Por HUMBERTO CALLONI

Professor Adjunto de Filosofia da FURG. Licenciado em Filosofia e Pedagogia pela UFRGS. Mestre e  Doutor em Educação pela UFRGS

 

Sobre o Sentido e o Significado da Vida

À guisa de introdução:

O presente texto trata de refletir a noção de vida exatamente na morada da nossa permanente inquietação acerca do seu sentido e significado possíveis. O que se procura provocar - e não precisamente responder - é o debate do fenômeno da vida numa aposta que, ao passear pelas contribuições científicas, também possa inquirir sobre a particular atitude do ser humano de conferir sentidos e significados, digamos transcendentais.  É provocativo, na medida em que essa particularidade humana, a transcendentalidade, que é imanente à razão, ao logos, à palavra que anuncia e interpreta o mundo, é parasitada pelos efeitos das ciências e das técnicas de tal sorte que a cobiça pelos mistérios da vida, seu sentido último, é recambiada, paradoxalmente, a noções de totalidades encerradas num universo que somente o sagrado, gênese da divindade, poderia conter. Meu interesse, contudo, não é discutir a divindade e o sagrado, pois esta seria uma via franqueada a um relativo acesso ao discurso ordinariamente aceito. Meu objetivo é sondar o limbo dos significados e sentidos a partir de um resgate de uma frase atribuída a um dos personagens de um Conto que escrevi há muito e perdido no tempo.  O presente ensaio, de qualquer forma, tenta explorar a resposta dada pelo personagem Necros passo a passo, ainda que saiba que o seu entendimento eventual poderá estar na noção de dialógica, tal como é ensinada por Edgar Morin, a quem recorro para dar luz a um dito (a uma resposta que Necros dá ao seu interlocutor) que, possivelmente, se manteria na obscuridade sem a ajuda do filósofo francês e, certamente, sem o concurso da Maria Virgínia e do editor desta Revista, para que eu possa argüir na audácia de se pensar acerca do sentido e do significado da vida, seja como questão aberta e relativa a cada ser humano em particular, seja em relação à peculiaridade ontológica da realidade que se revela enquanto totalidade processual. O personagem Necros, de origem grega, é um ente fictício, ainda que lembre a idéia de morte, o antípoda da vida. Por outro lado, este ensaio nasce justamente de um acerto de contas com a resposta que Necros dá ao seu interlocutor no Conto "Prece para Necros". Necros pronuncia, a certa altura daquele Conto: "Eu sou um vivo do qual tu és o meu morto e o meu morto é o meu próprio vivo". Sem querer, eu estava colocando na fala de um personagem aquilo que bem mais tarde eu descobriria tratar-se de uma das dimensões da complexidade da vida, da existência e do ser. Ou seja, a idéia de equilíbrio, desequilíbrio, estabilidade e instabilidade, estão aí, presentes, numa relação recíproca, dinâmica, na forma de circuito recorrente, e que Morin me socorre com a noção de anelamento, ao firmar que aquilo que é gerado gera, por sua vez, aquilo que o gera (Morin,1997:179). A vida gera a morte; a morte gera a vida. O sentido e o significado da vida pertencem a esta constatação ou transcendem a ela? Estas são questões que procuro explorar no texto a seguir, mantendo a porta hermenêutica escancarada a todos quantos possam se sensibilizar pela temática em questão.

Palavras-chaves: vida, morte, significado, sentido, complexidade.


- I -

NECROS:

- Eu sou um vivo do qual tu és o meu morto e o meu morto é o meu próprio vivo.

Há muito venho pensando sobre o significado desta frase. Ela foi escrita num dos meus Contos destruídos pelo tempo, num Conto que pretendia ir em busca do sentido e do significado da vida, denominado "Prece para Necros". A sentença em si pertencia a um dos dois personagens do texto, Necros. Aliás, havia apenas dois personagens naquele insólito Conto. No caso, Necros e eu, seu criador (que poderia ser você!).

