2003
– O Ano das Ilusões Perdidas
Múltiplos
são os aspectos, numa sociedade complexa, sob os quais um
governo eleito pode ser analisado ao término do seu primeiro
ano. Em quaisquer circunstâncias, porém, a indagação
primeira é aquela que procura cotejar a proposta eleitoral com
o desempenho governamental. No caso do governo Lula, as duas não
convergem. (Como também não convergiram sob FHC.) Sintomático
é o fato de que, neste primeiro ano de governança, ele esteja
sendo elogiado e prestigiado pelos interesses que diziam temê-lo
e os quais, aparentemente,
o combatiam na disputa eleitoral: FMI e associados, externos
e internos. Os grandes investidores, banqueiros internacionais e
nacionais. Resumindo: o sistema dominante e os oligarcas de
sempre. O governo Lula ganhou a confiança dos investidores, que
fizeram despencar o risco
Brasil, manter o dólar abaixo de três reais, melhorar os
índices das Bolsas de Valores. Aparentemente as perspectivas
econômicas parecem boas, embora o crescimento do PIB seja
pequeno. Claro, sempre se pode perguntar: perspectivas boas para
quais estamentos sociais? Que o diga a direita, agora rizonha e
franca. Não se inventou, ainda, um capitalismo que seja
simultaneamente concentrador de riqueza e distribuidor justo de
renda.
Na
outra ponta do arco social, a pequena burguesia e a massa
trabalhadora, com o funcionalismo público à frente, algumas
agremiações de esquerda, enfim, todos aqueles que, ao longo de
vinte anos, foram se ajuntando em torno do PT para a grande
mudança social, agora
amargam derrotas e acumulam raivas, com a dissidência lavrando
nas hostes petistas. O desencanto chorando alto. (Até o Financial
Times – 31.12.2003 – escreve que Lula agrada as elites e
entristece os trabalhadores.)
Não
me estenderei sobre o fato – já sobejamente criticado por
quantos desancam o presidente Lula – de que o atual Governo
nada mais é do que a continuação consagrada do presidido por
FHC. E ambos, uma continuação progressiva do que já havia
sido iniciado por Collor de Mello: a
desnacionalização da economia e a fragilização do Estado
brasileiro, com o desmonte da sua burocracia em favor da
estrutura privatista sob forte tendência alienígena.
Concomitantemente, sempre abundaram discursos bombásticos no exterior.
Será preciso dizer, a favor de Lula, de que a febre das
privatizações amainou. Ensaia-se, até, uma retomada do Estado
através do BNDES. O mesmo que, sob os governos anteriores,
andou financiando grupos até mesmo estrangeiros na compra de
ativos nacionais. Na verdade, o que podia ser privatizado – e
o que interessava aos grupos adquirir – já o fora. Ademais,
algumas privatizações mostraram-se desastrosas...
Também não me aterei ao fato da dedicada – diria, apaixonada – adesão à política do FMI. Não vou me ater à
propalada intenção do governo em levar adiante a “independência”
do Banco Central. Falsa liberação, uma vez que, se o Banco
Central não estiver sob as ordens do Estado e da Nação, estará
sob o mando de alguém. E, neste caso, será sempre alguém
engajado ao mundo das finanças, enquanto este puder ditar as
regras internacionais. (Já não está acontecendo, de
fato, essa dependência ao grande capital financeiro?)
Liberado o Banco Central, ele se transformará – de
direito? – por força gravitacional, em agregado do FMI,
este auditor
oficial do Departamento do Tesouro dos EUA. E ambos
transformam-se em poderosos instrumentos do colonialismo econômico
tornado explícito.
Não
falarei sobre a fatídica reforma da Previdência. Nem sobre o
fato, constatado pelo IBGE, de que o rendimento médio dos
trabalhadores brasileiros caiu cerca de 12% entre dezembro de
2002 e outubro de 2003; enquanto o desemprego saltou de 10,5%
para 13%. Nem sobre o fato de que os juros da dívida pública
em 2003 mais que dobraram em relação a 2002, correspondendo a
mais de 10% do nosso PIB. Política que prosseguirá, uma vez
que o Ministro Palocci insiste na manutenção da
“austeridade”, com o superávit primário acima de 4% para
garantir o pagamento dos crescentes
juros e garantir satisfazer a sempre volúvel
confiança dos investidores. Não faltam artigos para este
desfilar numérico e sua crítica. Entre eles, o do Prof. Fábio
Konder Comparato, publicado no jornal Folha
de São Paulo. (12.12.2003). O discurso mudancista não
passou de retórica eleitoral, enquanto o continuísmo da política
real segue firme.
