Anti-Semitismo:
o racismo que muda e persiste
[
por A. Edery - publicado no Iton Gadol em
24/01/04 ]
Se
um anti-sionista reconhece o direito do povo palestino a sua
auto-determinação, sua atitude é discriminatória e
anti-judaica.
O
racismo anti-judaico possui uma tradição secular na
Europa, com profundas raízes na cultura, religião e
pensamento do continente e da Espanha. Suas manifestações
mais violentas já ocorreram - a Inquisição e expulsão e
o Holocausto.
Temos
sorte em viver num mundo tão diversificado e rico em
tradições, culturas e religiões. A minha tradição
judaica me convida a apreciar esta diferença, a
ser-lhe grata e preservá-la.
Diante
das diferenças étnicas e culturais, alguns reagem com
curiosidade e interesse, simpatia e apreço; mas outros
reagem de forma oposta: com receio, rechaço, desapreço e
inclusive ódio. Quando uma pessoa reage à diferença de
outra pessoa com rechaço e hostilidade, vemos uma atitude
racista. O racismo como atitude inclui o desapreço ao que
é diferente por suas características físicas (mal
denominadas "raciais"), e também ao que parte de
algo coletivo diferenciado por cultura, religião ou orientação
sexual. Portanto, o rechaço aos negros, ódio aos judeus,
desapreço ao muçulmano ou o ataque ao homossexual não
são fenômenos isolados: são distintas manifestações de
uma mesma postura racista, só que dirigida contra
coletividades distintas. Alguns racistas reagem mais contra
uma coletividade e menos contra outras, enquanto todos os
que possuem o racismo muito enraizado em seu ser discriminam
e odeiam a todos que são diferentes deles mesmos.
Assim,
os nazistas odiaram e perseguiram especialmente os judeus e
também os ciganos, negros e eslavos; a Ku Klux Klan odeia
principalmente os negros, mas também os brancos católicos
e judeus. O fato de que estes grupos de racistas assumidos
odeiem alternadamente várias coletividades é muito
importante de destacar, já que é uma clara evidência de
que seu ódio não "provoca" ações, nem
qualidades específicas de algum povo, senão o rechaço que
surge do seio do racismo, que não pode tolerar quem não é
como ele. Esta atitude racista é muito antiga na humanidade
e está especialmente presente em terras européias, onde a
diferença é perseguida e combatida.
Na
Espanha do século XVI, o racismo no poder unia várias
hostilidades: perseguia os mouros, estabelecia critérios de
pureza de sangue para discriminar os cristãos com origem
judaica e argumentava que os índios recém-descobertos não
tinham alma - o que lhes permitia perseguí-los e abusar
deles mais facilmente. Mas dentro da atitude racista também
há variantes, resultado das influências históricas e
culturais que atuam sobre quem rechaça o outro. Assim como
o racismo contra os negros nos Estados Unidos tem suas próprias
características e história, o racismo contra os judeus na
Europa tem uma história própria e uma presença
diferenciada das demais formas de exclusão. Na Europa,
basta uma simples observação da história para vermos que
o racismo contra os judeus se manifestou na arte e na religião,
desde o poder político e da Igreja, nas leis antijudaicas
de Alfonso, o Sábio e outros monarcas espanhóis, e nos
massacres de judeus do fascista Hitler e do comunista Stálin.
O racismo contra os judeus tem sido bastante profundo e
extenso na Europa para que possamos dar-lhe um nome mais
específico: anti-semitismo ou judeufobia,
a variante do racismo que foca seu ódio na coletividade
judaica.
Ao
se estudar a extensa história e desenvolvimento desta forma
de racismo - coisa que poucos dos que opinam sobre a Espanha
fazem sobre o anti-semitismo - , se vê que o racismo não
morre, mas sim se transforma. Nos Estados Unidos, o dia em
que os afroamericanos tiveram reconhecidos seus
direitos civis, os milhões de brancos que os rechaçavam não
se tornaram pluralistas e multiculturais por decreto, mas
arranjaram outras maneiras de expressar sua hostilidade -
formas sútis como a marginalização social e econômica, a
discriminação cultural e da mídia -, modos de hostilidade
que são possíveis
mesmo com as novas leis.
