Em
busca do crescimento econômico (cronicamente inviável)
Lula
2003: a política do superego
Diversos balanços começam a ser
produzidos para analisar e interpretar o primeiro ano do governo
Lula. Ainda que ocorrendo uma leve alteração do eixo de diagnósticos
que foram realizados no país nos últimos vinte anos, as análises
sobre o desempenho da macroeconomia continuam capitaneando a
maioria dos esforços dos analistas. Sabemos, portanto, que o índice
de desemprego aumentou e que a participação dos assalariados
na renda nacional decresceu. Sabemos, também, que todos
indicadores macroeconômicos traduzem um reequilíbrio da
economia nacional, algo muito distante do que se esperava após
a vitória de Lula. São projetados índices de crescimento do
PIB, para 2004, entre 2% e 4,5%.
Pululam, entretanto, outros indicadores não tão
comuns nas análises de cunho econômico. Já sabemos que a área
social parece fadada a percorrer a mesma trajetória que vem
trilhando desde o final do modelo tupiniquim
fordista-desenvolvimentista. A UNICEF divulgou em meados de
dezembro alguns indicadores sobre crianças e adolescentes
brasileiras que deixaram indignados todos os que estão
engajados na garantia dos direitos desses brasileiros, desde
sempre tutelados ou menosprezados. Um adolescente de família
pobre, segundo os dados revelados, possui quinze vezes mais
chances de ser um adulto analfabeto que um adolescente oriundo
de família rica. Cada quatro anos de estudo de uma mãe
representam 20 pontos na escala de pobreza e estudo de uma criança.
Enfim, no Brasil de sempre, a pobreza se perpetua, acompanha
gerações e tem, portanto, sobrenome e endereço de fácil
identificação.
Também ficamos sabendo que vários anúncios históricos
do PT, como a política de reforma agrária, não ocorrerão, ao
menos pelas mãos da atual geração de petistas que chegou ao
poder. Segundo dados do INCRA, o custo de um assentamento por
família, em média, é de 25 mil reais (no Piauí, o custo cai
para 3 mil reais e em São Paulo salta para 99 mil reais). Para
cumprir a promessa que Lula fez no lançamento do Plano Nacional
de Reforma Agrária (200 mil famílias assentadas em 2004),
seriam necessário mais de 4,5 bilhões de reais. O orçamento
previsto para a área em 2004, entretanto, é pouco mais de 1
bilhão de reais. A reforma agrária parece ter sido substituída
pela concepção de desenvolvimento territorial, mas esta mudança
de paradigma não merece debate público.
Acredito que todas essas análises são importantes
de serem feitas, mas elas parecem assumir o desenho de uma “série
histórica”. Em outras palavras, é como se, ao lê-las, tivéssemos
a sensação do Brasil estar seguindo uma rotina pendular, entre
aumento e queda das taxas inflacionárias, das taxas básicas de
juros, de concentração de renda, de desigualdades. Parece uma
grande “série histórica” que tem início com uma constatação
bombástica do IBGE: o Brasil, desde 1850, até os anos 80 do século
passado, foi o país que mais cresceu no mundo e,
paradoxalmente, o que apresentou a maior concentração de renda
(proporcional ao seu crescimento econômico) do planeta. Mas
nossos economistas de plantão, ouvidos em todas telas
interconectadas pelas sofisticadas redes de comunicação,
continuam a pregar que devemos crescer 6% ao ano durante 15 anos
para debelarmos a pobreza brasileira. Estaremos conferindo a
“série histórica” em 2017 e perceberemos o famoso
movimento pendular.
O que me parece mais
significativo num balanço do primeiro ano do governo Lula é
sua frase, proferida no segundo semestre deste primeiro ano de
gestão, onde afirmava que nunca foi de esquerda. Para um
jornalista, chegou a resgatar a frase de efeito que teria dito
numa de suas primeiras entrevistas televisivas, nos idos da década
de 70, quando questionado se era de esquerda: “não sou de
esquerda, sou metalúrgico”, teria dito. Esta alegria
descompromissada parece ser a novidade no balanço a realizar.
Enfim, temos um governo cujo
superego é mais forte que o desejo que parecia mover o Partido
dos Trabalhadores. Os primeiros dez anos de existência do PT
geraram uma convergência de intenções e desejos utópicos que
mereceram desdém e surpresa da maioria dos órgãos de imprensa
e mesmo dos partidos políticos – incluindo os de esquerda –
estabelecidos. Havia um frescor juvenil, um sentimento de onipotência
que se pautava pela crença na justiça e na liberdade. Não
foram apenas os movimentos grevistas que forjaram o PT, nem
mesmo os movimentos sociais urbanos e rurais, as organizações
abençoadas pela Teologia da Libertação, as dezenas de
organizações semi-clandestinas de todas filiações leninistas
e trotskistas. O que teria atraído intelectuais tão
transgressores como Félix Guattari? O que teria gerado a
aproximação de tantos grupos musicais e de teatro alternativos
para os encontros do PT? Qual a fantasia que teria motivado
homossexuais e operários machistas a se respeitarem em reuniões
intermináveis que ocorriam em prédios precários, quase sempre
numa sala apertada de um segundo andar onde apenas um ventilador
simbólico insistia a pregar que o calor não era tão insuportável
assim?
