Em
busca do crescimento econômico (cronicamente inviável)
Os
jornais noticiaram com destaque, no final de outubro de 2003, o
apelo lançado pelo ministro da Fazenda, Antônio Palocci Filho,
aos empresários para que passem a investir, gerando empregos,
estimulando o consumo, aumentando as exportações e, ...não
aumentem os preços para evitar o retorno da inflação. Na
mesma semana, o economista–chefe do Banco Mundial, ao
participar de um seminário no Rio de Janeiro, afirmou que
“... para retomar o crescimento econômico, o Brasil deve
baixar as taxas de juros”.
“Elementar,
meu caro Watson”, diria Sherlock Holmes. Mas, por que as taxas
de juros se mantiveram tão altas e continuam altas, mesmo
depois das sucessivas reduções, desde julho de 2003?
Supostamente,
assim reza a cartilha do discurso oficial, inclusive das
instituições financeiras multilaterais, altas taxas são
necessárias para manter sob controle a hidra da inflação. Na
realidade, os juros elevados são necessários para apaziguar o
apetite insaciável dos mercados financeiros que não estão
dispostos a bancar os juros da dívida, a não ser que a
remuneração dos títulos do governo seja “compensadora”.
Os empresários recusam-se a investir na produção, enquanto os
juros reais estiverem além de 12% ao ano, muito além do
retorno esperado de investimentos na produção. Assim, não há
incentivos para investimentos produtivos, particularmente na
infraestrutura, que exigem volumes de capital elevados e cujos
prazos de maturação e de retorno são mais longos.
É
da própria natureza do mercado financeiro, ou melhor, de seus
atores – os bancos e as corretoras – procurar ganhos fáceis
e rápidos. Sem informações confiáveis sobre a
previsibilidade das decisões administrativas e jurídicas, o
mercado prefere especular ou aplicar em títulos do governo, em
vez de comprometer recursos na produção, por um longo período.
Assim, o governo (o ministro da Fazenda ou o presidente do Banco
Central) pode alardear que venceu a batalha da inflação. Mas,
lamentavelmente, está perdendo a guerra do desenvolvimento, em
que pesa a promessa pública do presidente de iniciar, no último
trimestre deste ano, o “espetáculo do crescimento”.
As
últimas notícias da mídia informam sobre a retomada da produção
industrial, à razão de 6% com relação ao mês anterior.
Acrescentam, contudo, que não houve geração concomitante de
empregos. A taxa de desemprego na metrópole de São Paulo alcançou
nível recorde de 20%, ou seja, mais de 2 milhões de
desempregados. Continuam os debates nos seminários organizados
pelas universidades, nas associações profissionais e no
Congresso, enquanto se alastram a miséria, a violência e a
exclusão social.
Sem
dúvida, na dinâmica do sistema capitalista, investimento
constitui a chave – mestre do crescimento da economia. Mas,
toda a experiência acumulada demonstra que este não ocorre em
resposta a apelos ao patriotismo, feitos pela TV e na mídia. Os
potenciais investidores só abrirão as burras quando
encontrarem condições propícias e seguras para faze-lo.
Perscrutando o horizonte, interno e externo, os sinais de
recuperação da crise do sistema capitalista são bastante débeis,
sobretudo nos pólos mais desenvolvidos, os EUA, o Japão e a
União Européia e, mormente, nos países “emergentes”.
No
mundo atual, de comunicações e transportes ultra-rápidos, os
poucos países que são relativamente estáveis, com regras
burocráticas mais simples e transparentes, atraem
preferencialmente os investimentos produtivos porque apresentam
melhores garantias quanto aos potenciais retornos sobre os
investimentos. Além de um elevado índice de capital humano,
aferido pelos anos de escolaridade da população, sua
disciplina no trabalho e conseqüente produtividade, a gestão
de suas empresas, privadas e públicas, realiza-se de forma mais
democrática e participativa, gerando um clima de confiança mútua
e de cooperação que permeiam todo o contexto social e
cultural.
Se
não for possível contar com a colaboração voluntária dos
donos do capital, embora a sociedade disponha de capital social,
seria hipoteticamente possível convocar as classes proprietárias
para uma mobilização em âmbito nacional, de uma campanha de
levantamento da poupança, até compulsória se for necessário,
para obter os recursos de investimentos em longo prazo, em
infraestrutura, na agricultura e nos serviços sociais básicos?
É
preciso gerar mais empregos, ou seja, produzir mais e melhor,
superando a recessão interna sem sucumbir às pressões dos
exportadores que prometem garantir as divisas necessárias em
função dos serviços da dívida externa. Sob esta perspectiva,
constitui um erro insistir na expansão das exportações,
basicamente de produtos agrícolas e “commodities”, que
pouco contribuem para a geração de empregos e, portanto, para
a inclusão social, enquanto impliquem em elevados custos
ambientais, geralmente externalizados e transferidos à
coletividade.
Tampouco,
constitui uma resposta convincente a pregação oficial de
aumentos na produtividade que garantiriam maior competitividade
nas exportações para as economias do primeiro mundo.
Efetivamente, a produtividade do trabalho dos brasileiros tem
aumentado significativamente ao longo das últimas décadas sem
que isso tenha resultado em elevação correspondente dos salários.
Ao contrário, a massa salarial não parou de encolher, conforme
os estudos do IBGE, SEADE, IPEA e outras instituições acadêmicas.
