Autonomia
legal para o Banco Central: uma tragédia anunciada.
1.
Em economia, três idéias marcaram o discurso do governo Lula
ao longo de 2003: (a) a adoção de uma política econômica
continuísta, no início da nova gestão, decorria da existência
de uma situação de descontrole conjuntural, logo apelidada
de “herança maldita”; (b) essa política, meramente tática,
prepararia as condições para uma virada posterior na direção
das mudanças coerentes com a história do PT e reclamadas
pela população brasileira; (c) passado um ano de governo,
comemora-se agora o êxito das escolhas feitas: o descontrole
teria dado lugar a uma fase de tranqüilidade que antecede a
retomada do crescimento em 2004.
Infelizmente,
são falsas todas essas linhas de argumentação, e a virada,
que agora se anuncia, aponta para um aprofundamento do modelo
neoliberal, com o anúncio de uma medida de que trataremos em
detalhes na análise deste mês: a concessão de autonomia
legal ao Banco Central.
Vamos
por partes, começando pela “herança maldita”, uma
expressão misteriosa, cheia de metafísica, que se difundiu
entre militantes e simpatizantes do PT muito mais por produzir
conforto psicológico do que por esclarecer os processos
reais.
2.
Apesar de todas as inconsistências e fragilidades da economia
brasileira – denunciadas há muitos anos pela oposição
–, em dezembro de 2002, quando Lula se preparava para
assumir, não havia nenhum descontrole macroeconômico, nem do
ponto de vista das contas externas nem da trajetória prevista
para a inflação, os dois indicadores mais sensíveis e mais
citados pelos que sustentam essa idéia. Leda Paulani, da
Universidade de São Paulo, demonstrou isso, com simplicidade
e competência, no artigo “Brasil delivery” publicado no
livro A economia política da mudança, organizado por
João Antônio de Paula (Belo Horizonte, Editora Autêntica,
2003). Vale a pena revisitar seus argumentos.
Quanto
ao risco de inadimplência externa, Paulani mostrou que
“em
dezembro de 2002 [último mês do governo de Fernando
Henrique], do ponto de vista das condições necessárias para
honrar os compromissos externos, a situação estava
equacionada. (...) A balança comercial vinha apresentando
resultados absolutamente impressionantes, superando em cerca
de 50% as previsões feitas pelo próprio governo. Do ponto de
vista da performance futura das contas externas, em dezembro
de 2002 as expectativas eram muito melhores do que as
existentes, por exemplo, um ano antes. (...) Considerando
conjuntamente, de um lado, o comportamento do nível de
reservas e, de outro, as boas perspectivas da balança
comercial já claramente perceptíveis no final de 2002, e
considerando-se além disso que já havia sido assinado o
acordo com o FMI, o que permitiria enfrentar qualquer
tempestade inesperada, fica muito pouco plausível a versão
oficial de que as drásticas medidas monetárias e fiscais
tomadas no início da gestão Lula teriam sido necessárias
porque o Brasil ‘estava quebrado’.”
No
front das contas externas, em vez de uma herança
maldita, Lula na verdade recebeu um dote, nas palavras de João
Sayad, pois o ajuste da taxa de câmbio e o salto no saldo
comercial foram feitos ainda na gestão de Fernando Henrique.
Na
seqüência de seu artigo, Leda Paulani também desmontou a
argumentação governista sobre o risco de descontrole
inflacionário:
“Como
defender tão implausível diagnóstico [o de que havia pressões
inflacionárias por excesso de demanda] com a economia
estagnada e o desemprego batendo recordes atrás de recordes?
De onde poderia estar vindo tamanha pressão por reajustes de
preços [em dezembro de 2002], de modo a comprometer a
estabilidade monetária do país? (...) Não existia nenhum
indicador de que o processo inflacionário estivesse fora de
controle. Evidentemente a elevação súbita [em meados de
2002] de um dos preços mais importantes da economia [a taxa
de câmbio] teria conseqüências do ponto de vista do
comportamento dos índices de preço, mas era perfeitamente
possível saber a extensão do estrago. Ele estava limitado a
uma reconfiguração da estrutura de preços relativos.
(...) Não existia, por absoluta falta de oxigênio na
economia, nenhuma possibilidade de essa reconfiguração de
preços transmutar-se num descontrole monetário e/ou
desencadear mecanismos informais de indexação que
ressuscitassem a inflação inercial. (...) O IPCA do IBGE,
por exemplo, que chega a apresentar um crescimento de 3,02% em
novembro de 2002, cai para 2,1% em dezembro desse ano e 2,2%
em janeiro de 2003, reduzindo-se sustentadamente a partir de
então para atingir 0,22% em maio.”
Assim,
Paulani mostra que o repique inflacionário, causado pela
desvalorização cambial, já estava perdendo força em
dezembro de 2002. Lula assumiu o governo com uma inflação
ainda baixa e em queda.
3.
Avaliemos agora a segunda idéia do raciocínio governista, a
de que o “descontrole” em fins de 2002 deu lugar à
“tranqüilidade” em fins de 2003. Selecionamos um amplo
conjunto de indicadores relevantes, de modo a comparar a situação
brasileira nesses dois momentos. Vamos a eles.
a)
Taxa de inflação em doze meses (IPCA): dezembro de
2002, 12,5%; dezembro de 2003, 9,5%.
b)
Taxa de crescimento do PIB em doze meses: dezembro de
2002, 1,5%; dezembro de 2003, 0,1% (estimado).
c)
Taxa de juros (Selic): dezembro de 2002, 22,8%;
dezembro de 2003, 16,3%.
d)
Taxa de desemprego aberto (IBGE): dezembro de 2002,
10,5%; dezembro de 2003, 12,8%.
e)
Renda média dos trabalhadores: dezembro de 2002, R$
940,00; dezembro de 2003, R$ 820,00 (queda de cerca de 15%).
