Por WLADYR NADER

Jornalista, escritor e professor universitário

 

 

 

CINEMA

Ascensão e queda do jornalismo e dos jornalistas

O cinema é um universo privilegiado para a discussão dos problemas da profissão. Veja aqui como eles aparecem nos filmes.

 

Foto/Montagem: Revista Sem Terra, 22, Jan/Fev 2004Se na vida real, ao menos no Brasil, o jornalismo  tem deixado a desejar como um todo, no mundo da fantasia — o do cinema, sobretudo — vem se saindo a contento, merecendo, portanto, a cada dia que passa, maior atenção do público em geral.  Tanto isso é verdade que, não só nas salas exibidoras como na televisão e nas locadoras, os filmes que tratam do assunto estão entre os preferidos de pessoas das mais variadas idades e condições sociais.

Alguns deles, com "Cidadão Kane" (Citizen Kane, 1941) à frente, que, entre outras coisas, mostra como se cria e destrói um atormentado gigante da mídia, ou "A Montanha dos Sete Abutres (Ace in the Hole, também intitulado em inglês The Big Carnival, 1951), de Billy Wilder, que revela como um jornalista ambicioso e decadente pode manipular fatos para fazer do sensacionalismo um degrau para a recuperação de sua imagem, por exemplo, têm lugar garantido entre os clássicos da tela. Mas uma série de outros, menos brilhantes embora significativos, encontra-se à disposição dos interessados, seja em locadoras de fitas ou DVDs, seja de tempos em tempos nas grades das emissoras de TV, que os repetem à exaustão, como acontece com "Gritos do Silêncio" (The Killing Fields, 1984), de Roland Joffé, sobre a crise por que passou o Camboja nos anos 70, a partir do artigo de um repórter do "The New York Times", Sydney Schanberg, que foi correspondente do jornal americano naquele país entre 1972 e 1975.

Como produtos de indústria tipo exportação, que em geral não regateia quando enxerga possibilidades de lucros, os filmes raramente escapam ao controle dos poderosos, embora às vezes eles se disponham a arriscar suas fichas em grandes nomes, em especial diretores, intérpretes e roteiristas, politicamente ou artisticanente incorretos, em sua visão, claro.

O próprio  diretor de "Cidadão Kane", o sabidamente criativo Orson Welles, em seu filme seguinte, "Soberba" (The Magnificent Ambersons, 1942) enfrentou o pão que o Diabo amassou com os produtores. Ou seja, a versão que apareceu na tela não foi a mesma que imaginou no início da rodagem, ficando supostamente muito  aquém do pretendido pelo cineasta. São águas passadas, naturalmente.

Só que ainda hoje fenômenos assim se repetem, o que acaba possibilitando o surgimento de obras de indiscutível valor cinematográfico, como as de Woody Allen, por exemplo. Malgrado possa ter contra si idéias nem sempre louváveis dos produtores, o cineasta, ator e roteirista sempre encontra quem financie suas obras e não lhe faça maiores restrições. Por sinal, é bom não esquecer que entre grandes filmes de cineastas como Welles e Allen estejam, respectivamente, "O Terceiro Homem" (The Third Man, 1960), de Carol Reed, com argumento e roteiro de Graham Greene, e "Sonhos de um Sedutor" (Play It Again, Sam, 1972), de Herbert Ross, em que os dois trabalharam como atores e não dirigiram, embora, ao que se diz, hajam dado muitos palpites.

O conflito existe e é impossível escondê-lo em fitas que envolvam jornalistas na medida em que as histórias se voltam para aspectos geralmente polêmicos da profissão, quando não questionáveis.

Presidentes

Com todos os problemas de imagem que têm os Estados Unidos, por exemplo, poucos países teriam coragem de imitá-los à altura na hora de fazer um filme sobre o poder político como "Todos os Homens do Presidente" (All the President's Men, 1976), de Alan J. Pakula, que conta como dois repórteres policiais do "Washington Post", Carl Bernstein (Dustin Hoffman) e Bob Woodward (Robert Redford), descobriram segredos que levaram Nixon à renúncia e à conseqüente interrupção de sua carreira política. O grande furo dos jornalistas aconteceu, como é público e notório, num fim de semana de junho de 72, quase que por acaso: encarregados da cobertura de uma simples ocorrência de sua área, a invasão da sede do Partido Democrata, em Washington, eles se aprofundaram nos motivos que a tornaram possível. A história culminou com a substituição do então presidente por seu vice, Gerald Ford, mas a verdade é que o processo foi detonado por simples repórteres.

