CINEMA
Ascensão
e queda do jornalismo e dos jornalistas
O
cinema é um universo privilegiado para a discussão dos
problemas da profissão. Veja aqui como eles aparecem nos
filmes.
Se
na vida real, ao menos no Brasil, o jornalismo
tem deixado a desejar como um todo, no mundo da
fantasia — o do cinema, sobretudo — vem se saindo a
contento, merecendo, portanto, a cada dia que passa, maior
atenção do público em geral.
Tanto isso é verdade que, não só nas salas
exibidoras como na televisão e nas locadoras, os filmes que
tratam do assunto estão entre os preferidos de pessoas das
mais variadas idades e condições sociais.
Alguns
deles, com "Cidadão Kane" (Citizen Kane, 1941) à
frente, que, entre outras coisas, mostra como se cria e destrói
um atormentado gigante da mídia, ou "A Montanha dos Sete
Abutres (Ace in the Hole, também intitulado em inglês The
Big Carnival, 1951), de Billy Wilder, que revela como um
jornalista ambicioso e decadente pode manipular fatos para
fazer do sensacionalismo um degrau para a recuperação de sua
imagem, por exemplo, têm lugar garantido entre os clássicos
da tela. Mas uma série de outros, menos brilhantes embora
significativos, encontra-se à disposição dos interessados,
seja em locadoras de fitas ou DVDs, seja de tempos em tempos
nas grades das emissoras de TV, que os repetem à exaustão,
como acontece com "Gritos do Silêncio" (The Killing
Fields, 1984), de Roland Joffé, sobre a crise por que passou
o Camboja nos anos 70, a partir do artigo de um repórter do
"The New York Times", Sydney Schanberg, que foi
correspondente do jornal americano naquele país entre 1972 e
1975.
Como
produtos de indústria tipo exportação, que em geral não
regateia quando enxerga possibilidades de lucros, os filmes
raramente escapam ao controle dos poderosos, embora às vezes
eles se disponham a arriscar suas fichas em grandes nomes, em
especial diretores, intérpretes e roteiristas, politicamente
ou artisticanente incorretos, em sua visão, claro.
O
próprio diretor
de "Cidadão Kane", o sabidamente criativo Orson
Welles, em seu filme seguinte, "Soberba" (The
Magnificent Ambersons, 1942) enfrentou o pão que o Diabo
amassou com os produtores. Ou seja, a versão que apareceu na
tela não foi a mesma que imaginou no início da rodagem,
ficando supostamente muito
aquém do pretendido pelo cineasta. São águas
passadas, naturalmente.
Só
que ainda hoje fenômenos assim se repetem, o que acaba
possibilitando o surgimento de obras de indiscutível valor
cinematográfico, como as de Woody Allen, por exemplo.
Malgrado possa ter contra si idéias nem sempre louváveis dos
produtores, o cineasta, ator e roteirista sempre encontra quem
financie suas obras e não lhe faça maiores restrições. Por
sinal, é bom não esquecer que entre grandes filmes de
cineastas como Welles e Allen estejam, respectivamente,
"O Terceiro Homem" (The Third Man, 1960), de Carol
Reed, com argumento e roteiro de Graham Greene, e "Sonhos
de um Sedutor" (Play It Again, Sam, 1972), de Herbert
Ross, em que os dois trabalharam como atores e não dirigiram,
embora, ao que se diz, hajam dado muitos palpites.
O
conflito existe e é impossível escondê-lo em fitas que
envolvam jornalistas na medida em que as histórias se voltam
para aspectos geralmente polêmicos da profissão, quando não
questionáveis.
Presidentes
Com
todos os problemas de imagem que têm os Estados Unidos, por
exemplo, poucos países teriam coragem de imitá-los à altura
na hora de fazer um filme sobre o poder político como
"Todos os Homens do Presidente" (All the President's
Men, 1976), de Alan J. Pakula, que conta como dois repórteres
policiais do "Washington Post", Carl Bernstein (Dustin
Hoffman) e Bob Woodward (Robert Redford), descobriram segredos
que levaram Nixon à renúncia e à conseqüente interrupção
de sua carreira política. O grande furo dos jornalistas
aconteceu, como é público e notório, num fim de semana de
junho de 72, quase que por acaso: encarregados da cobertura de
uma simples ocorrência de sua área, a invasão da sede do
Partido Democrata, em Washington, eles se aprofundaram nos
motivos que a tornaram possível. A história culminou com a
substituição do então presidente por seu vice, Gerald Ford,
mas a verdade é que o processo foi detonado por simples repórteres.
