Governo
Lula: gestão da crise estrutural do capitalismo versus transformações estruturais
O
Governo Lula teria duas alternativas: garantir a governabilidade
ou realizar transformações
estruturais radicais para perseguir o compromisso histórico
do Partido dos Trabalhadores
de construir uma sociedade mais justa, fraterna e humana.
O governo optou claramente pela primeira alternativa, a de
garantir a governabilidade. Para garantir a governabilidade, a
estratégia do governo tem sido esta: primeiro, vamos amenizar e
controlar as crises econômica, fiscal, cambial e social
herdadas de governos anteriores. E, depois, pensaremos no
desenvolvimento econômico para gerar empregos e distribuir
renda. Percebe-se que está fora de cogitação para esse
governo realizar transformações estruturais na sociedade
brasileira para eliminar as raízes da miséria.
Não
vou defender aqui a opção feita pelo governo Lula porque nem
sei se vale a pena um partido que tem bases socialistas chegar
ao poder para ficar só administrando a crise de um modelo
perverso de capitalismo. (Não estou afirmando
peremptoriamente que não vale a pena exercer o governo, estou,
apenas, exercitando o pensamento dialético). Mas já que o PT
fez a opção pela governabilidade temos diante de nós duas
questões: 1ª) A estratégia adotada pelo governo Lula vai
garantir mesmo a governabilidade? 2ª) Será que daria para o
governo Lula optar pela segunda alternativa, a de realizar
transformações estruturais radicais, a fim de cumprir com os
compromissos programáticos do Partido dos Trabalhadores?
Análise
da questão 1: a estratégia adotada pelo governo para tentar
garantir a governabilidade
O
governo Lula precisava pôr a casa em ordem porque recebeu uma
herança de governos passados que tem muitas bombas relógio.
Essas bombas tinham um elevado potencial desestabilizador.
Existia a ameaça de volta da inflação; existia a ameaça de
uma crise cambial; existia a ameaça de fuga de capitais em razão
da crise de confiança dos investidores estrangeiros no país;
existia ainda o perigo de uma estagnação econômica
prolongada. Além disso tudo, o governo precisaria suportar em
2003 um orçamento bastante apertado sem condições de
enfrentar a crise econômica de forma mais ativa. Considerando
essas dificuldades, existia no horizonte uma grande
probabilidade de ocorrer uma crise de governabilidade no governo
Lula.
Implementando
a estratégia da governabilidade, o ministro da Fazenda, Antonio
Pallocci, está administrando a economia de acordo com as exigências
do FMI e de acordo com as expectativas do mercado financeiro.
Embora eu não defenda essa política, compreendo a estratégia
do governo Lula. Se o problema da balança de pagamentos não
for bem administrado, se a crise econômica não for
administrada de forma competente, o governo pode enfrentar uma
crise de governabilidade mais pela frente.
A
crise de governabilidade esteve na origem do suicídio de Getúlio
Vargas; é o mesmo tipo de crise que levou o Jânio Quadros a
arriscar o golpe da renúncia; é a mesma crise que levou João
Goulart a tentar uma saída que acarretou a sua deposição
pelos militares em março de 64; a crise de governabilidade
esteve também na origem do impeachment de Collor. A crise de
governabilidade impediu estes presidentes da República de
terminarem seus mandatos. Se o governo Lula não administrar
adequadamente a crise do modelo brasileiro de acumulação de
capital poderá enfrentar também uma crise de governabilidade e
correrá também o risco de não terminar o seu mandato. Era
essa, portanto, a perspectiva sombria que existia no horizonte
para o governo Lula.
Por
enquanto, então, o Governo Lula contribuiu apenas para a
reprodução do padrão de acumulação capitalista dependente
satisfazendo as exigências do FMI e do capital financeiro
internacional. Nesse ponto é preciso reconhecer que o Governo
está sendo muito competente: controlou a inflação e afastou a
ameaça de uma crise cambial; o saldo da balança comercial vai
bater um recorde histórico em 2003; conseguiu um superávit
fiscal até maior do que o exigido pelo FMI e está conquistando
a confiança dos investidores estrangeiros. O risco Brasil vem
caindo gradativamente. Estava em mais de 2000 pontos no ano
passado e hoje está próximo dos 400 pontos. Por isso tudo, os
agentes do mercado financeiro estão eufóricos. O reflexo disso
está no aumento espetacular do índice da Bolsa de Valores de São
Paulo em 2003. O Ibovespa alcança os maiores índices desde a
sua criação superando hoje os 21 mil pontos. E já se fala no
fim da estagnação econômica e na retomada do crescimento do
PIB em 2004.