A imagem de outro presidente americano, este de ficção, fica ainda mais desgastada em "Mera Coincidência" (Wag the Dog, 1997), de Barry Levinson. A fita o mostra em campanha pela reeleição, colocado repentinamente num impasse: teria molestado uma adolescente que visitava a Casa Branca. Seu adversário com certeza usará o caso e o presidente se desespera, à imitação talvez de Clinton: mera coincidência. Para tentar salvá-lo, surge o estrategista Conrad Brean (Robert de Niro), que inventa um espetáculo assustador. Como somente uma guerra pode ser relevante no momento, ele cria uma com a Albânia. Assim, duma hora para outra, a contratação de um famoso produtor de filmes, Stanley Motss (Dustin Hoffman), é absolutamente necessária. O que faz ele? Projeta roteiros mirabolantes e cenas espetaculosas, com todos os recursos técnicos disponíveis, para cativar a opinião pública. A imprensa é manipulada por essa guerra cinematográfica com fundo de verdade, para que o presidente se saia a contento da complicação, com Motss produzindo informações e imagens sobre o fim dela e o retorno das tropas dos Estados Unidos. Só vendo para se ter uma idéia de como andavam e andam perturbadas as relações de poder no mais rico e belicoso país do mundo.

Portanto, não apenas na vida real como nos filmes, jornalistas costumam  dar contribuições efetivas aos diversos setores da atividade humana, seja ajudando a população a ver mais claro o que a cerca, seja desmascarando falcatruas e  investigando as mazelas do cotidiano, entre tantas outras atribuições.

É o que tenta fazer, no recente "O Informante" (The Insider, 1999), de Michael Mann, um desassombrado homem de TV, Lowell Bergman (Al Pacino), produtor do famoso programa "60 Minutes" (60 Minutos) , da CBS News. À cata de boas matérias para ele, Bergman parte para a cobertura completa de um caso que envolve ação judicial de US$ 246 bilhões — iniciada pelo Estado do Mississipi, de que participam também outros 49 — contra a indústria tabagista. Quando ele está perto de atingir seu objetivo, uma vez que dispõe de informações explosivas da principal testemunha da ação, Jeffrey Wigand (Russel Crowe), que espera colocar no ar, é obrigado a engolir a solução encontrada pela emissora, que acaba tratando superficialmente do assunto. Ou seja, para não perder a oportunidade, já que conta com bom material nas mãos, a CBS News maquia o produto que vai para as casas das pessoas e dá-se por satisfeita.

Polêmicas

É também homem de TV Max Brackett (Dustin Hoffman), de "O Quarto Poder" (Mad City, 1997), que, repórter dos mais populares anos atrás, procura   recuperar a fama e o tempo perdidos quando vê que pode render uma bela reportagem a atitude de um ex-segurança (John Travolta) de museu que exige seu emprego de volta, ao mesmo tempo que faz como reféns a diretora do estabelecimento e um grupo de crianças. O diretor é o veterano Costa-Gavras, que no passado fez coisas relevantes, como "Z" (Z, 1969), e hoje curte uma decadência aparentemente sem volta. Para os padrões americanos e do público ocidental o filme funciona, embora do ponto de vista artístico deixe a desejar.

Da mesma forma, não escapa da sanha dos diretores comprometidos do cinema o assessor de imprensa, figura malvista à época das vacas gordas em nosso país — quando foi mesmo? —, sobretudo por estudantes de comunicação. Ele rendeu no mínimo um grande filme, "A Embriaguez do Sucesso" (The Sweet Smell of Success, 1957), de Alexander Mackendrick, em que Burt Lancaster faz o papel de um colunista que escreve sobre fofocas e Tony Curtis, um assessor de imprensa interesseiro e inescrupuloso, capaz de todo tipo de chantagem. Tipos assim existem em qualquer parte do mundo, mas é bom que se diga que, nos tempos atuais, o assessor ganhou no Brasil um status que há muito pleiteava, como porta-voz de personalidades ou   impulsionador de reportagens e especulações, com que jornais, revistas, tevês e rádios contam diariamente. Já a questão de ser um trabalho eminentemente jornalístico ou não — publicitários e relações-públicas disputam palmo a palmo espaços dos assessores de imprensa — é uma outra história, que ultimamente não vingou em nenhum filme nacional de peso.

