Vida:
viver a crise de paradigmas
Resumo:
este texto tenta demonstrar a relação existente entre o
senso crítico, tratado pelas reflexões acadêmicas e o senso
comum, vivenciado por todos nós. Queremos validar o
conhecimento vital, que busca na racionalidade conteúdo e
forma para compreender-se e ao mundo.
Palavras-chave:
vida, crise, paradigmas, senso comum e senso crítico,
cotidiano.
Introdução
Imediatamente
ao pensar sobre o que escrever sobre a vida, já me ocorre que
vida e crise
são quase que sinônimos, mas isto poderia ser a conclusão
desta reflexão. Bem, mesmo assim ela motiva a narrativa de
uma reflexão que vem sendo feita já há algum tempo. Derramá-la
em palavras no papel pode ajudar-me na permanência reflexiva.
Tem sido consenso, desde o senso comum ao senso crítico, e
deste àquele, a consciência de que vivemos uma crise
desencadeada por acontecimentos bombásticos ocorridos no século
passado. Esta consciência toma vulto no pós II Guerra
Mundial. Havia a necessidade de
reconstrução das sociedades mais atingidas. Mas elas jamais
seriam as mesmas. A crise provocada por aquela guerra
conseguiu reerguer nações materialmente, mas o espírito
fundado pelo homem da razão, emergido do Renascimento e da
Revolução Francesa, o mesmo que organizara a sociedade
burguesa, falira. Este já não sustenta a legalidade de suas
certezas científicas, éticas e estéticas (Habermas, 1988).
Heller
(1998), em A condição política pós-moderna, faz uma
análise muito clara sobre a origem da ruptura com a
modernidade. A ruptura acontece
quando o homem se defronta com o horror de sua natureza
bárbara, aflorada naquela guerra (genocídio), complementada
com os resultados da ciência e tecnologia (bomba atômica)
sem autocrítica. (Apesar dos acordos internacionais desde
aquela época tal barbárie social e de ciência e tecnologia
continua.) O que havia sido feito do projeto de modernidade
que previa uma vida boa e justa para todos? Nosso sonho virava
pesadelo?
No
entanto, gostaria de registrar que não falo de uma ruptura
factual e generalizada nos moldes do pensamento moderno, mas
de uma ruptura dialética e móvel, a partir da crítica àquele
pensamento. Concordo com Heller (1998), quando ela diz:
“A
pós-modernidade é em todos os sentidos “parasítica”da
modernidade; vive e alimenta-se de suas conquistas e seus
dilemas. O que é novo na situação é a inédita
consciência histórica surgida na post-histoire; o
sentimento grassante de que vamos ficar para sempre e ao mesmo
tempo depois dele. Com o mesmo gesto, apropriamo-nos mais
profundamente de nosso presente do que jamais fizemos, além
de criarmos um distanciamento crítico dele. E quem continua
insatisfeito com apenas esse tanto de distanciamento crítico
de nossas perspectivas políticas deve lembrar que a negação
absoluta do presente (inegavelmente mais do que poderia
oferecer a pós-modernidade) com toda a probabilidade acabaria
ou em total perda de liberdade ou em total destruição.”
(1998:23)
Vida
cotidiana e a percepção da crise
O
presente que temos nos chama a caiações das quais não
podemos fugir, se optamos pela compreensão da realidade e
pela filiação à resistência do sonho utópico. Isto é,
compreender para pensar e fazer aquilo que ainda não foi
feito. Para fazer isto precisamos encarar o mundo de frente.
Aquele mundo justo com que todos sonhávamos, na verdade havia
se desfeito antes mesmo da maioria dos educadores de meia
idade, assim como eu, nascerem. Nossa formação, a mais
garrida, se deu sob a égide de uma racionalidade vencida. Se
fizéssemos uma comparação drástica, diríamos que é como
se estivéssemos lutando, desde que nos entendemos por gente,
sem saber que a guerra terminara e que fomos perdedores. Que não
se dê queixa disso a essas alturas, mas que se busque outras
racionalidades, mesmo à luz daquela.
Gostaria
de não chocar o leitor com tal realismo, mas o romantismo ou
coisa parecida re-surgirá quando se re-construir a esperança.
