Budapest,
Migrações e Identidades Fraturadas
Em
Lejana,
conto de Julio Cortázar, uma mulher insone tenta dormir
recorrendo a jogos de palavras, anagramas. Deleita-se
especialmente em descobrir palíndromos:
átale demoníaco Caín, o me delata. Ou bem: amigo,
no gima. Ou ainda: salta Lenin el atlas. Ela, Alina
Reyes, uma mulher que pode decidir o que fazer com a sua vida,
uma mulher de posses, uma mulher desejada, uma mulher com êxito.
Porém, quando concilia o sono, sonha com uma mulher que sofre
numa ponte gélida de Budapest e que, de alguma maneira
inexplicável, também é ela. Durante a vigília, Alina
esquece da mulher distante, mas pela noite retorna o frio e a
pobreza e a dor. Alina decide casar com um homem a quem não
sabe se ama, pede para ele que a leve a Budapest, onde há uma
ponte e alguém... É apenas um sonho, não acredita muito
nele, os dados da sua vida se impõem, reais. Nessa cidade
distante e fria, sai para passear sozinha pela ponte sobre o
Danúbio. Ali encontra uma mendiga. Alina a abraça. Quando se
separam, quem chora é ela, que fica na ponte, mendiga em
Budapest. Enquanto a outra, a distante, afasta-se com o corpo
de Alina Reyes sem olhar para trás.
O
duplo registro (o real e o maravilhoso) tão próprio de Cortázar
parece confirmar, com o estilo que lhe é peculiar, as teses
de Piglia sobre o conto. Para Ricardo Piglia um conto é
construído a partir de duas tramas. A história 1, que corre
na superfície do relato, e a história 2, contada em surdina
e que só é revelada no desenlace. Em Lejana, o duplo
registro coincide também com a identidade dupla entre uma
rica argentina e uma mendiga de Budapest.
Anos
após a publicação do conto de Cortázar, Kieslovsky, o
diretor polonês, filmaria A dupla vida de Veronique,
sobre duas mulheres, uma de Paris e outra de Praga. Cada uma
pressente, desde a infância, a existência da outra. No caso,
o registro maravilhoso irrompe no contexto de uma procura de
identidade européia, durante a queda do muro de Berlim e a
integração conflituosa da Europa Oriental à Europa
Ocidental.
A
Buda-Pest de Lejana, e também do último romance de
Chico Buarque, enquanto cidade, parece carregar, muito mais do
que Praga, a sua condição de dupla identidade. Nela confluem
duas culturas, duas cidades. Uma de raiz européia e outra de
raiz mais oriental. Ambos relatos referem-se, de maneiras
diferentes, a identidades divididas e, ainda que aparentemente
distantes das questões históricas, soam a metáfora profética
em épocas de grandes migrações, como a que vivemos, conseqüência
do desemprego, dos mercados fluídos e da chamada
“desterritorialização” dos capitais. Hoje, como
aconteceu com outras levas de migrantes, grandes massas de
trabalhadores vivem experiências de bilingüismo e esforços
de assimilação como uma exigência para melhorar sua condição
de “empregabilidade”.
O
tema do duplo tem sido explorado de várias maneiras na
literatura, mas o recente romance de Chico Buarque associa a
dupla identidade com a experiência de bilingüismo. Descreve
algumas das tensões que vive o migrante quando tenta se
apropriar de uma segunda língua. Processo que é relatado com
detalhe em Budapest.
No
começo, o léxico é pobre; a sintaxe, tortuosa. Mas há uma
vontade. A vontade de se apropriar da música da língua. Ao
mudar de idioma, ao começar a pensar na segunda língua, o
migrante percebe logo a dificuldade de relatar no novo código
aquilo que lhe aconteceu “na língua materna”. Consegue,
em troca, com bastante facilidade, relatar na nova língua os
novos acontecimentos, que vive “nesse idioma”. Mas, para
narrar os fatos anteriores, precisa traduzir. Toda tradução
é imperfeita. Há um deslocamento de significados.
Há
ainda outra questão. A dificuldade que o migrante experimenta
para se exprimir na nova língua induz os interlocutores a lhe
tratarem feito criança. Ele mesmo sente-se infantil. Como as
crianças, apenas balbucia palavras e frases desconexas, e a
precariedade da sua fala supõe uma pobreza de experiências a
serem exprimidas. De fato: é mais fácil falar em Húngaro
dos fatos vividos na Hungria. Então, a todos parece que a
vida do migrante começou na hora de por os pés no novo país.