Poderia
ser diferente? Eis a ilusão, que me conduz a outra abordagem.
Um
dos apanágios da era burguesa, propalado desde o seu
surgimento, é aquele identificado com certo tipo de liberdade.
A liberdade da ascensão social. Liberdade esta que não existia
no antigo regime, quando quem nascia nobre, morria nobre; e quem
nascia plebeu, morria plebeu. É verdade que a ideologia
burguesa pouco fala do descenso social e do seu séquito de tragédia
e de miséria. Para ela, o que conta, é o fato de que um pobre
pode tornar-se rico; um operário pode vir a ser presidente da
nação. Basta ser competente na disputa dos negócios da vida e
integrar-se no sistema. Uma luta permanente entre o forte e o
fraco; entre o experto e o néscio. As
batatas irão sempre ao vencedor.
Toda
vez que uma ascendência conspícua ocorre, o sistema faz
rufarem os seus tambores. Sob este aspecto, a ascensão de Luiz
Inácio Lula da Silva foi uma vitória retumbante da democracia
liberal e da ideologia burguesa, muito mais do que sucesso das
forças populares. A eleição de Lula legitima o sistema. Como
vitória do liberalismo capitalista, ele é parte do do seu
processo. Não pode revogá-lo; só pode reformá-lo dentro dos
parâmetros que o próprio capitalismo, na sua fase
superimperialista, estabelece em razão das suas necessidades
funcionais; das suas atualizações constantes. Quando Lula se
arrogou a coragem de realizar reformas que seus antecessores
imediatos – particularmente Fernando Henrique – não ousaram
fazer, ele simplesmente estava cumprindo o desiderato das mudanças
compatíveis com o novo estádio do capitalismo: Estado mínimo
e corporações aliviadas dos custos sociais do Estado
previdente e assistencialista. (Mas o discurso mudancista do PT
alguma vez chegou a ser explicitado para além de um socialismo
inorgânico, pálido arremedo da social-democracia européia?)
Certamente Fernando Henrique tinha consciência do alcance
social e nacional dessas reformas. Algumas empurrou com a
barriga. Lula nelas mergulhou, sob o velho argumento da
governabilidade, como se a sociedade fosse apenas uma peça contábil.
Um
ex-operário, eleito para a presidência da República, não
conduz a classe operária ao poder; mas vê-se obrigado a
recorrer aos burocratas do sistema para governarem por ele.
Agrega a eles uma “intelectualidade progressista”, não
proveniente do proletariado – ou muito remotamente – mas
induzida, imperceptivelmente, pela ideologia do sistema
capitalista a quem julga combater, quando este a está, na
verdade, absorvendo e digerindo, impondo-lhe agendas e propondo-lhe discursos. Dois fatos
convergem para essa situação de absorção social à ideologia
burguesa. Um é a manutenção do proletariado, enquanto
“classe”, numa situação de inferioridade intelectual e
funcional. Ele continua sendo o
governado, o cumpridor
de ordens, o alienado. Na prática diária, sua vontade pouco
conta. Dele não se pode buscar quadros para a administração
complexa do Estado na sua totalidade social, a não ser dos seus
estamentos superiores os quais, normalmente, já estão
“incorporados” pela ideologia da classe dominante, através
do seu modo de vida. Tal se dá com os chamados executivos
das corporações econômicas, vez por outra chamados para
funções burocráticas no Estado, como prepostos dos grupos
econômicos dominantes. Os Fragas, os Malans, os Meirelles ...
O
outro é a absorção, da consciência
subalterna, pelo sistema de poder através da mobilidade
social e do deslumbramento do novo status.
Quem ascende ao um novo patamar social, a esse patamar social
passa a pertencer. Lula e seus companheiros mais próximos, que
com ele governam, já não pertencem à massa trabalhadora há várias
décadas. Alguns nunca pertenceram, eis que sempre foram profissionais da ideologia.
