A
laicidade em pauta
O
Conselho dos ministros aprovou, no último dia 28 de janeiro,
em Paris, o projeto de lei sobre a laicidade que propõe a
proibição de sinais religiosos e vestimentas que manifestem,
ostensivamente, a filiação política ou religiosa dos alunos
de escolas públicas.
Desde que entrou em discussão pela comissão Stasi, o
assunto causou grande polêmica pela sua complexidade, mas o
que, realmente, “esquenta os espíritos” é a questão do
véu utilizado pelas muçulmanas.
Entretanto, o texto, que deverá referir-se mais
largamente à laicidade, utiliza as palavras “ostensivo” e
“ostentoso” definindo a primeira como tudo que é mostrado
com exagero e a segunda como tudo que é mostrado com exagero
e soberba, deixando livre o porte de sinais discretos como
medalhinhas, cruzes pequenas, estrelas de Davi, mãos de Fátima,
etc.
Aí, algumas pessoas questionam se saber-se-á distingüir
o discreto do ostensivo/ostentoso. Alguns sugerem a palavra
“visível” que seria mais abrangente e, também, mais
radical. Tal radicalidade - não sendo o objetivo - não
agrada a maioria, pois o que almeja é fazer primar o direito
do país de domicílio sobre o direito do país de origem, e
de preservar a laicidade da escola, até mesmo do ensino,
fazendo com que os alunos não mais se neguem à participação
em certas aulas por proibições religiosas ou pelo sexo do
professor.
O ensino religioso poderá ser ministrado opcionalmente
devendo ter caráter informativo. O Islamismo será incluso e
visa-se criar uma “escola nacional de estudos islâmicos”.
O serviço público também está mencionado nesse
projeto, com maior abrangência que a lei de 1905. Nos
hospitais, sobretudo nos pronto-socorros, onde é grande a
reclamação por parte dos médicos, enfermeiros e funcionários,
freqüentemente agredidos verbal e fisicamente por terem a
obrigação de cuidar de mulheres que se recusam a serem
atendidas por eles, esse tipo de atitude deverá ser extinta,
guardando o direito de escolher o médico por consultas
agendadas. Em todos os casos, a higiene também deverá ser
seguida de acordo com as regras do estabelecimento.
Favorecendo
a igualdade entre os cultos, dois feriados estão sendo
propostos pela comissão: a festa judia do “Yom Kippour” e
a festa muçulmana do “Hïd-el-Kébir”; essa proposta,
contrariamente às outras, não será votada com intuito de
inclusão em setembro de 2004 – início do próximo ano
letivo francês. Os pais dos alunos, apesar de mostrarem-se
favoráveis, pedem uma solução para o que fazer das crianças
nesses dias em que, normalmente, estarão trabalhando nas
empresas privadas. Além disso, reivindicam que o significado
dessas festas seja bem trabalhado para que os alunos estejam
conscientes do valor de tais feriados, estimulando, assim,
maior integração entre eles.
As escolas, já há algum tempo, têm autonomia para
legiferar, criando, cada uma, seu próprio estatuto. Isso
funciona bem em algumas e causam problemas em outras. Houve,
neste ano letivo, a expulsão de duas alunas que não quiseram
tirar o véu de acordo com as regras adotadas pela escola,
causando revolta e demandando, com urgência, uma lei que
unifique toda a rede pública. A privada, entretanto,
continuará com a liberdade normativa, podendo ou não aderir
a proposta.
Indiscutível é, para a grande maioria, que as escolas e
as repartições públicas devem assegurar sua laicidade; que
a República deve lutar firmemente contra o racismo e
anti-semitismo; que o Estado laico deve proteger o indivíduo
contra todo proselitismo e garantir as condições de
cidadania e integração. A discussão é o que tolhe ou não
a liberdade do outro.
Não se pode falar de laicidade, nos dias hodiernos, sem
falar de sexismo. O problema do véu islâmico toca
diretamente nesse ponto. É interessante percebermos o quanto
isso tem atingido, não somente as jovens de todas as raças e
religiões, como também os jovens. As opiniões colhidas
entre eles são, além de aprovação à implantação da lei,
de apoio à valorização da mulher.
Há um ano foi criado o movimento “Nem putas nem
submissas”, em protestos à morte de uma estudante de 17
anos queimada por extremistas. Hoje, esse movimento
transformou-se em associação e o número de participantes,
homens e mulheres, principalmente islâmicos, é muito maior
do que no início.
Muitos têm sido os depoimentos de meninas que desde os
dez anos de idade são chamadas de “putas”
por seus próprios pais, por terem se negado ao porte do véu
ou manifestado o desejo de usar calças compridas.
Essa controvérsia não é novidade,
entretanto, somente agora as próprias mulheres têm começado
a admitir as imposições religiosas, culturais e sociais que
vêm sofrendo. As adolescentes só ousam declará-las para as
psicólogas dos colégios, já as adultas afirmam não querem
que mais uma geração ouça as palavras “pesadas” que
elas ouviram, muitas vezes sem nem, ainda, compreendê-las.
A maior parte dos estudantes, apesar de dizerem que eles não
foram suficientemente consultados sobre o assunto, está de
acordo com o projeto, vendo a escola como uma ocasião de
todos se misturarem e não mostrarem suas diferenças; desta
maneira, a religião deve ficar do outro lado do portão.
Talvez, esta seja uma maneira simples e adolescente de fugir
às divergências e de cultivar amizades, mas também mostra a
busca pela igualdade, pela não-discriminação, pelo
“bem-estar” que, muitas vezes, não encontram do lado de
fora.
O projeto continua em pauta; as manifestações contrárias
continuam nas ruas; o medo da anti-democracia (há quem diga
que o projeto é contrário à democracia) continua pairando;
porém, com muitos votos a favor, o caminho escolhido parece
estar sendo traçado para que a lei vigore no próximo ano
letivo.