O
governo Lula não aconteceu
O
governo Lula entra, ao final de um ano, para a categoria do não-acontecimento,
ao lado do 11 de setembro de 2001 e do próprio ano 2000. Nossas
lembranças mais vivas eram as da morte. Agora, são as da
simulação da vida. Noutro registro, virtual, nossas lembranças
mais fortes são as do que nunca aconteceu como fato. Também é
possível dizer que nossas lembranças mais mortas são as
redivivas, as do presente congelado, conservado em estado
aparente de solidez.
Ainda
está na mente de todos o horror do 11 de setembro de 2001,
quando os aviões seqüestrados pelos homens de Bin Laden
derrubaram as torres gêmeas do WTC, em Nova York. Daquele episódio
terrível, restam as imagens. Essas imagens relatam o vazio, a
incomunicabilidade, o absurdo, a crise do fato e o início do
acontecimento pós-fato. Do governo Lula não resta nada.
Nenhuma imagem. Nenhum programa. Salvo a negação de si mesmo
enquanto promessa e utopia. O PT inaugura uma nova etapa da
simulação: o acontecimento sem fato, em estado absoluto de
esvaziamento e de necessidade de conteúdo.
Jean
Baudrillard, em Power
inferno, resumiu o essencial: a inveja ocidental dessa
capacidade de morrer por uma causa.
Heloísa Helena, João Fontes, Babá e Luciana Genro mostraram
que ainda são capazes de fazê-lo. Paulo Paim e Saddam Hussein
recuaram diante do grande salto. O principal acontecimento desta
época pós-moderna tem sido, justamente, a morte do fato até
como ponto de partida, devorado pela vertigem do acontecimento.
O fato é o grau zero do real, a existência em estado puro, a
irrupção espontânea da prática, a vida como reflexo de si
mesma em tempo real. O acontecimento é o simulacro, a ilusão
cronometrada do tempo real como exibição diferida de si mesmo.
O acontecimento é um pós-fato que se apresenta como perfeição
realizada, antecipação do real como totalidade hiper-real.
Normalmente há fato sem acontecimento. O PT de Lula no poder é
acontecimento sem fato.
Em
11 de setembro de 2001, deu-se o inesperado, o quase impossível,
aquilo que até mesmo Baudrillard deixou escapar por excesso de
argúcia analítica: fato e acontecimento justapuseram-se como
num eclipse. Assistiu-se à conjunção ideal e absurdamente
precisa do fato com o acontecimento. Numa hipótese, realista, o
11 de setembro aconteceu como tragédia inesquecível. O
realismo, nesse sentido, nunca passa de uma ilusão. Noutra hipótese,
cara a Baudrillard, o 11 de setembro não aconteceu, na medida
em que jamais se confirmará a idéia nele contida, anunciada
pela mídia, de que o mundo nunca mais seria o mesmo. Na sua
mudança permanente, o mundo é sempre o mesmo. Uma terceira hipótese,
tradicional, espera o retorno do 11 de setembro como farsa.
Trata-se de uma impossibilidade lógica: as farsas não se
repetem. O simulacro não pode ser clonado, pois já é um clone
de um real transformado em imagem. Já o PT é imagem da sua
imagem.
Baudrillard
também não poderia acertar: Lula saltou direto da simulação
para o acontecimento. No caso do PT, o fato foi consumido pelo
acontecimento. Desde a campanha, isso já estava anunciado. Duda
Mendonça transformou o programa em anúncio publicitário; o
candidato, em produto; o partido, em outdoor; a vida, em simulação;
a política, em campanha publicitária. O governo só veio
comprovar a ausência do fato, assim como o ano 2000 só veio
demonstrar que nada havia para acontecer, visto que se tratava
de uma convenção, ou da passagem do mesmo para o mesmo, numa
infinita e artificial contagem do tempo. O PT confirmou-se como
ausência de si mesmo. Realizou-se pela negação. Quanto mais
se nega, mais se afirma. Até quando?
O
11 de setembro de 2001 já nasceu como imagem e como expressão
midiática. Fato e acontecimento puderam superar a edição de
si mesmos e dispensar as previsões de cobertura. Pela primeira
vez, todos os critérios do valor mercantil jornalístico foram
preenchidos, ao vivo, inesperadamente, para a mídia, no umbigo
do mundo e com imagens sensacionais.
