Por
SILVIA BEATRIZ ADOUE
Nasceu em Buenos Aires, Argentina. É  Mestre em Integração na América Latina, pelo PROLAM-USP, doutoranda em Literatura  Hispano-americana, pela FFLCSH-USP, e professora do curso de Letras do CEUCLAR

 

 

Budapest*, Migrações e Identidades Fraturadas

 

Em Lejana[1], conto de Julio Cortázar, uma mulher insone tenta dormir recorrendo a jogos de palavras, anagramas. Deleita-se especialmente em descobrir palíndromos[2]: átale demoníaco Caín, o me delata. Ou bem: amigo, no gima. Ou ainda: salta Lenin el atlas. Ela, Alina Reyes, uma mulher que pode decidir o que fazer com a sua vida, uma mulher de posses, uma mulher desejada, uma mulher com êxito. Porém, quando concilia o sono, sonha com uma mulher que sofre numa ponte gélida de Budapest e que, de alguma maneira inexplicável, também é ela. Durante a vigília, Alina esquece da mulher distante, mas pela noite retorna o frio e a pobreza e a dor. Alina decide casar com um homem a quem não sabe se ama, pede para ele que a leve a Budapest, onde há uma ponte e alguém... É apenas um sonho, não acredita muito nele, os dados da sua vida se impõem, reais. Nessa cidade distante e fria, sai para passear sozinha pela ponte sobre o Danúbio. Ali encontra uma mendiga. Alina a abraça. Quando se separam, quem chora é ela, que fica na ponte, mendiga em Budapest. Enquanto a outra, a distante, afasta-se com o corpo de Alina Reyes sem olhar para trás.

O duplo registro (o real e o maravilhoso) tão próprio de Cortázar parece confirmar, com o estilo que lhe é peculiar, as teses de Piglia sobre o conto. Para Ricardo Piglia um conto é construído a partir de duas tramas. A história 1, que corre na superfície do relato, e a história 2, contada em surdina e que só é revelada no desenlace[3]. Em Lejana, o duplo registro coincide também com a identidade dupla entre uma rica argentina e uma mendiga de Budapest.

Anos após a publicação do conto de Cortázar, Kieslovsky, o diretor polonês, filmaria A dupla vida de Veronique[4], sobre duas mulheres, uma de Paris e outra de Praga. Cada uma pressente, desde a infância, a existência da outra. No caso, o registro maravilhoso irrompe no contexto de uma procura de identidade européia, durante a queda do muro de Berlim e a integração conflituosa da Europa Oriental à Europa Ocidental.

A Buda-Pest de Lejana, e também do último romance de Chico Buarque, enquanto cidade, parece carregar, muito mais do que Praga, a sua condição de dupla identidade. Nela confluem duas culturas, duas cidades. Uma de raiz européia e outra de raiz mais oriental. Ambos relatos referem-se, de maneiras diferentes, a identidades divididas e, ainda que aparentemente distantes das questões históricas, soam a metáfora profética em épocas de grandes migrações, como a que vivemos, conseqüência do desemprego, dos mercados fluídos e da chamada “desterritorialização” dos capitais. Hoje, como aconteceu com outras levas de migrantes, grandes massas de trabalhadores vivem experiências de bilingüismo e esforços de assimilação como uma exigência para melhorar sua condição de “empregabilidade”.

O tema do duplo tem sido explorado de várias maneiras na literatura, mas o recente romance de Chico Buarque associa a dupla identidade com a experiência de bilingüismo. Descreve algumas das tensões que vive o migrante quando tenta se apropriar de uma segunda língua. Processo que é relatado com detalhe em Budapest.

No começo, o léxico é pobre; a sintaxe, tortuosa. Mas há uma vontade. A vontade de se apropriar da música da língua. Ao mudar de idioma, ao começar a pensar na segunda língua, o migrante percebe logo a dificuldade de relatar no novo código aquilo que lhe aconteceu “na língua materna”. Consegue, em troca, com bastante facilidade, relatar na nova língua os novos acontecimentos, que vive “nesse idioma”. Mas, para narrar os fatos anteriores, precisa traduzir. Toda tradução é imperfeita. Há um deslocamento de significados.

Há ainda outra questão. A dificuldade que o migrante experimenta para se exprimir na nova língua induz os interlocutores a lhe tratarem feito criança. Ele mesmo sente-se infantil. Como as crianças, apenas balbucia palavras e frases desconexas, e a precariedade da sua fala supõe uma pobreza de experiências a serem exprimidas. De fato: é mais fácil falar em Húngaro dos fatos vividos na Hungria. Então, a todos parece que a vida do migrante começou na hora de por os pés no novo país. O resto da sua história parece duvidosa, incerta, uma vez que incertas são as frases com que as relata.