f)
Juros pagos pelo setor público como proporção do
PIB: ano de 2002, 8,09%; ano de 2003, 9,77%.
g)
Déficit nominal do setor público como proporção do
PIB: ano de 2002, 3,08%; ano de 2003, 4,71%.
h)
Dívida líquida do setor público: dezembro de 2002,
R$ 881,1 bilhões; novembro de 2003, R$ 905,3 bilhões.
i)
Relação dívida / PIB: dezembro de 2002, 56,5%;
dezembro de 2003, 57,2%.
j)
Saldo comercial: dezembro de 2002, US$ 13,4 bilhões;
dezembro de 2003, US$ 24,0 bilhões.
k)
Conta corrente do balanço de pagamentos (resultado em
doze meses como percentual do PIB): dezembro de 2002, - 1,7%;
dezembro de 2003, + 0,4%.
l)
Reservas internacionais líquidas: dezembro de 2002,
US$ 16,4 bilhões; dezembro de 2003, US$ 17,3 bilhões.
m)
Avaliação de risco-país (J.P. Morgan): dezembro de
2002, 1.446 pontos; dezembro de 2003, 468 pontos.
Os
número falam por si. Alguns indicadores melhoram
(principalmente aqueles mais relevantes para as operações do
capital financeiro), outros pioram (principalmente aqueles que
mostram a situação da economia real e as condições de vida
da população), no contexto de uma situação
qualitativamente semelhante. A maior parte das variações
ocorre na margem. Aparecem variações positivas
significativas apenas no saldo comercial e na avaliação de
risco-país. No primeiro caso, deve-se levar em conta que o
saldo realizado em 2003 foi em larga medida preparado em 2002,
pois os contratos e as decisões de produzir antecedem em pelo
menos seis a nove meses o embarque; além disso, parte desse
saldo decorre da profunda recessão causada pelo governo Lula
em 2003 (crescimento de 0,1% do PIB), que empurrou para fora
parte da produção nacional, sem mercado no próprio país, e
inibiu as importações.
Quanto
à espetacular queda do risco Brasil, amplamente divulgada
pelos meios de comunicação, ela foi obtida em um contexto
internacional de queda generalizada das avaliações de risco
em todos os países por causa do excesso de liquidez no
mercado financeiro internacional. Nada teve a ver com uma
situação específica daqui. A posição relativa do Brasil
no ranking das aplicações de risco permaneceu
praticamente inalterada: passamos da quarta para a quinta posição
entre os países considerados mais arriscados (ultrapassamos
apenas a Nigéria). É bom lembrar, aliás, que esse indicador
mede apenas o grau de confiança do sistema financeiro
internacional na vontade e na capacidade de um país pagar
suas dívidas. Nada tem a ver com o bem-estar, presente ou
futuro, da população do próprio país.
4.
Os indicadores mostram que não havia descontrole macroeconômico
no final de 2002 e não há tranqüilidade no final de 2003.
Estamos na mesma pasmaceira. Por que, então, autoridades,
analistas e meios de comunicação projetam uma situação
qualitativamente nova para 2004, com uma retomada sustentada
do crescimento? Além de compreensíveis necessidades de marketing,
diante de uma sociedade que começa a cansar-se, não vemos
nenhuma razão. É certo que depois de um período de baixo
desempenho acumula-se capacidade ociosa e torna-se fácil
obter algum crescimento na margem, mesmo sem investimentos
novos significativos. Prossegue-se assim a trajetória que os
economistas chamam de stop and go, que admite soluços
de crescimento mas conduz a resultados medíocres no médio e
longo prazos. Sob esse ponto de vista, 2004 pode de fato
apresentar alguma melhora, até mesmo por efeito estatístico,
pois a base de comparação (o ano de 2003) será
especialmente deprimida. Três fatores, porém, pesam em
sentido contrário.
O
primeiro: em 2003, com a contração dos investimentos do
governo e a queda na renda das famílias, o crescimento das
exportações foi o principal componente de demanda autônoma
na economia brasileira, permitindo manter o crescimento do PIB
em torno de zero em um contexto de forte contração da produção
voltada para o mercado interno. Não se espera a repetição
das mesmas taxas de crescimento das exportações em 2004,
admitindo-se, ao contrário, uma queda no saldo comercial.
O
segundo: a pequena recuperação observada no final de 2003
deveu-se, em parte, à recomposição de mecanismos de crédito
ao consumo privado, pela entrada em vigor de medidas de
incentivo a setores específicos (como eletrodomésticos e
automóveis), a facilitação do refinanciamento de dívidas e
o crédito amparado em desconto em folha, todos claramente de
fôlego curto, insuficientes para produzir uma retomada
sustentada da demanda.
O
terceiro fator negativo a ser ponderado é o reconhecimento,
por parte do PT, de que a política econômica adotada em 2003
não era de fato uma esperteza tática, destinada a driblar
dificuldades herdadas. Ao contrário. Tanto as declarações
das autoridades econômicas como as ações objetivas afirmam
a continuidade. Assim, a economia brasileira permanecerá em
2004 convivendo com o viés fortemente contracionista,
expresso por exemplo na manutenção de elevadíssimos superávits
primários e na aprovação de um Orçamento da União – o
primeiro elaborado pela equipe de Lula – ainda mais apertado
que o anterior. Os gastos com juros e amortizações da dívida
pública federal custarão ao Tesouro R$ 182 bilhões em 2004,
engolindo 29,5% do Orçamento. Separadas as transferências
obrigatórias a estados e municípios, a reserva de contingência
e os recursos destinados ao superávit primário (cujo piso
foi aumentado de R$ 65 bilhões para R$ 71,5 bilhões), sobram
R$ 230 bilhões para gastos em custeio e investimento, contra
R$ 250 bilhões no Orçamento anterior.
