Liga Árabe. O intuito das ditaduras do Oriente Médio é
impedir o desenvolvimento da integração regional que bem
poderia levar a uma federação similar aos primórdios do
mercado comum europeu, entre Israel, Palestina e
Jordânia.
O
empenho das ditaduras do Oriente Médio em destruir uma
sociedade cuja simples existência as desafia também se
exerce mediante a pressão econômica. Os regimes autocráticos
não prestam contas à sua população e portanto não
precisam investir em desenvolvimento econômico e obras
sociais. Com isso, conseguem aumentar as chances de
perpetuar-se, pois mantém suas populações no
analfabetismo e na ignorância, que facilitam a instalação
de preconceitos e a instigação à violência. Em conseqüência,
Israel é obrigado a manter um elevado nível de gastos
com sua defesa.
A
razão pela qual o projeto do estado bi-nacional
vislumbrado por Hertzl deixou de realizar-se não é outra
senão a posição assumida pelas lideranças árabes que
temiam, com bons motivos, que a convivência pacífica
ocasionasse uma mudança radical em suas sociedades. O
choque cultural era inevitável e se configurou, para a
classe dominante árabe, como uma ameaça. Esse continua
sendo o motivo da beligerância atual. As ditaduras árabes
fomentam o terrorismo palestino para impedir a construção
de uma cooperação econômica inerentemente subversiva em
relação à estrutura das sociedades que dominam com mão
de ferro.
É
lamentável que a esquerda ocidental respalde com um silêncio
hipócrita, motivado pelo ódio aos EUA e a Israel,
("o inimigo do meu inimigo é meu amigo"), a
prisão, a tortura e o assassinato de militantes de
partidos socialistas e comunistas no Egito, na Síria, no
Irã, na Líbia, na Arábia Saudita, etc., bem como a negação
dos direitos humanos ao povo árabe.
Uma
solução próxima à postulada pelo RH fracassou em 1948,
resultando na guerra, que do ponto de vista das elites árabes
visava a exterminação dos intrusos. Na medida em que se
percebeu a impossibilidade de uma federação árabe-judaica,
a solução foi dividir o país em função da presença
majoritária de cada uma das etnias em tal ou qual cidade
ou região. O poder militar inglês, encarregado de mediar
entre as comunidades hostis, equivalente à força
internacional que segundo o RH deveria garantir a convivência
pacífica entre árabes e judeus no seu estado
bi-nacional, fracassou em desempenhar essa tarefa. Não se
entende porque o mesmo projeto teria sucesso agora, depois
de meio século de lutas cruentas.
Se
o sionismo nunca deixou de existir na modalidade nostálgica,
só ganhou força como movimento de emancipação nacional
em virtude da crescente e incessante discriminação e
perseguição dos judeus. Trata-se de uma situação sem
paralelo no que se refere aos outros povos europeus, com
exceção talvez dos armênios e ciganos, embora nesse último
caso em grau menor. As enormes expectativas alimentadas
pelos judeus com a emergência da modernidade,
caracterizada pela separação entre estado e religião (Código
Napoleônico de 1804), não se realizaram. O caso Dreyfus foi a estrada de Damasco de Theodor Hertzl.
Frustradas as esperanças de igualdade, o movimento
sionista ganha força com essa decepção, amplamente
consensual no final do século XIX, acelera-se na iminência
do Holocausto e se exacerba com a constatação das suas
conseqüências.
O
argumento de que os judeus teriam degenerado em xenófobos
chega a ser cômico, quando se leva em conta a necessidade
de reafirmar uma identidade vilipendiada durante séculos
a fio. Algo semelhante aconteceu com os negros
norte-americanos. Recuperar a auto-estima e o orgulho não
significa agredir o diferente. O RH é absolutamente
refratário aos dados mais elementares de um problema que
sobreviveu a cruciais modificações sócio-econômicas, o
preconceito anti-semita. Que outro povo aderiria a um
gesto tão desesperado como foi a empresa sionista a não
ser aquele a quem a experiência dos pogroms e do
holocausto houvesse convencido de que não havia outra alternativa?
De que maneira senão através da valorização da sua
história e da sua identidade poderia ter sido construído
o novo país?