A
imagem de outro presidente americano, este de ficção, fica
ainda mais desgastada em "Mera Coincidência" (Wag
the Dog, 1997), de Barry Levinson. A fita o mostra em campanha
pela reeleição, colocado repentinamente num impasse: teria
molestado uma adolescente que visitava a Casa Branca. Seu
adversário com certeza usará o caso e o presidente se
desespera, à imitação talvez de Clinton: mera coincidência.
Para tentar salvá-lo, surge o estrategista Conrad Brean
(Robert de Niro), que inventa um espetáculo assustador. Como
somente uma guerra pode ser relevante no momento, ele cria uma
com a Albânia. Assim, duma hora para outra, a contratação
de um famoso produtor de filmes, Stanley Motss (Dustin
Hoffman), é absolutamente necessária. O que faz ele? Projeta
roteiros mirabolantes e cenas espetaculosas, com todos os
recursos técnicos disponíveis, para cativar a opinião pública.
A imprensa é manipulada por essa guerra cinematográfica com
fundo de verdade, para que o presidente se saia a contento da
complicação, com Motss produzindo informações e imagens
sobre o fim dela e o retorno das tropas dos Estados Unidos. Só
vendo para se ter uma idéia de como andavam e andam
perturbadas as relações de poder no mais rico e belicoso país
do mundo.
Portanto,
não apenas na vida real como nos filmes, jornalistas costumam
dar contribuições efetivas aos diversos setores da
atividade humana, seja ajudando a população a ver mais claro
o que a cerca, seja desmascarando falcatruas e
investigando as mazelas do cotidiano, entre tantas
outras atribuições.
É
o que tenta fazer, no recente "O Informante" (The
Insider, 1999), de Michael Mann, um desassombrado homem de TV,
Lowell Bergman (Al Pacino), produtor do famoso programa
"60 Minutes" (60 Minutos) , da CBS News. À cata de
boas matérias para ele, Bergman parte para a cobertura
completa de um caso que envolve ação judicial de US$ 246
bilhões — iniciada pelo Estado do Mississipi, de que
participam também outros 49 — contra a indústria
tabagista. Quando ele está perto de atingir seu objetivo, uma
vez que dispõe de informações explosivas da principal
testemunha da ação, Jeffrey Wigand (Russel Crowe), que
espera colocar no ar, é obrigado a engolir a solução
encontrada pela emissora, que acaba tratando superficialmente
do assunto. Ou seja, para não perder a oportunidade, já que
conta com bom material nas mãos, a CBS News maquia o produto
que vai para as casas das pessoas e dá-se por satisfeita.
Polêmicas
É
também homem de TV Max Brackett (Dustin Hoffman), de "O
Quarto Poder" (Mad City, 1997), que, repórter dos mais
populares anos atrás, procura
recuperar a fama e o tempo perdidos quando vê que pode
render uma bela reportagem a atitude de um ex-segurança (John
Travolta) de museu que exige seu emprego de volta, ao mesmo
tempo que faz como reféns a diretora do estabelecimento e um
grupo de crianças. O diretor é o veterano Costa-Gavras, que
no passado fez coisas relevantes, como "Z" (Z,
1969), e hoje curte uma decadência aparentemente sem volta.
Para os padrões americanos e do público ocidental o filme
funciona, embora do ponto de vista artístico deixe a desejar.
Da
mesma forma, não escapa da sanha dos diretores comprometidos
do cinema o assessor de imprensa, figura malvista à época
das vacas gordas em nosso país — quando foi mesmo? —,
sobretudo por estudantes de comunicação. Ele rendeu no mínimo
um grande filme, "A Embriaguez do Sucesso" (The
Sweet Smell of Success, 1957), de Alexander Mackendrick, em
que Burt Lancaster faz o papel de um colunista que escreve
sobre fofocas e Tony Curtis, um assessor de imprensa
interesseiro e inescrupuloso, capaz de todo tipo de chantagem.
Tipos assim existem em qualquer parte do mundo, mas é bom que
se diga que, nos tempos atuais, o assessor ganhou no Brasil um
status que há muito pleiteava, como porta-voz de
personalidades ou impulsionador
de reportagens e especulações, com que jornais, revistas,
tevês e rádios contam diariamente. Já a questão de ser um
trabalho eminentemente jornalístico ou não — publicitários
e relações-públicas disputam palmo a palmo espaços dos
assessores de imprensa — é uma outra história, que
ultimamente não vingou em nenhum filme nacional de peso.
Glauber
Rocha não procurou defender a categoria em "Terra em
Transe", que é de 67, mas seu personagem, Paulo Martins,
além de poeta, é jornalista, um profissional que vive em
busca da verdade, como Marcello Rubini (Marcello Mastroianni),
personagem de Fellini em "A Doce Vida" (La Dolce
Vita, 1960), é um investigador da alma humana. Como repórter,
ele é incumbido de fazer a cobertura não só da atualidade
como das futilidades daquelas personagens mergulhadas na doce
vida do título.
