Pelo
menos quinhentos
Agora
em que os dias de inverno estão finalmente chegando ao fim,
pelo menos aqui no sul dos Estados Unidos, especialmente na
cidade de San Antonio, no Texas, as pessoas começam a fazer
preparativos para as muitas fiestas que a cidade promove. De
fato, San Antonio, uma cidade híbrida, bilíngüe, com ruínas
de várias missões espanholas dentro do seu território, com
um monumento nacional de grande importância — o Álamo —
e com um comércio e vida cultural cheios de energia, pode
gabar-se de ser uma das cidades mais festeiras do país. Também
aqui se faz a maior caminhada cívica em toda a nação no dia
19 de janeiro, para festejar Martin Luther King Jr. Agora em
fevereiro, já estamos fazendo planos de visitar o que se
chama Hill Country — “As Colinas” — que ficam ao norte
da cidade, e que no começo da primavera explodem em cores,
com as flores do campo cobrindo todos os espaços.
Mas, por enquanto, a imagem das flores é somente um
sonho. Os dias são curtos, as noites frias. E em algumas
partes do país o inverno está especialmente implacável, com
tempestades de neve e gelo, e temperaturas atingindo recordes
de mais de 30 graus abaixo de zero.
Aqui
em San Antonio, quase México, não temos estas dores de cabeça.
Tudo segue como sempre, e sabemos que depois de fevereiro, os
dias vão ficar mais longos, os passarinhos vão voltar às árvores,
os primeiros brotos vão aparecer nas árvores. Mas, este ano,
que parece normal, não é. Há um mal-estar pairando, sempre
presente. Por enquanto, ainda é uma coisa sutil, mas que vai
aumentando a cada dia, como uma dor de cabeça que fica sempre
no jeito, pronta pra voltar à tona. E volta à tona freqüentemente.
Esta dor é a guerra. Ou, para sermos mais exatos, as guerras.
San
Antonio, além das belezas culturais e naturais que a cidade
possui, também tem duas bases militares. Isto significa que
aqui podemos ver um número muito grande de pessoas servindo o
exército ou a aeronáutica. Eles podem quase se mesclar com a
população em geral, especialmente a masculina, porque
ultimamente há uma moda de cabelo cortado à escovinha
(talvez influência do militarismo). Em algumas ocasiões, é
fácil distinguir os militares dos civis, porque andam sempre
em grupo, e têm um ar de preocupação. A maioria dos que
andam pela cidade aqui em San Antonio são bastante jovens,
quase nenhum acima de sargento. No dia 31 de dezembro, nos
encontramos com um grupo de uns 20, todos juntos, com as
namoradas e amigos, comemorando nas beiras do Caminho do Rio,
a passagem do ano. À meia noite, nos abraços gerais, muitas
das moças acompanhando os soldados choravam.
E
por que choravam? Choravam como têm chorado as mulheres cujos
homens têm sido mandados para a guerra, desde que nós
humanos inventamos esta maneira terrível de acertar contas,
resolver pendências, afirmar o que uma nação ou um grupo de
nações acham que é certo. Choravam como têm chorado antes,
durante e depois da guerra, quando seus maridos, namorados,
filhos, voltam mutilados por dentro e por fora. Choravam
porque, depois que tudo é dito e re-dito, a guerra é uma
coisa imbecil de maneira geral, e estas guerras do momento são
ainda mais imbecis, sem outro propósito que os ditados por um
governante que não foi eleito, mas que se impôs ao povo do
país.
E
quem são estes jovens — homens e mulheres! — que são
mandados em lotes ao Iraque a ao Afeganistão? Houve um tempo,
durante a guerra do Vietnam, em que uma loteria determinava
quem ia, para haver uma certa sombra de justiça. Logicamente,
esta loteria (chamada “the draft”) de azar tinha todos os
tipos de furos, que determinaram que os filhos dos ricos podia
escapar da guerra, ou eram colocados em batalhões elite que
realmente não tinham nada que ver com a ação. Mas pelo
menos teoricamente todos tinham que ir, se fossem chamados.
