Nane:
A
difícil travessia de um colono do café

Em
torno das multidões de italianos que em fins do Oitocentos
partiram para estabelecerem-se no Brasil, primeiro como
pequenos camponeses proprietários, a seguir como colonos do
café, construiu-se espécie de legenda dourada onde o sucesso
é resultado praticamente incontornável.
Não
há quase espaço para a derrota nesses relatos construídos
sobretudo como epopéia individual e linear onde religião, raça
e vocação ao trabalho impõem-se invariavelmente sobre os
desafios da travessia terrível, das florestas impenetráveis,
do clima inclemente, da falta de apoio das autoridades
italianas e brasileiras.
A
história e a memória das multidões de imigrantes que
conquistaram sobretudo o direito de levarem a vida para diante
através de trabalho incessante, em terras suas ou alheias, são
em geral contaminadas pelas generalizações das narrativas
apologéticas sobre o sucesso sobretudo de comerciantes e
industrialistas ítalo-brasileiros.
História
esquecida
São
precisamente instantes dessa história em geral esquecida de
luta, trabalho e exploração que o intelectual italiano
Bortolo Belli [1851-1911], emigrado no Brasil em 1888,
apresentou sob a forma de folhetim, nas edições do semanário
Avanti!, frágil tentativa de reprodução paulista do homônimo
porta-voz do socialismo italiano.
A
síntese ficcional de Belli da imigração vêneta para os
cafezais paulistas venceu definitivamente a prova do tempo. Um
século e três dedos após o início da publicação, Nane:
la storia di un colono mantém galhardamente sua tensão
narrativa, nascida do registro ficcional, por escritor de
recursos, de matéria de rico conteúdo, sobre a qual possuía
indiscutível conhecimento.
O
breve folhetim é construído como relato epistolar auto-biográfico
de Nane, camponês nascido em janeiro de 1856, na Marca
Trevigiana, no Vêneto, então sob o domínio austríaco.
Muito mais do que o mero fato de o autor ser natural da planície
trevigiana sugere
que boa parte do relato apóie-se em experiências por ele
vivida.
A
difícil travessia
Efetivamente,
a publicação, em 1900-1, da série – uma introdução e
dezesseis breves capítulos – abre-se com a notícia e a
apresentação, pelo editor do Avanti! paulista, da
carta-oferecimento de colono-correspondente de apresentar o
relato sintético de sua vida, primeiro no norte da Itália, a
seguir, nos cafezais paulistas.
Nane:
la storia di un colono divide-se em dois grandes momentos. Nos onze
primeiros capítulos, o protagonista relata, na primeira
pessoa, suas mais recuadas recordações, vividas no seio de
uma família camponesa pobre. Os cinco últimos capítulos são
dedicados a sua travessia atlântica, já adulto, com esposa e
filhos, e à dura vida de colono do café no interior
paulista.
Belli
fora secretário comunal em Piavon, província de Treviso,
região envolvida pela emigração americana e publicara
artigos e estudos sobre a difícil situação do mundo rural
regional. Compreende-se o mais amplo espaço e o maior sucesso
narrativo da descrição da vida do camponês no Velho Mundo,
em relação à parte brasileira do relato.
A
mais sintética apresentação da vida do imigrante do café
foi apoiada na visita a colonos de fazendas paulistas que por
Belli empreendeu, após desembarcar em Santos, em junho de
1888, após dezesseis dias de travessia realizada na segunda
classe do vapor G.B. Lavarello, e nos estudos realizados nos
anos seguintes de sua residência no Brasil.
A
vida de Nane
Nane
nasce
no seio de família de arrendatários meeiros pobres. Então,
os mezzadri constituíam vasto segmento social desfavorecido
em relação aos pequenos e médios camponeses proprietários,
mas privilegiado se comparado aos trabalhadores sem terra –
braccianti –, obrigados a alugar seus braços em difíceis
condições.
As
primeiras recordações de Nane, aos quatro ou cinco anos de
idade, são ligadas à vigilância de um alguns perus,
trabalho que seu irmão mais jovem herdará quando ele, aos
sete ou oito anos, passa a "guadagnarsi la polenta"
pastoreando as poucas ovelhas da família.
A
forma de narrativa biográfica retrospectiva permite que Nane
comente a situação de profunda exploração em que viviam.
Com indignação, assinala que grande parte dos frutos da
pequena criação animal em que se ocupava também era
entregue aos donos da terra, sob a forma de renda ou de
homenagem.