A
desproporção dos gastos com serviços de dívidas, em relação
aos demais gastos do Estado, é muito chocante. Um mês de
juros e amortizações corresponde ao dispêndio anual com
atenção hospitalar e ambulatorial no âmbito de todo o
Sistema Único de Saúde. Dez dias correspondem a todos os
recursos alocados no Programa Bolsa Família, que unificou as
ações sociais do governo. Uma semana supera os gastos anuais
previstos com o Programa Brasil Escolarizado. Um dia cobre com
sobras todo o gasto previsto para a construção de habitações
populares. Uma hora supera a dotação anual para conservação
de monumentos históricos. Finalmente, um minuto de juros e
amortização das dívidas corresponde à alocação anual –
sim, anual – de recursos com a política de direitos
humanos. É assim o primeiro Orçamento preparado pelo governo
do PT.
5.
Entre as diversas manifestações de que a adesão do PT ao
neoliberalismo é doutrinária, e não circunstancial,
destaca-se a promessa de que o governo encaminhará em 2004 ao
Congresso o projeto que prevê a concessão de autonomia legal
ao Banco Central (BC). Em carta ao FMI, datada de 21 de
novembro de 2003, o ministro Antônio Palocci afirma que “o
governo continua empenhado em que seja aprovada uma lei para
dar autonomia ao Banco Central, assim que haja espaço na
agenda do Congresso”.
Esta
é a mais importante reivindicação estratégica do setor
financeiro, e não foi aceita nem mesmo pelos dois Fernandos
– o Collor e o Henrique – responsáveis pela implantação
do neoliberalismo no Brasil. Se levada adiante por Lula, será
o ápice da operação-desmonte do Estado nacional, abrindo
uma situação política qualitativamente nova no país, pois
dificilmente se pode imaginar que a necessária retomada de
controle sobre o BC possa ser feita fora de um contexto de
ruptura institucional.
A
gravidade do passo que o governo atual pretende dar fez com
que o autor deste texto [César Benjamin] publicasse um artigo
sobre o tema antes mesmo da posse do presidente Lula, quando
surgiram as primeiras notícias sobre essa possível concessão
(“Tomara que dê tudo certo”, em Caros Amigos de
novembro de 2002). Vale a pena revisitar alguns trechos desse
artigo, mesmo um pouco longos, para em seguida retomar outros
aspectos da questão, tal como está colocada hoje.
6.
O artigo, resumidamente, dizia o seguinte:
“Passada
a ressaca das comemorações, faço aos dirigentes do PT um
apelo para que não cometam um erro fatal. Refiro-me às notícias
de que eles concordariam, ou até mesmo patrocinariam, uma
alteração constitucional que abriria caminho para uma
regulamentação parcial e casuística do artigo 192 da
Constituição. O objetivo explícito dessa manobra seria
permitir a edição de uma lei complementar que concederia
autonomia legal ao Banco Central. A crer no que sai na
imprensa, dirigentes do peso de José Dirceu, Guido Mantega e
Antônio Palocci vêm se posicionando a favor da medida,
considerada por este último como ‘uma sinalização
importante para o mercado [financeiro] da seriedade com que o
PT pretende conduzir a economia’.
“Entre
todos os erros que podem vir a ser cometidos nessa fase de
transição, este é, de longe, o mais importante, por seu
alcance e por seu caráter irreversível. Precisa ser evitado,
nem que seja por simples prudência, para ampliar o debate e
amadurecer melhor a questão. Conceder autonomia legal ao
Banco Central de forma açodada, em vez de seriedade, será
uma demonstração de incompetência e fraqueza.
“A
linha de argumentação dos que defendem essa medida é a
seguinte: o Banco Central deve trabalhar com metas de inflação
definidas com participação do governo, mas suas decisões
operacionais devem ser preservadas de qualquer interferência
política indevida; por isso, seus dirigentes passariam a
receber um mandato de quatro anos, sancionado pelo Senado,
tornando-se independentes do próprio presidente da República.
O argumento, à primeira vista, é apenas simplório. Pois
poderia ser usado para defender autonomia legal para todos os
órgãos governamentais. Afinal, qual deles não deve ter
metas? Qual não deve ser preservado de interferências
indevidas? A educação, a saúde, a previdência, o Incra, o
BNDES, as empresas de energia e as demais – em qual desses
setores a politicagem deve ser tolerada? Em nenhum, é claro.
Logo, a mesma lógica deveria conduzir à proposta de que,
depois de definidas as metas setoriais, todos os ministérios,
órgãos e empresas públicas fossem declarados entes autônomos,
por força de lei, restando ao presidente recolher-se a uma
casa de praia, para não mais interferir na racionalidade
(supostamente) técnica que a partir de então presidiria as
decisões dos gestores...
“Isso
não é sério. Por trás do caráter aparentemente simplório
da proposta, nela só há esperteza. É o Banco Central quem
estabelece as regras de operação do sistema financeiro,
gerencia as dívidas interna e externa, cuida das reservas
internacionais, fixa a taxa de juros, conduz a política de câmbio,
permite a remessa de recursos para o exterior e emite (ou
deixa de emitir) dinheiro, entre outras atribuições. Tudo
isso define quais serão as taxas de crescimento esperado da
economia, o nível do emprego, o montante dos gastos públicos
e o volume de crédito disponível para o setor produtivo
real. Ou seja, o Banco Central executa o ‘núcleo duro’ da
política econômica. Talvez por isso, todos os presidentes
brasileiros, incluindo Fernando Henrique, recusaram-se a
aceitar esse tipo de autonomia que agora se pretende
estabelecer.