Esse
é um ponto particularmente importante da discussão. O RH
faz uma confusão notável entre identidade nacional e
xenofobia. Quando apresenta o multiculturalismo como tendência
dominante do mundo contemporâneo, esquece que italianos,
franceses, alemães e ingleses não abdicaram de sua
identidade nacional em conseqüência da integração econômica
e política dos respectivos países à União Européia.
Pelo contrário, a identidade nacional é precondição
dessa integração. A identidade nacional não é sinônimo
de exclusão de outras etnias assim como a identidade
pessoal não exclui mas pelo contrário possibilita a
convivência social.
Há
que considerar ainda que a partir de Constantino jamais os
cristãos foram, enquanto cristãos, objeto de discriminação
e perseguições eventualmente conducentes ao extermínio.
Algo muito diferente aconteceu com os judeus. O
cristianismo não tem a menor necessidade de proteger seus
fiéis através de um estado (embora, mesmo assim, via
Vaticano, os católicos reafirmem simbolicamente a conjunção
entre poder espiritual e poder temporal).. Em toda a
Europa, independentemente da imigração proveniente do
Magreb e da África Negra, a fé dominante é a cristã.
Para o cristianismo, a perseguição religiosa ou étnica
não se afigura como perspectiva possível. Em relação
ao judaísmo, pelo contrário, a história demonstrou a
necessidade de criar uma nação para garantir a
continuidade não apenas nem principalmente da respectiva
religião mas sobretudo
da sobrevivência física do povo judeu e das suas
manifestações culturais.
O
argumento do nacionalismo excludente e discriminatório é
uma peça chave na argumentação do RH. É dessa maneira
que pretende responsabilizar Israel pela situação de
beligerância prevalecente no Oriente Médio, omitindo
totalmente a história do conflito e apresentando a presença
de Israel na margem ocidental do Jordão como conseqüência
de um movimento expansionista.
A
crítica ao empenho de Israel em subsistir como estado
judeu é muito semelhante à crítica dos anti-semitas aos
judeus e chega a provocar total perplexidade em relação
à capacidade de análise dos historiadores revisionistas.
Quem definiu os judeus pela etnia e pela religião foram
precisamente seus perseguidores e exterminadores. O próprio
Hertzl, advogado e jornalista, provinha de uma família não
religiosa, perfeitamente integrada à cultura da sociedade
austro-húngara, mesmo caso de Freud e de uma parcela
considerável dos judeus europeus, em processo acelerado
de assimilação quando o nacional-socialismo iniciou sua
ascensão ao poder. Similarmente, quem excluiu Israel e
obrigou o país a lutar pela sobrevivência foram os
governos árabes que desde 1948 (e mesmo antes) rejeitam a
presença judaica e reafirmam sem pausa o objetivo de
exterminar os judeus. Em relação às sociedades árabe/muçulmanas,
a Jihad tem a mesma função que a Inquisição e o
anti-semitismo desempenharam na Europa. Constitui uma válvula
de escape destinada a aliviar as fortes pressões
decorrentes da gritante injustiça prevalecente nessas
sociedades.
Mutatis
mutandis,
e ressalvadas as devidas proporções, pode-se dizer algo
semelhante da situação atual na França. A
impossibilidade de integração dos imigrantes muçulmanos
na sociedade francesa gera uma hostilidade que é
direcionada preferencialmente para os judeus, com a omissão
cúmplice das autoridades francesas, agora em vias de
questionamento.
A
presença de Israel na margem ocidental se deve a que a
Jordânia se uniu ao Egito e à Síria na Guerra dos Seis
Dias, apesar dos apelos israelenses de que se mantivesse
neutra. A
devolução do Sinai ao Egito (Camp David, 1978), mostra
que a estratégia "terra por paz" é
perfeitamente exeqüível, desde que haja um interlocutor
confiável. Foi o que Barak tentou fazer em Camp David e
Taba, sem sucesso. As particularidades de cada situação
obrigam a acordos específicos, mas está mais do que
demonstrada a preferência do povo israelense por soluções
pacíficas. Portanto, imputar a ausência de acordo com os
palestinos à intransigência de Sharon é totalmente
absurdo... mesmo porque os trabalhistas (Barak) perderam a
eleição para o Likud (Sharon) em virtude da negativa de
Arafat em aceitar suas propostas em Camp David e Taba,
optando pelo terrorismo. Ao contrário do que comumente se
afirma, foi um governo de centro-direita (chefiado por
Begin) que celebrou a paz com o Egito em 1978. E quem
comandou o desmantelamento de Yamit, assentamento
israelense no Sinai, foi o próprio Sharon. Aliás, é
consenso em Israel que o centro e a direita têm tido mais
êxito do que a esquerda na celebração de acordos porque
negocia(m) melhor.