Onde foram parar os excedentes gerados pela força de trabalho
brasileira?
A
teoria econômica convencional ensina que pelo menos uma parte
seria destinada ao aumento dos salários, resultando em maior
poder aquisitivo e, portanto, em maior demanda por bens e serviços.
Outra forma de distribuição mais eqüitativa dos ganhos em
produtividade seria uma redução proporcional dos preços,
elevando indiretamente o poder de compra dos assalariados. Nem
uma nem outra costumam constar das práticas empresariais
brasileiras. Haveria, ainda, outra possibilidade de devolver à
sociedade parte dos lucros auferidos, sem prejudicar os proprietários
do capital. O re-investimento atenderia teoricamente aos
capitalistas e aos trabalhadores, sobretudo aqueles que busquem
desesperadamente sua re-inserção no mercado de trabalho. O
apelo do ministro da Fazenda aos empresários, com grande
probabilidade de cair em ouvidos mucos, é bastante elucidativo.
Os donos de capital preferem a segurança e a rentabilidade dos
títulos do governo, quando não estão à procura de paraísos
fiscais no exterior.
Apesar
de todos os apelos do governo que parecem ingênuos à luz de
experiências históricas, aqui e nos países da América
Latina, os investimentos continuam num patamar muito baixo, a
recessão não cede, as dívidas interna e externa alcançam níveis
estratosféricos que obrigam ao pagamento de altas taxas de
juros, enquanto o desemprego atinge nível recorde.
A
inferência extraída desta análise nos leva a hipotetizar
sobre a inviabilidade da teoria e da prática convencionais de
crescimento econômico. A dinâmica do sistema capitalista é
“perversa”, pois ao gerar riquezas, produz simultaneamente
pobreza e degradação ambiental. Desde que surgiu na época do
Renascimento, nos séculos XV e XVI, o processo de acumulação
e reprodução de capital tem estimulado a emergência e expansão
de grandes unidades de produção, comércio e serviços com
conseqüente concentração de recursos econômico-financeiros,
de poder político e de controle sobre o acesso às informações
nas mãos de poucos. Diariamente, circulam pelo espaço virtual
mais de um trilhão de US$, elevando ou derrubando as cotações
de moedas nacionais e dos preços de bens e serviços, sem que a
maioria dos governos nacionais tenha condições (ou, vontade)
de controlar esse fluxo pernicioso.
Em
conseqüência, essa dinâmica funciona no sentido oposto e em
detrimento do almejado crescimento econômico e, fato mais
grave, impede a interação e a gestão democráticas nas
empresas, nas instituições educacionais e culturais e,
sobretudo, nas relações sociopolíticas.
Diante
da atitude recalcitrante das empresas privadas, nacionais e
estrangeiras, em investir nos setores produtivos – atitude
esta ditada pela chamada “racionalidade” econômica, cabe
novamente ao Estado a tarefa de investir e turbinar o
crescimento econômico. Mas, como fazê-lo se o serviço da
divida pública exaure os recursos do Tesouro, apesar do superávit
fiscal de 4,25% do PIB. Verifica-se que os 70 bilhões de reais
do superávit primário e mais os 22 bilhões de dólares do
saldo da balança comercial são insuficientes para cobrir os
juros da dívida, acrescentados das remessas de dividendos,
lucros e “royalties”. Apesar do aperto fiscal e da contenção
do crédito, a inflação não cede. Os preços e, sobretudo, as
tarifas cobradas pelas empresas estrangeiras de energia elétrica,
gás e telefonia, amparados em contratos firmados pelo governo
anterior, não permitem fôlego na execução do orçamento da
União.
Voltamos,
então, a pedir a “blindagem” ou novos empréstimos do FMI,
de efeito paliativo, na melhor das hipóteses, mas que não
resolvem os problemas estruturais da economia brasileira.
Não
estaria na hora de enfrentar corajosamente (quem falou em
covardes?) o desafio do crescimento e proclamar uma moratória
das dívidas interna e externa?
As
limitações impostas a uma política mais agressiva de
investimentos nos setores produtivos devido à imposição
draconiana de um superávit fiscal de 4,25% só serão rompidas
pela moratória e a renegociação das dívidas, visando ampliar
substancialmente o volume de recursos à disposição do Estado
brasileiro. Para compensar, contudo, eventuais sanções dos
credores e as conseqüentes perdas temporárias, torna-se
imprescindível o aumento da carga tributária, atualmente em
volta de 34% do PIB.
Os
debates travados no Congresso nacional sobre a Reforma Tributária
permitem antecipar uma resistência entrincheirada às propostas
do Executivo de elevar as alíquotas, usando se o argumento
surrado da perda de competitividade internacional. A revista
“The Economist” da semana passada (outubro 25 –31 de 2003,
pág. 97) publica uma tabela comparativa da carga tributária em
vários países. Segundo a revista britânica, a carga tributária,
em termos percentuais do PIB, é de 50% na Suécia e Dinamarca,
46% na Bélgica; 44% na França e na Áustria e 40% na Itália e
nos Países Baixos. Não é por acaso que os países que têm as
taxas mais altas, ostentam os melhores índices de IDH (índice
de desenvolvimento humano) segundo levantamentos do PNUD –
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Suas populações
usufruem melhor qualidade de vida, mais segurança e menos
desemprego.
O
governo Lula está diante o dilema de Hamlet: cumprir ou não
cumprir as promessas da campanha eleitoral?