Só os terroristas podem reclamar os créditos dessa
articulação sem precedentes. Não se sabe se a história
guardará o efeito (i)moral dessa operação. Mas a história
fugaz da interação entre jornalismo e entretenimento terá
alcançado o seu momento supremo. A prisão de Saddam é o epílogo,
o fecho necessário para a fábula sem realidade.
Nossas
lembranças mais vivas são imagens da morte. Nossas imagens
mais vivas são lembranças ou reflexos do incompreensível. O
mais chocante no 11 de setembro foi a certeza de que a morte
estava ao vivo, embora nem tão visível, sobre as chamas das
imagens. O mais impressionante no 11 de setembro foi a percepção
de que o fato já se apresentava como acontecimento, numa
expressão acabada da estética cinematográfica contemporânea,
grau máximo do efeito especial mínimo, sem a participação
das estrelas de sempre. No 11 de setembro de 2001, os
coadjuvantes assumiram a direção do espetáculo e levaram a
ficção às últimas conseqüências realistas. A violência do
fato foi tão espetacular (acontecimento) que dela só restará
a beleza atroz da imagem do segundo avião surgindo para efetuar
uma espécie de replay —
duplicação da cena anterior — póstumo. As torres gêmeas
desabaram como imagens repetidas de si mesmas, numa duplicação
virótica do improvável e do acontecimento espetacular. Lula
também era coadjuvante. Tornou-se protagonista sem o fato: a
realização de sua essência.
Todas
as hipóteses sobre o 11 de setembro de 2001 e sobre Lula podem
ser igualmente absurdas. Nenhum argumento, porém, anulará a
certeza de a humanidade expressou-se terrivelmente na sua mais
recorrente prática, a da barbárie, assim como na da esperança.
Depois desse encontro total entre fato e acontecimento, e dessa
negação do fato pelo acontecimento, é possível afirmar: o
mundo nunca deixou de ser o mesmo. Mais ainda, o mundo sempre
consegue voltar a ser o mesmo. Pior, há no mundo uma capacidade
adormecida de ser o mesmo que pode eclodir a qualquer momento
para, com novas tecnologias, antigas utopias e velhas obsessões,
repetir aquilo que faz sempre o mesmo da mesma humanidade, o
arcaico.
Aos
que ainda se horrorizam com a singularidade do holocausto
praticado contra os judeus na Segunda Guerra Mundial, o 11 de
setembro de 2001 veio alertar que o pior sempre é possível e
que, se um novo holocausto ainda não foi inventado, ele poderá
sê-lo a qualquer momento. As lembranças do 11 de setembro que
não aconteceu, de algum modo trágico, são projetivas, ou
lembranças do que se poderá viver amanhã. Para quem sempre
pensou o coração do mundo como umbigo, entranhas, útero,
abrigo, o 11 de setembro de 2001 veio mostrar que todo umbigo é
um alvo e todo alvo uma prótese da segurança total impossível.
As lembranças do governo Lula são involutivas, remetem ao que
só existiu como discurso.
O
11 de setembro de 2001, portanto, só pode gerar lembranças,
profundas e mortas lembranças da vida que nunca existiu, a de
uma humanidade reconciliada consigo mesmo e capaz de enterrar o
fato, como expressão da barbárie, em simulações de
acontecimento meramente fictícios. As lágrimas rolam pela
morte de um passado que nunca existiu. O 11 de setembro ficará
como a nossa melhor lembrança do pior, ou simplesmente com a
lembrança cruel da pureza perdida que nunca tivemos. No princípio,
era o mal. Ou a utopia como bem sem mal; logo, como mal
absoluto.
Quando
o acontecimento prescinde do fato, a análise liberta-se da
novidade. O mesmo artigo pode explicar tudo. O governo do PT não
aconteceu por ser mera repetição do governo de FHC. Assim como
o ano 2000 e o 11 de setembro de 2001, o governo de Lula
inscreve-se na grande ilusão, na grande farsa, no grande
simulacro, na prestidigitação total. Este artigo não poderia
ser diferente. Retoma-se, refaz-se, repete-se, diz o mesmo,
pois, definitivamente, nada mais há para dizer. Baudrillard
enganou-se: o 11 de setembro não acabou com a greve dos
acontecimentos. Aposentou o fato. Assim como Lula reativou os
aposentados para deles tirar um pouco mais. O governo de Lula só
veio confirmar essa ruptura definitiva com a realidade. O
pragmatismo, ao matar a ilusão, entra para sempre na mais
absoluta ilusão: a das promessas que não precisam ser
cumpridas.