Por VIRGÍNIA MACHADO
Professora do Departamento de Educação da Fundação Universidade Federal do Rio Grande. Pedagoga (FURG) e Mestre em Educação (UFRGS)

 

Vida: viver a crise de paradigmas

 

Resumo: este texto tenta demonstrar a relação existente entre o senso crítico, tratado pelas reflexões acadêmicas e o senso comum, vivenciado por todos nós. Queremos validar o conhecimento vital, que busca na racionalidade conteúdo e forma para compreender-se e ao mundo.

Palavras-chave: vida, crise, paradigmas, senso comum e senso crítico, cotidiano.

 

Introdução

Imediatamente ao pensar sobre o que escrever sobre a vida, já me ocorre que vida e crise[1] são quase que sinônimos, mas isto poderia ser a conclusão desta reflexão. Bem, mesmo assim ela motiva a narrativa de uma reflexão que vem sendo feita já há algum tempo. Derramá-la em palavras no papel pode ajudar-me na permanência reflexiva. Tem sido consenso, desde o senso comum ao senso crítico, e deste àquele, a consciência de que vivemos uma crise desencadeada por acontecimentos bombásticos ocorridos no século passado. Esta consciência toma vulto no pós II Guerra Mundial[2]. Havia a necessidade de reconstrução das sociedades mais atingidas. Mas elas jamais seriam as mesmas. A crise provocada por aquela guerra conseguiu reerguer nações materialmente, mas o espírito fundado pelo homem da razão, emergido do Renascimento e da Revolução Francesa, o mesmo que organizara a sociedade burguesa, falira. Este já não sustenta a legalidade de suas certezas científicas, éticas e estéticas (Habermas, 1988).

Heller (1998), em A condição política pós-moderna, faz uma análise muito clara sobre a origem da ruptura com a modernidade. A ruptura acontece  quando o homem se defronta com o horror de sua natureza bárbara, aflorada naquela guerra (genocídio), complementada com os resultados da ciência e tecnologia (bomba atômica) sem autocrítica. (Apesar dos acordos internacionais desde aquela época tal barbárie social e de ciência e tecnologia continua.) O que havia sido feito do projeto de modernidade que previa uma vida boa e justa para todos? Nosso sonho virava pesadelo?

No entanto, gostaria de registrar que não falo de uma ruptura factual e generalizada nos moldes do pensamento moderno, mas de uma ruptura dialética e móvel, a partir da crítica àquele pensamento. Concordo com Heller (1998), quando ela diz:

“A pós-modernidade é em todos os sentidos “parasítica”da modernidade; vive e alimenta-se de suas conquistas e seus dilemas. O que é novo na situação é a inédita consciência histórica surgida na post-histoire; o sentimento grassante de que vamos ficar para sempre e ao mesmo tempo depois dele. Com o mesmo gesto, apropriamo-nos mais profundamente de nosso presente do que jamais fizemos, além de criarmos um distanciamento crítico dele. E quem continua insatisfeito com apenas esse tanto de distanciamento crítico de nossas perspectivas políticas deve lembrar que a negação absoluta do presente (inegavelmente mais do que poderia oferecer a pós-modernidade) com toda a probabilidade acabaria ou em total perda de liberdade ou em total destruição.” (1998:23)

Vida cotidiana e a percepção da crise

O presente que temos nos chama a caiações das quais não podemos fugir, se optamos pela compreensão da realidade e pela filiação à resistência do sonho utópico. Isto é, compreender para pensar e fazer aquilo que ainda não foi feito. Para fazer isto precisamos encarar o mundo de frente. Aquele mundo justo com que todos sonhávamos, na verdade havia se desfeito antes mesmo da maioria dos educadores de meia idade, assim como eu, nascerem. Nossa formação, a mais garrida, se deu sob a égide de uma racionalidade vencida. Se fizéssemos uma comparação drástica, diríamos que é como se estivéssemos lutando, desde que nos entendemos por gente, sem saber que a guerra terminara e que fomos perdedores. Que não se dê queixa disso a essas alturas, mas que se busque outras racionalidades, mesmo à luz daquela.