A
pátria grande
É
duro o olhar retrospectivo do narrador sobre as condições de
vida do mezzadro. Nane recorda a alimentação quase reduzida
à polenta e como ele e os irmãos pequenos viviam sujos,
molambentos e descuidados, já que sua mãe ocupava-se
intensamente nos campos ao lado do pai, personagem quase
ausente na narrativa.
Adolescente,
o protagonista vê ao longe as tropas italianas passarem pela
estrada principal, próxima à residência familiar, quando da
incorporação de Veneza ao Reino da Itália. A distância do
observador não é apenas geográfica. As tropas passam e a
vida do camponês pouco se modifica sob domínio austríaco ou
italiano, a não ser para pior.
Como
funcionário público, jornalista e estudioso, Bortolo Belli
apoiara a emigração, na qual via eventual caminho para a
melhoria das difíceis condições de existência do mundo
camponês, após o fracasso das reformas dos anos 1880.
Intelectual laico de orientação socialista, opunha-se ao
despotismo dos proprietários e ao apoio que recebiam do
poderoso clero rural.
Sofrimento
eterno
Longos
parágrafos da narrativa são dedicados à crítica da rústica
vida religiosa do camponês vêneto, regida pelo pároco e
apoiada pela autoridade doméstica dos mais idosos. Nane
refere-se retrospectivamente à pregação religiosa voltada
para a solução das questões materiais e defensora do
quietismo social camponês, também abraçado pelos
professores rurais.
Relembra
o poder da água e do ramo de oliva bentos contra o demônio,
as tempestades e as más colheitas, as orações em latim
incompreensível, o lento avançar das contas do "rosário
debaixo do alpendre da casa, na boa estação, ou no estábulo,
no inverno [...]", junto aos seus familiares.
As
experiências Belli quando menino alimentaram certamente o
relato das recordações religiosas de Nane-criança que fala
das promessas do capelão de paraíso para os que aceitassem a
vida de "sofrimentos e obediência cega" e o inferno
para os que se rebelassem contra ela. Discurso comum ao meio
urbano e rural e aos séculos 19 e 20.
Assume
grande força na narrativa o registro das recordações de
religiosidade apoiada no terror de penas eternas
materializadas profundamente no imaginário infantil enquanto
as felicidades do paraíso permaneciam construções sempre
fluídas e imateriais, quase como impossíveis de serem
conquistadas e vividas.
Servir
à pátria
Por
quase cinco anos, Belli cumprira serviço militar em regimento
italiano de cavalaria. O mesmo triste caminho, na mesma arma,
durante o mesmo longo tempo, percorrido por Nane, em condições
certamente mais difíceis das vividas pelo autor, de extração
social superior à de seu triste herói.
Por
três capítulos, o protagonista relata a triste sorte do
jovem camponês arrolado em serviço militar que podia chegar
a sete anos! Compreende-se o amplo espaço dedicado ao tema. A
decisão de libertar os braços dos filhos do longo período
improdutivo apoiava comumente a decisão paterna de emigrar.
Nane
descreve com pertinência a inscrição na "lista de
leva", em obediência à lei militar, o sorteio que
definia quem se apresentaria à fatídica seleção médica, o
"sentimento de desgosto" dos jovens recrutas
obrigados a despirem-se publicamente para servem examinados,
sob a guarda de carabineiros armados.
"Observados
como um cavalo de montaria ou de tração, estendidos os braços
para frente, para trás e para cima, medida a altura do corpo,
a periferia do tórax e, às vezes, atropelados como porcos
que vão ao matadouro, se ouvia dizer a palavra sacramental: Hábil."
O
burguês e o vilão
A
avaliação de Nene-Belli da vida na cavalaria italiana é
contraditória. O serviço é visto como leve, se comparado à
"vida fatigosa do camponês".
Superado o velho hábito rural vêneto de silenciar a
fome com um "grosso volume de polenta", o rancho
militar era sofrível, à exceção do café displicentemente
produzido no mesmo caldeirão em que se cozinhara a refeição!
A
denúncia do narrador recai sobretudo na discriminação de
classe, materializada nos privilégios dos recrutas burgueses
que contavam com a proteção da oficialidade e com as
remessas familiares de dinheiro e alimentos, enquanto o
conscrito de origem camponesa, abandonado a sua sorte, era
objeto de toda sorte de exações.
Nos
tempos seguintes à Unificação, o serviço militar, que
retirava "às vezes, se não o único, o principal
sustento" da economia doméstica camponesa, constituiu-se
sobretudo de infindáveis anos de cuidados burocráticos às
armas, ao uniforme, às normas disciplinares, entrecortados de
exercícios militares e raras manobras.