Talvez a frase signifique muita coisa, talvez não signifique nada. Talvez ela encerre em si uma grande intuição, talvez seja apenas uma justaposição de palavras antitéticas. Acredito que seja o tipo de frase que possui camadas. Seja o que for que a sentença de Necros queria insinuar, ela ainda me instiga a pensar para dentro e além dela. Provocadora, persegue-me como sombra de mim mesmo. Seria a sombra, de Jung? Quem sabe um pensamento arquetípico? Ou maya, incorretamente tida como "ilusão" dos sentidos, que traduz a própria impossibilidade de descrever o real, tal qual um caleidoscópio a refletir imagens de um minúsculo objeto tornando-o multifacetado, belo, agigantado, nunca igual a si mesmo, sempre o mesmo, mas ao mesmo tempo inconstante, mutante, enfim, o mundo do devir?[1]

Se for um pensamento arquetípico, o dito de Necros pertence ao inconsciente coletivo da sociedade humana como um todo mas, ao mesmo tempo, encerra um elemento físico, no sentido da physis à qual os sábios gregos denominavam os acontecimentos do surgimento e do desabrochar da vida. Se for maya, então é um manto transparente que aí está para nos desafiar a encontrar o que maya encobre, quando acreditamos que os diferentes seres possuem realidades próprias, em si mesmas, independentes do todo. Agora, quando a retomo para epigrafar este ensaio em nada pudico quanto à sua ousadia em refletir sobre o sentido e o significado da vida, fico a meditar se a fala de Necros não seria exatamente a expressão conjugada a um mesmo tempo de um pensamento arquetípico, da idéia da physis grega e da maya hindu?  

De qualquer forma, a coragem em retomar aquela afirmação dita por um personagem idealizado por mim há muitos anos passados só foi possível porque, ao longo dos meus estudos, encontrei, pelo caminho, um filósofo que, definitivamente, marca um encontro com as minhas mais íntimas convicções do que seja a Filosofia, e esse filósofo chama-se Edgar Morin. É assim que, ao identificar nesse inebriante pensador francês a qualidade maiúscula de um pensamento relacional, sistêmico, transdisciplinar, enfim, complexo, acredito ter adquirido a ousadia de resgatar, ainda com vida, o que me fora sepultado pelo enclausuramento disciplinar da minha formação - ou seria deformação? - acadêmica, esta que tão sabidamente prima por uma excessiva erudição especializada, por vezes sem o necessário diálogo intercruzado, mestiço, dócil às aproximações mais inesperadas, o que poderia favorecer o inédito, o inesperado, o novo. Talvez seja por isso que este ensaio não se intimidará por fazer uso de expressões e neologismos ensinados por Morin, denotando uma certa familiaridade com seu discurso, na medida em que me aproprio, por minha conta e risco, de seu método, de suas pegadas deixadas aos que se identificam com o seu pensamento, seu estilo, sua reflexão; de seu mote para ousar a pensar sem medo, ainda que com receio; sem receio de errar, ainda que com medo de não acertar, sem a espada de Dâmocles a me refrear.

- II -

Mas a afirmação "Eu sou um vivo" só pode existir concreta e efetivamente na medida em que há um ser pensante que se descobre vivo. Nada há aqui de ilusão ou fantasia. Nem metafísica. Ela é sólida como a rocha que, como tudo o que existe, também se transforma, ainda que sólida, ainda que rocha. Há muita consciência nesta afirmação ou mesmo um excesso de consciência. Para dizer "Eu sou", por exemplo, só é possível fazê-lo porque eu reconheço em mim um outro que não Tu. Assim também para dizer Tu, devo reconhecer no outro uma substância que não Eu. Ao dizer "sou" afirmo minha efetividade existencial. "Sou" é a primeira pessoa do verbo ser. Para ser é necessário existir. Para existir é necessário expressar-se sendo.

Dizer "Eu sou um vivo", portanto, diz da triunidade entre ser-existir-viver. O ser consciente só existe na existência, sendo que a vida é a possibilidade da existência e do ser. Dito desta forma, a frase "Eu sou um vivo" não diz muita coisa. Ou melhor, diz apenas que "Eu sou um existente graças à vida". Por outro lado, diz muita coisa, isto é, que eu sou um ente que vive e que tem consciência de sua existência inseparável do todo recorrente, processual, ativo. Consciência precavida de qualquer idéia brumosa ou mística de totalidade.