A grande motivação dos primeiros dez anos do PT
era a utopia, transgressora apenas por existir. A utopia
denuncia o presente, sugere que é possível algo melhor. Possui
a arrogância dos incautos e é sobejamente desprovida de malícia.
Os utópicos são os vencidos do presente, mas são temidos
porque o brilho de seu olhar parece prever um futuro diferente.
Era esta esperança que motivou o crescimento do PT, não como
partido, mas como movimento social.
Mas nossa cultura política parece reeditar todas
novidades. Boaventura Santos, em seu último livro (A queda do
novo anjo), publicado na Colômbia recentemente, sugere que a
marca da cultura política latino-americana é a “carnavalização
social”. Estaríamos fadados, como nas loucuras que ocorrem no
Carnaval, a transgredirmos sem nunca romper. Não somos um povo
da ordem, mas tampouco da utopia. Assim, basta o anúncio da
utopia para nos movermos numa grande confraternização, mas
nunca somos capazes de construí-la, de fato.
O governo Lula parece cumprir, em apenas um ano,
este fardo histórico. É um governo cujo programa está
precocemente envelhecido. Não possui utopia. Uma apenas, que
fosse. Os representantes da utopia fundadora, tendo à frente
Marina Silva, a ministra do meio ambiente, vêm sofrendo
derrotas internas quase que mensais. A novidade e a alegria
original ficam por conta do espetáculo do marketing político e
do feeling de Lula, acompanhado por um único ministro,
Gilberto Gil. As gafes presidenciais conferem certa ingenuidade
– que se aproxima do discurso despreocupado, verdadeiro –
que convergem com a presença certa de dona Marisa (cuja
sorte, segundo o presidente, lhe sorriu ao encontrar Lula solto
e sozinho) em todas reuniões ministeriais. As danças e cantos
quase-folclóricos de Gilberto Gil fazem a moldura desta obra plástica
da nova política nacional, uma espécie de discurso público
que não parece mediado pelas redes de comunicação de massa.
Parece ser um encontro entre velhos amigos, gente de bem, que
tentam dar mais humanidade aos palácios do poder. Mas a forma
parece totalmente divorciada do conteúdo político.
O que temos, afinal, como balanço político
(compreendido como legado histórico e não como construção de
sua própria governabilidade) neste primeiro ano de gestão?
Em primeiro lugar, temos um forte e significativo
movimento de centralização política e orçamentária no
governo federal. O núcleo do poder nacional é diminuto, não
supera cinco lideranças que pouco dialogam com movimentos
sociais. Seus interlocutores foram, neste primeiro ano,
governadores, parlamentares e grande imprensa. O movimento de
inflexão da gestão orçamentária iniciada no governo FHC foi
acelerado.
Em segundo lugar, a oposição não foi compreendida
como interlocução democrática. Não houve um gesto nítido de
respeito à diferença. Na verdade, à oposição o governo
federal desfechou duas iniciativas ligeiras. De um lado, tentou
negociar pela cooptação. De outro, procurou isolar
socialmente, infantilizando suas demandas. Os inimigos internos,
por construírem um discurso utópico, mereceram uma energia
redobrada. Este foi o caso de Fernando Gabeira, Chico de
Oliveira e Heloísa Helena. Todos estiveram presentes na construção
da utopia dos “anos 80”, alimento principal do PT.
Finalmente, a adoção da Razão de Estado, o velho
conhecido do realismo político. O instrumento mais imediato do
realismo político é o etapismo, a ação gradual e segura de mágicos
maquiavélicos. Tais mágicos, ensinam, sabem que a prática política
é formada por pré-requisitos, merecem atenção, paciência e
obstinação. Na prática, adotam uma prática linear, previsível,
desprovida de alterações e arroubos. O Estado e sua razão estão
à espreita, lembrando a todos os riscos de se alterar os planos
iniciais que darão a segurança para o próximo passo. Mas como
todo pré-requisito, não importam as mudanças conjunturais, as
diferenças. O controle deve estar sempre com os mestres, únicos
a saber qual é o destino que aguarda a todos.
Assim, o balanço político do primeiro ano de
governo Lula parece revelar a política do superego, a Razão de
Estado como princípio, o desprezo pela utopia e o controle da
sociedade sobre a política institucionalizada, a desconfiança
em relação ao custo político da descentralização do poder.
É por este motivo que a revelação de Lula, ao
afirmar que nunca foi de esquerda, foi significativa. Qual o
motivo que o teria levado a se revelar publicamente, justamente
no momento que parecia domar a economia?
Sua revelação, parece, esteve conectada com a
intenção da Carta ao Povo Brasileiro, divulgada em junho de
2002, em plena campanha eleitoral. É mais um traço da política
do superego se antecipando à pena. Foucault já teria dito que
o pior controle é o autocontrole, porque imagina e se antecipa
à punição da Autoridade. Um movimento que destrói a
vitalidade criativa, mas que reconforta porque sugere a ausência
de conflitos. O governo Lula optou pela ausência de conflitos,
opta por um discurso de aceitação prévia, se esforça em
parecer austero e simples (muitas vezes, até mesmo simplório).
É gente como a gente. Gente confiável. Gente feliz e leve,
como nos confidenciou, mais uma vez, o presidente Lula.