Uma
vez realizada a ascensão, esta encarrega-se de transmudar
a consciência do elevado,
transformando-o em integrante ou em instrumento útil do sistema
de dominação.
Assim, quando ocorre uma “ascensão social” de um “proletário”
ilustre, essa “elevação” adquire dimensão nacional e
internacional. O sistema capitalista e sua ideologia sentem-se
legitimados pelo seu liberalismo. Se ele vem paramentado com uma
ideologia de esquerda, melhor ainda, pois diante da sua impraticabilidade
revolucionária, a sua condicionante ideológica,
introjetada em seu consciente pelo sistema, o transforma em
“bolha” oxigenadora do próprio sistema. Lech Walesa, na Polônia,
e Lula, no Brasil, desempenharam o mesmo papel: a desarticulação
da esquerda histórica. Ambos foram utilizados como fatores de
descrédito do marxismo. E ambos chegaram à presidência de
seus respectivos países. O primeiro já foi defenestrado,
depois de usado. Lula cumpre o papel reformista de uma agenda já
previamente preparada pela direita e propagada,
convenientemente, pelos principais meios de comunicação.
Esgotada esta tarefa, qual o seu destino?
Pela
“igualdade de oportunidades” demonstrada, festeja-se o fato
como sendo o advento de um novo herói criado e permitido pelo sistema. Se a ele
foi possível, possível será a qualquer um; basta ser
“competente”. E a competência é a “virtude” do
vencedor. Eis o “grande mérito” do capitalismo triunfante e
do seu democratismo liberal. O eleito passa a viver o
deslumbramento do poder. O bajular dos apaniguados e o incensar
contínuo dos poderosos. O assim “elevado” perde as características
do seu estamento social anterior, sem absorver, integralmente, a
tradição dos velhos senhores: aquele refinamento de cultura e
de postura física, que só o tempo constroe. Mas com estes
passa a se identificar, ainda que canhestramente. O governar
restringir-se-á à manutenção do poder e à sua pompa, que só
os verdadeiros senhores do
poder podem assegurar. (Que oportunidade os pobres podem ter
neste jogo?)
Quando,
tendo Lula como ícone, o PT foi fundado nos inícios dos anos
80, ainda vigente a ditadura, no mesmo instante ambos – Lula e
o PT – começaram a ser deglutidos pelo sistema, o qual
elaborou – através de uma intensa atividade mediática –
uma perfeita engenharia política que foi transformando o PT, e
o próprio mito, em algo compatível com a essência do
capitalismo: um espírito reformista conservador, alimentado por
um moralismo pequeno-burguês. È esta transformação – PT light, ou seja, esquerda
inofensiva – que a grande mídia hoje tanto elogia.
O
que surpreende na ascensão do Lula – transformada
num encantamento histórico – não é o fato de um ex-operário
subir à presidência de um país. Casos semelhantes, de pessoas
de origem modesta ascenderem ao topo social, fartam a história.
Houve até escravos que se tornaram reis. Mas, a partir da
modernidade, um certo grau de instrução sempre foi
fundamental. Sem dúvida, Lula é pessoa inteligente e de
perspicácia rápida. No entanto, o que o distingue, é o fato
de que, sendo de poucos estudos – os quatro anos do antigo
primário e mais três de torneiro mecânico pelo SENAI – sem
pendores de autodidata, ter conseguido aglutinar, em torno de
si, nomes consagrados da intelectualidade brasileira, tão cônscia
da sua casta e superioridade. Um trabalho muito bem feito pelos
meios de comunicação, projetando nacionalmente Lula, facilitou
este entrelaçamento entre um operário sagaz e uma esquerda
ilustrada, de vários matizes, ávida por um emblema. Projetado,
nacional e internacionalmente, como líder sindical excepcional,
transformou-se no mito sonhado e esperado. Eis que, do âmago do
operariado, nasceu uma grande liderança para cumprir a velha
profecia do proletariado libertador, reacendendo a chama da
Utopia. Lembro-me de um artigo do professor Francisco Wefford, aí
pelos idos de 80, publicado por uma revista semanal – Isto É, se não me falha a memória. Wefford – que depois
transferiu-se para o PSDB para ser Ministro da Cultura, numa
conversão pragmática – era, então, um dos mentores
intelectuais de Luiz Inácio. Descrevendo a ginga
operária de Lula – num encontro havido em Roma com o então
celebrado líder do Solidariedade, Lech Walesa – Wefford não
deixava dúvidas quanto ao seu encantamento com o líder
sindical que estava a agitar e a confundir os velhos
“hierarcas” da política brasileira. O ilustre sociólogo
estava a testemunhar o histórico encontro de duas figuras
singulares que haveriam de transformar o fluxo social das nações
e os caminhos da geopolítica. Nada a admirar. Foi assim que a
esquerda mundial saudou a eleição de Lula.