Mas
tem muita gente perdendo com essa política adotada pelo Governo
petista: a recessão econômica provocou o aumento do
desemprego, a renda dos trabalhadores diminuiu, a classe média
vem sendo sacrificada também com a compressão de sua renda; e
a miséria continua praticamente a mesma porque a política do
governo na área social, além de tímida, é assistencialista.
Em lugar de investir, o governo tem cortado gastos.
Se
o governo não conseguir impulsionar o desenvolvimento econômico
e a distribuição da renda de forma mais ou menos rápida, vai
acabar enfrentando uma crise de governabilidade. E para amenizar
o problema da miséria e do desemprego no Brasil não basta um
crescimento econômico de 3 ou 4% do Produto Interno Bruto como
está sendo esperado para 2004. Em tese, seria preciso a
economia crescer 7% durante vários anos seguidos. E isso, por
enquanto, levando-se em conta as condições existentes, parece
quase impossível. Na verdade, na fase atual de globalização
neoliberal do capitalismo, se o Brasil crescesse 7% ao ano, não
sei se isso possibilitaria gerar empregos suficientes,
distribuir renda e eliminar a miséria que existe no Brasil. O
capitalismo, hoje, está se tornando mais perverso do que já
era.
Análise
da questão 2: daria para o governo Lula optar pela segunda
alternativa, a de realizar transformações estruturais
radicais, a fim de perseguir os compromissos históricos do PT?
Para
levar em consideração os compromissos históricos do Partido
dos Trabalhadores, o governo precisaria romper com o FMI;
precisaria decretar a moratória das dívidas interna e externa;
precisaria organizar uma grande mobilização da sociedade civil
para pressionar o Congresso a fim de realizar reformas radicais
na Constituição e promover transformações estruturais
profundas na economia, na sociedade e na política. Nesse caso,
o governo poderia enfrentar uma crise pior, quem sabe, do que
aquela que a Argentina experimentou. Não sei, nesse caso, se o
Lula e o PT resisitiriam no poder por mais de um mês. Também não
sei se o povo sairia às ruas para defender o governo. Em março
de 1964, praticamente ninguém do povo se importou com a
destituição do presidente da República por um golpe militar
quando este presidente passou a tomar medidas mais radicais.
Análise
teórica da 2ª questão
A
análise teórica da segunda questão envolve a questão dos
limites de um poder institucional. Trata-se de compreender que
significado tem um partido de trabalhadores governar uma nação
capitalista. O que significa um líder sindical e um partido que
tem ou que tinha vocação socialista estarem no comando de um
Estado burguês?
Marx
e Engels achavam que numa sociedade capitalista o Estado é um
instrumento de dominação de classe da burguesia. A principal
função deste Estado seria preservar o capitalismo preservando
a propriedade privada dos meios de produção, — isto é, a
propriedade de fábricas e de fazendas. O Estado, numa sociedade
capitalista, assegura a acumulação de capital e mantém a
economia de mercado. Nas palavras de Marx e Engels, em
sociedades capitalistas, o governo seria uma comissão para
administrar os interesses comuns da burguesia. Em resumo, o
Estado seria um aparelho para garantir os interesses gerais da
classe economicamente dominante.
Se
o Estado é um aparelho a serviço da burguesia, o que pode
fazer um partido de trabalhadores ao chegar ao poder por vias
institucionais assumindo o comando deste Estado? O governo Lula
está no comando de um Estado cuja principal função é
preservar a ordem capitalista, é garantir os interesses gerais
da burguesia, é garantir a dominação da burguesia sobre a
classe trabalhadora.
Convenhamos
que o presidente da República não chegou ao poder através de
uma revolução. Chegou ao poder, sim, por vias institucionais.
Por isso, não governa como ele deseja, está subordinado a uma
Constituição. A Constituição estabelece os fundamentos da
sociedade capitalista. As Forças Armadas garantem, em última
instância, a Constituição. Se o presidente desrespeitar a
Constituição, pode sofrer um golpe militar — se não sofrer
antes um impeachment.
Conclusão:
por não exercer um poder revolucionário, o presidente da República
não pode, pelo menos em tese, fazer reformas estruturais
profundas e radicais no sistema social vigente exercendo um
poder institucional. Existem condicionantes estruturais que só
podem ser transformados através de uma revolução. Mesmo
sabendo que as raízes mais profundas da miséria estão nos
fundamentos da economia capitalista, o presidente não pode
acabar com estes fundamentos por decreto. Não existe verdadeira
revolução social feita a partir de cima.
