À
propósito de atores no governo Lula
Minhas
impressões sobre a conjuntura e o tema dos cenários que hoje
se abrem sobre o mundo rural brasileiro são apenas conjeturas
sobre o comportamento de atores, particularmente o de dois
deles, que podem vir a ser influentes no reformismo agrário
brasileiro. Tal reformismo vem sendo retomado por uma nova
Presidência, agora de esquerda e bem diversa da configuração
governativa anterior. Como diferença fundamental, observe-se
que, ao ser eleito, Fernando Henrique Cardoso já contava, desde
sua primeira candidatura, com o apoio estável da aliança
PSDB-PFL, enquanto o PT teve que angariar sustentação a Lula
praticamente depois da sua eleição e entre partidos do ponto
de vista político menos densos que aqueles.
[1]
Mesmo hoje, quando o “movimento social” que Lula representa,
por assim dizer, já se institucionalizou na Presidência e o
PMDB parece entrar no governo, não é ocioso fazer algumas
conjeturas sobre o modo como se formou o atual governo. Em
primeiro e principal lugar, é preciso ter presente que a
conquista da administração federal pela esquerda não é um
epifenômeno de um processo de socialdemocratização do país,
como às vezes se nota no discurso de alguns protagonistas, que,
parece, se vêem condutores do que seria uma espécie de realização
de um social no poder, evocando também esta imagem a idéia de
revolução dotada de ampla margem de voluntarismo.
No
entanto, se, por um lado, tal consideração sobre a origem do
governo Lula talvez já seja nele majoritária e esteja pautando
os seus dirigentes pragmáticos, por outro, em muitas áreas
militantes ainda permanece a idéia do acesso ao Executivo como
coroamento de uma saga organizacional, cuja força vem da contínua
defesa de interesses; força antes exercitada como oposição
social alternativa e, hoje, na Presidência.
Em
todo caso, enquanto essa imagem não se transformar em novo
reformismo político, não causa estranheza ver discursos do
Presidente e do núcleo dirigente do governo e do PT que
continuam a espelhar a idéia de que, agora, se realizariam as
reivindicações populares, inclusive por haver chegado o
momento, como Lula disse várias vezes, de uma aliança
voluntarista entre o capital e o trabalho sob o signo da negociação,
aprendido - mais por ele do que pelo seu partido - no moderno
sindicalismo paulista. Para os outros dirigentes, o
encaminhamento da missão histórica do governo petista estaria
garantido pela vontade do Presidente, respaldado pelo seu
partido organizado e pelo seu alto prestígio na opinião pública;
parâmetros de êxito que, hoje, começam a ser requalificados
pela realidade das coisas, não sendo, em contrapartida,
desimportante, como se pensou no começo do governo, o mundo político
brasileiro e o seu sistema partidário, tal como existe.
[2]
A chegada de Lula e do PT ao governo não foi um acesso sem
interações condicionantes com o meio ambiente por onde
passaram os vitoriosos de 2002 rumo ao Planalto. Em primeiro
lugar, os novos protagonistas conseguiram sua plena realização
- na cena pública das eleições e na posse e efetivo exercício
dos aparelhos de poder do Executivo -, aproveitando a divisão
dos dois maiores partidos, que - pela terceira vez - não
apresentaram candidaturas próprias; fato, aliás, que tem
levado alguns a ver, exageradamente, na vitória de Lula uma
renovação radical - se não o começo da substituição - da
classe política brasileira.
Aquela
ausência, no entanto, colocava no day after às comemorações,
em lugar de muita atenção - já que a vitória de Lula não se
fez acompanhar da eleição de um número considerável de
governadores em estados importantes nem maioria no Congresso -,
a necessidade de fortalecer o sistema partidário, em função
do qual se haveria de construir a condição geral para o exercício
do mandato presidencial, comprometido com uma via de reformismo
mais forte e calcado na democracia política, uma via que o PT
vem a trilhar na seqüência da era tucana das mudanças
globalistas.
[3]
Ao tomar posse, e quando chega a hora de operar as promessas
eleitorais em termos concretos, vistos os constrangimentos
impostos pela realidade, o PT passa a fazer muito daquilo a que
se contrapôs e dispõe-se a observar o mais estrito respeito à
legalidade do Estado democrático de direito. Mas, por outra
parte, a falta da compreensão anterior sobre a origem da
conformação do governo Lula parece explicar o largo
descontentamento, entre militantes e movimentos sociais afins,
em relação às mudanças do PT e de Lula, reclamações da
Igreja incluídas. Nesses atores, a percepção do descompasso
imediato entre a valorização do social, antes compartilhada
por todos, e as ações de governo também pode vir a ativar a
velha idéia do social como uma crescente mobilização,
considerada por muitos eficiente se conduzida sob forma não-institucionalizadora.