Atualmente, não existe mais o draft. Todos os que vão à
guerra e servem nas forças armadas o fazem voluntariamente.
Mas daí temos que verificar o que significa a palavra
“voluntário” neste contexto.
O
governo americano, depois do fiasco do Vietnam, em que quase
sessenta mil soldados americanos, e centenas de milhares de
vietnamitas morreram, aboliu o draft. Em seu lugar, foi
desenvolvido um sistema em que a pessoa se alista em um dos
ramos das forças armadas, treina durante certos períodos, e
recebe dinheiro para custear os estudos superiores. Alguns
terminam a faculdade, continuam nas forças armadas, seguindo
carreira. E, logicamente, com os preços altíssimos dos estudos
universitários nos Estados Unidos, a não existência de
universidades federais ou estaduais gratuitas como no Brasil,
é possível dizer que a maioria absoluta dos soldados
americanos vêm das classes pobres, e são gente que tem
interesse em melhorar de vida, conseguir um título universitário,
progredir. E quem são os que estão nas classes pobres neste
país? Principalmente os negros, e os latinos, e também
brancos pobres, muitos vindo de gerações de miséria e falta
de educação formal. Não me recordo de haver jamais visto um
soldado de origem asiática. As razões devem ser muitas, e
complexas, e há livros interessantíssimos a respeito. O que
importa mais urgentemente, nesta discussão, é que os pobres
são os soldados, os que vão ao campo de batalha.
Então
atolamos neste momento em que a guerra “contra o
terrorismo” está sendo mais ferozmente lutada em duas
frentes. Quando o fanhosíssimo presidente que mal sabe falar
a própria língua — eleito em circunstâncias no mínimo
suspeitas, diga-se de passagem — vai diante das câmeras, e
fala da “war on terrr”, ele se alguma vez decidisse ser
verdadeiro, no seu sotaque às vezes incompreensível nos
diria que o que temos é uma guerra contra os pobres. Os
pobres daqui contra os pobres de lá, dos outros dois países.
Ganhe quem ganhar, perca quem perder, sempre os pobres perderão.
Quando
“herr president” vai diante das câmeras e começa a falar
como o país está muito mais seguro agora que Saddam Hussein
foi apreendido, ele jamais explica como os interesses
especiais — coincidentalmente associados com o partido
republicano — têm sido agraciados com muitos contratos para
a “reconstrução” do Iraque, a ser paga com o dinheiro da
venda do petróleo a ser extraído do Iraque. Ao mesmo tempo,
ele pede ao Congresso americano para liberar mais bilhões de
dólares para financiar a reconstrução do Iraque. Em outras
palavras: a mesma conta está sendo paga duas vezes. O governo
de George W. Bush, que tomou o poder dizendo que ia trazer de
volta a dignidade à Casa Branca, inaugurou o maior período
de peleguismo, de caça às bruxas, e de vingança pura e
simples na história recente dos Estados Unidos.
E
enquanto isso se passa no grande palco de Washington, um
momento! Quem é este fanhoso falando em vários lugares do país,
em campanhas para arrecadar fundos para sua campanha
eleitoral? O homem consegue estar em vários lugares ao mesmo
tempo. E, apesar da crescente revelação que o Iraque não
tinha armas de destruição em massa, nem armas biológicas,
nem como faze-las, e apesar do fato de o país ter perdido
mais de 3 milhões de empregos durante esta administração,
os cofres da campanha de George W. Bush continuam crescendo.
Tem
horas, aqui nos Estados Unidos, que parece que estamos vivendo
dentro de um pesadelo que lembra o romance “1984”, em que
o duplo-falar, duplo-pensar, não só é possível, mas mandatório.
Mas, acima de tudo, estamos vivendo em um tempo em que um
homem de qualidades intelectuais medíocres, associado aos
piores elementos políticos da sociedade, aos interesses
financeiros, conseguiu transformar a conta corrente de seu país
de crédito em descrédito, tanto na parte financeira - com a
destruição do balanço positivo deixado pelo governo de Bill
Clinton e a transformação das finanças do país em total
caos -, como na parte política international, em que ele
transformou rapidamente o sentimento de solidariedade que o
mundo sentiu pelo país depois de setembro de 2001 em
ressentimento, senão ódio. Nada mal para um homem que só
conseguiu terminar (com uma atuação medíocre) a faculdade
na universidade de Yale graças às influências do seu papai;
que arruinou as finanças no Texas durante seu governo, e que
só conseguiu ganhar a presidência graças a muitas mumunhas
cometidas no estado da Flórida, só por acaso governada pelo
seu maninho.
