Por EVA PAULINO BUENO

Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teachi ng in Japan (JPGS, 2003)

 

Pelo menos quinhentos

 

Fonte: http://www.banheiro.bloger.com.brAgora em que os dias de inverno estão finalmente chegando ao fim, pelo menos aqui no sul dos Estados Unidos, especialmente na cidade de San Antonio, no Texas, as pessoas começam a fazer preparativos para as muitas fiestas que a cidade promove. De fato, San Antonio, uma cidade híbrida, bilíngüe, com ruínas de várias missões espanholas dentro do seu território, com um monumento nacional de grande importância — o Álamo — e com um comércio e vida cultural cheios de energia, pode gabar-se de ser uma das cidades mais festeiras do país. Também aqui se faz a maior caminhada cívica em toda a nação no dia 19 de janeiro, para festejar Martin Luther King Jr. Agora em fevereiro, já estamos fazendo planos de visitar o que se chama Hill Country — “As Colinas” — que ficam ao norte da cidade, e que no começo da primavera explodem em cores, com as flores do campo cobrindo todos os espaços.  Mas, por enquanto, a imagem das flores é somente um sonho. Os dias são curtos, as noites frias. E em algumas partes do país o inverno está especialmente implacável, com tempestades de neve e gelo, e temperaturas atingindo recordes de mais de 30 graus abaixo de zero.

Aqui em San Antonio, quase México, não temos estas dores de cabeça. Tudo segue como sempre, e sabemos que depois de fevereiro, os dias vão ficar mais longos, os passarinhos vão voltar às árvores, os primeiros brotos vão aparecer nas árvores. Mas, este ano, que parece normal, não é. Há um mal-estar pairando, sempre presente. Por enquanto, ainda é uma coisa sutil, mas que vai aumentando a cada dia, como uma dor de cabeça que fica sempre no jeito, pronta pra voltar à tona. E volta à tona freqüentemente. Esta dor é a guerra. Ou, para sermos mais exatos, as guerras.

San Antonio, além das belezas culturais e naturais que a cidade possui, também tem duas bases militares. Isto significa que aqui podemos ver um número muito grande de pessoas servindo o exército ou a aeronáutica. Eles podem quase se mesclar com a população em geral, especialmente a masculina, porque ultimamente há uma moda de cabelo cortado à escovinha (talvez influência do militarismo). Em algumas ocasiões, é fácil distinguir os militares dos civis, porque andam sempre em grupo, e têm um ar de preocupação. A maioria dos que andam pela cidade aqui em San Antonio são bastante jovens, quase nenhum acima de sargento. No dia 31 de dezembro, nos encontramos com um grupo de uns 20, todos juntos, com as namoradas e amigos, comemorando nas beiras do Caminho do Rio, a passagem do ano. À meia noite, nos abraços gerais, muitas das moças acompanhando os soldados choravam.

E por que choravam? Choravam como têm chorado as mulheres cujos homens têm sido mandados para a guerra, desde que nós humanos inventamos esta maneira terrível de acertar contas, resolver pendências, afirmar o que uma nação ou um grupo de nações acham que é certo. Choravam como têm chorado antes, durante e depois da guerra, quando seus maridos, namorados, filhos, voltam mutilados por dentro e por fora. Choravam porque, depois que tudo é dito e re-dito, a guerra é uma coisa imbecil de maneira geral, e estas guerras do momento são ainda mais imbecis, sem outro propósito que os ditados por um governante que não foi eleito, mas que se impôs ao povo do país.

E quem são estes jovens — homens e mulheres! — que são mandados em lotes ao Iraque a ao Afeganistão? Houve um tempo, durante a guerra do Vietnam, em que uma loteria determinava quem ia, para haver uma certa sombra de justiça. Logicamente, esta loteria (chamada “the draft”) de azar tinha todos os tipos de furos, que determinaram que os filhos dos ricos podia escapar da guerra, ou eram colocados em batalhões elite que realmente não tinham nada que ver com a ação. Mas pelo menos teoricamente todos tinham que ir, se fossem chamados. Atualmente, não existe mais o draft. Todos os que vão à guerra e servem nas forças armadas o fazem voluntariamente. Mas daí temos que verificar o que significa a palavra “voluntário” neste contexto.