Glauber Rocha não procurou defender a categoria em "Terra em Transe", que é de 67, mas seu personagem, Paulo Martins, além de poeta, é jornalista, um profissional que vive em busca da verdade, como Marcello Rubini (Marcello Mastroianni), personagem de Fellini em "A Doce Vida" (La Dolce Vita, 1960), é um investigador da alma humana. Como repórter, ele é incumbido de fazer a cobertura não só da atualidade como das futilidades daquelas personagens mergulhadas na doce vida do título.

 Quem pensa, levando em conta os dois derradeiros exemplos, que o jornalista se distrai do dia-a-dia e dispõe de tempo, na redação ou fora dela, para viver nas nuvens, pode se enganar redondamente. De hábito é um profissional bastante empenhado, como a repórter interpretada por Sally Field  em  "Ausência de Malícia" (Absence of Malice, 1981), que, aliás, mereceu o seguinte comentário da crítica americana Pauline Kael no livro "1001 Noites no Cinema" (5001 Nights at the Movies), publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 94: "Melodrama jornalístico enxuto, de bom ritmo, que  questiona práticas profissionais. Sally Field faz a repórter de Miami insensível, pé-de-boi, que publica uma história vazada do chefe de uma equipe do governo que investiga o desaparecimento de um líder sindical. A história é falsa — o objetivo do agente federal é simplesmente agitar o caso, exercendo  pressão sobre um comerciante honesto que tem parentes na Máfia. Paul Newman é a vítima e o filme mostra como ele faz os métodos das autoridades e da jornalista se voltar contra si próprias. É duvidoso que pessoas em busca de desforra sejam tão calmas e equilibradas como sua personagem: Newman dá classe à vingança", acrescenta a crítica.

Policiais

O rigor do procedimento do repórter é fundamental para a credibilidade das matérias divulgadas pela imprensa mas gente como a personagem de Sally Field, que parte do pressuposto de que Newman é culpado sem investigá-lo a fundo, pode causar sérios estragos, jornalisticamente falando. Por isso, quando  um escritor também jornalista, como Truman Capote, reconstituiu num precioso livro chamado de "A Sangue Frio" (1965) — que saiu recentemente em nova edição brasileira também pela Companhia das Letras — uma série de crimes ocorridos em 1959 na cidade de Holcomb, Kansas, Estados Unidos, ele estabeleceu claramente até que limite se podia chegar. Seu "romance de não-ficção" — ou "romance sem ficção" — lhe tomou seis anos de pesquisas e ajudou a população e os leitores a compreender claramente por que foram mortos o casal Clutter e os dois filhos. Obra-prima do chamado jornalismo investigativo virou obra-prima cinematográfica, com título homônimo em português, "A Sangue Frio" (In Cold Blood, 1967), de Richard Brooks. O livro de Capote ganhou primeiras páginas de publicações literárias, à época de seu lançamento, e ensinou o caminho das pedras a todo jornalista que deseja se aventurar em experiência semelhante.

A maioria dos exemplos mencionados se debruça sobre a imprensa escrita mas não se pode esquecer da televisão e principalmente "Rede de Intrigas" (Network, 1976), de Sidney Lumet, que trata dela, como manipuladora de consciências, a partir de um argumento de Paddy Chayefsky. A idéia, aparentemente, é pegar ou largar se o profissional tiver como objetivo viver de TV. Lição entendida. Em nível bem inferior, encontram-se, entre outros, por  ordem cronológica de sua realização, "Nos Bastidores da Notícia" (Broadcast News, 1987), de James L. Brooks,  "O Poder da Imagem" (The Image, 1990), de Peter Werner, e "Íntimo e Pessoal" (Up Close and Personal, 1996), de Jon Avnet.

Se o interesse dos espectadores, contudo, se concentra no jornalismo popular, tipo o já falecido "Notícias Populares" ou o atual "Agora", de São Paulo, ou "O Dia", do Rio, nada mais excitante talvez que "O Jornal" (The Paper, 1994), de Ron Howard, em que vale tudo por uma capa chamativa nas bancas, independentemente da verdade ou da mentira que ostente.  

Histórias apimentadas ou românticas, é natural, também fazem parte da massa de filmes que se produziram ou se produzem sobre jornalismo. Um de seus mais saborosos exemplos é, sem dúvida, "Um Amor de Professora" (Tearcher's Pet, 1958), de George Seaton, em que Doris Day é a mestra de comunicação que convida para uma palestra um macaco velho de redação interpretado por Clark Gable, avesso a faculdades e aulas.

De qualquer forma, os filmes aqui destacados e os outros, em separado, que compõem a lista publicada nesta página já tiveram seus dias de glória e direito a primeiras páginas. O jornalismo é justamente como o mostra Billy Wilder em seu clássico "A Primeira Página" (The Front Page, 1974). É que a  fogueira de vaidades dos profissionais nem sempre tem limites.