“O
PT tem todas as condições – legais, políticas e morais
– para não ceder. Não custa lembrar que foi a bancada
federal do PT quem tentou regulamentar o artigo 192,
apresentando na época adequada um bom projeto de lei que,
entre outras coisas, pretendia submeter as decisões do Banco
Central (considerado independente demais!) a uma avaliação
periódica por parte de instâncias representativas da
sociedade. Exatamente o oposto do que se defende agora. O
projeto está parado na Câmara há onze anos, barrado pela
maioria conservadora. Por que aceitar que se faça agora, em
sentido oposto à posição histórica do PT, uma regulamentação
que os conservadores vêm se recusando a fazer há catorze
anos, desde a promulgação da Constituição de 1988?
“O
que está em jogo não é pouco. Em primeiro lugar, como disse
acima, está a capacidade controlar a operação do sistema
financeiro. Bancos são empresas especiais, que por definição
não podem honrar seus compromissos em nenhum momento específico.
Pois, em uma ponta, recebem depósitos que, em tese, seus
clientes podem sacar a qualquer momento; na outra ponta, usam
esses depósitos para conceder créditos, que só podem ser
cobrados depois de cumpridos os prazos contratuais. Assim, os
bancos estão sempre em desequilíbrio. Interessa à sociedade
que eles corram esse risco, pois as operações de crédito são
essenciais ao desenvolvimento econômico. Por outro lado, também
interessa à sociedade que eles sejam empreendimentos seguros,
pois uma crise bancária sempre é muito grave. Para compensar
o risco inerente à sua atividade e garantir solidez ao
sistema, os bancos – ao contrário das empresas comuns –
podem recorrer a um emprestador de última instância, que
lhes dá cobertura. É o Banco Central, a quem, como vimos, a
sociedade concede a especialíssima prerrogativa de fabricar
dinheiro.
“Ora,
se o Banco Central (um órgão público) tem a obrigação de
garantir a solvência do sistema bancário privado, usando
para isso a faculdade de emitir a moeda nacional, é claro que
ele precisa deter poderosos mecanismos de acompanhamento e
controle de todo o sistema. Por isso, também desse ponto de
vista os bancos não são empresas comuns. Estão sujeitos a
regras muito mais estritas que aquelas vigentes para os demais
setores da economia. No Brasil e em outros países, os bancos
centrais dispõem de instrumentos bastante fortes de regulação
do sistema financeiro, que aqui vêm sendo subutilizados. É
por isso, por exemplo, que os bancos especulam abertamente
contra a moeda nacional, com toda impunidade, e ganham bilhões.
Aceitar a autonomia legal do Banco Central, nas condições
atuais, é radicalizar essa situação. É legalizar a criação,
para os bancos, de uma espécie de ‘território liberado’,
que o governo brasileiro desistiu de submeter às suas próprias
decisões. Em situação de crise – situação mais do que
provável –, o presidente da República estará legalmente
privado de poderes para intervir, alterando a política monetária
e cambial, se assim achar necessário.
“A
luta pelo controle do Banco Central é a mais importante arena
atual do debate sobre a mudança do modelo econômico. (...) O
novo governo precisa libertar-se das camisas-de-força, e não
criar novas. Em vez de tornar-se autônomo, o Banco Central
precisará trabalhar de forma intimamente articulada com o
Tesouro Nacional, ambos perseguindo metas combinadas não só
para a inflação e o câmbio, mas também para o emprego, a
plena utilização da capacidade produtiva do país e o volume
de crédito ofertado à economia real. Essa ação articulada
deve assegurar que a economia seja irrigada com os fluxos
monetários e financeiros necessários para conduzi-la, com
relativa estabilidade de preços, a uma posição cada vez
mais próxima do pleno emprego, ou seja, ao nível em que a
produção efetivamente realizada coincida com o uso do
potencial produtivo existente. (...) Se a operação montada
para promover a autonomia legal do Banco Central se completar,
estará eliminada a possibilidade de mudar o modelo nessa direção,
ou em outra qualquer, igualmente progressista. Neste caso, o
governo Lula não se constituirá plenamente. Todo o esforço
para viabilizá-lo política e eleitoralmente culminará em
uma espécie de Batalha de Itararé – a grande batalha da
história do Brasil, que não chegou a ocorrer. Esperemos que
Lula não aceite ser o presidente que foi, sem ter sido.
Tomara que tudo dê certo.”
7.
A evolução dos fatos, desde a publicação desse artigo, é
preocupante. Já no poder o PT alterou a redação do artigo
192 da Constituição, de modo a tornar possível o envio do
projeto de lei de autonomia para o Banco Central. Logo depois,
em carta datada de 28 de maio, o ministro Antônio Palocci
prestava contas ao Fundo Monetário Internacional (FMI): “A
emenda constitucional que facilita a regulamentação do
sistema financeiro – um passo para a formalização da
autonomia do Banco Central – já foi aprovada” (ver www.fazenda.gov.br).
No fim de 2003, como vimos, concluída a tramitação
legislativa das reformas previdenciária e tributária, o
ministro anunciou o segundo passo, com tramitação da nova
lei para o BC sendo prevista para 2004. Em seguida, seria
empossada uma diretoria autônoma no BC, com mandatos fixos de
quatro anos, não coincidentes com os mandatos dos presidentes
da República. Como sempre, essa operação recebeu um rótulo
pomposo, cuidadosamente escolhido para impedir o debate: Lei
de Responsabilidade Monetária. A mensagem é clara: só os
irresponsáveis podem se opor a uma lei com este nome.
8.
A irresponsabilidade do governo do PT nas suas relações com
o Banco Central vem de longe. Começa na nomeação de
Henrique Meirelles para a presidência da instituição.