Este
é um período muito ruim na história americana. Talvez seja
o pior desde que esta terra virou um país. Claro, os Estados
Unidos já lutaram muitas guerras impopulares, já cometeram
muita barbaridade contra países indefesos, já exportaram
tortura e morte. Mas ainda tinham, até recentemente, um certo
cachê de dignidade. Com esta presidência, este cachê
praticamente se esvaiu. E quem fica pra levar na cabeça os
resultados?
Não
vão ser os “debiús” do país, os tais como o presidente,
filhinhos de papai. Pra estes, sempre vai haver uma maneira de
fugir, se esconder, contratar uma companhia de relações públicas
para explicar, confundir, distrair. Quem vai pagar o pato,
quem está pagando o preço, pra variar, são os filhos dos
pobres na linha de frente. Estes que são explodidos em
pedacinhos todos os dias, no Iraque, no Afeganistão.
O
governo de George W. Bush conseguiu, em um mandato,
transformar os Estados Unidos em um país ao mesmo tempo mais
perigoso, e mais vulnerável. Conseguiu também colocar todos
os seus cidadãos — os que estão a favor, assim como os que
estão contra sua política — em perigo. Agora, qualquer um
pode ser alvo, e muitos no mundo o consideram justificado.
(Alunos da minha universidade foram quase atacados na Europa,
barrados de lugares públicos, vaiados, acostados,
simplesmente porque são americanos.) Tudo o que foi feito de
bom até agora por este país, pode ser esquecido, e só as
sandices deste governo ficam na memória. Não é à-toa que a
maioria dos americanos que eu conheço se dizem envergonhados
de seu país neste momento. Alguns com quem eu tenho
conversado me dizem francamente que se pudessem, trocariam de
nacionalidade.
Enquanto
isso, já quinhentos não vão voltar do Iraque. Alguns deles
poderiam ter sido meus alunos. Alguns deles poderiam ter sido
meus vizinhos. Todos deixaram uma família, ou uma noiva,
amigos, um emprego, uma vida por viver. E uma pergunta: por quê?
Morreram e mataram numa guerra inglória, começada com uma
mentira, em nome de um governo desprezível, para dar mais
oportunidades de lucros a companhias que não se importam de
que cor o dinheiro venha manchado, desde que venha dinheiro.
Mas
a primavera vem aí. Quando as flores do campo saírem mais
uma vez, precisamos, todos nós, americanos do norte, centro e
sul, ver no seu retorno uma indicação de que sempre há
esperança que a primavera vai voltar. Mesmo durante o inverno mais frio, as sementes continuam na
terra. Candidatos de outros partidos começam a se mover, as
campanhas dos democratas está esquentando, chamando a atenção.
Então, quem sabe, quando novembro chegar, o povo americano
vai falar com seu voto e ajudar-se a si mesmo, e ao mundo
inteiro, a sair deste pesadelo coletivo.
Mas,
outra vez mas, pra não terminarmos fazendo o “jogo de
Polyana,” convém não esquecer que as eleições neste país
são um bicho muito complicado, e que o dinheiro fala mais
alto que a razão. Convém não esquecer que os interesses
especiais, neste tempo de corrupção à solta, vão conseguir
manter os cofres republicanos abarrotados, a máquina
eleitoreira bem engraxada. Embora qualquer imbecil pode ver
que “debiú” tem causado mais miséria e dor ao povo
americano, não seria uma surpresa completa se ele se
reeleger. Podemos ter certeza que, em algum lugar deste país
já existe um grupo maquinando como ter certeza que o status
quo vai continuar. Se
tal acontecer, infelizmente, muito breve sentiremos saudade do
tempo em que só quinhentos não iam voltar.