O governo americano, depois do fiasco do Vietnam, em que quase sessenta mil soldados americanos, e centenas de milhares de vietnamitas morreram, aboliu o draft. Em seu lugar, foi desenvolvido um sistema em que a pessoa se alista em um dos ramos das forças armadas, treina durante certos períodos, e recebe dinheiro para custear os estudos superiores. Alguns terminam a faculdade, continuam nas forças armadas, seguindo carreira.  E, logicamente, com os preços altíssimos dos estudos universitários nos Estados Unidos, a não existência de universidades federais ou estaduais gratuitas como no Brasil, é possível dizer que a maioria absoluta dos soldados americanos vêm das classes pobres, e são gente que tem interesse em melhorar de vida, conseguir um título universitário, progredir. E quem são os que estão nas classes pobres neste país? Principalmente os negros, e os latinos, e também brancos pobres, muitos vindo de gerações de miséria e falta de educação formal. Não me recordo de haver jamais visto um soldado de origem asiática. As razões devem ser muitas, e complexas, e há livros interessantíssimos a respeito. O que importa mais urgentemente, nesta discussão, é que os pobres são os soldados, os que vão ao campo de batalha.

Então atolamos neste momento em que a guerra “contra o terrorismo” está sendo mais ferozmente lutada em duas frentes. Quando o fanhosíssimo presidente que mal sabe falar a própria língua — eleito em circunstâncias no mínimo suspeitas, diga-se de passagem — vai diante das câmeras, e fala da “war on terrr”, ele se alguma vez decidisse ser verdadeiro, no seu sotaque às vezes incompreensível nos diria que o que temos é uma guerra contra os pobres. Os pobres daqui contra os pobres de lá, dos outros dois países. Ganhe quem ganhar, perca quem perder, sempre os pobres perderão.

Quando “herr president” vai diante das câmeras e começa a falar como o país está muito mais seguro agora que Saddam Hussein foi apreendido, ele jamais explica como os interesses especiais — coincidentalmente associados com o partido republicano — têm sido agraciados com muitos contratos para a “reconstrução” do Iraque, a ser paga com o dinheiro da venda do petróleo a ser extraído do Iraque. Ao mesmo tempo, ele pede ao Congresso americano para liberar mais bilhões de dólares para financiar a reconstrução do Iraque. Em outras palavras: a mesma conta está sendo paga duas vezes. O governo de George W. Bush, que tomou o poder dizendo que ia trazer de volta a dignidade à Casa Branca, inaugurou o maior período de peleguismo, de caça às bruxas, e de vingança pura e simples na história recente dos Estados Unidos.

E enquanto isso se passa no grande palco de Washington, um momento! Quem é este fanhoso falando em vários lugares do país, em campanhas para arrecadar fundos para sua campanha eleitoral? O homem consegue estar em vários lugares ao mesmo tempo. E, apesar da crescente revelação que o Iraque não tinha armas de destruição em massa, nem armas biológicas, nem como faze-las, e apesar do fato de o país ter perdido mais de 3 milhões de empregos durante esta administração, os cofres da campanha de George W. Bush continuam crescendo.

Tem horas, aqui nos Estados Unidos, que parece que estamos vivendo dentro de um pesadelo que lembra o romance “1984”, em que o duplo-falar, duplo-pensar, não só é possível, mas mandatório. Mas, acima de tudo, estamos vivendo em um tempo em que um homem de qualidades intelectuais medíocres, associado aos piores elementos políticos da sociedade, aos interesses financeiros, conseguiu transformar a conta corrente de seu país de crédito em descrédito, tanto na parte financeira - com a destruição do balanço positivo deixado pelo governo de Bill Clinton e a transformação das finanças do país em total caos -, como na parte política international, em que ele transformou rapidamente o sentimento de solidariedade que o mundo sentiu pelo país depois de setembro de 2001 em ressentimento, senão ódio. Nada mal para um homem que só conseguiu terminar (com uma atuação medíocre) a faculdade na universidade de Yale graças às influências do seu papai; que arruinou as finanças no Texas durante seu governo, e que só conseguiu ganhar a presidência graças a muitas mumunhas cometidas no estado da Flórida, só por acaso governada pelo seu maninho.

