Os
intelectuais e a cibercultura: além de apocalípticos e
integrados
Nossos
leitores não serão, em sua maioria, do tempo em que se
discutia exaustivamente à luz dos escritos de Antonio Gramsci
e, posteriormente, das contribuições dos intelectuais que
participaram dos movimentos sociais e estudantis na década de
60 “o papel do intelectual na sociedade”. O tema é
espinhoso e não fugiremos a analisá-lo mais detalhada e
profundamente em outro momento. Assumindo o risco da
superficialidade e da generalidade, vamos refletir aqui sobre
alguns dos problemas – sobretudo contradições – que
permeiam, no contemporâneo, as relações entre os
intelectuais e a cibercultura.
Muito
já foi dito sobre as mudanças que os meios digitais de
comunicação e informação têm provocado na produção e
circulação de mercadorias, idéias e conhecimento. Tampouco
é novidade que tais mudanças implicaram o surgimento de um
novo padrão comunicativo e de produção _ ou uma nova
cultura, com abrangência mundial: a cibercultura. Mas ainda há
muito por discutir sobre estes temas, que envolvem fenômenos
recentes, sobretudo no que diz respeito à relação da
cibercultura com as culturas tradicionais
e com as
culturas do mercado, de massas e das instituições - Estado
nacional, democracia, burocracia, universidades etc. -, das
quais dependem, em boa parte, as políticas de gestão e
organização das sociedades.
A
Internet, ao possibilitar o acesso à troca e à divulgação
de idéias, permitiu e/ou facilitou, mais que a expressão, a
organização de diversos setores em torno de interesses,
reivindicações e ações políticas. Entre muitos exemplos,
podemos citar o caso das manifestações contra a Guerra no
Iraque, divulgadas e motivadas por grupos e pessoas por meio
da Internet. Diferentemente do que ocorreu em episódios
similares - como, por exemplo, nos eventos de 1968 -, a direção
do movimento não está centralizada em partidos, sindicatos e
organizações tradicionais. Grupos de cidadãos se organizam
livremente, ganham adeptos e difundem mensagens pela Rede.
Este dado é importantíssimo. Pela primeira vez na história
ocorre um processo de gestão descentralizada de um movimento
político de caráter mundial.
A
Internet mudou, também, os modos produção e gestão política
do conhecimento, descentralizando estes processos. Graças
ela, já não dependemos apenas da boa vontade do
mercado, da burocracia, dos grandes meios de comunicação de
massa, da indústria editorial, do marketing, das “modas”
impostas pelos supostos “centros” de produção acadêmica
- Europa e EUA - e dos grupos de poder intelectual para
produzir e divulgar idéias, nem, mais do que isto,
discuti-las e reelaborá-las junto a um grande número de
pessoas em todo o mundo. Esta mudança tem conseqüências não
apenas nos modos como se realiza o trabalho intelectual, como
também no lugar ocupado pelos intelectuais na sociedade.
Os
chamados intelectuais - e aqui o termo abrange todos que se
dedicam à pesquisa nas áreas de humanidades, à crítica e
ao trabalho intelectual, sobretudo nas universidades e/ou
centros de pesquisa, com participação no mercado de comunicação
e cultura - incluem-se entre as parcelas privilegiadas de
cidadãos que têm acesso à Internet não apenas como
instrumento de trabalho, mas também como meio de comunicação
e interação. Apesar disto, persiste ainda um imenso abismo
entre estes e a cibercultura enquanto ambiente no qual as
pessoas produzem, circulam, conversam e vivem. O abismo é
maior se pensarmos na distância entre os intelectuais e os
setores que controlam a tecnologia e as redes físicas -
grandes corporações capitalistas - ou detêm os
conhecimentos das técnicas e tecnologias - pesquisadores e
profissionais cujos conhecimentos, em geral, não abrangem as
humanidades.
Se
é fato que uma saudável conversação se estabelece na
Internet entre blogueiros, gente que lida com a tecnologia,
webjornalistas etc., gerando conhecimento multidisciplinar e
colaborativo e configurando grupos de
intervenção política, também é fato que os intelectuais,
em geral, não participam, ou participam pouco, desta conversação.
