Tensão
social e mudança no Brasil
A
atual conjuntura política brasileira oferece subsídios
importantes que sugerem algumas indagações acerca dos
processos de mudança social no país. Os noticiários da mídia
têm ressaltado e/ou indicado com muita freqüência que o
Brasil está vivendo à beira do caos social em vista das ações
dos movimentos sociais organizados que tentam adentrar a
esfera política e publicizar suas demandas. Recorrendo a
esses argumentos, os meios de comunicação de massa (jornais
impressos, televisão e rádio) prestam um desserviço à
causa da democracia no país. E o faz porque constrói um
clima de desconfiança quanto à importância da atuação
social dos diversos grupos na construção de uma nação mais
inclusiva.
Destaco,
neste brevíssimo texto, que não é recente esse processo de
desqualificação da ação política dos setores não-preponderantes.
Quando o Brasil é pensado a partir da Independência,
ou seja, de 1822, observa-se que, por exemplo, na década de
1830, emergiram alguns movimentos (Sabinada na Bahia em 1837,
Balaiada no Maranhão em 1838, Cabanagem no Pará em 1835) que
já expressavam, de modo incipiente, uma tentativa de construção
de caminhos por onde fluísse o reconhecimento de que a vida
nacional não se processava somente entre os mais iguais. Qual
foi, no século retrasado, a reação dos setores intermediários
e preponderantes contra esses movimentos? A pior possível. O
grupo no poder (os regentes) se empenhou em exterminar tais
movimentos, já que eles eram tidos pelos conservadores como
uma ameaça à ordem nacional. Em vários outros momentos
foram-se processando ações e reações, por parte dos
setores intermediários e preponderantes, que legitimaram a
supressão da possibilidade de ampliar o espaço de embates e
de conflitos construtivos no país. Atitudes dessa natureza
estão na base das dificuldades tanto de constituição da
democracia política quanto da democracia social.
O
modo como os estratos médios se posicionam em relação a
esses movimentos tem uma importância política significativa.
A análise, por exemplo, do movimento de Canudos, que ocorreu
nos sertões da Bahia entre 1896 e 1897, e do modo como
intelectuais, profissionais liberais, jornalistas, etc.,
lidaram com os acontecimentos no calor da hora, fornece
elementos essenciais para a compreensão de que a criminalização
das ações dos seguidores de Antônio Conselheiro serviu de
escopo para as ações repressoras e destruidoras daquele
movimento por parte dos condutores da República recém-implantada
no país.
No
decorrer do século XX houve também vários outros momentos
de que setores preponderantes e médios participaram opondo-se
ao florescimento da ação política substantiva de movimentos
que tendiam a questionar o modo como a vida social se
processava. Na década de 1950, ganharam destaque as ligas
camponesas que expressavam uma organização reivindicativa
por melhores condições de existência, por direitos, por
reconhecimento de seus membros como agentes capazes de propor
soluções para os problemas da miserabilidade e da pobreza no
Nordeste do país. Os setores conservadores, principalmente da
própria região, desfecharam uma seqüência prolongada de ações
contra as ligas camponesas criminalizando-as e taxando-as de
serem agentes de interesses externos, etc.. Isso criou um
clima desfavorável ao processo de luta democrática que
deveria ter-se prolongado naquele momento, ou seja, na década
de 1960 e além.
Quais
lições podem-se tirar desses acontecimentos históricos para
a compreensão do que tem acontecido hoje na sociedade
brasileira? A primeira lição é que todos aqueles que
desejam, de fato, a construção de uma democracia, no país,
não devem, em hipótese nenhuma, alimentar a idéia de que os
movimentos sociais são perigosos, são portadores do caos
social. Eles não o são. A sociedade brasileira somente se
transfigurará no sentido de avanços rumo à democracia
social e política se todas as forças progressistas se
empenharem em mostrar que os enfrentamentos e as diferenças
fazem parte do processo social de constituição de uma nação
mais inclusiva. O que, exatamente, significa a democracia? A
publicização das relações sociais e não somente a
formalização de alguns procedimentos políticos.
É
hora de refletir sobre o que cada um dos brasileiros tem feito
no sentido de ajudar na construção de uma mentalidade capaz
de qualificar a ação política dos diversos setores sociais.
Caso contrário, podemos perguntar: Será que não seremos
capazes de avançar para além daquilo que Teófilo Otoni, um
político da época do império, dizia desejar para o país,
ou seja, uma democracia de classe média?