Por ordem de entrada em cena

A maioria dos filmes mencionados na matéria, aqui relacionados por ordem de entrada no texto, como os filmes de antigamente apresentavam os atores, se encontra em fitas ou DVDs, em locadoras, para aluguel ou venda. Em bancas de jornais, livrarias e lojas diversas se destinam exclusivamente a venda. Existem pistas também de filmes que não se podem alugar nem adquirir.

A lista abaixo foi atualizada a 30 de novembro, baseada em informações de locadoras e distribuidoras. Quanto ao ano de produção dos filmes, pode haver divergência entre publicações e outras formas de registro, nesta e na outra relação desta página: foi dada preferência ao que existe nos livros.

  • Cidadão Kane, em fita e DVD

  • A Montanha dos Sete Abutres, em fita e DVD

  • Gritos do Silêncio, em fita

  • Todos os Homens do Presidente, em fita

  • Mera Coincidência, em fita e DVD

  • O Informante, em fita e DVD

  • O Quarto Poder, em fita e DVD

  • A Embriaguez do Sucesso (em fita mas esgotado)

  • Terra em Transe, em fita

  • A Doce Vida, em fita e DVD

  • Ausência de Malícia, em fita e DVD

  • A Sangue Frio, em DVD

  • Rede de Intrigas (em fita mas esgotado)

  • Nos Bastidores da Notícia, em fita

  • O Poder da Imagem, em fita

  • Íntimo e Pessoal, em fita e DVD

  • O Jornal, em fita

  • Um Amor de Professora (exibição esporádica pelo Telecine, da Net)

  • A Primeira Página, em fita

Imprensa, tema que não se esgota

Repórteres e imprensa em geral também são assuntos na relação que se segue, que não é completa porque a todo instante surgem filmes sobre eles. As próprias locadoras e distribuidoras têm problemas para atualizar seus catálogos. Os ausentes não são expressivos ou, mais provavelmente, não se encontram à disposição do público.

Esta lista, em ordem alfabética de títulos nacionais, inclui fitas e DVD para aluguel ou venda, bem como dados sobre como localizar determinadas produções.

  • A Difícil Arte de Amar (Heartburn, 1986), em fita

  • A Era do Rádio (Radio Days, 1987), em fita

  • A Fogueira das Vaidades (Bonfire of the Vanities, 1990), em fita

  • A Próxima Vítima (nacional, 1983), em fita

  • A Síndrome da China (The China Syndrome, 1979), em fita

  • A Testemunha Ocular (The Public Eye, 1992), em fita

  • A Trama (The Parallax View, 1974), em fita

  • Adoro Problemas (I Love Trouble, 1994), em fita

  • Ainda Serás Minha (Somewhere I'll Find You, 1942), esporadicamente no Telecine, da Net)

  • Amor Eletrônico ( (Desk Set, 1957), em fita

  • Assassinato por Encomenda (Fletch, 1985), em fita

  • Doces Poderes (nacional, 1996), em fita

  • Em Defesa da Verdade (Defense of the Realm, 1986), em fita

  • Herói por Acidente (Hero, 1992), em fita

  • O Ano em que Vivemos em Perigo (The Year of Living Dangerously, 1983), em fita

  • O Beijo no Asfalto (nacional, 1981), em fita

  • O Povo Versus Larry Flint (The People Vs. Larry Flint, 1996), em fita

  • O Repórter (News at Eleven, 1985), raramente encontrado em fita em locadora

  • Os Donos do Poder (Power, 1986), em fita

  • Profissão: Repórter (The Passenger, 1975), em fita

  • 15 Minutos (15 Minutes, 2001), em fita

  • Reds (Reds, 1981), em fita

  • Salvador, o Martírio de um Povo (Salvador, 1986), em fita

  • Show da Vida (The Truman Show, 1998), em fita

  • Sob Fogo Cerrado (Under Fire, 1983), em fita

  • Superman - O Filme (Superman, 1978), em fita

  • Talk Radio (Talk Radio, 1989), em fita

  • Testemunha Fatal (Eyewitness, 1981), em fita

  • Trocando de Canais (Switching Chanells, 1988), também conhecido no Brasil por "Trocando de Maridos"

  • Um Grito de Liberdade (Cry Freedom, 1987), em fita

   

Publicado com autorização. 

Fonte: Revista SEM TERRA, Ano VI - Nº 22 - Jan/Fev 2004, pp. 61-65

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