Abrindo-me às implicações éticas, estéticas e científicas
desta crise de paradigmas, portanto vivo-a, tenho concluído
que talvez precisemos perder nossa esperança, nossa crença
no ser humano, várias vezes para podermos mantê-la. Isto
coincide com a insegurança, a incerteza. Boaventura Santos
(2002:57) nos diz: “A prudência é a insegurança assumida
e controlada. Tal como Descartes, no limiar da ciência
moderna, exerceu a dúvida em vez de a sofrer, nós, no limiar
da ciência pós-moderna, devemos exercer a insegurança em
vez de a sofrer”. Por isso, não tenho medo de perder minhas
crenças; justamente para poder reencontrá-las, na medida em
que se avolumam os desencantamentos, assim como a urgência e
necessidade do re-encantamento histórico, isto é, o
re-encantamento que não prescinde da análise histórica
permanente, para que não se repita os mesmos erros. A
reconstrução do conhecimento do humano e da natureza precisa
valorizar os erros como possibilidade de seu desenvolvimento e
de produção de outra cultura geral que vise atingir um saber
e fazer ecológicos.
Em
busca da compreensão do mundo e de minha existência, como
mulher comum, poeta e educadora, tenho abordado a
inevitabilidade da transição (da qual tomamos consciência)
do paradigma dominante, construído por uma ciência moderna,
para um paradigma emergente, identificado por uma concepção
de ciência pós-moderna (Santos, 2002). Nossas vidas estão
impregnadas de uma racionalidade que prometia reciprocidade
matemática às nossas ações e intenções. A partir daí
baseávamos nossa confiança no mundo, nas pessoas e até em nós
mesmos, esperançosos de que se fôssemos bons receberíamos o
bem, maus o mal. Esta lógica permanecia também para que
aqueles invertiam suas ações e reações. Haviam garantias:
se seguíssemos um método aceitável, encontraríamos a
verdade irrefutável; se seguíssemos tal tendência seriamos
criadores; enfim, a reciprocidade era previsível. Descartes
vai nos dar a deixa para pensarmos: “se penso logo
existo”. Nossa própria sanidade vai depender deste
raciocínio.
Desde
nossa psicologia à nossa cognição, aquela racionalidade nos
molda e governa nossos desejos, nossos impulsos, nossas concepções
de homem e natureza, nosso agir. Por moldar nosso olhar nos
impede de ver outras coisas nos caminhos que percorremos.
Assim, vai interferir em nosso modo de viver e de fazer ciência.
Mas do esgotamento dessa racionalidade emerge outra que, a
despeito de nossa vontade, já está se constituindo pelo
esforço daqueles que ousam transgredir metodologias, tanto em
suas vidas quanto em sua prática social. Eles já têm claro
que “todo devir está marcado pela desordem: rupturas,
cismas, desvios são as condições de criações,
nascimentos, morfogêneses.” (Morin, 2002:99). Mas eles
também não sabem aonde iremos chegar. Sabemos apenas que
emerge um novo paradigma instituinte da instabilidade e
é com ela que se começa a aprender a viver. Nossa participação
da vida social, por exemplo, precisa ser mais intensa do que
pregavam os Estados Social e de Direito.
A
maioria de nós, na vida prática, tem se surpreendido cada
vez mais com os seres humanos, com os distantes e virtuais e
com aqueles que nos cercam e os mais íntimos. A
imprevisibilidade dos pensamentos e atitudes tomadas pelas
pessoas nos assombra a cada dia. Elas são irracionais, porque
não obedecem a racionalidade da reciprocidade que aprendemos:
faça aos outros o que gostarias que fizessem a ti ou não faça
aos outros o que não gostarias que fizessem a ti mesmo. Na
realidade, no nosso cotidiano vemos que a reciprocidade lógica
matemática não é real. Então o que é? Há um desencontro
de intenções e resultados das ações. A imprevisibilidade
se expande. Não sabemos mais como agir diante das provocações,
nem como provocar ações e reações. O que estaria motivando
esta desordem, que nos foge ao controle, ao domínio prometido
pela racionalidade matemática? Podemos dizer que a desordem
sempre existiu, mas ela não foi contada. A racionalidade
moderna se negava a ver e a contar. Vivemos por tempo
demasiado a ilusão do controle e do controlável.
Morin
(2002), no Método I, pode nos ajudar a compreender o
estouro do excesso de fragmentação provocado pelo
reducionismo, que pretendia descobrir a natureza e dominá-la
e que vai ser responsável pela produção de uma cultura
fragmentada. Esta desconecta o homem da natureza e o deixa à
própria sorte, criando seus modelos aparentemente
naturalistas, mas que desconsideram a natureza caótica, dinâmica,
desorganizando-se e reorganizando-se mais rapidamente do que
se poderia supor, do que se consegue pensar, agir e sentir. O
resultado disto é que hoje vivemos em tempos múltiplos e
nossas sintonias com o humano sobrevivem em estações de freqüências
imperceptíveis.
A
era das Grandes Navegações (Idade Média) inaugura uma
globalização que se expande, coadjuvando uma complexificação
política, econômica, social e cultural tal, que transforma o
homem local em homem global. A globalização virtualiza a
vida elaborando sintonias que não condizem com o tempo real
da vida local – corpórea – e seus limites. Da mente ainda
pouco se conhece, mas o corpo ainda é o limite do humano.
