Das
esperanças ao ensaio de mobilização social!
Não
podia ser mais auspicioso o inicio do ano de 2003: a posse de um
operário como Presidente da República Federativa do Brasil.
Depois de 500 anos de dominação dos “colonizadores”, e na
seqüência por uma pequena elite brasileira, sempre mancomunada
com o capital externo, a consciência popular impôs uma mudança,
a partir do voto. Foi o voto da “esperança que venceu o
medo”, clamando por profundas transformações estruturais.
Mudanças que viessem corrigir, ainda que em parte,
inicialmente, as grandes injustiças sociais implantadas neste
país “abençoado por Deus e bonito por natureza...”. Lula
se comprometeu com o povo em sua posse, ao declarar: “Vamos
resgatar as centenárias dívidas sociais deste país!”, assim
como declarou que “Ninguém melhor que um governo do PT para
realizar a Reforma Agrária sem violência!”.
Foi
nesse clima de extraordinário entusiasmo que milhares de
trabalhadores, homens e mulheres, jovens, crianças e idosos,
vindos das mais diversas partes do país, ocuparam literalmente
as praças do Congresso Nacional e do Palácio da Alvorada,
saudando a ascensão da classe trabalhadora ao poder político
nacional. Afinal, o dia da mudança chegara! Agora..., será a
nossa vez!
Passados
apenas 20 dias da posse, eis que uma primeira surpresa desagradável
ecoou pelo Brasil afora: o governo aumentou a taxa de juros!
Mas, como? Não era para baixar? Como estimular os investimentos
nas áreas produtivas com juros altos? Sempre tem um “mas!”
e não parou por aí: o governo dos trabalhadores anunciou que o
“superávit primário” passava de 3,75% para 4,25% do PIB
(Produto Interno Bruto) para poder cumprir os compromissos
internacionais! Porém, indo além deles e, vejam que maravilha:
“para tornar o país confiável aos olhos do capital
internacional” Ué! Não era para investir no desenvolvimento
interno? Desse jeito, onde vai achar dinheiro para a educação,
saúde, saneamento?
Todas
essa questões começaram a passar pela cabeça de milhares de
militantes petistas e dos movimentos populares. A Igreja, que
sempre cobrou as mudanças estruturais, questionou os rumos
diferentes daqueles prometidos. Até os aliados mais íntimos do
Lula foram tomados de surpresas e interrogações. As explicações
eram as mais espantosas: “...nosso objetivo com as reformas é
aliviar a folha de pagamento das empresas”, ou ainda:
“baratear o custo da mão de obra”, “incentivar o capital
a fazer investimentos no país, dando-lhe garantias”. As cabeças
ficaram confusas e muitos começaram a afirmar que o PT e o
Governo Lula tinham sucumbido à pressão do capital
internacional e nacional. Outros, pelo contrário, queriam crer
que se tratava de uma estratégia, visando ganhar a confiança
agora e mudar logo em seguida. Outros já afirmavam que o
governo estava em disputa: de um lado o capital e do outro o
movimento social. Afinal, com quem está a razão?
Por
via das dúvidas, os movimentos sociais começaram a se
organizar, buscando alcançar uma unidade de ação para forçar
o governo a atender o povo que o elegeu e mudar os rumos da política
econômica e social do país. Esse esforço tem sido grande, uma
vez que ele reúne todos os agentes que vivem essas contradições.
A Coordenação dos Movimentos Sociais - que se originou desse
processo - reúne desde o MST, passando pelas pastorais sociais,
CMP até as entidades representantes do movimento estudantil,
incluindo a CUT, com todas as suas divergências internas. De
fato, a corrente Articulação Sindical se faz representar nessa
Coordenação e assina o documento que cobra do governo investir
no desenvolvimento interno, gerador de milhões de postos de
trabalho permanentes, sem dependência do capital estrangeiro e
que exige a ruptura com o FMI.
O
ensaio de mobilização popular para se contrapor às medidas do
governo - porque marcham na contramão dos interesses do povo -
teve resultado ainda muito pequeno, se comparado com a gravidade
do problema e com o grau do estrago já ocorrido entre os
trabalhadores, com o vertiginoso aumento do desemprego – neste
ano – e do brutal achatamento salarial, que compromete, ainda
mais, o já combalido poder de compra dos que vivem do seu
trabalho. Entendemos que isso é fruto da enorme expectativa
inicial, da perplexidade que nos atingiu e, ainda, de um resto
de esperança de que as coisas venham a mudar em breve. “A
ficha está demorando a cair”. Enquanto isso, espertamente,
como raposas, o núcleo forte do governo conta com a desmobilização
para implantar suas reformas, joga duro com os que dignamente se
rebelam, expulsam irreverentes e mentem descaradamente para o
povo, contando com a colaboração da mídia para fins tão
nefastos. Temo que, quando conseguirmos a proeza de despertar
parcelas significativas do nosso povo, seja tarde demais para
impedir desmonte do que resta da legislação social e que já
se tenha armado e garantido um arcabouço jurídico amplamente
favorável ao capital, altamente prejudicial aos trabalhadores,
muito difícil de ser desmontado.