Anunciada por Lula em Washington ainda em 2002, no fim de uma
reunião com representantes do governo norte-americano, a
decisão foi justificada pela necessidade de manter a
credibilidade do Brasil junto ao sistema financeiro
internacional. Meirelles, como se sabe, era presidente mundial
do Banco de Boston (EUA), e ao assumir seu novo cargo em Brasília
continuou a receber – recebe até hoje – 750 mil dólares
anuais de seus empregadores norte-americanos, que não por
acaso mantêm em carteira o segundo maior estoque de títulos
da dívida externa brasileira (o primeiro está sob controle
do Citibank). Quando Meirelles assumiu o seu novo cargo, os títulos
brasileiros valiam menos da metade de seu valor de face. Um
ano depois, graças à sua atuação no BC, o valor desses títulos
mais do que dobrou, propiciando ganhos extraordinários para
os seus detentores, entre os quais, como vimos, destaca-se o
Banco de Boston, que paga o salário do próprio Meirelles. Não
há no mundo nenhum caso em que o presidente do Banco Central
de um país é assalariado de um banco privado estrangeiro e
leva adiante, sem grandes contestações, uma política que
resulta na valorização dos ativos desse banco que o
remunera. Em países sérios, isso seria impensável.
Derrubaria governos e levaria gente importante à cadeia. No
Brasil, em outras épocas, o PT pediria uma CPI. Mas, no
governo, em busca de credibilidade, o PT preferiu aceitar
reduzir o Brasil à condição de uma república de bananas.
É
a este presidente de Banco Central e à sua equipe –
notoriamente ligada, pela sua trajetória profissional, aos
interesses do sistema financeiro – que agora se quer
garantir mandato fixo, tornando o BC um poder autônomo,
desvinculado do poder político na Nação. A justificativa
para isso, dada pelo ministro Guido Mantega em entrevista à
revista Teoria e Debate (número 53, março-maio de
2003), é quase surrealista:
“Havendo
autonomia há uma perda de comando, uma diminuição do grau
de ingerência do Executivo sobre o Banco Central e, portanto,
sobre a política monetária. A vantagem é que ela dá ao
mercado [financeiro] uma garantia de que a inflação tende a
ser mais baixa, pois não poderá acontecer uma situação de
o presidente da República pegar o telefone, ligar para o
Banco Central e dizer ‘eu tenho eleição no ano que vem,
abaixa aí as taxas de juros; não importa que tenha mais
inflação; eu quero crescimento já, quero aumento de
emprego’.”
Se
Guido Mantega não existisse seria preciso inventá-lo. Pois,
como sempre, sua fala ingênua explicita a questão-chave que
outros preferem dissimular: o Brasil pode ou não pode
autogovernar-se? As potências coloniais – ontem
organizadas em impérios formais, hoje em torno do sistema
financeiro internacional – sempre negaram esse direito aos
povos do Terceiro Mundo. É o que também nos diz agora o
ministro do PT. Ele aceita alegremente a representação ideológica
de um hipotético presidente do Brasil construído à imagem e
semelhança dos piores estereótipos colonialistas: irresponsável,
aventureiro, bufão – quem sabe mulato (ou nordestino), com
certeza monoglota –, que faz bobagens por telefone, numa
republiqueta situada abaixo do Equador, sem instituições,
procedimentos e regras. Na outra face dessa representação
está implícita a imagem de um banqueiro asséptico, responsável,
racional – certamente limpinho, branco e bem falante do inglês
–, que justamente por isso precisa isolar-se das
irracionalidades dessa gente tropical que o cerca. Não passa
pela cabeça do nosso ministro que o contrário possa ocorrer:
o presidente do Brasil pode ser um patriota, politicamente
responsável perante a Nação, com sua ação sujeita às
regras institucionais da democracia; o banqueiro,
politicamente irresponsável, pode ter outros interesses a
defender.
Ao
dizer essas bobagens, Guido Mantega se posiciona à direita do
ultra-conservador Milton Friedman. Em Capitalismo e
liberdade (Nova Cultural, 1985, p. 53-54), ele diz o
seguinte:
“O
Banco Central Independente (BCI) é um mau sistema para os que
acreditam na liberdade justamente porque dá a poucos homens
um poder tão grande sem que seja exercido sobre eles nenhum
controle efetivo por parte do corpo político. Este é um
argumento-chave, de natureza política, contra um BCI. Mas é
também um mau sistema, mesmo para os que põem a segurança
acima da liberdade. Erros não podem ser evitados em sistemas
que dispensam a responsabilidade mas dão amplos poderes a um
pequeno grupo de homens, tornando as ações políticas
altamente dependentes de acidentes de personalidade. Este é
um argumento-chave, de natureza técnica, contra a existência
de um BCI.”
9.
Qualquer um pode entender o que está em jogo: dada autonomia
ao BC, os governantes brasileiros, eleitos pelo voto direto de
milhões de pessoas, deixam de comandar a mais importante
instituição formuladora e executora da política econômica
no país. “Os governos ficarão condicionados a implementar
suas políticas econômicas de forma a atingir os resultados
macroeconômicos desejados pelos mercados financeiros”, diz
Eduardo Maldonado Filho, da Universidade Federal do Rio Grande
do Sul. A questão central diz respeito, portanto, ao equilíbrio
de poderes no interior da sociedade brasileira. Banco Central
autônomo representa mais poder para o sistema financeiro e
menos poder para o Estado nacional visto como um todo.
Representa menos, muito menos, democracia. Ao contrário de
Mantega, nós queremos exatamente que os presidentes da República
possam ouvir as demandas do povo por emprego e as demandas da
Nação por desenvolvimento, e tenham instrumentos de política
econômica capazes de responder a elas.