Nessa perspectiva não há dúvida que o registro da triunidade ser-existir-viver constitui, de alguma forma, o estofo de onde emerge a consciência. Ainda que a consciência talvez não seja um privilégio do humano, é no humano em que ela se realiza histórica, cultural e socialmente. O mistério da consciência é que ela é a um tempo marginal, periférica e ao mesmo tempo determinante para a apreensão do real: um epifenômeno, segundo Morin, que, no entanto, define e centraliza a nossa peculiar condição humana. Nesse sentido, o fenômeno da consciência tem sido elevado a um grau máximo de determinação do real, configurando entre as matrizes fundamentais da razão e confundindo-se com o próprio real. Não é sem razão que muitos estudiosos falam em níveis diferenciados de realidade ou de estádios múltiplos de consciência. De qualquer forma, a consciência é um subproduto e ao mesmo tempo produtora da compreensão triúnica do ser-existir-viver.

Por outro lado, dizer "Tu és o meu morto" é afirmar a existência da alteridade mas que ainda me pertence enquanto expressão da vida, seja ela do eu, Eu ou do Tu. "Tu és o meu morto" implica afirmar o movimento entre o não mais e o ainda não do ser existente, dado que quem faz a afirmação é um ser vivo, consciente e existente e ao mesmo tempo esse ser vivo, consciente e existente já não o é o que era imediatamente antes de afirmar tal sentença. É claro que uma pedra, uma árvore, um pedaço de madeira, um camaleão, um protozoário, um lago não teriam a propriedade de fazer tal afirmação, pois ainda que sejam seres existente faltam-lhes a propriedade da consciência que une e afirma a triunidade da qual a vida participa. Parece que somente o humano possui esta propriedade de dizer, afirmar, conceber, enunciar . Ter uma consciência relativa, intencional. Ora, um pedaço de madeira é apenas um pedaço de madeira e, no entanto, não poderíamos, em princípio, negar a sua existência, o seu ser. Mas você poderia perguntar: - Mas, afinal, como é possível um pedaço de madeira ter vida? Que ele existe, bem o sei, eis que está aqui, na minha mão que o segura; que ele é, igualmente, não poderia negá-lo, pois é na medida em que existe, mas afirmar que ele vive não seria temerário? 

Trata-se de uma pergunta complexa, ou melhor, a pergunta parte de um pressuposto, na forma da lógica tradicional. Porém, por outro lado, se bem avaliarmos, um pedaço de madeira não é apenas um pedaço de madeira, assim como uma pedra não é apenas uma pedra. Estes elementos da natureza, além de pertencerem aos processos vitais e fenomênicos como um todo, passam a ter vida significativa na medida em que são ressignificados cultural, social e antropologicamente no universo dos objetos sensíveis, finitos, do devir. A nossa resistência em assumir a idéia de vida num simples pedaço de madeira resulta da classificação e da simplificação, que não leva em conta as inter-relações, as franquias, as comunicações, os interstícios dinâmicos, por vezes ocultos mas que, efetivamente, são, existem e vivem. Quando dizemos que um pedaço de madeira não é apenas um pedaço de madeira é porque ele é mais do que um pedaço de madeira. Ou seja, queremos afirmar que ele é vida, existência e ser. Pois afirmar a existência e o ser implica afirmar necessariamente o viver. Ainda que não tenhamos consciência dos processos vitais que ocorrem em nosso organismo ou de outro qualquer, na intimidade de cada célula, tecido ou órgão, enfim na totalidade que se retotaliza permanentemente; ainda que não tenhamos consciência (e não a temos) da degradação e regeneração da matéria viva, a vida aí está, processando seu infortúnio, sua antítese, que é a morte, que possibilita a renovação da vida. Não que a vida provenha da morte, mas da vida que provém da vida enquanto processo de retotalização contínua das partes que se constituem e reconstituem no domínio específico de cada situação existencial do ser em particular e do seu entorno social e cultural (não apenas especialmente humanas), sob a implacável degradação de parte ou das partes que já não morrem e, por isso mesmo, já não vivem para a finalidade de sobreviverem, se reconstituírem sendo/não sendo a  um tempo a experiência da vida, do ser e do existente, não exatamente frente à morte, mas na própria morte, na morte (de)finitiva, ou seja, no retorno à nadificação do ser, do existente e da vida, seja na forma particular seja na forma da espécie ou do universal. Na própria morte significa a impossibilidade da recorrência da totalidade existencial e vital do ser. Frente à morte significa a regeneração do ser e da existência particular, individual, cultural, social, universal da vida. Estar frente à morte é estar frente à vida e vice-versa. Nós, humanos, cultuamos a morte e perenizamos a vida dos nossos ídolos, nossos mestres, nossos parentes, nossos entes queridos a ponto de torná-los vivos seja em nossas preces, nossas louvações, nossas recomendações, nossas promessas de beatificação, solicitações de ajudas diante das agruras da vida, como a conquista de um emprego, um trabalho digno, uma mesa farta, um descanso salutar, um lugar para morar, uma amizade honesta e sincera, enfim, há na vida frente à morte uma peculiar manifestação de vida ética e esteticamente voltada à qualidade, permanência, ou à reconstituição/recomendação de perenidade moral, cultural e valorativa da vida individual ou social que constituem as identificações elementares às normas, valores e expressões vitais como um todo que se mantêm permanentemente tensionadas com a sombra da transitoriedade, efemeridade, fugacidade e impermanência do ser.