Já
é possível falar de prejuízos enormes e irreparáveis para o
povo, neste fim do primeiro ano do “governo da esperança que
venceu o medo”:
1)
A reforma da Previdência que implica em aplicar a política
determinada em 1989, no chamado “Consenso de Washington”, em
que os países pobres se comprometem a reduzir ao mínimo o
Estado, passando as atividades que possam ser lucrativas às
empresas particulares, economizando dinheiro do orçamento para
o pagamento dos serviços da Dívida Externa. Ao fazer a
reforma, o governo joga para os ombros dos trabalhadores o preço
do Estado Mínimo. Permite a constituição de empresas de pensões
e aposentadorias particulares, que já começou a render alto
para essas empresas. De quebra, inicia a ruptura constitucional
que garante a Seguridade Social: Aposentadoria e pensões, saúde
e bem-estar social universal.
2)
A Reforma Tributária que desonera empresas e onera os
trabalhadores, aumentado-lhes a carga tributária. Dois bons
exemplos são a perpetuação do CPMF – que pagamos a cada
movimentação financeira – e a manutenção da tabela do
Imposto de Renda, que neutraliza os reajustes salariais obtidos
com muita luta, mas faz aumentar a arrecadação federal. Assim,
o governo alivia a tributação das empresas e transfere o ônus
para os assalariados.
3)
A lei de tributos sobre heranças que beneficia os
herdeiros de grandes fortunas, negando aplicação da
progressividade, mas que aumenta a carga sobre as heranças de
menor valor.
4)
A aplicação de mais de 5% do PIB (conforme comunicado
do próprio PT Nacional) para o “superávit primário”,
tirando dinheiro dos investimentos, da saúde, da educação, da
reforma agrária e do saneamento básico, fazendo agravar o
atendimento ao povo mais desprotegido. Dos 12 bilhões de Reais
reservados no orçamento para investimentos, até o novembro
foram aplicados apenas 6% desse montante. Do outro lado está o
Himalaia de R$ 154 bilhões reservados para pagar apenas os
juros da dívida, afirma Léo Lince em “A Grande Anomalia”.
Além
das reformas e das demais medidas, nos espantam os dados do
pagamento dos juros da dívida pública. Até o mês de julho, o
governo tinha gastado R$ 105 bilhões para o pagamento dos
juros, enquanto FHC, no mesmo período de 2002 havia pago em
torno de R$ 60 bilhões. É ainda Léo Lince quem comenta o
seguinte: “O investimento, que falta na construção de
escolas, hospitais, portos, estradas, eliminando os gargalos que
atravancam a retomada do crescimento, além de pequeno sofre
cortes. O que já era pouco diminuiu ainda mais, enquanto a
parte do leão vai para o bolso privado dos rentistas e
desaparece no giro alucinante da roleta financeira. É duro ver
o recurso público (leia-se: o nosso dinheiro) que resulta do
trabalho de todos os brasileiros, submetido a uma tamanha
anomalia na sua destinação final. Não pode haver uma expressão
mais acabada daquilo que se convencionou chamar de horror econômico
do que o abismo que separa as duas contas.” .
Não
bastassem tantos desmandos, ainda tivemos que engolir a liberação
do plantio dos transgênicos, para atender aos interesses da
Monsanto, sem saber o que deles poderá resultar para a saúde
de todos os seres vivos do planeta. É ainda o “governo dos
trabalhadores” que insiste em não dar ouvidos ao povo que o
elegeu, para atender às exigências de empresários sedentos de
grandes lucros e trabalhar arduamente para a implantação da
ALCA, light como ele ousam dizer que, se for implantada irá
comprometer ainda mais o futuro das atuais e das próximas gerações.
Nestes
últimos dias, várias informações veiculadas pela imprensa
nos levam a crer que, de fato, o “governo dos trabalhadores”
está cada vez mais comprometido com o capital e menos
comprometido com os trabalhadores: Palocci afirma que o “superávit
primário” de 4,25% deveria vigorar até o ano de 2006, porque
os compromissos externos são elevados; o BNDS ainda não cobrou
a bilionária dívida da AES,(a quem foi entregue de mão
beijada parte da produção elétrica do país), enquanto o BNDS
anuncia mais um generoso empréstimo de R$ 1,4 bi para duas
outras “compradoras” da produção de energia elétrica; o
governo propõe cobrar dos ex-alunos de universidades públicas
o custeio do mesmo ensino, que é garantido pela constituição;
Congresso aprova medida que permitirá ao governo desviar
dinheiro da educação e da saúde para outros fins (leia-se:
para o “superávit primário”); o governo acaba de assinar
um novo acordo com o FMI, altamente prejudicial ao povo
brasileiro! Como vemos, não há preocupação com a vida dos
mais de 800 mil que perderam o emprego este ano, nem com o
achatamento salarial de 12% no mesmo período, nem com os
milhares de acampados que esperam por um pedaço de terra para
plantar, nem com o precário atendimento à saúde de nosso povo
ou com a educação de nossa juventude. Para esses não há
dinheiro. Mas há dinheiro a rodo para os banqueiros e para as
multinacionais que nos exploram sem o menor escrúpulo.
E,
para fechar o ano com chave de ouro, o Partido dos Trabalhadores
expulsa quatro dos seus mais atuantes e dignos parlamentares,
porque ousaram ser éticos, porque não se curvaram aos desvios
de um governo seguramente comprometido com a política
neoliberal. E, para comemorar tal proeza, o Presidente Lula
convida o que restou da bancada petista para comemorar o fato
com um bom churrasco, com dinheiro do povo, é claro!
O
“ano da esperança” vai se transformando num ano de angústias,
de maior sofrimento, de perplexidade e de desilusão. Não podia
ser pior para um povo trabalhador e esperançoso.