Nane
viveu sob armas a vida comum do soldado pobre. Sem receber
qualquer ajuda de família que apenas conseguia sobreviver, o
soldo bastava-lhe apenas para comprar o jornal "para
saber um pouco como andava o mondo", adquirir algum
"tabaco de mastigar" e beber raramente um
"copinho de aguardente".
Saudades
da mãe
A
pobreza e a discriminação social e lingüística do mundo
urbano encerravam comumente o jovem camponês em um doloroso
auto-isolamento e dolorosa saudade da casa paterna e,
sobretudo, da mamma, registrada no cancioneiro militar
italiano do século 19. "Renunciava a sair a passeio nos
dias e horas de saída livre [...]."
Porém,
para o recruta camponês, o serviço militar era também
momento de possível superação lingüística e cultural da
estreiteza do mundo rústico, devido ao contato com novos e
variados hábitos, experiências e conhecimentos. Não raro, a
alfabetização abria-lhe o caminho à leitura do jornalismo
social.
O
auto-isolamento de Nane foi rompido devido à amizade com
Mario, jovem "sargento degradado", de origem urbana
e remediada, que o introduz na idéia da necessidade da luta e
da organização social: "[...] todos têm a obrigação
de trabalhar, têm o direito de viver [...] chegamos a um
tempo em que não se pode e não se deve submeter-se a nenhuma
tirania".
Nane
agradece jamais ter sido "chamado a reprimir levante
popular" e põe fim à narrativa de sua vida militar
afirmando que "todo o meu tempo de serviço militar
passei entre Milão e Pádua" "como humilde
soldado". "Sofri punições injustas, engoli
reprimendas insultuosas, mas nada me ocorreu de extraordinário."
A
queda de Nane
O
retorno de Nane à casa paterna, seu casamento, a tentativa de
autonomia política diante dos proprietários da terra, que se
organizam para manter na nova ordem o velho monopólio da vida
política, precedem a degradação social vivida por ele e
seus familiares devido ao rompimento patronal do arrendamento
da propriedade explorada. Em junho de 1884, a família é
obrigada a entregar os animais e as instalações produtivas
e, quatro meses mais tarde, a moradia.
Nane-Belli
descreve assim um dos milhares de abandonos forçados por núcleo
familiar de propriedade explorada por longas décadas levando
consigo não mais do que as humildes vestimentas pessoais, os
rústicos utensílios domésticos, os pobres instrumentos
manuais de trabalho, ou seja, a contabilidade final de uma
exploração desapiedada do trabalhador.
Sem
encontrar propriedade para arrendar, a família divide-se para
tentar sobreviver como assalariados. Então, Nane aluga cabana
de palha construído em "fração de estrada" e
inicia a triste vida de bóia-fria italiano, personagem que a
língua local definia como um bisnada. Ou seja, um duplamente
nada!
Agoniado
pela desocupação e pelos baixos salários, sobretudo
invernais, Nane emigra, durante o inverno, acompanhado de
outros trabalhadores sem terra da região para trabalhar nas
represas em construção no Danúbio, na Hungria. Os
movimentos migratórios não permanentes eram tradição muito
antiga em importantes regiões do norte italiano.
Indo
e vindo
Após
seis meses longe da casa, alimentando-se de "pão preto e
batatas", Nane retorna gloriosamente com 360 liras na
bolsa, o equivalente ao salário anual de um bracciante que
trabalhasse domingos e dias santificados! Após verão
despreocupado, e a formação de um pequeno rebanho de quatro
ovelhas, Nane retorna confiante à Hungria para repetir o
sucesso do ano anterior.
O
desprezo e a indiferença das autoridades austro-húngaras e
italianas com os salários não pagos devido à fuga de
contratador desonesto obriga os trabalhadores a uma longa e
dolorosa caminhada, a pé, por cinqüenta quilômetros, da
fronteira com a Itália até as aldeias natais. No dia
seguinte à chegada a sua choupana, Nane parte sem repouso à
procura da miserável e não certa paga do jornaleiro.
No
Vêneto, desde meados dos anos 1870, sobretudo o sul do Brasil
era destino preferencial para os camponeses que pensavam e
tinham os recursos necessários para tentar melhor sorte na América.
Fluxo migratório que assumiu caráter de massa ao saber-se,
em fins dos anos 1880, que o governo brasileiro faria-se cargo
das passagens dos trabalhadores que embarcassem para São
Paulo.