Sua produção se concentra em outras instituições, que
remontam às origens da Modernidade e cujas relações com a
cibercultura - quando existem não são exatamente interativas
e/ou colaborativas. Entre os principais motivos do
distanciamento estão a diferença entre os modos de produção
e circulação de conhecimento das instituições tradicionais
e os da Internet.
A
origem desta separação entre os modos de fazer das instituições
científicas e acadêmicas e a cultura da arte, das ruas, do
povo remonta aos séculos XVI-XVII, que marcam o nascimento da
Modernidade, espaço-tempo definido pelo modo científico de
pensamento e conhecimento e pela expansão dos meios de
translação e comunicação. A Modernidade gerou duas tradições
intelectuais opostas, em princípio, no que diz respeito ao
conhecimento das sociedades e das culturas.
A
primeira é a perspectiva filosófica e científica entendida
como verdadeira e universal, que vê nas sociedades e nas
culturas “objetos” de estudos. A aliança entre o saber e
o poder consolidou um modelo em que o intelectual aparece como
porta-voz de uma “verdade” inquestionável e
universalmente válida e que colocou a Europa no “centro”
do mundo. A expansão da modernidade não se deu apenas pela
dominação econômica, militar e política das demais formas
de pensamento e produção. Consolidou-se também graças a
uma dominação cultural,
que se deu, sobretudo, por meio das instituições científicas,
culturais e educacionais. A ciência e a cultura européias
difundiram-se enquanto signos de uma cultura supostamente mais
elevada, superior e verdadeira, abarcando as demais e
constituindo-se como padrão comunicativo.
A
segunda é a tradição intelectual que correu por muito tempo
fora dos parâmetros da ciência. Tratar-se-ia, antes, de um
padrão “literário” ou “artístico” de aproximação
às realidades humanas. Shakespeare, o Lazarilho, o Barroco,
os autores latino-americanos - para ficar no âmbito Europa-América,
rota de origem da Modernidade - conformam um padrão de
intelectual-narrrador imerso na cultura e em suas contradições.
Por
muito tempo estas duas tradições andaram separadas. Esta
separação só
foi quebrada, pioneiramente por autores como os brasileiros
Euclides da Cunha e Gilberto Freyre, que trazem para o campo
das Humanidades as formas de conhecer e descrever da ficção.
Suas obras, de alguma forma, refletem um modelo de intelectual
marcado pela contradição, pela narração poética e pela
imersão apaixonada nas culturas e nos fenômenos que
analisam. Mais recentemente, vários pensadores têm adotado
perspectivas semelhantes na crítica aos princípios das Ciências
Humanas formulados na segunda metade do século XIX.
Os
princípios das Ciências Humanas foram baseados num enfoque
ao mesmo tempo progressista, moralista, normativo e elitista.
Disciplinas como psicologia, antropologia e sociologia teriam
entre suas atribuições o olhar científico e crítico sobre
a mente, as culturas e as sociedades visandoà elaboração de
políticas institucionais que, em tese, permitiriam o
progresso daquelas. O caráter “científico” - e
supostamente universal - destes saberes coloca os que os detêm na situação de elite. Comprometido com idéias
“progressistas” alicerçadas no saber “universal e
superior” da cultura e da ciência européias, o intelectual
se constitui, assim, como “vanguarda” da sociedade.
Este
enfoque, gerado no interior das teorias positivistas, não foi
estranho aos grupos marxistas. Socialistas, como por exemplo o
escritor H. G. Wells, o adotaram. Tampouco foi exclusividade
dos intelectuais europeus. Nossos nacionalistas republicanos,
com o aval dos intelectuais pioneiros das Ciências Humanas no
Brasil, não apenas o adotaram como o utilizaram para
justificar políticas repressivas. O caso célebre da Guerra
dos Canudos, narrado por Euclides da Cunha em Os Sertões,
é um dos muitos exemplos.
As culturas exteriores ao contexto europeu moderno e os
saberes não institucionais foram considerados inferiores,
“não racionais”: no máximo, objetos de estudo. Por isto
tal enfoque é, também e sobretudo, elitista.