Todos
sabem que a lógica da acumulação de capital acarreta a
concentração da renda. E hoje, com a globalização que
estabelece tendências neoliberais, a concentração da renda
tende a piorar ainda mais. E um governo que não exerce um poder
revolucionário não vai poder transformar essa lógica perversa
da economia capitalista.
Em
uma economia de mercado as decisões sobre o que, como, quando e
quanto produzir são tomadas por agentes privados sob a pressão
da concorrência de mercado e conforme a relação
oferta-demanda existente em dado momento. Ao tomar essas decisões,
a empresa tem como objetivo acumular capital para sobreviver no
mercado e não para satisfazer as necessidades da população.
Milhões de pessoas podem estar passando fome, mas se essas
pessoas não tiverem uma fonte de renda que lhes dê capacidade
de consumo, as empresas não poderão produzir o que essas
pessoas necessitam. Então, na economia de mercado uma das decisões
mais importantes da sociedade: — o
que produzir —, não é tomada tendo como meta satisfazer
o interesse geral da população. Resumindo o problema: o
Governo Lula não tem poder para acabar com as raízes da miséria
no Brasil porque é um governo subordinado a uma Constituição
que estabelece os fundamentos do sistema social capitalista. E
as raízes da miséria no Brasil estão nestes fundamentos.
Existe
um problema que complica um pouco mais as coisas. O modelo de
capitalismo implantado no Brasil é mais perverso do que aquele
que existe, por exemplo, nos países da Europa. No Brasil, as
contradições do capitalismo são mais graves ainda. Por isso,
temos um dos piores índices de distribuição da renda do
mundo.
Então,
a questão que merece ser discutida é a seguinte: vale a pena o
governo Lula se esforçar para reproduzir e reformar este modelo
perverso de acumulação de capital? É possível amenizar a
pornográfica desigualdade social existente no Brasil sem
realizar transformações radicais neste modelo de capitalismo
dependente do capital financeiro internacional? É possível
desenvolver no Brasil um modelo de capitalismo menos selvagem,
fazendo apenas reformas como as da Previdência Social e do
sistema tributário?
Vou
tentar explicitar a questão rapidamente: na Europa, o
capitalismo surgiu junto com uma classe burguesa que se tornou
economicamente poderosa e fez revoluções para assumir o poder
político afastando a nobreza parasitária do comando do Estado.
Para fazer essas revoluções, a burguesia contou com a ajuda da
classe operária. E, para evitar que a classe operária fizesse
a sua revolução, a burguesia primeiro estabeleceu ditaduras
para reprimir os trabalhadores e depois instituiu a democracia e
concedeu certos direitos civis, políticos e sociais aos
trabalhadores. A exploração das colônias em outros
continentes amenizou a luta de classes dentro do capitalismo
europeu durante um certo tempo.
Aqui
no Brasil, o desenvolvimento do capitalismo ocorreu de forma bem
diferente. O desenvolvimento industrial foi patrocinado pelo
Estado varguista após a revolução de 30. Nunca houve aqui uma
burguesia revolucionária precisando do apoio da classe operária
para fazer uma revolução. Muito pelo contrário, o capitalismo
e a pseudo-burguesia que floresceram no Brasil precisaram da
repressão do Estado sobre a classe operária. Um exemplo foi o
golpe de Estado de março de 64. Quando a classe trabalhadora
começou a despontar no cenário político, veio a repressão e
desmantelou os partidos e sindicatos que lutavam pela
organização dessa classe. E além de não ter colônias
para explorar, o Brasil foi e continua sendo colonizado e
explorado hoje de forma até mais dura do que antigamente.
O
padrão de acumulação capitalista que se desenvolveu no Brasil
sempre foi dependente do Estado e quase sempre foi dependente da entrada de poupança externa no país,
ou seja, foi quase sempre dependente de financiamento e
investimentos estrangeiros. Desde o governo Vargas, no início
dos anos 50, todas
as crises de governabilidade que ocorreram no Brasil tiveram em
sua origem o problema na balança de pagamentos, ou seja, a
falta de entrada suficiente de poupança externa, a falta de
investimentos estrangeiros, a falta de moeda forte. Com a crise
da dívida externa nos anos 80, o Estado brasileiro assumiu
todas as dívidas feitas pelo setor privado no exterior e
tornou-se também dependente da entrada de capital financeiro
externo para conseguir empurrar a dívida pública com a
barriga.