Crendo
poder encontrar no Brasil o "Paraíso que o capelão não
soubera jamais" definir, Nane obtém a documentação
necessária, vende as ovelhas para financiar a viagem
terrestre, parte para Gênova, com 31 anos, sua pequena família,
dois sacos de roupa e a capa do colchão. Alguns camponeses da
região, ainda mais pobres, caminham por um mês até o porto
de Gênova!
Férias
pagas
Ao
igual que a documentação primária conhecida, a descrição
de Belli da travessia atlântica no vagaroso vapor Dogaresse
– 28 dias de viagem – contradita os relatos hagiográficos
sobre as terríveis condições de vida a bordo, causa de
mortandade entre os passageiros de terceira classe, não raro
retomados pela memória da imigração.
"A
alimentação era abundante e sã e no momento que o serviço
de bordo foi organizado e que os passageiros
começaram a se acostumar a esse movimento [do barco],
tornara-se uma festa a distribuição das refeições, que
consistiam numa sopa, um pedaço de carne, um pouco de vinho e
pão à vontade, duas vezes ao dia. Logo, os nossos organismos
tão enfraquecidos começavam a avantajar-se."
"[...]
essa vida de bordo, isto é, [...] foi salutar para todos nós
– apesar de viajarmos apertados como as sardinhas no barril
– seja pelo efeito de um tratamento, que, mesmo não sendo
bom, era sempre melhor que o das nossas casas, seja pelo
efeito do descanso e do ar salino, o fato é que todos nos
sentíamos mais fortes, mais robustos e felizes".
A
avaliação da viagem gratuita e o balanço demográfico da
travessia de Belli são definitivamente positivos. Sobre a última
questão, Nane anota: "[...] fora duas únicas crianças
mais golpeadas e mortas de sarampo, não tivemos que registrar
nenhuma outra morte, mas, ao contrário, cinco nascimentos e,
assim, a desembarcar fomos mais três passageiros, isto é,
1225."
América!
América!
As
observações de Nane repetem os temas da narrativa
tradicional sobre a chegada ao Brasil. Ele registra o impacto
sobre os viajantes da vegetação luxuriante da costa, dos
primeiros negros avistados no porto, da língua desconhecida;
a rápida e superficial inspeção sanitária; a deficiência
das acomodações em Santos; a viagem noturna de trem para São
Paulo; a breve estada na Hospedaria do Bom Retiro; as
promessas do fazendeiro ao contratar os colonos recém-chegados.
A
viagem para a fazenda cafeicultora no interior paulista
permite sensível registro da percepção dos imigrantes da
regressão sócio-espacial do Brasil em relação ao norte da
Itália. Em vez da planície povoada de aldeias, moradias e
caminhos, o Nane e seus companheiros engolfam-se "no meio
aos bosques que não terminavam mais" e "um
suceder-se de montanhas até o perder-se dos olhos."
O
espanto do narrador diante da carreta brasileira que
transportava bagagens, mulheres e crianças materializa o
descompasso entre a rústica sociedade escravista brasileira e
a agricultura camponesa do norte italiano: "[...] carroça
de duas rodas de uma forma pré-histórica, e que nunca havia
visto, e, ao mover-se, fazia um tal barulho, uma infernal
chiadeira, que pensei logo que aqui no Brasil não existisse
substância untuosa para evitar aquele quebra-tímpanos
[...]."
Nos
três últimos capítulos dedicados quase totalmente à vida
do colono italiano na fazenda cafeicultura, Belli retoma e
radicaliza o processo de êxtase e agonia vivido por Nane e
sua família na Itália, objetivando assim a moral socialista
da narrativa, ou seja, que o trabalho assalariado é
inevitavelmente motivo de exploração pelos proprietários e
pelo capital.
Ascensão
e queda
Após
período em que a natureza exuberante e o trabalho duro
permitem a Nane indiscutível progresso – alimentação rica
e abundante; cavalo de montaria; cabras, porcos, aves domésticas;
quinhentos mil reais no bolso! – um novo administrador, um
novo patrão, novas condições de trabalho, a violência do
poder político e judiciário a servido dos proprietários
ensejam retorno à velha vida de trabalho apenas para a
sobrevivência.
Uma
precipitação das condições de trabalho que o narrador
sugere não como resultado dos azares da sorte, mas como
produto, em última instância, da superação definitiva do
passado escravista através da constituição plena no Brasil
de mercado de trabalho livre, apoiado em vasto exército rural
de reserva criado sobretudo com a chegada de multidões de
emigrados.