O
mesmo se deu com o racismo anti-judaico na Europa: foi se
transformando para se adaptar à realidade dinâmica. Na
Idade Média, quando a religião era central na vida européia,
a perseguição ao judeu "se vestia" com roupas de
religião: se acusava o "assassino de Deus", saía-se
para "matar judeus" na Páscoa, perseguia-se o que
não tinha Deus (ao menos o Deus do perseguidor). Quando a
Europa acreditava nas bruxas e temia os demônios, a
judeufobia se disfarçava com essas roupas e acusava aos
judeus de bruxaria e de ter "chifres" - esta
mostra de ódio medieval encontrou seu lugar nos livros de
texto de nossas escolas espanholas até apenas alguns
decênios, durante o franquismo. Mas estas acusações
perderam legitimidade e eficácia com a entrada da era
moderna. Por isto, quando a Europa se modernizou
cientificamente - os genes foram descobertos e as teorias de
Darwin foram desenvolvidas -, o anti-judaísmo se vestiu de
ciência para proclamar que o judaísmo não é uma cultura
ou religião e sim um gene, que deveria ser marginalizado
para não contaminar os demais genes superiores e que
os seres inferiores (judeus) deveriam ser exterminados para
que os superiores (arianos) pudessem progredir.
Esta
é a ideologia - feita e aplicada totalmente na Europa e
pelos europeus do século XX - que conduziu a Auschwitz, o
lugar onde 20.000 pessoas chegavam a cada dia da Europa
para serem - em apenas 2 horas de eficiência germânica -
despojadas, exterminadas nas câmaras de gás e convertidas
em montanhas de cinzas nos crematórios, que não pararam de
produzir fumaça por dois anos.
Em
seguida a esta vergonha para a humanidade, nenhum
racista anti-judeu podia manifestar publicamente seu
anti-semitismo sem ser despretigiado e mal-visto - como
haviam feito milhões de europeus em voz alta, antes da
guerra.. Na Europa pós-guerra uma manifestação judeofóbica
não é bem-vista, e o discurso anti-semita está
deslegitimado. O que os racistas europeus, da Polônia à
França, que até ontem haviam colaborado com o nazismo
fazem agora? O que fazem aqueles que levam dentro de si um
rechaço e preconceito contra o judeu profundamente
enraizado, alimentado por séculos de cultura racista e
colonialista de oprimir o diferente? Abandonaram por decreto
sua hostilidade aos judeus e se transformaram em
pluralistas? Quiçá alguns sim, mas a maioria faz o que os
racistas de todas as épocas vinham fazendo: adaptam seu
discurso e buscam novas formas - legais e socialmente aceitáveis
- de prosseguir com seu rechaço ao diferente.
Na
Europa multicultural e pluralista de hoje não há muitas
formas aceitáveis de ser racista, e por isso tampouco se
pode, como antes era feito abertamente, rechaçar o judeu de
nosso bairro, nem discriminar o judeu que vive em nossa
cidade; Mas há algo que se pode fazer: rechaçar o judeu
entre os países, marginalizar o país que é diferente,
atacar Israel, o país que é o judeu de nossa nova aldeia
global.
Não
estamos sugerindo que qualquer crítica a uma política do
governo israelense é uma prova de anti-semitismo; isso
seria ridículo, dado que os maiores e melhores críticos
dos governos israelenses são os próprios cidadãos de
Israel, seus escritores, artistas e parlamentares.
Para
esclarecermos, há três formas concretas de distinguir uma
crítica válida (e também necessária) sobre o Estado de
Israel e suas políticas de uma manifestação judeufóbica
que se faz utilizando Israel. A primeira é constatar se o
critério ético ou político utilizado para a crítica a
Israel é o mesmo empregado para se criticar um país cristão,
muçulmano ou outro. Criticar Israel de forma especial (em
quantidade e qualidade) reflete uma discriminação
negativa.
Uma
segunda forma de expressar o rechaço ao judeu através da
crítica a Israel é negar ao povo judeu o direito
reconhecido a todos os povos da terra: o de
autodeterminação. O movimento nacional do judeu para ser
livre e independente em sua terra se chama sionismo.
Ser anti-sionista é negar ao judeu sua
liberdade e independência nacional. Se um anti-sionista
reconhece o direito do povo palestino a sua auto-determinação,
vemos que sua atitude é discriminatória e anti-judaica.
Por
último, notamos racismo anti-judaico quando uma crítica às
políticas israelenses são usadas para justificar e
legitimar o ódio e a violência contra judeus que vivem em
qualquer parte do mundo e não são cidadãos israelenses. Quando
Andrés Trapiello ("Revista de La Vanguardia"
7/12/2003) escreve que as bombas colocadas em sinagogas de
Istambul não são atos anti-semitas, mas sim somente uma
expressão do anti-sionismo, está usando Israel para
legitimar a violência e o massacre de judeus civis turcos.
O
racismo anti-judaico tem uma tradição de séculos na
Europa, com profundas raízes na cultura, religião,
pensamento do continente e da Espanha. As manifestações
mais violentas do anti-semitismo aí ocorreram: a Inquisição
e expulsão e o Holocausto.
Cabe
a nós hoje não só revisar o passado como ter o cuidado
de estar atemtps para as atuais e mais sutis formas
desta doença que ainda está presente entre nós.