Na
defesa da proposta há os argumentos risíveis e os mais
sofisticados. Alguns ressaltam, por exemplo, que falam em
“autonomia” e não em “independência”, pois o governo
definiria a meta de inflação a ser perseguida em cada período
(um simples número), outorgando ao BC liberdade para
persegui-la. Evitaria assim a “subordinação” do BC,
apresentada de forma caricatural na entrevista de Guido
Mantega. João Sicsú, da Universidade federal do Rio de
Janeiro, responde:
“Os
argumentos que contrapõem independência e subordinação são
meros ‘bodes’. Nenhum economista sensato os defende. A
alternativa à autonomia do BC é uma ação coordenada
deste com o governo central, ação que teria o objetivo de
auxiliar o Executivo a manter a estabilidade monetária e
buscar o pleno emprego.”
Um
segundo argumento risível é o que associa BC independente e
atração de capitais internacionais. A China não preenche
esse requisito (e realiza extensos controles sobre a movimentação
de capitais), mas recebe, de longe, a maior fatia de
investimentos externo no mundo. A Argentina adotou uma versão
radicalizada de BC independente (o chamado currency board)
e sofreu uma gigantesca fuga de capitais.
10.
Os argumentos mais sofisticados favoráveis à autonomia do BC
podem ser divididos em dois grupos: aqueles que lançam mão
das experiências norte-americana e européia, e dizem
pretender nos aproximar delas, e aqueles que buscam razões na
teoria econômica. Comecemos pelos primeiros, descrevendo
resumidamente as arquiteturas institucionais que prevalecem
nos Estados Unidos, no Brasil e na Europa. Ficará clara a falácia
do primeiro grupo de argumentos.
Nos
Estados Unidos, o Banco Central (chamado Sistema de Reserva
Federal, ou FED) é formalmente independente, mas essa
independência é definida em lei de uma forma que o força a
operar todo o tempo, necessariamente, em articulação com o
Departamento do Tesouro (correspondente ao nosso Ministério
da Fazenda). O arranjo é muito inteligente. O FED é obrigado
por lei a perseguir simultaneamente três objetivos: utilização
plena da capacidade produtiva instalada, pleno emprego da força
de trabalho e estabilidade de preços. O Tesouro, por sua vez,
também por lei, é obrigado a cumprir o Orçamento da União
votado pelo Congresso e aprovado pelo presidente da República;
para isso, por meio de contas bancárias, recolhe tributos da
sociedade e paga as despesas previstas no Orçamento. Se, por
qualquer motivo, as despesas orçamentárias superam em algum
momento o recolhimento de tributos, as contas ficam negativas,
mas permanecem sendo movimentadas normalmente. Nesses casos,
bastante comuns, o Tesouro estará operando em déficit,
automaticamente coberto por meio de uma conta de compensação
alimentada pelo FED. As ordens de pagamento do Tesouro serão
sacadas pelo público (entrando em circulação sob a forma de
expansão de moeda fiduciária) ou recolhidas às reservas
bancárias (se permanecerem depositadas nas contas dos seus
destinatários). O aumento das reservas pressionará para
baixo a taxa básica de juros. Agindo em estrita observância
daqueles três objetivos acima definidos – crescimento,
emprego e inflação – cabe então ao FED decidir se prefere
enxugar essa liquidez aumentada (para evitar pressões
inflacionárias, por exemplo) ou sancioná-la (para estimular
a demanda agregada, por exemplo). Ele faz isso manejando a
compra e venda de títulos no open market: vende títulos
para recolher dinheiro, ou compra títulos para injetar
dinheiro. Assim, através do open, o FED regula a
liquidez da economia norte-americana, e com ela a taxa de
juros, de modo a buscar aqueles três objetivos, sempre
dando cobertura à execução, pelo Tesouro, do Orçamento
aprovado pelos poderes democráticos da República – a
Presidência e o Congresso.
O
FED – cujos comitês decisórios são muito abertos à
participação da sociedade – só é independente para tomar
certas decisões operacionais, mas, como se vê, o arcabouço
legal e institucional em que ele opera disciplina essa
independência e o força a atuar de forma intimamente
articulada com o Tesouro na busca de objetivos que interessam
à sociedade. Esse arranjo permite que ambas as instituições
atuem de forma permanentemente anticíclica. Em períodos de
baixa atividade econômica (e baixo recolhimento de impostos)
o Tesouro tende a incorrer em déficit, as reservas bancárias
tendem a aumentar, e as taxas de juros, operadas pelo FED,
tendem a baixar. E vice-versa.
Os
dois segredos principais do arranjo norte-americano são
esses: objetivos múltiplos para o BC (crescimento da produção,
pleno emprego e estabilidade de preços) e alta coordenação
entre a ação do BC e do Tesouro para garantir a execução
do Orçamento da União e possibilitar a adoção de políticas
flexíveis, potencialmente favoráveis ao crescimento.
11.
O caso brasileiro é o exato oposto. Embora o nosso Banco
Central não seja formalmente independente (ao contrário do
FED!), ele já é independente de fato (ao contrário do FED!!)
e atua de forma permanentemente pró-cíclica (ao contrário
do FED!!!), de modo a impedir a execução do Orçamento
da União (ao contrário do FED!!!!) e tendo como objetivo
formal apenas a estabilidade de preços (ao contrário do FED!!!!!).
Falamos
em objetivo formal, pois a preocupação fundamental do BC
brasileiro é garantir condições para rolar as dívidas
financeiras do Estado. Aqui, tudo começa na definição
das taxas de juros que o sistema financeiro considere
adequadas para aceitar essa rolagem. Como a conta de capital
do balanço de pagamentos está aberta (decisão estapafúrdia
que data do governo Collor), os aplicadores financeiros ameaçam
fugir a qualquer momento para o dólar. Assim, podem impor ao
Estado brasileiro um alto prêmio para aceitar permanecer com
seus ativos denominados em reais. Este prêmio são taxas de
juros suficientemente atrativas, que sejam um múltiplo da
taxa básica paga no sistema internacional aos ativos
denominados em dólar. Para suportar essas altas taxas, que
realimentam a própria dívida, o Estado brasileiro necessita
retirar do seu Orçamento vultosos recursos. Assim, parte
significativa dos tributos cobrados pelo Estado à sociedade
se esteriliza na forma do famoso superávit primário (R$ 70
bilhões em 2003), que comprime todas as demais despesas
previstas. O Orçamento da União, aprovado pelos poderes
democráticos da República, nunca pode ser cumprido, nem
longinquamente. É esquartejado na boca do caixa para caber
nos recursos que sobram depois que o Estado paga aqueles juros
acordados entre o BC e o sistema financeiro. Para completar a
lambança, o BC brasileiro (também ao contrário do FED!!!!!!)
está proibido de financiar o Tesouro, que por isso não tem a
possibilidade de operar em déficit.