Aí,
vem a seguinte questão: o governo Lula tem poder para
transformar um modelo de acumulação de capital que vem sendo
desenvolvido no país há séculos e que beneficia atualmente
apenas os Bancos, os especuladores e os credores internos e
externos da dívida pública? É possível transformar este
modelo de capitalismo participando de processos institucionais
que têm como função reproduzir esse modelo? Sabe-se que a função
essencial de toda instituição é preservar o sistema social
vigente. É possível transformar a sociedade atuando dentro da
esfera institucional?
Às
vezes, sou tentado a acreditar que uma instituição funciona de
forma semelhante ao processo de fabricação de uma vacina.
Aquele vírus que poderia nos causar uma doença acaba servindo
para fortalecer o sistema imunológico que irá defender o nosso
organismo contra o ataque desse mesmo vírus. Pensando dessa
forma chegaríamos à seguinte conclusão, não sei se certa ou
equivocada: participando do jogo político institucional, o PT
acabou perdendo a sua virulência, quer dizer, deixou de ser
perigoso para o sistema imunológico da sociedade capitalista.
As lideranças foram subordinadas às regras do jogo
institucional, perderam a sua força transformadora e se
tornaram agentes de reprodução do sistema social capitalista.
As instituições políticas transformaram o PT numa espécie de
vacina contra a perturbação da ordem capitalista.
Como
um cidadão que trabalha numa instituição estatal — a
Universidade pública —, sei que é muito difícil deixar de
ser absorvido pelo processo institucional, mas não impossível.
Toda instituição oferece incentivos positivos e negativos e
para conquistar os prêmios que nos são oferecidos precisamos
seguir as regras do jogo. Mas nenhuma instituição tem
mecanismos de controle perfeitos sobre os indivíduos. Podemos
escapar do controle institucional usando de astúcia e
aproveitando situações propícias, mesmo caminhando sempre
sobre o fio de uma navalha. Por isso, acho possível estar
inserido dentro de uma instituição e contribuir de alguma
forma para a transformação da sociedade.
Mas
precisamos entender que um presidente da República que exerce
um poder institucional, e não um poder revolucionário, não
pode fazer tudo o que quiser: em primeiro lugar porque está subordinado a uma Constituição —
precisa obedecer às regras do jogo institucional; em segundo lugar porque divide o poder da República com o Congresso
Nacional e com o Poder Judiciário; em terceiro
lugar porque tem que satisfazer os eleitores que se
manifestam cotidianamente na forma de opinião pública,
representados pela imprensa — se o presidente perde o voto de
confiança da opinião pública, pode começar a enfrentar o
problema da governabilidade; em quarto lugar, o presidente não pode fazer tudo o que quiser porque
sofre pressão de grupos de interesse poderosíssimos com grande
capacidade de chantagem, como o grupo dos transgênicos, para
citar um pequeno exemplo — o presidente sofre pressão dos
partidos, inclusive do partido ao qual pertence e que deseja
acima de tudo, acima até dos interesses nacionais, vencer as próximas
eleições; em quinto
lugar, porque o seu governo precisa administrar as condições
gerais que viabilizam o processo de acumulação capitalista —
nenhum presidente se sustenta no poder num país capitalista se
não fizer isso direitinho, imaginem o caos que viraria o país
se a economia começasse a parar, a Argentina passou por isso,
teve um presidente que ficou alguns dias no poder e precisou
fugir do palácio de governo de helicóptero; em sexto
lugar, num país dependente como o nosso, o presidente não
faz o que bem entender porque, em tese, está submetido às exigências
de organismos internacionais como o FMI e o Banco Mundial que
representam os credores internacionais e os países ricos,
sobretudo os Estado Unidos — não estou dizendo aqui que o
governo precisa necessariamente se subordinar às determinações
do FMI para conseguir governar o país porque outros países em
crise desobedeceram o FMI e acabaram se saindo muito bem; em sétimo
lugar, o presidente não pode fazer tudo o que quiser porque
a globalização reduziu bastante a margem de ação dos
governos de países do terceiro mundo — o presidente é
obrigado, pelo menos em tese, a aceitar certas condições
impostas pelo mercado globalizado se não quiser provocar uma
fuga de capitais (fuga de capitais poderia significar menos
empregos, problemas na balança de pagamentos e crise nas contas
do governo); em oitavo
lugar, o presidente não pode fazer tudo o que quiser porque
tem um mandato por um tempo limitado, de quatro anos — por
isso, precisa governar mais preocupado em satisfazer as exigências
imediatistas da opinião pública do que propriamente com os
problemas estruturais de longo prazo do país. Por isso, para
sobreviver politicamente, é mais interessante para o governo
dar bolsa-família do que investir na solução dos gargalos
estruturais da economia para favorecer futuramente o
desenvolvimento econômico e gerar mais empregos.