Quem
pensa, levando em conta os dois derradeiros exemplos, que o
jornalista se distrai do dia-a-dia e dispõe de tempo, na redação
ou fora dela, para viver nas nuvens, pode se enganar
redondamente. De hábito é um profissional bastante
empenhado, como a repórter interpretada por Sally Field
em "Ausência
de Malícia" (Absence of Malice, 1981), que, aliás,
mereceu o seguinte comentário da crítica americana Pauline
Kael no livro "1001 Noites no Cinema" (5001 Nights
at the Movies), publicado no Brasil pela Companhia das Letras
em 94: "Melodrama jornalístico enxuto, de bom ritmo, que
questiona práticas profissionais. Sally Field faz a
repórter de Miami insensível, pé-de-boi, que publica uma
história vazada do chefe de uma equipe do governo que
investiga o desaparecimento de um líder sindical. A história
é falsa — o objetivo do agente federal é simplesmente
agitar o caso, exercendo
pressão sobre um comerciante honesto que tem parentes
na Máfia. Paul Newman é a vítima e o filme mostra como ele
faz os métodos das autoridades e da jornalista se voltar
contra si próprias. É duvidoso que pessoas em busca de
desforra sejam tão calmas e equilibradas como sua personagem:
Newman dá classe à vingança", acrescenta a crítica.
Policiais
O
rigor do procedimento do repórter é fundamental para a
credibilidade das matérias divulgadas pela imprensa mas gente
como a personagem de Sally Field, que parte do pressuposto de
que Newman é culpado sem investigá-lo a fundo, pode causar sérios
estragos, jornalisticamente falando. Por isso, quando
um escritor também jornalista, como Truman Capote,
reconstituiu num precioso livro chamado de "A Sangue
Frio" (1965) — que saiu recentemente em nova edição
brasileira também pela Companhia das Letras — uma série de
crimes ocorridos em 1959 na cidade de Holcomb, Kansas, Estados
Unidos, ele estabeleceu claramente até que limite se podia
chegar. Seu "romance de não-ficção" — ou
"romance sem ficção" — lhe tomou seis anos de
pesquisas e ajudou a população e os leitores a compreender
claramente por que foram mortos o casal Clutter e os dois
filhos. Obra-prima do chamado jornalismo investigativo virou
obra-prima cinematográfica, com título homônimo em português,
"A Sangue Frio" (In Cold Blood, 1967), de Richard
Brooks. O livro de Capote ganhou primeiras páginas de publicações
literárias, à época de seu lançamento, e ensinou o caminho
das pedras a todo jornalista que deseja se aventurar em experiência
semelhante.
A
maioria dos exemplos mencionados se debruça sobre a imprensa
escrita mas não se pode esquecer da televisão e
principalmente "Rede de Intrigas" (Network, 1976),
de Sidney Lumet, que trata dela, como manipuladora de consciências,
a partir de um argumento de Paddy Chayefsky. A idéia,
aparentemente, é pegar ou largar se o profissional tiver como
objetivo viver de TV. Lição entendida. Em nível bem
inferior, encontram-se, entre outros, por
ordem cronológica de sua realização, "Nos
Bastidores da Notícia" (Broadcast News, 1987), de James
L. Brooks, "O
Poder da Imagem" (The Image, 1990), de Peter Werner, e
"Íntimo e Pessoal" (Up Close and Personal, 1996),
de Jon Avnet.
Se
o interesse dos espectadores, contudo, se concentra no
jornalismo popular, tipo o já falecido "Notícias
Populares" ou o atual "Agora", de São Paulo,
ou "O Dia", do Rio, nada mais excitante talvez que
"O Jornal" (The Paper, 1994), de Ron Howard, em que
vale tudo por uma capa chamativa nas bancas, independentemente
da verdade ou da mentira que ostente.
Histórias
apimentadas ou românticas, é natural, também fazem parte da
massa de filmes que se produziram ou se produzem sobre
jornalismo. Um de seus mais saborosos exemplos é, sem dúvida,
"Um Amor de Professora" (Tearcher's Pet, 1958), de
George Seaton, em que Doris Day é a mestra de comunicação
que convida para uma palestra um macaco velho de redação
interpretado por Clark Gable, avesso a faculdades e aulas.