- III -

Ora, como a compreensão insular da idéia de vida emana dos tropismos resultantes do DNA, fica claro que todo o ser vivo e existente possui virtualidades próprias que ao serem manipuladas pela cultura humana determinam formas de ser e de existir alocadas a cada especificidade cultural e interagem sistemicamente ao sabor das determinações e dos encontros aleatórios. Ninguém parece ignorar que a idéia de Vida traz consigo a compreensão de ser ela um fenômeno de automotricidade, produção-de-si, autopoiética, para lembrar Maturana e Varela. Atualmente, sabe-se muito sobre os processos físicos, químicos e biológicos que constituem as estruturas das organizações vitais como um todo. Mas o sentido e o significado da vida ainda nos escapam, nos desafiam, nos fazem estremecer quando nos encontramos na tênue relação entre a ciência e a consciência em si mesma ou do que "está além, estando dentro" de nós, ou, ainda, da unidade do "em si" individual com o "Em Si" universal como sugere o hinduísmo. Daí o arrepio existencial do eu, do Ego, ao reconhecer os limites de sua atuação vital. Ainda que pressuroso e de todo inconsciente de sua pequenez/indiferença perante a natureza da qual emana, o eu individual toma para si as dores e os prazeres que resultam das necessidades vitais como se suas fossem. É por isso que a cada necessidade vital segue-se um determinado prazer que a acompanha. Mas o Ego a interpreta como sendo produção-de-si e não enquanto arquétipo estrutural da condição vital e existencial do ser. Por isso, a morte é interpretada como um fenômeno externo e não intrínseco ao ser, no caso da cultura ocidental. Assim, a morte separa-se da vida como sendo uma entidade em si, quer dizer, cultuada como a outridade irredutível à vida.

- IV -

"...e o meu morto é o meu próprio vivo".

Esta oração sindética e antitética afirma a existência de vida onde o pensamento simplificador não consegue admitir ou conceber: - Eu sou um vivo do qual tu és o meu morto e o meu morto é o meu próprio vivo, responde o personagem Necros à pergunta de um jovem em busca de conhecimento. À pergunta - quem és tu? feita a Necros é respondida de forma enigmática, desafiadora, provocadora, incompreensível ao pensamento linear. Necros responde e não responde à pergunta. Vai depender do jovem curioso a emergência do sentido e do significado que a resposta encerra em si mesma.

Edgar Morin, com freqüência, nos lembra um aforismo de Heráclito, que diz: "Viver de morte, morrer de vida". Trata-se, segundo o filósofo francês, de concebermos as idéias de vida e de morte a um tempo complementares e antagônicas entre si. É a dialógica, isto é, a unidade na diversidade, ou seja, a compreensão de que a emergência do entendimento de um determinado fenômeno não se dá isolada e unilateralmente, mas de forma tensionada entre dois ou mais termos aparentemente excludentes entre si e que, no entanto, são indissociáveis em uma mesma realidade.