O
presidente pode tentar uma saída extra-institucional, isto é,
pode tentar agir fora do âmbito institucional organizando, por
exemplo, grandes mobilizações da sociedade civil para
pressionar os partidos para aprovar reformas estruturais
radicais no Congresso Nacional. O problema é que o presidente
da República, na condição de chefe de Estado, é o comandante
das Forças Armadas, do aparelho de repressão do Estado, e tem,
por isso, o dever constitucional de garantir a ordem pública.
Se as mobilizações escaparem do controle de suas lideranças,
o presidente é obrigado a reprimir e punir os participantes do
movimento. Se não reprimir e punir, pode até ser destituído.
No
governo João Goulart, a partir de dezembro de 1963, o
presidente da República assumiu o comando de um movimento para
pressionar o Congresso Nacional a fim de aprovar reformas
estruturais, principalmente a reforma agrária. A mobilização
de soldados, cabos, sargentos e marinheiros, provocou a quebra
da hierarquia e da disciplina nas Forças Armadas. Houve uma
rebelião de marinheiros que estavam engajados na mobilização
que o próprio presidente promoveu. Acontece que os marinheiros
escaparam do controle das lideranças ligadas ao presidente. E
eles foram punidos pelos seus superiores hierárquicos da
Marinha. Às vésperas do golpe militar, o presidente deu
anistia aos marinheiros que se rebelaram indo contra a decisão
destes superiores hierárquicos. O presidente, como líder da
mobilização, foi obrigado a perdoar os rebeldes. Mas enquanto
chefe de Estado tinha que punir os rebeldes. Como não quis
punir, os superiores hierárquicos dos marinheiros e os oficiais
de outras forças armadas deixaram de dar apoio ao governo.
Nesse
processo, a possibilidade de desagregação das Forças Armadas,
com a quebra da disciplina e da hierarquia, deixou a Constituição
desguarnecida porque cabe às Forças Armadas garantir a
Constituição em última instância. Nesse caso, o regime de
propriedade privada foi ameaçado. A burguesia reagiu
furiosamente como classe. E os oficiais das Forças Armadas,
ameaçados também pela rebeldia dos militares subalternos,
resolveram destituir o presidente da República para
restabelecer a ordem ameaçada.
O
Golpe militar de 64 mostrou que é complicado um presidente
querer realizar transformações estruturais na sociedade
exercendo um poder apenas institucional, sem estar apoiado num
movimento social revolucionário. E olha que o presidente João
Goulart só queria fazer a reforma agrária que é uma agenda
política da burguesia. Ele nem estava pensando em implantar o
socialismo.
O
golpe militar de março de 1964 mostra a verdadeira natureza de
um poder institucional. O poder exercido no comando de um Estado
burguês para administrar uma sociedade capitalista é,
portanto, bastante limitado.
Por
isso tudo, por enquanto, diante dessas limitações e destes
obstáculos, o governo Lula só tem se preocupado em garantir as
condições para a governabilidade. Ou seja, por enquanto, o
governo só tem se preocupado em salvar a própria pele,
contribuindo apenas para a reprodução do modelo de acumulação
capitalista perverso desenvolvido no país.
Reflexões
Vou
deixar algumas questões para reflexão: se o Governo Lula não
pode fazer reformas estruturais radicais neste modelo de
capitalismo, se não pode cumprir com os compromissos históricos
do Partido dos Trabalhadores, eu pergunto: vale a pena
administrar a crise de um sistema social que tem como característica
estrutural inerente produzir cada vez mais desigualdades
sociais? O governo de um Partido que representa a classe
trabalhadora deve desperdiçar energias políticas e se
desgastar talvez inutilmente tentando amenizar a perversidade do
sistema econômico capitalista em um país periférico
dependente sem ter condições de atacar a miséria de frente?;
vale a pena para um partido de esquerda que tem, ou que tinha,
como meta política a construção do socialismo governar uma
sociedade capitalista em crise comandando um Estado que é burguês?;
vale a pena, enfim, exercer um poder institucional?
Uma
possível resposta seria essa: a época das grandes revoluções
sociais parece que já passou. Hoje, as transformações
estruturais na sociedade dependem mais de pequenas ações de
governos e da sociedade civil que vão se acumulando e que podem
desencadear transformações de forma lenta mas contínua. A
tarefa histórica a ser cumprida seria semelhante ao trabalho de
formigas, sem heróis e sem cenas épicas dignas de filmes de
Eisenstein.