Por MARIA JOSÉ DE REZENDE

Professora de Sociologia da UEL. Doutora em Sociologia pela USP

 

Tensão social e mudança no Brasil

 

A atual conjuntura política brasileira oferece subsídios importantes que sugerem algumas indagações acerca dos processos de mudança social no país. Os noticiários da mídia têm ressaltado e/ou indicado com muita freqüência que o Brasil está vivendo à beira do caos social em vista das ações dos movimentos sociais organizados que tentam adentrar a esfera política e publicizar suas demandas. Recorrendo a esses argumentos, os meios de comunicação de massa (jornais impressos, televisão e rádio) prestam um desserviço à causa da democracia no país. E o faz porque constrói um clima de desconfiança quanto à importância da atuação social dos diversos grupos na construção de uma nação mais inclusiva.

Destaco, neste brevíssimo texto, que não é recente esse processo de desqualificação da ação política dos setores não-preponderantes.  Quando o Brasil é pensado a partir da Independência, ou seja, de 1822, observa-se que, por exemplo, na década de 1830, emergiram alguns movimentos (Sabinada na Bahia em 1837, Balaiada no Maranhão em 1838, Cabanagem no Pará em 1835) que já expressavam, de modo incipiente, uma tentativa de construção de caminhos por onde fluísse o reconhecimento de que a vida nacional não se processava somente entre os mais iguais. Qual foi, no século retrasado, a reação dos setores intermediários e preponderantes contra esses movimentos? A pior possível. O grupo no poder (os regentes) se empenhou em exterminar tais movimentos, já que eles eram tidos pelos conservadores como uma ameaça à ordem nacional. Em vários outros momentos foram-se processando ações e reações, por parte dos setores intermediários e preponderantes, que legitimaram a supressão da possibilidade de ampliar o espaço de embates e de conflitos construtivos no país. Atitudes dessa natureza estão na base das dificuldades tanto de constituição da democracia política quanto da democracia social.

O modo como os estratos médios se posicionam em relação a esses movimentos tem uma importância política significativa. A análise, por exemplo, do movimento de Canudos, que ocorreu nos sertões da Bahia entre 1896 e 1897, e do modo como intelectuais, profissionais liberais, jornalistas, etc., lidaram com os acontecimentos no calor da hora, fornece elementos essenciais para a compreensão de que a criminalização das ações dos seguidores de Antônio Conselheiro serviu de escopo para as ações repressoras e destruidoras daquele movimento por parte dos condutores da República recém-implantada no país.

No decorrer do século XX houve também vários outros momentos de que setores preponderantes e médios participaram opondo-se ao florescimento da ação política substantiva de movimentos que tendiam a questionar o modo como a vida social se processava. Na década de 1950, ganharam destaque as ligas camponesas que expressavam uma organização reivindicativa por melhores condições de existência, por direitos, por reconhecimento de seus membros como agentes capazes de propor soluções para os problemas da miserabilidade e da pobreza no Nordeste do país. Os setores conservadores, principalmente da própria região, desfecharam uma seqüência prolongada de ações contra as ligas camponesas criminalizando-as e taxando-as de serem agentes de interesses externos, etc.. Isso criou um clima desfavorável ao processo de luta democrática que deveria ter-se prolongado naquele momento, ou seja, na década de 1960 e além.

Quais lições podem-se tirar desses acontecimentos históricos para a compreensão do que tem acontecido hoje na sociedade brasileira? A primeira lição é que todos aqueles que desejam, de fato, a construção de uma democracia, no país, não devem, em hipótese nenhuma, alimentar a idéia de que os movimentos sociais são perigosos, são portadores do caos social. Eles não o são. A sociedade brasileira somente se transfigurará no sentido de avanços rumo à democracia social e política se todas as forças progressistas se empenharem em mostrar que os enfrentamentos e as diferenças fazem parte do processo social de constituição de uma nação mais inclusiva. O que, exatamente, significa a democracia? A publicização das relações sociais e não somente a formalização de alguns procedimentos políticos.

É hora de refletir sobre o que cada um dos brasileiros tem feito no sentido de ajudar na construção de uma mentalidade capaz de qualificar a ação política dos diversos setores sociais. Caso contrário, podemos perguntar: Será que não seremos capazes de avançar para além daquilo que Teófilo Otoni, um político da época do império, dizia desejar para o país, ou seja, uma democracia de classe média?

 

 

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