Por JUREMIR MACHADO DA SILVA

Doutor em Sociologia pela Sorbonne, Paris V, pesquisador do CNPq e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da PUCRS. Autor de As Tecnologias do imaginário. Porto Alegre, Sulina, 2003 

 


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O governo Lula não aconteceu

 

O governo Lula entra, ao final de um ano, para a categoria do não-acontecimento, ao lado do 11 de setembro de 2001 e do próprio ano 2000. Nossas lembranças mais vivas eram as da morte. Agora, são as da simulação da vida. Noutro registro, virtual, nossas lembranças mais fortes são as do que nunca aconteceu como fato. Também é possível dizer que nossas lembranças mais mortas são as redivivas, as do presente congelado, conservado em estado aparente de solidez.

Ainda está na mente de todos o horror do 11 de setembro de 2001, quando os aviões seqüestrados pelos homens de Bin Laden derrubaram as torres gêmeas do WTC, em Nova York. Daquele episódio terrível, restam as imagens. Essas imagens relatam o vazio, a incomunicabilidade, o absurdo, a crise do fato e o início do acontecimento pós-fato. Do governo Lula não resta nada. Nenhuma imagem. Nenhum programa. Salvo a negação de si mesmo enquanto promessa e utopia. O PT inaugura uma nova etapa da simulação: o acontecimento sem fato, em estado absoluto de esvaziamento e de necessidade de conteúdo.

Jean Baudrillard, em Power inferno, resumiu o essencial: a inveja ocidental dessa capacidade de morrer por uma causa[1]. Heloísa Helena, João Fontes, Babá e Luciana Genro mostraram que ainda são capazes de fazê-lo. Paulo Paim e Saddam Hussein recuaram diante do grande salto. O principal acontecimento desta época pós-moderna tem sido, justamente, a morte do fato até como ponto de partida, devorado pela vertigem do acontecimento. O fato é o grau zero do real, a existência em estado puro, a irrupção espontânea da prática, a vida como reflexo de si mesma em tempo real. O acontecimento é o simulacro, a ilusão cronometrada do tempo real como exibição diferida de si mesmo. O acontecimento é um pós-fato que se apresenta como perfeição realizada, antecipação do real como totalidade hiper-real. Normalmente há fato sem acontecimento. O PT de Lula no poder é acontecimento sem fato.

Em 11 de setembro de 2001, deu-se o inesperado, o quase impossível, aquilo que até mesmo Baudrillard deixou escapar por excesso de argúcia analítica: fato e acontecimento justapuseram-se como num eclipse. Assistiu-se à conjunção ideal e absurdamente precisa do fato com o acontecimento. Numa hipótese, realista, o 11 de setembro aconteceu como tragédia inesquecível. O realismo, nesse sentido, nunca passa de uma ilusão. Noutra hipótese, cara a Baudrillard, o 11 de setembro não aconteceu, na medida em que jamais se confirmará a idéia nele contida, anunciada pela mídia, de que o mundo nunca mais seria o mesmo. Na sua mudança permanente, o mundo é sempre o mesmo. Uma terceira hipótese, tradicional, espera o retorno do 11 de setembro como farsa. Trata-se de uma impossibilidade lógica: as farsas não se repetem. O simulacro não pode ser clonado, pois já é um clone de um real transformado em imagem. Já o PT é imagem da sua imagem.

Baudrillard também não poderia acertar: Lula saltou direto da simulação para o acontecimento. No caso do PT, o fato foi consumido pelo acontecimento. Desde a campanha, isso já estava anunciado. Duda Mendonça transformou o programa em anúncio publicitário; o candidato, em produto; o partido, em outdoor; a vida, em simulação; a política, em campanha publicitária. O governo só veio comprovar a ausência do fato, assim como o ano 2000 só veio demonstrar que nada havia para acontecer, visto que se tratava de uma convenção, ou da passagem do mesmo para o mesmo, numa infinita e artificial contagem do tempo. O PT confirmou-se como ausência de si mesmo. Realizou-se pela negação. Quanto mais se nega, mais se afirma. Até quando?

O 11 de setembro de 2001 já nasceu como imagem e como expressão midiática. Fato e acontecimento puderam superar a edição de si mesmos e dispensar as previsões de cobertura. Pela primeira vez, todos os critérios do valor mercantil jornalístico foram preenchidos, ao vivo, inesperadamente, para a mídia, no umbigo do mundo e com imagens sensacionais.  Só os terroristas podem reclamar os créditos dessa articulação sem precedentes. Não se sabe se a história guardará o efeito (i)moral dessa operação. Mas a história fugaz da interação entre jornalismo e entretenimento terá alcançado o seu momento supremo. A prisão de Saddam é o epílogo, o fecho necessário para a fábula sem realidade.