Recorde-se que, na sua trajetória, principalmente nos seus
primeiros tempos, não poucas vezes o PT fraturou estruturas
organizacionais estabelecidas - foi símbolo antielitista e até
antipolítico -, alimentando a mentalidade segundo a qual a
transformação seria trazida pelo social mobilizado, sem
indagar melhor se, neste país, a sociedade que se organizava não
seria por demais minoritária em relação ao conjunto da formação
social.
[4]
Ao chegar ao mundo real das coisas como uma formação de
continuidade - neste sentido, tem certo significado de “transição”
-, o governo Lula opera numa circunstância promissora, por já
haverem sido encaminhadas anteriormente as modernizações
incontornáveis. O seu desempenho, inclusive como correção de
rumos do caminho andado, dependerá da atuação criadora e
realista dos seus dirigentes e, já que não detém maioria
politicamente sólida no Congresso e fora dele, também decorrerá
em muito da postura que mantenha - quanto mais aberta, mais
eficiente - com os aliados convencidos por Lula no seu
chamamento à união nacional a partir do segundo turno. Para
dar convergência positiva a esses dois elementos, os responsáveis
pelo governo vêem-se levados a ultimar a própria mudança de
atitude e a consolidar a evolução da cultura política do PT já
no exercício da Presidência. A idéia de revolução passaria
a ser vista como um movimento de institucionalização dos
impulsos sociais que a eleição de Lula acelerou,
recorrendo-se, agora sem ambigüidades, aos instrumentos do
Estado democrático de direito e mediante processo incorporativo
compartilhado com outros grupos. São necessárias, inclusive,
concessões de segmentos conservadores obtidas por meio da política.
Em
suma, esse caminho implica respeito estrito à legalidade democrática,
atenção ao Congresso e, especialmente, valorização do
sistema partidário brasileiro: eis os três parâmetros que, a
rigor, são as maiores garantias com que contam Lula e o PT para
que o processo pretendido por seu governo vá adiante. Nesses
marcos, não é por acaso que o governo propõe uma reforma agrária
“com qualidade”, mantém e fala em fazer revisões, em
registro positivo, nos programas criados pelos governos
anteriores (Banco da Terra inclusive). Ou seja, tudo indica que
ele trabalha com a idéia de consolidar o processo de reforma
agrária de tradição gradualista e segundo a legalidade
vigente, descartada a busca de um novo patamar à base de definições
classistas e sem lastro consensual suficiente para evitar que a
tensão esgarce o tecido social e contribua para o debilitamento
das instituições.
[5]
Quanto aos movimentos sociais organizados propriamente, há duas
culturas hoje de muita gravitação e que poderão incidir nos
rumos do governo Lula no mundo rural. De um lado, o
comportamento tradicional de organização institucionalizante,
típico dos sindicatos e da Contag, com sua práxis de negociação
permanente, em conexão com o reformismo agrário que se
conformou desde meados da década de 1950, teve ponto alto no
governo Goulart, foi interrompido pela modernização
conservadora dos militares e, por fim, teve continuidade a
partir do governo Sarney. Por ser uma vertente com espírito de
“esquerda positiva” (o tipo de esquerda que Santiago Dantas
pedia às vésperas de 1964), essa área contaguiana já oferece
gestos para sustentar e melhorar a ação do governo Lula no
mundo rural, como, aliás, o fez no tempo de Fernando Henrique
Cardoso, quando estimulou avanços importantes.
A
outra vertente, o MST, ainda ostenta sua dupla face: é um
movimento com vocação para a inovação social - vale dizer,
um ente que referencia e incorpora os “pobres do campo” (no
dizer de Lênin) e põe temas na agenda estatal -, ao mesmo
tempo que se propõe ser outsider da institucionalidade democrática,
nisso evocando o passado "campesinista" do PCB do começo
da década de 1950 e as Ligas Camponesas da radicalização do
imediato pré-64. Mesmo com o seu discurso classista e cifrado
para audiência interna e próxima, essa vertente também vê-se
na contingência de levar adiante o seu próprio aggiornamento,
podendo inclusive mirar-se no exemplo do PT, que, no mundo
rural, não optou por um agrarismo diruptivo, mas assentou o seu
trabalho na rede sindical estável.
A
seguirem, porém, recentes verbalizações e gestos, o MST pode
contribuir - com ações que aumentam a tensão no mundo rural -
para uma lógica de esgarçamento social, empurrando o governo a
recorrer à repressão, com efeitos deslegitimadores no interior
da nova Presidência. Com isso, certamente o MST dificultará a
retomada do reformismo progressivo que o governo já se disse
decidido a seguir, tanto no que se refere ao tema agrário como
questão social, quanto na sua intenção de continuar
implementando a modernização do mundo rural, cuidando dos
setores mais desvastados mediante o estímulo à pequena produção
familiar e à nova área reformada, mesmo que esta ainda seja
pequena. A Presidência de Lula parece querer articular essas
duas formações com as políticas públicas do passado recente,
que, agora, podem ser mais robustecidas em meio ao processo
modernizador que corre avançadíssimo na outra ponta liderada
pelo chamado agrobusiness.