Resultado:
o Brasil não pode fazer políticas econômicas anticíclicas
e funciona sem Orçamento. Ao longo do ano, estabelece-se uma
permanente briga de foice para definir quais gastos serão de
fato efetuados pelo poder público e quais serão “contingenciados”.
Dono da chave do cofre, o Ministério da Fazenda apequena e
subordina os demais ministérios, e o Executivo apequena e
subordina o Legislativo. Tudo depende de decisões casuísticas,
que não são transparentes, não obedecem a um projeto e
abrem os espaços para a perpetuação do fisiologismo político.
Nesse contexto, a democracia brasileira continua a ser o mesmo
“tremendo equívoco” apontado por Sérgio Buarque de
Hollanda há setenta anos, pois os poderes democráticos da
República não controlam, de fato, os gastos públicos.
Na
prática, o Estado brasileiro já é comandado por um Banco
Central independente, opaco, intimamente ligado ao sistema
financeiro, permanentemente contracionista, inimigo do
crescimento e socialmente irresponsável. Trata-se de um
problema, não de uma solução.
A arquitetura institucional da nossa política econômica está
virada de ponta-cabeça, com o rabo (o sistema financeiro,
através do Banco Central) abanando o cachorro (o Estado
nacional e a economia real). A autonomia do BC brasileiro
consagrará em lei essa aberração, tornando-a praticamente
irreversível. Não há nada, nessa operação, que nos
aproxime do inteligente modus operandi do Estado
norte-americano. Ocorrerá justamente o contrário.
12.
O caso europeu, como dissemos, é diferente dos dois
analisados acima. Lá o Banco Central é de fato independente,
tanto do ponto de vista legal como real. A situação, que não
analisaremos em detalhes aqui, explica-se por estar a Europa
em um estágio intermediário de construção de um Estado
continental, tendo como ponto de partida Estados nacionais. Já
há um Banco Central Europeu, mas os Tesouros (ou seja, os
“ministérios da Fazenda”) ainda permanecem submetidos aos
Estados nacionais constituintes da União Européia. Essa
assimetria impede a adequada coordenação de políticas monetárias
e fiscais. Sem essa coordenação (que, como vimos, o Estado
norte-americano realiza com grande competência), a Europa
também perdeu a capacidade de realizar políticas anticíclicas
eficazes e deixou-se prender na armadilha do baixo
crescimento. A própria Alemanha já percebeu a necessidade de
livrar-se desse arranjo, mas todos os movimentos da União
Européia, por sua própria natureza, são especialmente
complexos e lentos. A situação é tão diferente da
brasileira que não vale a pena analisá-la detidamente. Mesmo
assim, na comparação com o Brasil, uma coisa chama a atenção.
O Tratado de Maastrich permite que os Estados da União Européia
operem com déficit (ou seja, folga orçamentária)
de até 3% do PIB; mesmo assim, hoje todos o consideram
draconiano demais, contracionista demais; provavelmente ele
será revisto para ampliar essa folga. Já o acordo do Brasil
com o FMI, feito pelo governo Lula, estabeleceu como piso um superávit
(ou seja, aperto orçamentário) de 5% do PIB. Assim, o
Estado brasileiro tornou-se o maior inimigo do crescimento
brasileiro. As metas Maastrich, para nós, seriam consideradas
nababescas. Nem os chamados radicais do PT ousariam propô-las.
13.
Vamos olhar agora, rapidamente, para os argumentos teóricos
favoráveis à autonomia do BC. Eles pressupõem que o
crescimento econômico não é influenciado por variáveis
monetárias e que os agentes agem segundo as chamadas
“expectativas racionais”, sendo por isso capazes de
antecipar (e neutralizar) as ações das autoridades econômicas.
Deixada livre de interferências, a economia de mercado
tenderia a um ponto de equilíbrio em que oferta e demanda
globais se encontrariam, ponto correspondente à plena utilização
dos fatores de produção disponíveis. Nessa concepção, políticas
monetárias expansionistas não têm efeito a longo prazo
sobre as variáveis reais da economia – produto e emprego
–, mas apenas sobre as variáveis nominais, como o nível de
preços. Daí a idéia de subordinar a ação do BC, apenas, a
metas de inflação, isolando-o das pressões da sociedade por
crescimento e emprego.
Estabelece-se
então a seguinte seqüência conceitual: (a) o único parâmetro
relevante para a ação do BC é a estabilidade de preços;
(b) o único instrumento relevante para obter a estabilidade
de preços é o manejo da taxa de juros; (c) as taxas de
juros, por sua vez, devem ser usadas tendo em vista, apenas, o
controle dos preços, sem levar em conta seu impacto sobre as
demais variáveis da economia nacional. O melhor instrumento
para operar dessa forma é, de fato, um Banco Central
independente, que realize políticas monetárias sempre com viés
contracionistas, definidas unilateralmente, de modo a retirar
graus de liberdade das demais autoridades econômicas. Um dos
defensores desse caminho, o economista norte-americano
ultraliberal C. Goodhart, deixa claro que o objetivo é
institucionalizar orçamentos governamentais enxutos e políticas
monetárias que persigam objetivos apenas nominais. Problemas
de crescimento e emprego desaparecem do horizonte. São
deixados para o mercado.