Mas
isso ainda é pouco diante dos comentários de que a
barreira atualmente em construção equivale ao muro de
Berlim. A barreira está sendo construída não para
proteger um regime mas o próprio povo israelense, que em
sua grande maioria apoiou a decisão. A menos que o RH
disponha de informações privilegiadas em sentido contrário,
tudo leva a crer que Israel não está erigindo esse obstáculo
para impedir que seus cidadãos busquem refúgio em
Tulkarem, Ramallah, Jenin, Nablus e Jericó, quem sabe ávidos
por gozar dos benefícios pelos quais os palestinos serão
eternamente gratos a Yasser Arafat. Para quem se guia pelo
talvez anacrônico critério do respeito às evidências,
seria antes o contrário. A primeira função da barreira
é dificultar a infiltração dos terroristas, mas
suplementarmente ela se destina a impedir a imigração
clandestina dos palestinos para as vilas árabes
israelenses. Ou seja, a barreira tem a função exatamente
oposta à do muro de Berlim. Além de interpretar os fatos
de uma maneira bastante peculiar, o RH tampouco leva em
consideração certos dados cuja leitura é bastante
simples. Se, como afirma, Israel oprime a minoria árabe,
se suas leis são discriminatórias, se o tratamento é
desumano, o que explicaria esse movimento migratório por
parte dos palestinos? Masoquismo? E, afinal, porque a
população árabe israelense não foge de uma situação
tão dramática, como fizeram os judeus dos países árabes
nas décadas de 50 e 60?
Em
pleno processo de construção do país, com sérios
problemas de infraestrutura, Israel absorveu quase um milhão
de refugiados judeus provenientes do Magreb e do Oriente Médio.
Esses refugiados se encontravam em estado de indigência
pois suas posses haviam sido confiscadas pelos governos
islâmicos. Apesar das duras condições de vida nos
acampamentos provisórios, nenhum refugiado expressou o
desejo de voltar para os países de origem, Iêmen,
Iraque, Irã, Síria, Líbia, Tunísia, Egito e Marrocos.
Que os refugiados palestinos reivindiquem o retorno a
Israel obedece portanto a mais de um motivo, mas para o RH
o sionismo também é responsável pelas condições de
vida inumanas que prevalecem em seus campos.
Se
algo não falta em muitos países árabes é dinheiro e
espaço. Mesmo assim os palestinos que deixaram Israel em
1948 foram confinados em condições precárias. A ONU,
através da sua agência de refugiados, tem-se
responsabilizado por essas pessoas e seus descendentes. A
razão pela qual os governos árabe/muçulmanos recusam-se
a outorgar cidadania e melhorar as condições de vida dos
descendentes dos refugiados palestinos não é a falta de
recursos materiais. Sobram petrodólares em países cuja
renda per capita é altíssima em função dos imensos
lucros propiciados pelo petróleo. É patente que as
ditaduras do Oriente Médio exploram o sofrimento dos
refugiados palestinos para responsabilizar Israel. E os críticos
ideológicos do sionismo acreditam (ou fingem?) que Israel
é responsável por essa situação.
Adotando-se
o critério da divisão "per capita" constata-se
que nenhuma população do planeta recebeu mais ajuda
material (recursos financeiros), nos últimos dez anos, do
que os habitantes da margem ocidental do Jordão. As denúncias
da malversação de fundos por parte da Autoridade
Palestina já foram mais do que comprovadas por fontes
insuspeitas, inclusive da União Européia. Sabe-se que
Arafat tem uma imensa fortuna pessoal, que sua mulher vive
em Paris com uma pensão digna da prodigalidade dos sultões
das mil e uma noites, que o primeiro escalão da AP se
beneficia de monopólios econômicos em setores estratégicos
da economia como construção, distribuição de combustível,
venda de veículos e cigarros. Mesmo conhecendo-se
amplamente o grau de corrupção do regime e o desvio de
verbas para financiar o terrorismo, Israel continua a ser
responsabilizado pela penúria da população palestina.