Gostaria de não chocar o leitor com tal realismo, mas o romantismo ou coisa parecida re-surgirá quando se re-construir a esperança. Abrindo-me às implicações éticas, estéticas e científicas desta crise de paradigmas, portanto vivo-a, tenho concluído que talvez precisemos perder nossa esperança, nossa crença no ser humano, várias vezes para podermos mantê-la. Isto coincide com a insegurança, a incerteza. Boaventura Santos (2002:57) nos diz: “A prudência é a insegurança assumida e controlada. Tal como Descartes, no limiar da ciência moderna, exerceu a dúvida em vez de a sofrer, nós, no limiar da ciência pós-moderna, devemos exercer a insegurança em vez de a sofrer”. Por isso, não tenho medo de perder minhas crenças; justamente para poder reencontrá-las, na medida em que se avolumam os desencantamentos, assim como a urgência e necessidade do re-encantamento histórico, isto é, o re-encantamento que não prescinde da análise histórica permanente, para que não se repita os mesmos erros. A reconstrução do conhecimento do humano e da natureza precisa valorizar os erros como possibilidade de seu desenvolvimento e de produção de outra cultura geral que vise atingir um saber e fazer ecológicos.

Em busca da compreensão do mundo e de minha existência, como mulher comum, poeta e educadora, tenho abordado a inevitabilidade da transição (da qual tomamos consciência) do paradigma dominante, construído por uma ciência moderna, para um paradigma emergente, identificado por uma concepção de ciência pós-moderna (Santos, 2002). Nossas vidas estão impregnadas de uma racionalidade que prometia reciprocidade matemática às nossas ações e intenções. A partir daí baseávamos nossa confiança no mundo, nas pessoas e até em nós mesmos, esperançosos de que se fôssemos bons receberíamos o bem, maus o mal. Esta lógica permanecia também para que aqueles invertiam suas ações e reações. Haviam garantias: se seguíssemos um método aceitável, encontraríamos a verdade irrefutável; se seguíssemos tal tendência seriamos criadores; enfim, a reciprocidade era previsível. Descartes vai nos dar a deixa para pensarmos: “se penso logo existo”. Nossa própria sanidade vai depender deste raciocínio.

Desde nossa psicologia à nossa cognição, aquela racionalidade nos molda e governa nossos desejos, nossos impulsos, nossas concepções de homem e natureza, nosso agir. Por moldar nosso olhar nos impede de ver outras coisas nos caminhos que percorremos. Assim, vai interferir em nosso modo de viver e de fazer ciência. Mas do esgotamento dessa racionalidade emerge outra que, a despeito de nossa vontade, já está se constituindo pelo esforço daqueles que ousam transgredir metodologias, tanto em suas vidas quanto em sua prática social. Eles já têm claro que “todo devir está marcado pela desordem: rupturas, cismas, desvios são as condições de criações, nascimentos, morfogêneses.” (Morin, 2002:99). Mas eles também não sabem aonde iremos chegar. Sabemos apenas que emerge um novo paradigma instituinte da instabilidade e é com ela que se começa a aprender a viver. Nossa participação da vida social, por exemplo, precisa ser mais intensa do que pregavam os Estados Social e de Direito.

A maioria de nós, na vida prática, tem se surpreendido cada vez mais com os seres humanos, com os distantes e virtuais e com aqueles que nos cercam e os mais íntimos. A imprevisibilidade dos pensamentos e atitudes tomadas pelas pessoas nos assombra a cada dia. Elas são irracionais, porque não obedecem a racionalidade da reciprocidade que aprendemos: faça aos outros o que gostarias que fizessem a ti ou não faça aos outros o que não gostarias que fizessem a ti mesmo. Na realidade, no nosso cotidiano vemos que a reciprocidade lógica matemática não é real. Então o que é? Há um desencontro de intenções e resultados das ações. A imprevisibilidade se expande. Não sabemos mais como agir diante das provocações, nem como provocar ações e reações. O que estaria motivando esta desordem, que nos foge ao controle, ao domínio prometido pela racionalidade matemática? Podemos dizer que a desordem sempre existiu, mas ela não foi contada. A racionalidade moderna se negava a ver e a contar. Vivemos por tempo demasiado a ilusão do controle e do controlável.

Morin (2002), no Método I, pode nos ajudar a compreender o estouro do excesso de fragmentação provocado pelo reducionismo, que pretendia descobrir a natureza e dominá-la e que vai ser responsável pela produção de uma cultura fragmentada. Esta desconecta o homem da natureza e o deixa à própria sorte, criando seus modelos aparentemente naturalistas, mas que desconsideram a natureza caótica, dinâmica, desorganizando-se e reorganizando-se mais rapidamente do que se poderia supor, do que se consegue pensar, agir e sentir. O resultado disto é que hoje vivemos em tempos múltiplos e nossas sintonias com o humano sobrevivem em estações de freqüências imperceptíveis.

A era das Grandes Navegações (Idade Média) inaugura uma globalização que se expande, coadjuvando uma complexificação política, econômica, social e cultural tal, que transforma o homem local em homem global. A globalização virtualiza a vida elaborando sintonias que não condizem com o tempo real da vida local – corpórea – e seus limites. Da mente ainda pouco se conhece, mas o corpo ainda é o limite do humano. Como resgatar o humano que queria uma vida feliz e para todos? Como resgatar a felicidade do espírito em uma vida ao alcance de nossos limites materiais? Morin (2000) diria que é preciso uma reforma do pensamento. Isto envolve uma mudança paradigmática.