Como resgatar o humano que queria uma vida feliz e para todos?
Como resgatar a felicidade do espírito em uma vida ao alcance
de nossos limites materiais? Morin (2000) diria que é preciso
uma reforma do pensamento. Isto envolve uma mudança paradigmática.
A
crise dos paradigmas, discutida na academia com este nome, vem
sendo experimentada também pelo senso comum nas religiões,
embora perigosamente, pois estas últimas em sua maioria ainda
se encontram medievais e modernas. Ou seja, discutem a crise
moral com base em preceitos antigos. Talvez se pudesse afirmar
que nunca as igrejas estiveram tão lotadas. Além disso, o número
de religiões aumenta da mesma forma que os partidos políticos
no final do século passado no Brasil, impulsionados por
aquela racionalidade salvadora dos oprimidos e projetista de
um sistema perfeito de sociedade previsível. É certo que há
uma pulverização do poder, mas este tem seu sustento no medo
da instabilidade, provocada pela obsolescência de nossos
saberes e fazeres e pelo medo do desconhecido.
Voltamos
à validade de antigas perguntas como: para onde vamos?
Qualquer pessoa se faz esta pergunta; e o cientista
também. Mas as razões que irão fundamentar suas respostas
ainda estão dicotomizadas. O resultado disto é que um embate
está sendo gerado no inconsciente coletivo e caminhamos para
a possibilidade da expansão dos fundamentalismos. Por outras
razões podemos estar prestes ao ressurgimento generalizado de
embates hediondos entre fé e razão. Daí que surge a maior
urgência do entrelaçamento e validação das culturas para a
sustentabilidade de um conhecimento válido para todos. Pois há
outras desordens sendo geradas a cada instante, nos planos político,
econômico, social, etc.
Vivendo
os desafios, criando possibilidades...
Os
pensadores do mundo iniciaram sua análise crítica e a
configuração da crise dos paradigmas na segunda metade do século
passado, identificando seus causadores, mas estes não
cessaram sua corrida, apesar da denúncia. O poder político e
econômico e a ciência e tecnologia continuaram sua corrida e
a despeito das quedas ideológicas e estatais, provocadas em
algumas sociedades, continuam esgotando o que resta das
energias utópicas plantadas na modernidade. O resultado disso
é que cada vez mais a crise que a academia tenta definir
torna-se senso comum, porque mesmo sem nomeá-la o homem comum
sabe que a crise bate a sua porta. O mal-estar causado por e
nessa modernidade é estético, ele é percebido e sentido na
carne, na vida de todo o ser humano. Quem nesse mundo pode
dormir sem trancar as portas? Mesmo o opressor torna-se
escravo da vigilância de seu poder. A insegurança é mais do
que científica e ética, ela é estética.
Por
isso, temos abordado a relação da crise de paradigmas com a
própria vida e a cotidianidade. Na verdade o que demonstra
melhor que existe uma ruptura entre um tempo moderno e o pós-moderno,
é a experimentação vivida cotidianamente, quando não
encontramos mais justificação, explicação e condições
para a compreensão de nossos problemas, de nossa vida pessoal
ou em nosso fazer social, por conseguinte, do mundo em que
vivemos. Nossos argumentos estão com a data de validade
vencida. Não temos mais as certezas de como educar nossos
filhos, de como nos relacionar com as pessoas, assim como não
sabemos mais como ensinar nossos estudantes e garantir nossas
descobertas. Nem mesmo sobre nossas dúvidas temos certezas.
Boaventura
Santos, apresentando as teses de um paradigma emergente e
argumentando que todo o conhecimento científico visa
constituir-se em senso comum, vai dizer:
“...
a ciência pós-moderna sabe que nenhuma forma de conhecimento
é, em si mesma, racional; só a configuração de todas elas
é racional. Tenta, pois, dialogar com outras formas de
conhecimento deixando-se penetrar por elas. A mais importante
de todas é o conhecimento do senso comum, o conhecimento
vulgar e prático com que no quotidiano orientamos as nossas
acções e damos sentido à nossa vida. (...) É certo que o
conhecimento do senso comum tende a ser um conhecimento
mistificado e mistificador mas, apesar disso e apesar de ser
conservador, tem uma dimensão utópica e libertadora que pode
ser ampliada através do diálogo com o conhecimento científico.”