Ao
longo do século XX, a reformulação dos princípios das ciências
da natureza e da vida _ por exemplo, e notadamente, a partir
da teoria da mecânica
quântica, que insere a contingência como dado de
“realidade” nos processos físicos, e das descobertas nos
campos da biologia e da evolução, que consideram a informação
como elemento fundamental da vida na Terra -, a expansão dos
meios de comunicação de massa, a proliferação das forças
destrutivas, a crítica aos princípios das Ciências Humanas,
entre outros fenômenos e eventos, contribuíram para uma
rediscussão ampla sobre os paradigmas da ciência e da
cultura européias.
Não
vamos abordar aqui, obviamente, o conjunto destes fenômenos,
eventos e teorias. Vamos nos deter nas relações entre os
intelectuais e os meios de comunicação de massa, as quais,
imaginamos, devem ser um ponto fundamental para entender a
posição dos intelectuais com relação à cibercultura.
O
enfoque das Ciências Humanas - embutindo um pensamento eurocêntrico,
moralista e normativo junto com o compromisso com um projeto
progressista -, apesar de criticado, vai permanecer vigente na
relação entre os intelectuais e o fenômeno dos meios de
comunicação de massa ao longo do século XX, mesmo dentro do
campo próprio de saberes, teorias e disciplinas da Comunicação.
Para ficarmos em dois, e significativos, exemplos dos princípios
destes saberes e disciplinas, citemos a Mass Communication
Research e a Teoria da Indústria Cultural, que ainda ecoam
fortemente na formação, na pesquisa e nas atividades dos
comunicadores sociais, bem como nas análises teóricas sobre
os meios e os processos de comunicação.
Herdeira
direta das teorias psicológicas em voga no início do século
XX - Psicologia das Massas, Behaviorismo e as teorias de
Pavlov sobre reflexo condicionado - e da estreita associação
entre ciência, moral e a política que lhes servia de base, a
Mass Communication Research buscou entender, durante os anos
30 nos EUA, os mecanismos de convencimento das massas por meio
da propaganda, das pesquisas de opinião e dos métodos de
persuasão. O objetivo era político, e as técnicas
pesquisadas de formação de opinião pública foram
amplamente utilizadas, por exemplo, pelos governos dos EUA.
Esta linha de estudos também serve diretamente à elaboração
de ferramentas “eficientes” para a publicidade. Os meios
de comunicação de massa, de fato, devem muito aos conceitos
elaborados no âmbito desta teoria: por exemplo, a idéia de
“massa” enquanto uma multidão moldável pelas mensagens e
pela propaganda. Esta abordagem foi utilizada pelo nazismo -
com o rádio e o cinema sendo adotados como instrumentos de
propaganda política - e pela publicidade. Ainda hoje - e a
propaganda política é um exemplo, infelizmente - esta
perspectiva segue vigente.
A
segunda teoria à qual nos referimos remete ao termo cunhado
por Adorno e Horkheimer nos anos 40: Indústria Cultural.
Trata-se da análise, pelo viés marxista, da produção
industrial dos bens culturais como movimento global de produção
da cultura como mercadoria. Esta situação não é
considerada resultado da evolução da tecnologia enquanto
tal, mas de sua função na sociedade atual. “Em nossos
dias, a racionalidade técnica é a racionalidade da dominação
propriamente dita. O terreno em que a técnica adquire seu
poder sobre a sociedade é o terreno dos que a dominam
economicamente”.
Antes
de comentar o peso e as conseqüências destas teorias,
sobretudo da segunda, entre os intelectuais contemporâneos,
vamos abrir um parênteses. A linha inaugurada por Adorno e
Horkheimer - Escola de Frankfurt - motivou importantes
contribuições, entre as quais cabe citar a de Walter
Benjamin, por sua originalidade e diferença com relação às
idéias de Adorno-Horkheimer. Benjamin, muito mais próximo de
um modo híbrido de conhecimento e explicação da realidade,
avançou no sentido de considerar obsoleto o conceito de obra
de arte “única” ou “aurática”, ao definir o cinema
como uma arte cuja única razão de ser é a reprodução técnica.