Como disse no início deste ensaio, foi necessária a impaciente paciência do devir até que a minha intuição acerca da vida e da morte pudesse enfim encontrar guarida em um pensador cujas credenciais intelectuais estão astronomicamente distantes daquele jovem em busca de conhecimento. Daquele Conto só restou a resposta de Necros debatendo-se em minha memória como criança num parto prematuro, ao que a intuição recomendou a incubadora do tempo. O translado do pensamento linear ao pensamento complexo não significou a morte do primeiro e o nascimento do segundo, mas o renascimento do primeiro que reconheceu no segundo o próprio dito de Necros: "Eu sou um vivo do qual tu és o meu morto e o meu morto é o meu próprio vivo". Ora, esta frase também diz do pensamento que pensa a si mesmo em relação ao sujeito pensante, no caso, eu, Eu-Tu, numa espécie de unidualidade em que o eu, ego individual, confabula imageticamente  entre um vivo (Eu)  e um morto (Tu) que, entrementes, podem ter seus estatutos recambiados entre um vivo (Tu) e um morto (Eu), na medida em que ambos dizem da unidade do próprio eu.

Presumir a apreensão do sentido e do significado da vida, ou seja, do que a vida é "em si mesma" ainda parece ser um enorme desafio aos filósofos e cientistas preocupados com uma questão que é, no fundo, refratária ao pensamento simplificador. Nesse sentido, não importaria perguntar, definitivamente, se a vida necessita ter um sentido e um significado "em si mesma"?  Se necessita, então o que é a vida em si? O que é o si da vida? Se, por outro lado, decidirmos que a vida não carrega consigo um sentido e um significado em si mesma, e que ela não é algo em si, mas uma realidade dialógica constituída pela triunidade "ser-existência-vida", então podemos aventurar,  ainda que perplexos pelo seu misterioso ser, que o sentido e o significado da vida  enredam-se existencialmente pelas condições objetivamente postas pela processualidade histórica (Marx), que condicionam a realidade do indivíduo/sujeito intérprete e interpretado, portanto no tempo e no espaço sócio-cultural imanentes à finitude do ser e ao mesmo tempo transcendentes à finitude que a si mesmo interroga-se dada a consciência humana. Nesse sentido, penso ser possível reabilitar a frase de Necros e conferir a ela uma certa sobrevida a partir deste ensaio, já de mim independente, já a mim não mais pertencente e agradecida a quem possibilitou a sua libertação. Como vagido de recém-nascido, agora  refém das habilidosas mãos de profissionais.


[1] Segundo Roger Garaudy, "O mundo das coisas finitas, daquelas que têm começo e fim, que nascem e morrem, que constituem o devir, é antes de tudo o dos objetos sensíveis, da pedra à árvore e do animal à estrela. Esse conjunto do mundo exterior, de que temos experiência vivida, sensível, recebe no pensamento hindu o nome de maya. Por inveterado preconceito ocidental (que remonta pelo menos a todas as tolices que Schopenhauer disse a respeito do budismo), traduz-se maya por 'ilusão'. Ora, justamente, para o pensamento hindu, o mundo exterior, o mundo do devir, não é uma ilusão. Os diferentes objetos têm uma realidade, mas uma realidade sem fundamento em si mesma. (...)" (Garaudy, 1981:108). Da minha parte, prefiro aceitar a compreensão de Garaudy a respeito de maya, por coerente justificativa, ainda que não possa aceitar o adjetivo atribuído a Schopenhauer.

 

 

Bibliografia consultada:

GARAUDY, Roger. Apelo aos vivos. Trad. H.P. de Andrade. Rio de Janeiro:Nova Fronteira, 1981.

JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Trad. Dora Ferreira da Silva. Petrópolis, RJ:Vozes, 1978.

__________. Psicologia do inconsciente. Trad. Maria Luiza Appy. Petrópolis, RJ: Vozes, 1978.

MATURANA, Humberto R. e VARELA, Francisco J. A árvore do conhecimento: as bases biológicas da compreensão humana. Trad. Humberto Mariotti e Lia diskin. São Paulo: Palas Athena, 2001.

MORIN, Edgar. O método I: A natureza da natureza. 3.ed. Trad. Maria Gabriela de Bragança. Portugal: Publicações Europa-América Lda., 1997.

MORIN, Edgar e LE MOIGNE, Jean-Luis. A inteligência da complexidade. Trad. Nurimar Maria Falci. São Paulo: Petrópolis:Vozes, 2000.

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