Representações
sobre o negro e um novo senso comum
Observamos
nos últimos anos uma preocupação com a valorização e o
crescimento da participação dos negros em vários setores da
sociedade brasileira, tanto nos meios de comunicação quanto
nos espaços político-sociais. Ainda não obtivemos uma
visibilidade à altura de nossa participação no conjunto da
população brasileira e da contribuição que a população
negra trouxe para esta sociedade, porém, como conseqüência da
resistência negra, organizada ou não, estamos assistindo a uma
lenta e consistente superação das representações eurocêntricas
advindas da criação de um sujeito negro colonizado.
No
centro da resistência negra, ao nosso ver, combinada com a ação
política, deve figurar um trabalho contínuo de criação de
novas representações sobre o negro.
As
representações são idéias, conceitos, concepções, valores,
princípios e imagens com os quais pensamos sobre a realidade,
sobre nossas condições de existência. As nossas práticas, as
nossas atitudes cotidianas são orientadas pelas representações
que formamos em nossas mentes sobre quem somos, o que devemos
fazer e como devemos interagir com as outras pessoas.
As
representações estão entre os elementos que formam a
identidade de cada um, mas não são pensamentos inatos que
definiriam a essência de cada ser humano, ou seja, elas são
construídas relacionalmente nas trocas intersubjetivas. Não é
possível viver sem representar, isto é, sem construir um
conjunto de idéias em nossas mentes a respeito de tudo que se
apresenta para nós.
Os
grupos sociais de todos os tipos, de amigos, associações
profissionais, classes sociais, raças, etnias, gêneros etc.,
desenvolvem representações específicas que dão sentido e
explicam a sua posição e dos demais na sociedade. Como nos
ensina Pierre Bourdieu (1988: 156), “as representações dos
agentes variam de acordo com sua posição (e com os interesses
associados a ela)”.
As
representações podem surgir do contexto contemporâneo, das
relações sociais, manifestações culturais e nas relações
econômicas em vigência, mas podem também ter uma origem histórica
anterior, em sociedades anteriores, mitologias e religiões do
passado que chegaram até a atualidade.
Um
exemplo de representação sobre os negros, ainda vigente no
nosso imaginário de origem judaico-cristã, foi assim
sintetizado e analisada por Alfredo Bosi:
O
TEMPO DA ORIGEM: A DANAÇÃO DE CAM
O
destino do povo africano, cumprido através dos milênios,
depende de um evento único, remoto mas, irreversível: a maldição
de Cam, de seu filho Canaã e de todos os seus descendentes. O
povo africano será negro e será escravo: eis tudo...
Transcrevo, em seguida, o passo bíblico fundamental onde a
lenda encontrou sua formulação canônica:
Os
filhos de Noé, que saíram da arca, foram Sem, Cam e Jafé; Cam
é o pai de Canaã. Esses três foram os filhos de Noé e a
partir deles se fez o povoamento de toda a terra.
Noé,
o cultivador, começou a plantar a vinha. Bebendo vinho,
embriagou-se e ficou nu dentro de sua tenda. Cam, pai de Canaã,
viu a nudez de seu pai e advertiu, fora, a seus dois irmãos.
Mas Sem e Jafé tomaram o manto, puseram-no sobre os seus próprios
ombros e, andando de costado, cobriram a nudez de seu pai; seus
rostos estavam voltados para trás e eles não viram a nudez de
seu pai. Quando Noé acordou de sua embriaguez, soube o que lhe
fizera seu filho mais jovem. E disse:
-
Maldito seja Canaã! Que ele seja, para seus irmãos, o último
dos escravos.
E
disse também:
-
Bendito seja Iahweh, o Deus de Sem, e que Canaã seja seu
escravo! Que Deus dilate a Jafé. Que ele habite nas tendas de
Sem, e que Canaã seja teu escravo!
(Genesis,
9, 18-27)
A
narração da Escritura prossegue dando o elenco das gerações
de Cam, Sem e Jafé. “Camitas” seriam os povos escuros da
Etiópia, da Arábia do Sul, da Núbia, da Tripolitânia, da Somália
(na verdade, os africanos do Velho Testamento) e algumas tribos
que habitavam a Palestina antes que os hebreus as conquistassem.
(Bosi, 1996: 257-258)
O
filósofo Cornel West também interpreta a narrativa bíblica
comentada por Bosi, considerando que “... dentro desta lógica,
a pele negra é uma maldição divina devida ao desrespeito e à
rejeição da autoridade paterna” (West citado por Giroux,
1999: 136).
Como
no exemplo acima, podemos analisar as representações
investigando o que elas simulam e o que dissimulam sob o manto
da origem religiosa e mítica da inferiorização dos humanos
considerados negros.
Pesquisar
as representações é investigar como foram geradas
historicamente, quais as influências que receberam de outras
representações, e quais as influências que exercem sobre a
maneira como vivemos e nos relacionamos uns com os outros.
Podemos estudar criticamente as representações sobre o negro
para entendermos como se formam, o que elas mostram, o que
escondem e como influenciam as nossas ações cotidianas.
Não
podemos esquecer que ao elaborarmos as nossas representações
somos influenciados pela cultura da sociedade e do meio cultural
específico em que vivemos, mas também construímos idéias próprias,
novas, a partir da nossa imaginação e de como pensamos a nossa
vivência com os outros indivíduos. As representações formam
um conjunto de saberes sociais incorporados pelo sujeito em sua
vivência, mas reformulados e colocados em ação através de
sua prática cotidiana. Ninguém pode, portanto, se considerar
inocente em relação às representações que cultiva.
Os
negros estão lutando pela alteração das representações
presentes na identidade nacional brasileira segundo as quais são
ainda vistos como cidadãos inferiores. Precisamos continuar o
trabalho de desconstrução das representações dominantes
sobre o ser negro em nosso país, que quase sempre nos associam
às situações hierárquicas econômicas, religiosas, culturais
e estéticas herdadas de nosso passado colonial. A associação
do termo negro à crise, feiúra, pobreza, ignorância e
marginalidade deverá ser revertida.
Como
nos demonstra o estudo de Alfredo Bosi citado acima, a crítica
cultural pode dar uma grande contribuição para a superação
das representações que dominam as nossas identificações e
para a construção de um novo senso comum sobre os negros
brasileiros.