A crise dos paradigmas, discutida na academia com este nome, vem sendo experimentada também pelo senso comum nas religiões, embora perigosamente, pois estas últimas em sua maioria ainda se encontram medievais e modernas. Ou seja, discutem a crise moral com base em preceitos antigos. Talvez se pudesse afirmar que nunca as igrejas estiveram tão lotadas. Além disso, o número de religiões aumenta da mesma forma que os partidos políticos no final do século passado no Brasil, impulsionados por aquela racionalidade salvadora dos oprimidos e projetista de um sistema perfeito de sociedade previsível. É certo que há uma pulverização do poder, mas este tem seu sustento no medo da instabilidade, provocada pela obsolescência de nossos saberes e fazeres e pelo medo do desconhecido.

Voltamos à validade de antigas perguntas como: para onde vamos?  Qualquer pessoa se faz esta pergunta; e o cientista também. Mas as razões que irão fundamentar suas respostas ainda estão dicotomizadas. O resultado disto é que um embate está sendo gerado no inconsciente coletivo e caminhamos para a possibilidade da expansão dos fundamentalismos. Por outras razões podemos estar prestes ao ressurgimento generalizado de embates hediondos entre fé e razão. Daí que surge a maior urgência do entrelaçamento e validação das culturas para a sustentabilidade de um conhecimento válido para todos. Pois há outras desordens sendo geradas a cada instante, nos planos político, econômico, social, etc.

Vivendo os desafios, criando possibilidades...

Os pensadores do mundo iniciaram sua análise crítica e a configuração da crise dos paradigmas na segunda metade do século passado, identificando seus causadores, mas estes não cessaram sua corrida, apesar da denúncia. O poder político e econômico e a ciência e tecnologia continuaram sua corrida e a despeito das quedas ideológicas e estatais, provocadas em algumas sociedades, continuam esgotando o que resta das energias utópicas plantadas na modernidade. O resultado disso é que cada vez mais a crise que a academia tenta definir torna-se senso comum, porque mesmo sem nomeá-la o homem comum sabe que a crise bate a sua porta. O mal-estar causado por e nessa modernidade é estético, ele é percebido e sentido na carne, na vida de todo o ser humano. Quem nesse mundo pode dormir sem trancar as portas? Mesmo o opressor torna-se escravo da vigilância de seu poder. A insegurança é mais do que científica e ética, ela é estética.

Por isso, temos abordado a relação da crise de paradigmas com a própria vida e a cotidianidade. Na verdade o que demonstra melhor que existe uma ruptura entre um tempo moderno e o pós-moderno, é a experimentação vivida cotidianamente, quando não encontramos mais justificação, explicação e condições para a compreensão de nossos problemas, de nossa vida pessoal ou em nosso fazer social, por conseguinte, do mundo em que vivemos. Nossos argumentos estão com a data de validade vencida. Não temos mais as certezas de como educar nossos filhos, de como nos relacionar com as pessoas, assim como não sabemos mais como ensinar nossos estudantes e garantir nossas descobertas. Nem mesmo sobre nossas dúvidas temos certezas.

Boaventura Santos, apresentando as teses de um paradigma emergente e argumentando que todo o conhecimento científico visa constituir-se em senso comum, vai dizer:

“... a ciência pós-moderna sabe que nenhuma forma de conhecimento é, em si mesma, racional; só a configuração de todas elas é racional. Tenta, pois, dialogar com outras formas de conhecimento deixando-se penetrar por elas. A mais importante de todas é o conhecimento do senso comum, o conhecimento vulgar e prático com que no quotidiano orientamos as nossas acções e damos sentido à nossa vida. (...) É certo que o conhecimento do senso comum tende a ser um conhecimento mistificado e mistificador mas, apesar disso e apesar de ser conservador, tem uma dimensão utópica e libertadora que pode ser ampliada através do diálogo com o conhecimento científico.” (2002: 55-56)

Reconhecer a falência de nossas certezas é tomar consciência da crise paradigmática que vivemos. Nossos parâmetros de verdade – aqueles de nossos pais – não são os mesmos e não conseguimos mais agir como nossos pais, como pensava o músico e poeta. Somente a tomada de consciência da crise pode nos libertar do jugo do eterno fracasso de nossas tentativas e erros repetidos, por teimar em ajustar nossos saberes mofados à nossa vida teórico-prática. É preciso voltar a ser a criança dos por quês. Como diz Santos, em Um discurso sobre as ciências, é preciso fazer as perguntas simples de Rousseau, embora nossas respostas já não sejam tão simples. Mas precisam ser outras.