Note-se
que, se a justificativa teórica para um BC autônomo é tão
conservadora, essa medida só tem sentido se servir para
perpetuar no comando da instituição diretorias igualmente
conservadoras. Não teria sentido lógico instituir a
autonomia do BC para entregá-lo em seguida a um grupo de
economistas progressistas, que defenda a coordenação entre
as políticas fiscal e monetária, bem como a adoção de
metas de emprego e crescimento, pois esses economistas, por
coerência, precisariam fazer logo o movimento inverso,
reintegrando a ação do BC à ação do governo como um todo.
O debate doutrinário, portanto, esconde opções políticas
claras. Um BC autônomo será sempre um bastião da direita.
Que bastião!
14.
Todas as afirmações teóricas feitas acima sempre foram
contestadas pela maioria dos economistas – inclusive muitos
conservadores – e são politicamente orientadas para fazer
prevalecer, em qualquer circunstância, os interesses do
sistema financeiro sobre os interesses da sociedade. É fácil
ver que as diferentes políticas monetárias não são
neutras. A riqueza está distribuída em diversas formas de
ativos, cuja rentabilidade relativa é alterada por essas políticas.
Isso conduz a economia real a assumir diferentes configurações.
“Dependendo
dos resultados dessas políticas”, lembram Marco Crocco e
Frederico Jayme Jr, da Universidade Federal de Minas Gerais,
“expresso na rentabilidade comparada da posse de cada um
desses ativos, podem existir situações nas quais os
capitalistas prefiram valorizar sua riqueza em ativos cuja
ampliação não implica a geração de emprego, como é o
caso dos ativos financeiros. Ou seja, a política monetária
tem o poder de permitir que a valorização do capital ocorra
no chamado circuito financeiro e não no circuito produtivo.
(...) As políticas monetárias podem, indefinidamente,
possibilitar aos capitalistas a ampliação de sua riqueza
pela demanda de ativos cuja oferta não implica a contratação
de mão-de-obra. Esta é a lógica do equilíbrio com
desemprego, descrita por Keynes. Aceitar que a política monetária
possa afetar permanentemente o nível de atividade econômica
implica aceitar que é necessária a coordenação entre essa
política e a política fiscal.”
Podemos
concluir dizendo que a estabilidade de preços é um dos
parâmetros relevantes para a ação do BC, que o manejo
das taxas de juros é um dos instrumentos para obtê-la
(pois há inflações, como a brasileira, que não são
causadas por pressão de demanda) e que, portanto, o uso desse
instrumento deve ser calibrado com outros e levar em conta as
demais variáveis relevantes da economia nacional. “Nem o BC
pode, sozinho, controlar inflação de custos e inflação
inercial sem agravar de forma intolerável a recessão e o
desemprego, nem a atividade econômica pode recuperar-se sem
uma política ativa de expansão da moeda e do crédito pelo
BC”, lembra José Carlos de Assis.
É
clara a necessidade de coordenar políticas monetária,
cambial e fiscal, todas elas subordinadas a metas de
desempenho econômico e social definidas pelo poder político
da Nação. Por isso o Banco Central não pode ser autônomo.
Dizemos mais: ele nunca é autônomo. Subtraído do
controle do Estado, ele passa a gravitar, automaticamente, na
órbita do sistema financeiro nacional e internacional,
especialmente em uma economia tão vulnerável como a
brasileira. Impedir que isso seja fixado em lei, tornando-se a
partir daí um padrão impermeável à decisão política da
sociedade, é o mais importante foco de resistência, hoje, ao
avanço do neoliberalismo no Brasil.
15.
Entre os economistas não vinculados ao mercado financeiro há
uma esmagadora opinião – talvez uma unanimidade – contrária
à autonomia legal do BC. Ela inclui nomes de grande prestígio,
a começar por Celso Furtado, que chamou essa operação de
“privatização do Banco Central”. Se, à revelia dessa
opinião qualificada, o governo enviar o projeto ao Congresso,
estará confirmando um padrão de comportamento já observado
antes. As reivindicações de mudanças em favor dos
interesses populares caem sempre na vala comum dos pedidos de
paciência, recheados de metáforas e conselhos de auto-ajuda,
pois o presidente Lula reafirma nesses casos que as mudanças
têm de ser feitas devagar, com muita cautela e
responsabilidade, sem açodamento. A caneta de Lula, nesses
casos, é pesada, lenta – imóvel, a bem dizer. Já as mudanças
em favor das elites, mesmo radicais, controversas e profundas
– como a reforma da Previdência, a liberação dos transgênicos,
a anistia aos devedores do INSS, a lei de falências –, são
decididas com inusitadas rapidez e agilidade. A caneta de
Lula, nesses casos, torna-se leve, ágil, nervosa,
infinitamente submissa. O governo do PT sabe que os poderosos
não têm a paciência dos humildes nem se deixam embalar com
historinhas de futebol.
No
caso, porém, da entrega do Banco Central ao sistema
financeiro, de papel passado, todas as fronteiras da decência
terão sido ultrapassadas. É de alta traição aos interesses
da Nação que se trata.
PS.
Este texto estava pronto quando a edição de 12 de janeiro do
jornal O Estado de S. Paulo saiu com a seguinte
manchete de primeira página: “País recebe pressão pela
autonomia do Banco Central”. Diz a matéria: “O presidente
do Banco Central, Henrique Meirelles, foi questionado ontem,
na Suíça, por representantes dos maiores bancos do mundo
sobre quando a independência da instituição será, de fato,
uma realidade.” Nada mais é preciso dizer. Está claro a
quem tal decisão interessa.