Os
assentamentos não têm qualquer relação, por remota que
seja, com as causas dos problemas econômicos palestinos.
No âmbito de um acordo de paz, tudo pode acontecer. Não
somente a evacuação, total ou parcial, dos
assentamentos, como sua manutenção sob a soberania
palestina. Os árabes não constituem um quinto da população
israelense? Porque os judeus não poderiam constituir
menos do que um décimo da população palestina? É
estranho que tal idéia não tenha ocorrido aos
historiadores revisionistas.
***
No
entanto, o arrazoado do RH não é absurdo. O tipo de
nacionalismo descrito é realmente xenófobo, as leis
mencionadas são efetivamente discriminatórias, a opressão
das minorias não foi de maneira alguma inventada, o
belicismo, o expansionismo,
a intolerância e o desrespeito por acordos e
tratados não poderiam ser mais reais. Há um único
problema em tal argumentação: o legítimo destinatário
de tais críticas não é Israel, mas as ditaduras do
Oriente Médio que renovam diariamente seu compromisso
sagrado com a destruição do estado judeu. A tais regimes
se aplica sem a menor ressalva tudo o que o RH tem escrito
a respeito de Israel. Nas nações islâmicas não somente
a tolerância com relação a religiões e etnias
diferentes (os curdos, por exemplo) é próxima a zero,
mas a mesma atitude também prevalece face a outras
vertentes do islamismo, igualmente discriminadas,
perseguidas e eventualmente objeto de práticas de extermínio.
Os freqüentes morticínios entre xiitas e sunitas, o
predomínio ditatorial dos alauitas na Síria e a fanática
interpretação wahabita do Corão imposta ao povo saudita
constituem evidências
insofismáveis.
O
revisionismo fez seu début em relação ao
Holocausto e agora se estende lenta mas sistematicamente
à história do Oriente Médio. Pretende-se
deliberadamente ignorar que os governos árabes violaram
de maneira inequívoca as determinações da ONU em 1947,
raiz de todo o problema, e Israel é apresentado como país
que de maneira contumaz desobedece as resoluções
internacionais. Omite-se, porém, que as mesmas refletem,
a partir da década de 70, as alianças celebradas pelas
ditaduras do terceiro mundo contra o ocidente. Em 1956,
1967 e 1973 a guerra foi desencadeada direta ou
indiretamente pelos governos árabes, mas a concepção
revisionista passa ao largo de tais detalhes. O terrorismo
é transformado em luta de libertação nacional e os
homens-bomba são justificados como resposta desesperada
à opressão israelense, da mesma forma que as leis
anti-semitas do 3º Reich foram incluídas no quadro das
medidas de emergência tomadas para enfrentar as
dificuldades econômicas e sociais da Alemanha no período
posterior à primeira guerra mundial.
Em
grande medida o revisionismo histórico é patrocinado por
uma certa esquerda, o que poderia provocar perplexidade.
Entretanto, desde o stalinismo sabe-se que os ardentes
defensores da justiça social estão sujeitos a imensas
contradições e não raro adotam a máxima maquiavélica
de que o fim justifica os meios. De que fim se trata no
caso da questão árabe-israelense? Do anti-americanismo,
evidentemente. Segundo essa ótica, Israel está do lado
errado, ainda mais porque durante a guerra fria a União
Soviética tomou o partido árabe. Os revisionistas não
desconfiam sequer de que não se trata de uma questão de
princípio. Caso contrário, como se explica que
justamente o delegado soviético tenha dado o primeiro
voto a favor da partilha que criava o Estado de Israel? E
que a Tchecoslováquia, então sob a ocupação do exército
vermelho, tenha fornecido as armas com as quais a Haganah
lutou contra os exércitos invasores e as milícias
locais, equipadas com armamento inglês, parte do qual
provinha dos arsenais das forças colonialistas? O voto
soviético em 1947 também se explica por razões de
estado, não por questões de princípio. Stalin estava
interessado na pescaria em águas turvas e os países árabes
eram, na época, totalmente subordinados aos interesses
coloniais. O Israel dos kibutzim poderia ser um elemento
perturbador numa região que até então era o quintal do
ocidente. Mas para os órfãos da revolução as peripécias
da política internacional, fonte de dados perturbadores,
devem ser relegadas ao sono eterno dos arquivos.