Fechemos
parênteses e voltemos ao tema que motiva esta reflexão. O
conceito de Indústria Cultural dá conta de explicar aspectos
importantes da relação entre arte e cultura, economia e
cultura, mas não apenas é insuficiente para explicar as
conseqüências da expansão dos meios de comunicação de
massa como adota um conceito segundo o qual arte e cultura
“elevadas” seriam a arte e a cultura européias. Ao opor o
que seria a arte e a cultura “verdadeiras” àquilo que é
veiculado pela mídia, os teóricos da Indústria Cultural
acabam por adotar uma posição eurocentrista e um conceito de
arte e cultura, no mínimo, limitado.
Um
dos motivos pelos quais o conceito de Indústria Cultural é
insuficiente para explicar as complexidades envolvidas nas
relações entre cultura e comunicação no último séculoé
que, para além da noção restrita de que a economia
capitalista determina a reprodução técnica de uma cultura
“vulgar”, haveria que repensar os conceitos de economia e
cultura. Tanto quanto a cultura científica, a chamada cultura
de massas se constitui enquanto um padrão comunicativo. Ambas
configuram culturas mundializadas, ambas abarcam contribuições
das culturas populares e de outros saberes e práticas, os
quais digerem e reprocessam. Mas, enquanto a cultura das mídias
institui um padrão “democrático” - todos nós, em princípio,
podemos acessar os códigos que nos incluem nesta cultura -, a
cultura científica demarca o terreno da elite. O acordo tácito
que mantém os intelectuais à margem das linguagens, dos
meios e dos processos da comunicação - como narradores, críticos,
divulgadores e jamais como operadores - permite, mais que a
continuidade de um modelo centralizado de produção e
controle do conhecimento, um modelo retórico e institucional
que “autoriza” uma desigualdade baseada no tipo de cultura
e/ou conhecimento e, portanto, a continuidade do lugar dos
intelectuais enquanto elite.
A
emergência dos meios digitais de comunicação e informação
agregou novidades no que diz respeito aos processos de produção
e circulação de mercadorias materiais e simbólicas. Se o
problema do modo de produção industrial e sua relação com
as culturas já era complexo, entender o surgimento, desde
dentro do capitalismo, do que será um novo modo de produção
baseado no paradigma da comunicação-informação, e
repensar, à luz deste novo modelo, as questões da cultura e
do conhecimento requerem um esforço que vai além do
conceitual. Falamos aqui de métodos, procedimentos, afetos,
paixões e práticas culturais.
Em
que pese a tão falada exclusão digital - já a abordamos em
outros artigos
e por isto deixamos este aspecto por ora em suspenso,
lembrando apenas que não advogamos o conceito de superação
(talvez devêssemos ler Marx com mais cuidado) -, a cultura
que se cria com as práticas sociais nos meios digitais, a
cibercultura, caracteriza-se pela descentralização da produção
material e simbólica, bem como dos processos de comunicação
e informação. Insistimos em dizer que a democratização,
que significa acesso “da maioria” ao meio, é um conceito
insuficiente quando falamos de meios digitais e cultura
contemporânea. A democracia - como observou Robert Kurz,
- é o projeto da cultura de massas, e muito de totalitário aí
se oculta. Optamos pelo termo
descentralização, por entender que é a
descentralização da produção do conhecimento e dos focos
“emissores”, por assim dizer, de mensagens que caracteriza
as práticas da cibercultura - e, antes dela, as das culturas
populares - o que pode permitir o rompimento das estruturas
burocráticas e autoritárias vigentes nas nossas
“melhores” democracias.
A
cibercultura, resultado da hibridização entre os avanços da
ciência e os métodos, práticas e procedimentos das culturas
populares, parece apontar para um reencontro - real e “prático”
- entre as duas tradições da Modernidade que por longo tempo
se mantiveram separadas, salvo em situações ou contextos
considerados “periféricos” ou no âmbito do discurso e/ou
da crítica.