De
qualquer forma, os filmes aqui destacados e os outros, em
separado, que compõem a lista publicada nesta página já
tiveram seus dias de glória e direito a primeiras páginas. O
jornalismo é justamente como o mostra Billy Wilder em seu clássico
"A Primeira Página" (The Front Page, 1974). É que
a fogueira de
vaidades dos profissionais nem sempre tem limites.
Por
ordem de entrada em cena
A
maioria dos filmes mencionados na matéria, aqui
relacionados por ordem de entrada no texto, como os
filmes de antigamente apresentavam os atores, se
encontra em fitas ou DVDs, em locadoras, para aluguel ou
venda. Em bancas de jornais, livrarias e lojas diversas
se destinam exclusivamente a venda. Existem pistas também
de filmes que não se podem alugar nem adquirir.
A
lista abaixo foi atualizada a 30 de novembro, baseada em
informações de locadoras e distribuidoras. Quanto ao
ano de produção dos filmes, pode haver divergência
entre publicações e outras formas de registro, nesta e
na outra relação desta página: foi dada preferência
ao que existe nos livros.
-
Cidadão
Kane, em fita e DVD
-
A
Montanha dos Sete Abutres, em fita e DVD
-
Gritos
do Silêncio, em fita
-
Todos
os Homens do Presidente, em fita
-
Mera
Coincidência, em fita e DVD
-
O
Informante, em fita e DVD
-
O
Quarto Poder, em fita e DVD
-
A
Embriaguez do Sucesso (em fita mas esgotado)
-
Terra
em Transe, em fita
-
A
Doce Vida, em fita e DVD
-
Ausência
de Malícia, em fita e DVD
-
A
Sangue Frio, em DVD
-
Rede
de Intrigas (em fita mas esgotado)
-
Nos
Bastidores da Notícia, em fita
-
O
Poder da Imagem, em fita
-
Íntimo
e Pessoal, em fita e DVD
-
O
Jornal, em fita
-
Um
Amor de Professora (exibição esporádica pelo
Telecine, da Net)
-
A
Primeira Página, em fita
|
Imprensa,
tema que não se esgota
Repórteres
e imprensa em geral também são assuntos na relação
que se segue, que não é completa porque a todo
instante surgem filmes sobre eles. As próprias
locadoras e distribuidoras têm problemas para atualizar
seus catálogos. Os ausentes não são expressivos ou,
mais provavelmente, não se encontram à disposição do
público.
Esta
lista, em ordem alfabética de títulos nacionais,
inclui fitas e DVD para aluguel ou venda, bem como dados
sobre como localizar determinadas produções.
-
A
Difícil Arte de Amar (Heartburn, 1986), em fita
-
A
Era do Rádio (Radio Days, 1987), em fita
-
A
Fogueira das Vaidades (Bonfire of the Vanities,
1990), em fita
-
A
Próxima Vítima (nacional, 1983), em fita
-
A
Síndrome da China (The China Syndrome, 1979),
em fita
-
A
Testemunha Ocular (The Public Eye, 1992), em
fita
-
A
Trama (The Parallax View, 1974), em fita
-
Adoro
Problemas (I Love Trouble, 1994), em fita
-
Ainda
Serás Minha (Somewhere I'll Find You, 1942),
esporadicamente no Telecine, da Net)
-
Amor
Eletrônico ( (Desk Set, 1957), em fita
-
Assassinato
por Encomenda (Fletch, 1985), em fita
-
Doces
Poderes (nacional, 1996), em fita
-
Em
Defesa da Verdade (Defense of the Realm, 1986),
em fita
-
Herói
por Acidente (Hero, 1992), em fita
-
O
Ano em que Vivemos em Perigo (The Year of Living
Dangerously, 1983), em fita
-
O
Beijo no Asfalto (nacional, 1981), em fita
-
O
Povo Versus Larry Flint (The People Vs. Larry
Flint, 1996), em fita
-
O
Repórter (News at Eleven, 1985), raramente
encontrado em fita em locadora
-
Os
Donos do Poder (Power, 1986), em fita
-
Profissão:
Repórter (The Passenger, 1975), em fita
-
15
Minutos (15 Minutes, 2001), em fita
-
Reds
(Reds, 1981), em fita
-
Salvador,
o Martírio de um Povo (Salvador, 1986), em fita
-
Show
da Vida (The Truman Show, 1998), em fita
-
Sob
Fogo Cerrado (Under Fire, 1983), em fita
-
Superman
- O Filme (Superman, 1978), em fita
-
Talk
Radio (Talk Radio, 1989), em fita
-
Testemunha
Fatal (Eyewitness, 1981), em fita
-
Trocando
de Canais (Switching Chanells, 1988), também
conhecido no Brasil por "Trocando de
Maridos"
-
Um
Grito de Liberdade (Cry Freedom, 1987), em fita
|