A
esquerda católica, afeita aos ícones e buscando um agente
sagrado que dispensasse o materialismo de Marx, anti-religioso,
deu sustentação à construção do mito, contributo do carisma
de Lula. Este ergueu-se ao nível da grande mesa senhorial..
Assim tivemos um inteligente homem de poucos estudos, a liderar
um magnífico grupo de doutores eméritos e de intelectuais
consagrados, que pensaram criar, subitamente, algo realmente
novo e historicamente revolucionário, para suplantar o velho
comunismo já desgastado no embate ideológico.
Quem
usou quem? Deixo a pergunta para inteligências mais ilustres
responderem.
A
fundação do PT eclipsou o velho PCB, cuja história entrara em
declínio fatal. De 1922 sobraria o PCdoB, a viver nas rebarbas
do petismo. Mas, na glorificação do mito, não se cuidou da
fundação de uma nova teoria social. Nem de se explicitar a
questão socialista. Que projeto? Muitos. Tantos quantas facções
agasalharam-se no projeto PT. Finalmente, o profisionalismo
pragmático sobrepujou os fragmentos ideológicos. Este chegou
ao poder. Os demais são fragmentos descartáveis. Para os
pragmatistas, infensos às ideologias opacas, bastaram o mito e um vago conceito de reformismo democrático, agregado a um
catolicismo caritativo. Dialeticamente, o PT foi sofrendo uma
mutação orgânica crítica, com a marginalização de grande
parte dos fundadores originais – mais ligados ao sindicalismo
do ABC e do operariado. Um grupo emergente da média burguesia
foi, aos poucos, assumindo o controle do partido, para realizar
o seu projeto de assunção política.
Desde
a Constituição de 1988, a direita sempre soube que reformas
pretendia; a esquerda, não. Na ocasião, o PT opôs-se aos
trabalhos que resultaram na nova Constituião. No entanto, a
Carta Magna de 1988 foi o que de mais avançado –
tanto na defesa dos interesses nacionais, quanto das
conquistas sociais – produziu-se pelo caminho democrático-reformista.
Qualquer coisa além dela, só pela revolução. Não sem razão,
a direita bateu-se por reformar a então chamada Constituição
Cidadã. Finalmente, sob governos ditos sociais-democratas
ou de esquerda, a Carta Magna reforma-se, segundo os interesses
das grandes corporações econômicas. O “Consenso” ditou a
agenda. Triste ironia do
destino, diria meu saudoso pai: a esquerda realizando o
trabalho da direita.
A
maior parte da esquerda, na sua ilusão reformista, esqueceu-se
de que nenhum sistema de dominação – em
não sendo destruído – admite instituições ou ações
que possam voltar-se contra ele. Por isso ele estabelece
controles ideológicos para manipular as mudanças que lhe
interessam. Induz os discursos e envolve a oposição na sua própria
malha, pois ela, a oposição, é também parte do sistema. A
esquerda deixou-se seduzir pela falácia de que sociedade civil
e Estado eram coisas distintas, como se o Estado já não fosse
a sociedade politicamente organizada. Quando pretendeu
“organizar” a sociedade civil para limitar o Estado –
velho discurso liberaloide – a esquerda apenas fez o jogo da
direita; esta já estava pronta para assaltar a estatização,
com a falácia do Estado mínimo.
Conseqüentemente,
por que a decepção?
Vou
imitar o mineiro Raul Paixão.
Lembro o principe Don Fabrizio Salina, o nobre do romance, O Leopardo, de Lampedusa:
“Graças
a Deus, parece que tudo está como de costume...
Não há o que dizer, tudo está como antes; melhor que
antes, aliás.”