Quem sabe não seria bom sentarmos com velhos e crianças para discutir nosso futuro juntos, respeitando todas as vozes, sem o compromisso com o paradigma dominante, mas com o resgate do humanismo perdido? Enquanto não ficar mais claro para nós que nossa insistência em estabelecer um o que fazer, baseado em uma confiança epistemológica e metodológica modernas, plantadas pela razão matemática – e não estamos falando que se deva esquecê-la –, inviabiliza-se um como fazer: outro, que não precisará ser dito, como era feito na modernidade, mas criado a cada contexto pelos participantes dos problemas a serem solucionados. Daí a necessidade do ensino desenvolver a capacidade crítica e criativa.

Os novos o que fazer e como fazer serão locais e organizados por seus participantes, e devem ser registrados para diálogos globais. Decididamente descobrimos que a vida não vem com manual. A vida é uma permanente crise, construída de conflitos e imprevistos. Para vivê-la precisamos estar atentos todos os dias, sem esquecer nossa caminhada. Nossas convicções são limitadas e devem estar conscientes disso sem pesares. Daí que a solidariedade passa a ser nossa única saída, porque fazemos parte de uma mesma vida (Gaia). Morin e Kern vão dizer:

“... a Terra não é a adição de um planeta físico, mais a biosfera, mais a humanidade. A Terra é uma totalidade complexa física/biológica/antropológica, na qual a vida é uma emergência da história da Terra e o homem uma emergência da história da vida terrestre. A relação do homem com a natureza não pode ser concebida de forma redutora nem de forma separada. A humanidade é uma entidade planetária e biosférica. O ser humano, ao mesmo tempo natural e sobre-natural, tem sua origem na natureza viva e física, mas emerge dela e se distingue dela pela cultura, o pensamento e a consciência.” ( 2000:167)

A vida cotidiana nos chama a reformar nosso pensamento muito mais do que as reflexões de nossos pensadores, que fizeram isto antes de nós. O reducionismo científico que ajudou a produzir esta cultura, entendida como civilizada, desaponta nossos sonhos relutantes de um mundo melhor. Somos levados a crer que já está exposto o reconhecimento de que a dicotomia criada entre o senso comum e o senso crítico começa a diluir-se.

Este assunto tem provocado conversas intermináveis com meus parceiros de reflexões, reuniões que me confundem e me provocam, que constroem e desconstroem certezas provisórias, mas que sobretudo me fazem sentir aprendiz da vida e do mundo. Reside aí a raiz de minha esperança. Gostaria de concluir esta breve exposição com uma fala de Morin. Ele vem me apoiar em idéias nascidas em minha meninice:

“Fernando Pessoa dizia que em cada um de nós há dois seres: o primeiro, o verdadeiro, é o de seus devaneios, de seus sonhos, que nasce na infância e prossegue por toda a vida, e o segundo, o falso, é o de suas aparências, de seus discursos e de seus atos. Diremos de outro modo: dois seres coexistem dentro de nós, o do estado prosaico e o do estado poético; esses dois seres constituem nosso ser, são suas duas polaridades, necessárias uma à outra: se não houvesse prosa, não haveria poesia: o estado poético só se manifesta como tal em relação ao estado prosaico.” (2000:177)

Viver é aceitar o desafio de ser aprendiz da vida, sem esquecer que nossas descobertas são provisórias, mas são de todos. Daí que uma das grandes aprendizagens é saber compartilhar, para redescobrir melhor até o que já se conhecia. Daí que outra grande aprendizagem é saber ouvir o outro e respeita-lo, mesmo antes de contradizer suas certezas ou de descobrir nossos erros.

Viver é uma grande aventura.


[1] Crise, derivado do grego Krísis, significa ‘alteração, desequilíbrio repentino’ ‘estado de dúvida e incerteza’ ‘tensão, conflito’. (CUNHA, Antônio Geraldo. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.)

[2] A barbárie do poder com seus requintes de crueldade nos genocídios em várias nações e a estréia da “inteligência” atômica contra o Japão são marcos históricos da ruína do projeto de modernidade.

 

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Referências bibliográficas

HABERMAS, J. Teoría de la acción  comunicativa. Madrid: Taurus, 1988.

HELLER, A. , FEHÉR, F. A condição política pós-moderna. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.

MORIN, E. O método 1: a natureza da natureza. Porto Alegre: Sulina, 2002.

MORIN, E., KERN, A. B. Terra-pátria. Porto Alegre: Sulina, 2000.

SANTOS, B. Um discurso sobre as ciências. Porto: Afrontamento, 2002.

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