(2002: 55-56)
Reconhecer
a falência de nossas certezas é tomar consciência da crise
paradigmática que vivemos. Nossos parâmetros de verdade –
aqueles de nossos pais – não são os mesmos e não
conseguimos mais agir como nossos pais, como pensava o músico
e poeta. Somente a tomada de consciência da crise pode nos
libertar do jugo do eterno fracasso de nossas tentativas e
erros repetidos, por teimar em ajustar nossos saberes mofados
à nossa vida teórico-prática. É preciso voltar a ser a
criança dos por quês. Como diz Santos, em Um discurso
sobre as ciências, é preciso fazer as perguntas simples
de Rousseau, embora nossas respostas já não sejam tão
simples. Mas precisam ser outras.
Quem
sabe não seria bom sentarmos com velhos e crianças para
discutir nosso futuro juntos, respeitando todas as vozes, sem
o compromisso com o paradigma dominante, mas com o resgate do
humanismo perdido? Enquanto não ficar mais claro para nós
que nossa insistência em estabelecer um o que fazer,
baseado em uma confiança epistemológica e metodológica
modernas, plantadas pela razão matemática – e não estamos
falando que se deva esquecê-la –, inviabiliza-se um como
fazer: outro, que não precisará ser dito, como era feito
na modernidade, mas criado a cada contexto pelos participantes
dos problemas a serem solucionados. Daí a necessidade do
ensino desenvolver a capacidade crítica e criativa.
Os
novos o que fazer e como fazer serão locais e
organizados por seus participantes, e devem ser registrados
para diálogos globais. Decididamente descobrimos que a vida não
vem com manual. A vida é uma permanente crise, construída de
conflitos e imprevistos. Para vivê-la precisamos estar
atentos todos os dias, sem esquecer nossa caminhada. Nossas
convicções são limitadas e devem estar conscientes disso
sem pesares. Daí que a solidariedade passa a ser nossa única
saída, porque fazemos parte de uma mesma vida (Gaia). Morin e
Kern vão dizer:
“...
a Terra não é a adição de um planeta físico, mais a
biosfera, mais a humanidade. A Terra é uma totalidade
complexa física/biológica/antropológica, na qual a vida é
uma emergência da história da Terra e o homem uma emergência
da história da vida terrestre. A relação do homem com a
natureza não pode ser concebida de forma redutora nem de
forma separada. A humanidade é uma entidade planetária e
biosférica. O ser humano, ao mesmo tempo natural e
sobre-natural, tem sua origem na natureza viva e física, mas
emerge dela e se distingue dela pela cultura, o pensamento e a
consciência.” ( 2000:167)
A
vida cotidiana nos chama a reformar nosso pensamento muito
mais do que as reflexões de nossos pensadores, que fizeram
isto antes de nós. O reducionismo científico que ajudou a
produzir esta cultura, entendida como civilizada, desaponta
nossos sonhos relutantes de um mundo melhor. Somos levados a
crer que já está exposto o reconhecimento de que a dicotomia
criada entre o senso comum e o senso crítico começa a
diluir-se.
Este
assunto tem provocado conversas intermináveis com meus
parceiros de reflexões, reuniões que me confundem e me
provocam, que constroem e desconstroem certezas provisórias,
mas que sobretudo me fazem sentir aprendiz da vida e do mundo.
Reside aí a raiz de minha esperança. Gostaria de concluir
esta breve exposição com uma fala de Morin. Ele vem me
apoiar em idéias nascidas em minha meninice:
“Fernando
Pessoa dizia que em cada um de nós há dois seres: o
primeiro, o verdadeiro, é o de seus devaneios, de seus
sonhos, que nasce na infância e prossegue por toda a vida, e
o segundo, o falso, é o de suas aparências, de seus
discursos e de seus atos. Diremos de outro modo: dois seres
coexistem dentro de nós, o do estado prosaico e o do estado
poético; esses dois seres constituem nosso ser, são suas
duas polaridades, necessárias uma à outra: se não houvesse
prosa, não haveria poesia: o estado poético só se manifesta
como tal em relação ao estado prosaico.” (2000:177)
Viver
é aceitar o desafio de ser aprendiz da vida, sem esquecer que
nossas descobertas são provisórias, mas são de todos. Daí
que uma das grandes aprendizagens é saber compartilhar, para
redescobrir melhor até o que já se conhecia. Daí que outra
grande aprendizagem é saber ouvir o outro e respeita-lo,
mesmo antes de contradizer suas certezas ou de descobrir
nossos erros.
Viver
é uma grande aventura.
Crise, derivado do grego Krísis, significa
‘alteração, desequilíbrio repentino’ ‘estado de dúvida
e incerteza’ ‘tensão, conflito’. (CUNHA, Antônio
Geraldo. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.)
A barbárie do poder com seus requintes de crueldade nos
genocídios em várias nações e a estréia da “inteligência”
atômica contra o Japão são marcos históricos da ruína
do projeto de modernidade.