A
propósito de expulsões, partidos e Estados
Incomodado
com as ações do Duque de Elghien, então abrigado no território
de Baden, Napoleão imaginou silenciá-lo. E não hesitou nos
meios, pois era um grande imperador. Mandou seqüestrá-lo,
julgou-o em corte sumária e fuzilou-o. Ao saber do fato,
Talleyrand, um dos mais cínicos diplomatas da história
contemporânea, filosofou: “Mais do que um crime, foi um
erro”.
Se vivo fosse, o velho diplomata talvez dissesse o
mesmo do ato que
defenestrou a senadora Heloísa Helena e os três deputados
federais, abrigados no território do PT. Como um grande
presidente, Lula não hesitou nos meios. Mandou
processar e condenar os dissidentes
ao ostracismo, eliminando-os do partido.
As expulsões têm causado grande alarido e repulsa.
Mas há algo de farisaico na grita, eis que todos sabem que os
atuais excluídos são notórios adeptos de partidos
centralizados, e já se empenharam em outras expulsões, ou
foram seus cúmplices, por ação ou omissão. Aliás, o
presente estatuto, que autoriza o tipo de guilhotina que se
abateu sobre suas cabeças, foi por eles mesmos, ou por seus
correligionários, elaborado e aprovado. Além disso, sabe-se
que estas não foram as primeiras expulsões, nem serão as últimas.
Há precedentes ilustres, alguns ainda mais perturbadores, dos
quais não parecem lembrar-se os que denunciam o episódio
atual. De sorte que neste filme, quem quiser encontrar o
mocinho, vai ter dificuldade em
achá-lo.
Entretanto, há algo de muito mais grave acontecendo.
Para além dos expulsos, e já não falo dos que se retiraram
e se
retiram, desencantados, e dos que permanecem, mas
confinados, sem espaço para debate e crítica, para além
deste proscênio, onde se desenrola o espetáculo, há
um vasto iceberg, submerso,
o do avassalamento do PT pelo governo federal e, em
particular, pelo presidente da república.
A rigor, não se trata de uma novidade. Ao longo do século
passado, no contexto das revoluções socialistas, o fenômeno
da descaracterização dos partidos, de sua progressiva
submissão à dinâmica estatal e aos ditames do governo, foi
notado, criticado,
denunciado. Lenin, arquejando no leito de morte, grande
responsável pelo monstro que se ia criando, tentou elaborar
antídotos, em vão. Foi dele a sinistra metáfora de que os
bolcheviques mantinham uma aparência de comando, ao guardar o
volante do carro, enquanto este descia, sem freios, incontrolável,
a ladeira para o abismo.
Mais tarde, em outras revoluções, e até nas experiências
reformistas da social-democracia européia, embora com incidência
desigual, o mesmo se repetiria, como uma maldição. Alguém
falou em fusão de partido com o estado. Mas era o estado que
fagocitava o partido. Organizações políticas cheias de
vitalidade, ao alçar-se ao poder de estado, cedo se viam
alcançadas por estranha anemia, como se fossem aspiradas, ou
sugadas, pelas instituições que pretendiam dirigir,
perdendo-se e perdidas nos meandros e labirintos de distintas
burocracias, submetendo-se a suas lógicas,
tomando gosto por elas, por seus rituais e esplendores,
como se estivessem inebriadas por vapores desconhecidos, mas
gozosos.
O processo já fora detectado, em escala menos
ampliada, em administrações municipais e estaduais do PT. Os
militantes de maior importância, e de menor também, todos os
que pudessem, desapareciam no interior do Estado e de seus
aparelhos, atores que se queriam principais, recriando-se como
figurantes secundários, engrenagens de máquinas que haviam
desejado redirecionar, quando
não sonhado destruir. Do lado de fora, quedava o partido,
inerme, exaurido pela sangria de quadros.
O PT “federal” não fugiu ao padrão. Mas o que
impressiona é o caráter fulminante do processo. Em menos de
um ano, desapareceu o que restava de autonomia. O partido só
faz o que “seu” mestre manda. O governo decide, o partido
(leia-se, parlamentares e funcionários) cumpre. O presidente
ordena, o partido obedece, o
chefe da Casa Civil põe, o partido dispõe. O
presidente, como o toureiro, parece ter a espada
desembainhada, pronta para dar a espetada de morte no
touro-partido, cheio de
bandeirolas, imobilizado, trêmulo de tanto sangue perdido.
Mas não precisa. O touro ainda está de pé, mas já está
morto.
Lula-toureiro dá as costas para o touro, e ergue os
braços para receber a ovação da multidão. José Genoíno e
a maioria do Diretório Nacional estão na platéia,
aplaudindo, ao som de clarinadas e de bandeiras vermelhas.
Nestas, a estrela de cinco pontas, símbolo revolucionário,
é pura melancolia.