O
anti-americanismo é tudo o que sobrou como guia de
pensamento para uma certa esquerda, perplexa com as
vicissitudes sócio-econômicas do final do século XX e
incapaz de pensá-las. Acabaram-se as guerras de libertação
nacional na Ásia, na África e na América Latina. As
ditaduras cada vez mais raras coincidem crescentemente com
os regimes islâmicos hostis aos Estados Unidos. Nos
outros países, a hegemonia do primeiro mundo é exercida
através de mecanismos econômicos, situação cuja crítica
exige estratégias diferentes, sem o heroísmo da luta
armada. A rebelião foi substituída por árduas negociações
técnicas e acordos laboriosamente discutidos em ambientes
decorados com luxo burguês, habitualmente em cidades do
primeiro mundo, de preferência suíças, emolduradas por
neves eternas, ou em bairros sofisticados dos países
periféricos que em nada se distinguem das estâncias
paradisíacas a não ser pela ausência das neves eternas.
Requinte perverso, atualmente à hegemonia econômica do
primeiro mundo convém mais a abertura política do que os
regimes tirânicos.
O
que fazer? Bem, existe pelo menos um lugar no mundo onde,
à custa de omissões, distorções e mutilações
intelectuais à moda de Procusto, talvez a cartilha
obsoleta possa ser adaptada. É preciso manter o clichê a
qualquer custo para que a visão de mundo maniqueísta não
desmorone de vez, deixando um imenso vazio. Mesmo que
Arafat não seja exatamente Che Guevara ou Mandela, nem a
margem ocidental do Jordão ofereça algo comparável à
luxuriante vegetação das selvas vietnamitas, nem Khadafi,
Assad ou os Aiatolás lembrem sequer de longe Mao e Fidel,
a pseudo esquerda tenta travestir o conflito no Oriente Médio
em luta de libertação nacional contra o colonialismo
capitalista, representado desta vez pela "burguesia
internacional judaica". Afinal, o esforço para
equiparar Iraque e Vietnã não deu certo, em parte porque
Saddam, fora o bigode stalinista,
não tem o physique de rôle de um herói da
esquerda.
Resta
Israel e a secular prática de usar o povo judeu como bode
expiatório. Se o anti-semitismo serviu ao feudalismo,
depois ao despotismo ilustrado e posteriormente aos
regimes republicanos ditatoriais da Europa como válvula
de escape para regular as tensões sociais, agora,
transposto em anti-sionismo, é reciclado pelas tiranias
do Oriente Médio para cumprir a mesma função. Por outro
lado, a esquerda estilo "bela adormecida"
recusa-se a despertar do coma ideológico em que mergulhou
e respira em balões de oxigênio o ar viciado de uma
concepção de mundo baseada em outra realidade social e
econômica. Israel serve a uns e outros por motivos
diferentes, embora sempre com a finalidade de justificar a
manutenção de certa estrutura social e certa posição
ideológica, que se recusam a qualquer transformação.
As
ditaduras do Oriente Médio procuram evitar a transformação
das sociedades que oprimem. Para mantê-las acorrentadas
à casta dominante, quer
aristocrática, militar e/ou teocrática,
nada melhor do que um inimigo externo, devidamente
demonizado. Com relação à esquerda esclerosada, Israel
serve de pretexto para satanizar os Estados Unidos.
Incapaz de forjar instrumentos conceituais aptos a
criticar a globalização e propor alternativas ao
capitalismo atual mediante teorização adequada, os
auto-denominados defensores da justiça social
pretendem purgar sua impotência prática e
intelectual através de calúnias que deixam, aqui e ali,
as pegadas infames de sua origem preconceituosa.