Nossas lembranças mais vivas são imagens da morte. Nossas imagens mais vivas são lembranças ou reflexos do incompreensível. O mais chocante no 11 de setembro foi a certeza de que a morte estava ao vivo, embora nem tão visível, sobre as chamas das imagens. O mais impressionante no 11 de setembro foi a percepção de que o fato já se apresentava como acontecimento, numa expressão acabada da estética cinematográfica contemporânea, grau máximo do efeito especial mínimo, sem a participação das estrelas de sempre. No 11 de setembro de 2001, os coadjuvantes assumiram a direção do espetáculo e levaram a ficção às últimas conseqüências realistas. A violência do fato foi tão espetacular (acontecimento) que dela só restará a beleza atroz da imagem do segundo avião surgindo para efetuar uma espécie de replay — duplicação da cena anterior — póstumo. As torres gêmeas desabaram como imagens repetidas de si mesmas, numa duplicação virótica do improvável e do acontecimento espetacular. Lula também era coadjuvante. Tornou-se protagonista sem o fato: a realização de sua essência.

Todas as hipóteses sobre o 11 de setembro de 2001 e sobre Lula podem ser igualmente absurdas. Nenhum argumento, porém, anulará a certeza de a humanidade expressou-se terrivelmente na sua mais recorrente prática, a da barbárie, assim como na da esperança. Depois desse encontro total entre fato e acontecimento, e dessa negação do fato pelo acontecimento, é possível afirmar: o mundo nunca deixou de ser o mesmo. Mais ainda, o mundo sempre consegue voltar a ser o mesmo. Pior, há no mundo uma capacidade adormecida de ser o mesmo que pode eclodir a qualquer momento para, com novas tecnologias, antigas utopias e velhas obsessões, repetir aquilo que faz sempre o mesmo da mesma humanidade, o arcaico.

Aos que ainda se horrorizam com a singularidade do holocausto praticado contra os judeus na Segunda Guerra Mundial, o 11 de setembro de 2001 veio alertar que o pior sempre é possível e que, se um novo holocausto ainda não foi inventado, ele poderá sê-lo a qualquer momento. As lembranças do 11 de setembro que não aconteceu, de algum modo trágico, são projetivas, ou lembranças do que se poderá viver amanhã. Para quem sempre pensou o coração do mundo como umbigo, entranhas, útero, abrigo, o 11 de setembro de 2001 veio mostrar que todo umbigo é um alvo e todo alvo uma prótese da segurança total impossível. As lembranças do governo Lula são involutivas, remetem ao que só existiu como discurso.

O 11 de setembro de 2001, portanto, só pode gerar lembranças, profundas e mortas lembranças da vida que nunca existiu, a de uma humanidade reconciliada consigo mesmo e capaz de enterrar o fato, como expressão da barbárie, em simulações de acontecimento meramente fictícios. As lágrimas rolam pela morte de um passado que nunca existiu. O 11 de setembro ficará como a nossa melhor lembrança do pior, ou simplesmente com a lembrança cruel da pureza perdida que nunca tivemos. No princípio, era o mal. Ou a utopia como bem sem mal; logo, como mal absoluto.

Quando o acontecimento prescinde do fato, a análise liberta-se da novidade. O mesmo artigo pode explicar tudo. O governo do PT não aconteceu por ser mera repetição do governo de FHC. Assim como o ano 2000 e o 11 de setembro de 2001, o governo de Lula inscreve-se na grande ilusão, na grande farsa, no grande simulacro, na prestidigitação total. Este artigo não poderia ser diferente. Retoma-se, refaz-se, repete-se, diz o mesmo, pois, definitivamente, nada mais há para dizer. Baudrillard enganou-se: o 11 de setembro não acabou com a greve dos acontecimentos. Aposentou o fato. Assim como Lula reativou os aposentados para deles tirar um pouco mais. O governo de Lula só veio confirmar essa ruptura definitiva com a realidade. O pragmatismo, ao matar a ilusão, entra para sempre na mais absoluta ilusão: a das promessas que não precisam ser cumpridas.

 

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[1] Baudrillard, Jean. Power inferno. Porto Alegre, Sulina, 2003


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