O resto da sua história parece duvidosa, incerta, uma vez que
incertas são as frases com que as relata.
As
pessoas tornam-se íntimas de uma língua quando conseguem
“ser íntimas” nessa língua. Só que esse é um caminho
sem retorno: depois de cantarmos ao nosso filho, ou xingarmos,
ou, na solidão, numerarmos (“um, dois, três,...”) numa língua
que não é a materna, já nada será como antes. Resulta
estranho, depois, voltar a ser íntimo na língua original. E
então percebemos que sempre e em todo lugar seremos
estrangeiros.
Quando
“adquirimos” outra língua como própria vivemos a experiência
de uma certa inocência perdida e irrecuperável. Nesse
sentido, o migrante sente-se mais próximo de um outro
migrante Um finlandês que mora em Taiwan é mais próximo de
um turco residente em Estocolmo ou de um maori morando na
Califórnia. Ainda que não conheça uma palavra dos seus
idiomas, o finlandês sabe o que sentem esses nômades da língua
feito ele.
Se
uma língua demarca um universo de relatos reais ou
borgeanamente possíveis, um retorno ao país natal está
signado por uma série de mal-entendidos. Toda língua falada
é dinâmica e sofre em pouco tempo as modificações que
novos acontecimentos e novas possibilidades provocam. Ao
retomar, a nossa fala soa arcaica aos velhos conhecidos e as
pessoas mais novas atribuem o nosso deslocamento lingüístico
a uma certa “identidade/cultura” adquirida no
“exterior”. Falamos de experiências desconhecidas, com
registros incomuns: nossa língua materna ficou parada no
tempo. Não se atualizou. Isto é, já não somos fluentes na
nossa primeira língua. (Exprimimo-nos nela como numa língua
morta.) E também não o somos na segunda. Nela falta-nos essa
fluência sedimentada desde a infância. Essa nova condição,
irreversível, transmuta-se numa identidade para sempre
fraturada.
Por
outro lado, há uma vantagem (alguma o migrante tinha de ter).
A distância gerada por uma língua em relação ao universo
da outra favorece um olhar crítico, reflexivo, para com as
duas culturas.
Os
esqueras
usam boina, mas, quando estão fora da sua terra, usam uma
boina bem maior. O nosso sotaque estrangeiro é a nossa boina
esquera. A resistência à perda completa da identidade, como
afirma Chico Buarque num trecho do seu romance.
Mas,
o fato de falar simplesmente em segunda “língua” parece
ignorar a variedade de registros possíveis. Sempre há, entre
todos eles, algum que nos resulta mais acolhedor, onde nos
sentimos “em casa”. Nele, o nosso sotaque estropiado
minimiza-se. É o registro que encontra melhor correspondência
com o mundo afetivo da nossa infância. E é esse registro
acolhedor que nos faz sentir bem instalados no próprio prumo,
é nesse que o próprio discurso se constrói.
Voltando
à teoria de Piglia, se nos fosse dado simplificarmos o enredo
do romance e pensarmos nele como num conto, poderíamos dizer
que em Budapest a história 1 é a de um brasileiro que
quer se tornar húngaro e, depois de vários percalços, o
consegue e vive feliz para sempre. A história 2 é a de um ghost
writter brasileiro que quer levar seus procedimentos
profissionais ao virtuosismo, aprendendo a falar húngaro
feito húngaro. Quando o consegue, sua identidade e sua história
fraturam-se para sempre.
Os
elementos comuns a ambas cadeias de causalidade possuem, às
vezes, significados diferentes numa história e na outra. O
desenlace pode ser considerado, numa leitura superficial, como
“um final feliz”. Dentro da história contada em surdina,
mais parece com os finais daqueles romances de Paul Auster,
onde tudo caminha irremediavelmente para um estado de
desordem, entrópico.
Um tipo de nomadismo cultural que não gera uma nova
identidade “híbrida”, como anunciam os otimistas, senão
uma hiperfragmentação cada vez maior no plano individual e,
podemos supor, também no coletivo.
O
romance apocalíptico de Chico Buarque, o enamorado da língua,
parece falar de nós, migrantes, e da nossa época, quando
narra os esforços de um homem que quer ser outro. É o sonho
de começar de zero, de chegar sem malas, sem memória, sem
fala, como os bebês. E é o pesadelo de não ser mais quem se
costumava ser, sem perder por isso a memória de quem se era,
e permanecer naquela espécie de limbo que é a condição de
nômade da língua, para sempre.