Mercado
de Trabalho e Racismo
catequeses
do medo
num
buraco negro
no
fim do terceiro mundo
um
sorriso assustado
uma mãe
desesperada
um
pai mal pago operário e mudo
Catequeses
do Medo. Letra e Música: Marcelo Yuka. O Rappa
Falar
sobre o mercado de trabalho no Brasil, a partir da Segunda
metade do século XIX, é antes de mais nada nos reportarmos
ao longo processo de constituição da ideologia racial
implementado por intelectuais e pelas classes dominantes a
partir deste período. Isso significa que, esgotada a
possibilidade de continuar com o trabalho escravo, tratava-se
de “branquear” o país visando o advento de uma sociedade
nos moldes ocidentais. Aqui, civilização era tomada como sinônimo
de branco e europeu. Esse rumo fica evidenciado através da
intervenção do Estado no sentido de financiar a importação
de mão-de-obra da Europa para trabalhar nos cafezais e na
nascente indústria no Sudeste, especialmente em São Paulo.
A
marginalização dos negros ocorre dentro de um contexto histórico,
processo de abolição da escravidão e formação econômica
moderna, onde a estrutura de classes da sociedade nacional está
se constituindo e como conseqüência teremos o posicionamento
desfavorável dos negros, devido a forma de inserção
desigual na estrutura de classes, no que se refere a renda, escolaridade e ocupação.
Em
outros termos, poderíamos dizer que o Estado a partir da
segunda metade do século XIX, pós-1850, e, principalmente,
início do século XX, até meados dos anos 40, foi o veículo
primordial da formação de um mercado de trabalho fundado na
exclusão dos negros e descendentes.
Esse
mercado de trabalho, estruturado de cima para baixo pelo poder
estatal,
privilegiava os indivíduos brancos e dificultava o acesso de
outros grupos raciais tendo em vista a crença, então em voga
por aqui, a respeito da superioridade dos brancos. Essa
ideologia racial irá, evidentemente, dificultar a inserção
dos negros no nascente mercado de trabalho tendo em vista sua
suposta inferioridade e a discriminação racial será, então,
uma das marcas visíveis que o negro encontrará na busca por
trabalho.
Nesse
sentido, uma das características marcantes do mercado de
trabalho brasileiro até hoje é a desigualdade de
oportunidades entre os grupos raciais. As estatísticas
revelam um quadro aterrador acerca da maneira como brancos e
negros estão distribuídos na estrutura ocupacional.
Podemos,
com certeza, afirmar a existência de uma reserva de mercado
em determinadas profissões que privilegia alguns indivíduos
em função da cor da pele. Ë o que podemos constatar em
amplos setores profissionais na sociedade capitalista
brasileira. Enquanto algumas ocupações são deliberadamente
preenchidas por brancos, onde estão situados os maiores
rendimentos e as melhores oportunidades, outras abrigam
aqueles indivíduos com menores possibilidades escolares e
profissionais, como é o caso dos negros, auferindo
rendimentos inferiores.
Estas
desigualdades, que se prolongam até o trabalho, estão
presentes, também, no interior do processo educacional e
observamos isto na baixa escolaridade alcançada por negros em
comparação com os brancos; basta conferirmos as estatísticas
atuais da FIBGE, Ipea/Ministério do Trabalho ou do Ministério
da Educação.
De
acordo com os dados do Provão/2000- Inep/Mec, dos formandos
que fizeram o provão em 2000 nos cursos de Administração,
Direito, Medicina Veterinária, Odontologia, Medicina,
Jornalismo e Psicologia, dentre outros, mais de 80% é
constituído por brancos (respectivamente, 83,3%, 84,1%,
84,9%, 85,8%, 81,6%, 81,5% e
83,3%). Por sua vez, para os mesmos cursos, os negros
aparecem nos seguintes percentuais: 1,6%, 2,0%, 1,1%, 0,7%,
1,0%, 2,9% e 1,6%.Esta pesquisa revela, também, a baixa freqüência
dos negros nas universidades brasileiras. Enquanto 80% dos
universitários são brancos, somente 2,2% são negros (“Provão
revela barreira racial no ensino”. Folha de São Paulo,
Cotidiano. 14/01/2001).
A
partir das Universidades podemos ter uma visão perfeita de
como estará constituído o mercado de trabalho em algumas
profissões. Este funcionará como um espaço de segregação
racial uma vez que, concluir o curso superior significará
melhores oportunidades de trabalho para
brancos, o que nos leva a suspeitar que o Estado através
de políticas públicas, notadamente educacionais, alimenta
este processo. Em outros termos, existe uma preferência por
parte dos empresários capitalistas em um tipo de profissional
onde o quesito cor é bem significativo.
Isto
terá efeitos consideráveis quanto aos rendimentos de brancos
e negros. Assim, podemos relacionar educação, trabalho e
renda e teremos uma dimensão exata da forma como está
organizada a estrutura ocupacional no Brasil, observando a
influência recíproca entre esses fatores que tem sua base na
inserção do negro na estrutura de classes da sociedade
brasileira. Acrescentando a isto a questão da discriminação
e da ideologia raciais.
As
conseqüências de tudo isso são bem conhecidas: miséria,
favelas, violência, perseguição policial... como marcas que
registram os estereótipos e preconceitos. Segundo a Folha de
São Paulo, no Rio de Janeiro, “70,2% dos mortos são de cor
preta ou parda; brancos somam 29,8% das vítimas”,
o que leva a conclusão que a
“polícia do Rio mata mais negros e pardos” (Folha
de São Paulo. Cotidiano. 15/05/2000).
Práticas
discriminatórias presentes no cotidiano indicam a permanência
do racismo. A sociedade brasileira preserva profundas
desigualdades raciais, de rendimentos, educacionais e
ocupacionais.
O
racismo, a discriminação racial tem seus efeitos sobre
homens e mulheres negras, sendo que estas sofrem duplamente o
preconceito e a discriminação raciais, que procuram
“caminhos” para burlar as portas fechadas no mercado de
trabalho. A forma como isso ocorre pode ser notada na
crescente formação de grupos anti-racistas e pela valorização
da cultura negra, bem como pelo surgimento de movimentos
negros voltados para a tentativa de exigir do Estado
determinadas políticas públicas que venham a beneficiar as
populações historicamente discriminadas.
O
desafio é ultrapassar, através de profundas mudanças
culturais e sociais, o preconceito, a discriminação e o
racismo. No entanto para que isso ocorra é fundamental
tomarmos consciência das marcas impressas pelo racismo (baixa
estima, medo, insegurança, desconfiança, temor) para, de
vez, exterminá-lo. Evidente que esta é uma tarefa árdua e
cabe a nós levá-la a cabo.