As pessoas tornam-se íntimas de uma língua quando conseguem “ser íntimas” nessa língua. Só que esse é um caminho sem retorno: depois de cantarmos ao nosso filho, ou xingarmos, ou, na solidão, numerarmos (“um, dois, três,...”) numa língua que não é a materna, já nada será como antes. Resulta estranho, depois, voltar a ser íntimo na língua original. E então percebemos que sempre e em todo lugar seremos estrangeiros.

Quando “adquirimos” outra língua como própria vivemos a experiência de uma certa inocência perdida e irrecuperável. Nesse sentido, o migrante sente-se mais próximo de um outro migrante Um finlandês que mora em Taiwan é mais próximo de um turco residente em Estocolmo ou de um maori morando na Califórnia. Ainda que não conheça uma palavra dos seus idiomas, o finlandês sabe o que sentem esses nômades da língua feito ele.

Se uma língua demarca um universo de relatos reais ou borgeanamente possíveis, um retorno ao país natal está signado por uma série de mal-entendidos. Toda língua falada é dinâmica e sofre em pouco tempo as modificações que novos acontecimentos e novas possibilidades provocam. Ao retomar, a nossa fala soa arcaica aos velhos conhecidos e as pessoas mais novas atribuem o nosso deslocamento lingüístico a uma certa “identidade/cultura” adquirida no “exterior”. Falamos de experiências desconhecidas, com registros incomuns: nossa língua materna ficou parada no tempo. Não se atualizou. Isto é, já não somos fluentes na nossa primeira língua. (Exprimimo-nos nela como numa língua morta.) E também não o somos na segunda. Nela falta-nos essa fluência sedimentada desde a infância. Essa nova condição, irreversível, transmuta-se numa identidade para sempre fraturada.

Por outro lado, há uma vantagem (alguma o migrante tinha de ter). A distância gerada por uma língua em relação ao universo da outra favorece um olhar crítico, reflexivo, para com as duas culturas.

Os esqueras[5] usam boina, mas, quando estão fora da sua terra, usam uma boina bem maior. O nosso sotaque estrangeiro é a nossa boina esquera. A resistência à perda completa da identidade, como afirma Chico Buarque num trecho do seu romance.

Mas, o fato de falar simplesmente em segunda “língua” parece ignorar a variedade de registros possíveis. Sempre há, entre todos eles, algum que nos resulta mais acolhedor, onde nos sentimos “em casa”. Nele, o nosso sotaque estropiado minimiza-se. É o registro que encontra melhor correspondência com o mundo afetivo da nossa infância. E é esse registro acolhedor que nos faz sentir bem instalados no próprio prumo, é nesse que o próprio discurso se constrói.

Voltando à teoria de Piglia, se nos fosse dado simplificarmos o enredo do romance e pensarmos nele como num conto, poderíamos dizer que em Budapest a história 1 é a de um brasileiro que quer se tornar húngaro e, depois de vários percalços, o consegue e vive feliz para sempre. A história 2 é a de um ghost writter brasileiro que quer levar seus procedimentos profissionais ao virtuosismo, aprendendo a falar húngaro feito húngaro. Quando o consegue, sua identidade e sua história fraturam-se para sempre.

Os elementos comuns a ambas cadeias de causalidade possuem, às vezes, significados diferentes numa história e na outra. O desenlace pode ser considerado, numa leitura superficial, como “um final feliz”. Dentro da história contada em surdina, mais parece com os finais daqueles romances de Paul Auster, onde tudo caminha irremediavelmente para um estado de desordem, entrópico[6]. Um tipo de nomadismo cultural que não gera uma nova identidade “híbrida”, como anunciam os otimistas, senão uma hiperfragmentação cada vez maior no plano individual e, podemos supor, também no coletivo.

O romance apocalíptico de Chico Buarque, o enamorado da língua, parece falar de nós, migrantes, e da nossa época, quando narra os esforços de um homem que quer ser outro. É o sonho de começar de zero, de chegar sem malas, sem memória, sem fala, como os bebês. E é o pesadelo de não ser mais quem se costumava ser, sem perder por isso a memória de quem se era, e permanecer naquela espécie de limbo que é a condição de nômade da língua, para sempre.


* Refere-se ao romance Budapest: BUARQUE, “Chico”. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

[1] In: Bestiario. 18a. Edição. Buenos Aires: Sudamericana, 1997. Publicado originalmente em 1947, quatro anos antes de ele viajar para Paris

[2] Palavras ou frases que podem ser pronunciadas da mesma maneira se lidas de trás para frente ou de frente para trás.

[3]Teoría del cuento”. In: PIGLIA, Ricardo. Crítica y ficción. Buenos Aires: Fausto, 1993.

[4] La double vie de Véronique, 1991.

[5] Do Euzcadi, país vasco.

[6] Ver AUSTER, Paul. A trilogia de Nova York. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

   

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