"Já
no início do ano de 1893, resolvemos pedir ao patrão para arrumar as contas, porque nós percebíamos que nossa
posição ficava cada dia mais difícil, enquanto que ao patrão
não podia faltar mão de obra, já que, em Santos, chegavam
os vapores cheios [...]."
Nane:
la storia di un colono constituí valiosa síntese das razões gerais do
movimento migratório e da sorte de parte da imigração vêneta,
sobretudo paulista. Porém, o autor deixa claro que o destino
de Nane não foi o da inteira imigração, ao referir-se àqueles
que conquistaram a sonhada propriedade da terra e, até mesmo,
tornaram-se pequenos, médios e, até mesmo, grandes
fazendeiros, igualmente desapiedados com seus patrícios.
Coisa
nossa
A
ficção de Belli destaca-se também como depoimento da luta
de idéias na Itália entre as classes fundamentais da cidade
e do campo na transição do século 19 para o 20. Uma
realidade que, transportada em parte para o Brasil ensejará,
em terra e situação diversas, novos e ricos fenômenos.
A
breve história de Nane no Velho e no Novo Mundo fornece
igualmente ao leitor contemporâneo combustível para o
conhecimento da realidade brasileira extra-imigratória,
sobretudo considerando-se que o natural no Brasil da época
era comumente extraordinário para o recém-chegado.
As
condições do trabalhador escravizado permanecem objeto de
forte debate historiográfico. Repetindo a célebre e fina
apologia negreira de Gilberto Freyre em Casa-grande &
Senzala, trabalhos acadêmicos atuais constroem visões
fantasiosamente gentis do trato, alimentação e trabalho do
cativo.
Após
sua chegada, Belli entrevistou colonos que não raro haviam
trabalhado próximos ou até mesmo ao lado dos últimos
cativos paulistas. É dura a avaliação da escravidão
brasileira desses homens e mulheres habituados à rústica e
trabalhosa vida do camponês pobre italiano. Avaliação posta
à crítica pública, doze anos após a Abolição.
Tronco
e bacalhau
"Quantas
vezes tivemos que fremir de indignação por ter que assistir
àqueles maus tratos e eu entendi então como nos mantinham
afastados dos desgraçados escravos, submetidos às torturas
do tronco e do bacalhau, para que não tivéssemos que ser
freqüentemente espectadores de tantas maldades."
Belli
transforma seu protagonista em pequeno personagem do 13 de
maio – que define como momento "memoravelmente histórico".
Nane participa da festa promovida pelos cativos da fazenda
onde trabalhava. "Na fazenda os negros libertados fizeram
festa – Se bebeu, se cantou, se dançou e eu participei
daquela alegria [...]."
Exemplo
do ideário socialista oitocentista, centrado na fé e na
solidariedade dos trabalhadores, não raro por sobre os
limites materiais e imateriais, Nane surpreende-se com a
imposição senhorial de novas contradições ao mundo do
trabalho, apenas superada a divisão histórica entre
trabalhadores livres e escravizados vivida no Brasil.
Na
sua avaliação da transição do escravismo ao trabalho
livre, Nane-Belli enfatiza com surpresa que alguns dos poucos
ex-cativos que permaneceram nas fazendas após a Abolição
foram armados e utilizados pelos proprietários como capangas
contra os colonos, em vez de associar-se a eles, como
"bons companheiros de trabalho".
***
Emilio
Franzina, historiador de profissão, professor da Università
degli Studi de Verona, autor de vasta e prestigiada
bibliografia sobre a imigração italiana e vêneta, recolheu,
em 1985, nas páginas de coleção do Avanti! paulista, a
introdução e os dezesseis capítulos de Nane: la storia
di un colono.
Cento
e três anos mais tarde, Franzina presta importante serviço
à historiografia italiana e brasileira concluindo o resgate
desse valioso documento, ao publicá-lo pela Editora Agorà
Factory, de Vicenza, sob o título La storia di un colono [190
pp, 15 euros], fartamente discutido e comentado.
Assim
sendo, para que se conclua essa merecida homenagem aos
milhares de Nanes que enriqueceram com seu suor essa terra,
sem jamais terem realmente usufruído do produto de seu
trabalho, falta apenas alma solidária que traduza ao português a obra
de Bartolo Belli que, também enfeitiçado pela realidade
nacional, viveu no Brasil até quase sua morte, na Itália, em
1911.