A
interação e a produção descentralizada do conhecimento,
características da cibercultura, fazem com que se embaralhem
os centros e as periferias, uma vez que o conhecimento não
está em nenhum lugar - instituição, pessoa -, mas numa
Rede; não está pronto para ser consumido e/ou assimilado,mas
em construção. Por fim, a autoridade na Rede não está dada
pela condição intelectual ou de classe de cada um, nem por
sua posição social enquanto pesquisador ou professor numa
estrutura hierárquica determinada, como um centro de pesquisa
ou uma universidade. Não há um rito de passagem ou de
autorização para o “lado de lá”, o da
verdade-autoridade, lugar fechado que Cristovam Buarque tão
bem definiu no artigo “Os Círculos dos Intelectuais”.
Na
cibercultura, poder, autoridade e verdade mudam de lugar;
podem ser momentaneamente construídos e/ou conquistados por
meio de métodos, estratégias e práticas experimentais. A
inserção na cultura - e na cibercultura - obriga ao
pensamento original, aquele do erro, da hibridização e da
incerteza. Por fim, a configuração do conhecimento na interação
exige não apenas um ethos, mas também um pathos,
a recuperação dos paradigmas da colaboração, da
afetividade e do mergulho na complexidade.
Daí
que também perde sentido a noção de vanguarda, tão
arraigada quanto identificada ao elitismo. Embora ainda
sobreviva _ como, de resto, tudo o que é moderno, assim como os signos da cultura de massas _, esta noção,
que dá a um grupo de pequeno-burgueses cultos ou supostamente
cultos a certeza de verdade, autoridade e “superioridade”
cultural e estética, dificilmente resistirá no caldo híbrido
da cibercultura a partir do momento em que outros signos,
poderes e grupos circularem em maior número pela Rede.
Imaginamos que desta interação possam sair novas formas de
definição de subjetividades, aquém e além do ego - e euro
- cêntrica noção de sujeito moderno.
A
cibercultura recupera e reaviva a tradição de Shakespeare,
do Lazarilho, de Gilberto Freyre. Renova uma perspectiva que já
se fazia presente, por exemplo, numa certa linha intelectual
latino-americana que viu na circulação, nos trânsitos, nas
passagens, nos cruzamentos, nos híbridos, formas válidas e
vivas de conhecimento.
Em
vez da figura “científica”, “objetiva” e “crítica”
do intelectual reproduzido em série no interior de instituições
e círculos fechados, uma figura que raramente se mistura, a
cibercultura poderá produzir _ desde que os professores
doutores abandonem tanto sua pretensão elitista à
verdade quanto o ego colonizado, em prol de uma
intelectualidade amorosamente inserida na cultura _
intelectuais capazes de atuar na construção do projeto político
de uma sociedade mais justa e colaborativa.
Interatividade
é exposição. Ao expor-se na cibercultura, os intelectuais
perdem seu lugar no mercado e na ordem estabelecidos. E é exatamente
isto, a mudança de lugar e as inversões, que os intelectuais
temem. Medo semelhante os teria levado a abandonar, ao longo
do século XX, os meios de comunicação de massa nas mãos
dos “capitalistas”, dos “amadores” e da
“gente do espetáculo e da imprensa”. Nem sequer
houve, muitas vezes, um esforço para gerar políticas, métodos
e práticas para os meios audiovisuais. Muitos intelectuais
contentaram-se em criticar a “indústria cultural” quando
seus próprios corações estavam sendo irremediavelmente
invadidos. Sem nenhum pudor, no entanto, serviram-se da mesma
indústria para manter sua condição de elite, divulgando sua
alta cultura, seus artigos e suas belas fotos em pose de
professores doutores.
Se
nos tempos do domínio da comunicação de massa, como apontou
Umberto Eco,,
os intelectuais só podiam ser - apocalípticos - os críticos
empedernidos da comunicação de massa - ou integrados - os
dispostos a aderir às novidades e a colaborar -, a
cibercultura exige estar além destas posturas.
Para
usar a frase que se fez moda, é hora de vencer o medo dos
meios de comunicação e, sobretudo, da interação. Hora de
os intelectuais assumirem, para além do discurso e da crítica,
um lugar na cibercultura, na Rede, na vida e na própria
cultura contemporânea. “Interação ou barbárie”, se
coloca no presente. Afinal, como disse Lezama Lima, sendo
ambas, vida e cultura, uma só e mesma coisa, não há por que
separá-las e falar de ridículas primazias.”
Melhor ouvir.