Este é um período muito ruim na história americana. Talvez seja o pior desde que esta terra virou um país. Claro, os Estados Unidos já lutaram muitas guerras impopulares, já cometeram muita barbaridade contra países indefesos, já exportaram tortura e morte. Mas ainda tinham, até recentemente, um certo cachê de dignidade. Com esta presidência, este cachê praticamente se esvaiu. E quem fica pra levar na cabeça os resultados?

Não vão ser os “debiús” do país, os tais como o presidente, filhinhos de papai. Pra estes, sempre vai haver uma maneira de fugir, se esconder, contratar uma companhia de relações públicas para explicar, confundir, distrair. Quem vai pagar o pato, quem está pagando o preço, pra variar, são os filhos dos pobres na linha de frente. Estes que são explodidos em pedacinhos todos os dias, no Iraque, no Afeganistão.

O governo de George W. Bush conseguiu, em um mandato, transformar os Estados Unidos em um país ao mesmo tempo mais perigoso, e mais vulnerável. Conseguiu também colocar todos os seus cidadãos — os que estão a favor, assim como os que estão contra sua política — em perigo. Agora, qualquer um pode ser alvo, e muitos no mundo o consideram justificado. (Alunos da minha universidade foram quase atacados na Europa, barrados de lugares públicos, vaiados, acostados, simplesmente porque são americanos.) Tudo o que foi feito de bom até agora por este país, pode ser esquecido, e só as sandices deste governo ficam na memória. Não é à-toa que a maioria dos americanos que eu conheço se dizem envergonhados de seu país neste momento. Alguns com quem eu tenho conversado me dizem francamente que se pudessem, trocariam de nacionalidade.

Enquanto isso, já quinhentos não vão voltar do Iraque. Alguns deles poderiam ter sido meus alunos. Alguns deles poderiam ter sido meus vizinhos. Todos deixaram uma família, ou uma noiva, amigos, um emprego, uma vida por viver. E uma pergunta: por quê? Morreram e mataram numa guerra inglória, começada com uma mentira, em nome de um governo desprezível, para dar mais oportunidades de lucros a companhias que não se importam de que cor o dinheiro venha manchado, desde que venha dinheiro.

Mas a primavera vem aí. Quando as flores do campo saírem mais uma vez, precisamos, todos nós, americanos do norte, centro e sul, ver no seu retorno uma indicação de que sempre há esperança que a primavera vai voltar.  Mesmo durante o inverno mais frio, as sementes continuam na terra. Candidatos de outros partidos começam a se mover, as campanhas dos democratas está esquentando, chamando a atenção. Então, quem sabe, quando novembro chegar, o povo americano vai falar com seu voto e ajudar-se a si mesmo, e ao mundo inteiro, a sair deste pesadelo coletivo.

Mas, outra vez mas, pra não terminarmos fazendo o “jogo de Polyana,” convém não esquecer que as eleições neste país são um bicho muito complicado, e que o dinheiro fala mais alto que a razão. Convém não esquecer que os interesses especiais, neste tempo de corrupção à solta, vão conseguir manter os cofres republicanos abarrotados, a máquina eleitoreira bem engraxada. Embora qualquer imbecil pode ver que “debiú” tem causado mais miséria e dor ao povo americano, não seria uma surpresa completa se ele se reeleger. Podemos ter certeza que, em algum lugar deste país já existe um grupo maquinando como ter certeza que o status quo vai continuar. Se tal acontecer, infelizmente, muito breve sentiremos saudade do tempo em que só quinhentos não iam voltar.

 

 

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