O
PRIMEIRO ACORDO A GENTE NUNCA ESQUECE
O novo Brasil e primeiro acordo soberano com o velho FMI
Como
então, sob protestos de amplos setores e debaixo de promessas
de que desta vez era diferente, de que se tratava de um
“acordo soberano” e não lesivo aos interesses nacionais, o
novo governo firmou um acordo com o FMI velho de guerra, depois
de muitas idas e vindas, de intermináveis voltas em torno do óbvio,
de dúvidas, anúncios, desmentidos e de muitos ensaios para
tentar obter um acordo “diferente”.
Você
aí, que já achou genial gritar “fora FMI!”, que sempre
considerou o “fim da picada” o governo dobrar-se às
receitas recessivas daqueles “gigolôs” de Washington que
seguem as ordens do imperialismo americano, está se sentindo
decepcionado, frustrado ou traído? Pois é, está aí um belo
acordo para nenhum neoliberal botar defeito, stand-by
clássico, cheio de condicionalidades, sem qualquer um
daqueles limites que os defensores da soberania insistiam em
incluir no “seu” acordo: sem gastos de estatais
contabilizados for a do déficit público, sem liberdade para
esticar o orçamento nos investimentos sociais, sem redução
dos níveis de superávit primário, enfim, os argumentos usados
e abusados em torno das “diferenças”, durante quase um ano
de tormentos e angústias. Aqueles que no passado se desdobravam
em denúncias contra o governo anterior, acusado do crime de
“lesa soberania” e de não defesa dos interesses nacionais,
devem estar se perguntando: como foi possível essa repetição
de políticas condenadas no passado e como se chegou a essas
cenas de neoliberalismo explícito?
Não
fique triste, nem condene aqueles que resolveram concluir o último
acordo – o primeiro deste governo – como se eles também
tivessem traído o interesse nacional. Ao contrário, eles
agiram corretamente e o Brasil está melhor com esse acordo do
que sem ele: o país precisava desse dinheiro, não para gastar,
mas para usar como garantia de que ele não será colocado em
ameaça de default,
dada sua ainda muito grande fragilidade financeira externa.
Por
outro lado, se lhe disserem que esse acordo não é
“neoliberal”, não acredite, pois ele tem cara de
neoliberal, se veste como um neoliberal, fala como um neoliberal
e se comporta como um neoliberal, atendendo portanto a todos os
critérios do gênero. Nem por isso você deve se sentir traído
ou se achar condenado a engolir o que já falou sobre o FMI: não
é porque o acordo é neoliberal que ele é necessariamente mau
para o Brasil. Acredite: certas receitas neoliberais podem
trazer melhoras reais à saúde da economia brasileira e até
contribuir para a prosperidade da nação e o bem estar de seu
povo.
Se
você acredita que não, deve ser por puro preconceito ou então
desinformação. O “caso” do governo atual com o FMI não
começou em janeiro de 2003, nem a partir deste acordo, mas mais
exatamente em agosto de 2002, quando o candidato presidencial se
comprometeu, em carta formal, respeitar e cumprir o acordo então
firmado pelo ministro Malan. Desde esse gesto inicial, a trajetória
do atual governo tem sido impecável no respeito aos contratos e
aos compromissos firmados pelo Brasil, como aliás seria de se
esperar de um governo responsável. Agora não adianta reclamar:
estava tudo escrito no “pecado original” da
carta-compromisso de junho de 2002, do programa econômico de
campanha e dessa carta de aceitação relutante do acordo com o
FMI.
Os
reclamos de uma certa oposição à política econômica seguida
pelo governo são totalmente inconsistentes e incoerentes: não
apenas os autores (numerosos) de cartas, manifestos e
abaixo-assinados (quase tão numerosos) se limitam em apontar o
óbvio – que o superávit primário é muito alto, que o
governo paga tanto de juros para os banqueiros nacionais e
internacionais, que o saldo orçamentário deixado para gastos
sociais e para investimentos é irrisório, que os capitais vão
e vêm livremente e coisas do gênero –, como eles falharam
redondamente até aqui em formular, a partir daquelas simples
constatações de fato, políticas econômicas alternativas que
sejam factíveis, implementáveis e sobretudo sustentáveis.
Dizer
que o governo “produz” 4,25% de superávit primário ou que
o Brasil paga “tanto” de juros aos banqueiros significa
apenas dizer que uma pessoa está com 38 graus de febre. Isso não
ajuda em nada no diagnóstico e tampouco contribui para apontar
uma cura qualquer, adequada obviamente, ao mal do paciente. O
Brasil vem de um longo itinerário de ressacas inflacionistas,
de pileques emissionistas e de um péssimo hábito de viver com
a poupança alheia (nacional, no caso do governo, ou
estrangeira, no caso do conjunto da economia). Nada de muito
diferente do caso daquele sujeito perdulário, gastador
irresponsável e que se acostumou a viver acima das suas posses.
Nada de muito grave se você possui uma tia rica que lhe paga o
cartão de crédito ou o buraco do cheque especial, mas
sumamente grave no caso de um país que se viciou nos gastos sem
cobertura até o limite da inadimplência e que nem sempre tem
de onde tirar.
Pois
o FMI é uma espécie de tia rica, que pode lhe ajudar nas horas
difíceis, mas não tão generosa como pretendia Keynes que ele
fosse em relação à Grã-Bretanha depauperada financeiramente
que se apresentou em Bretton Woods em 1944, esperando que os
Estados Unidos se comprometessem a realizar a cobertura automática
dos saldos negativos de sua balança de transações correntes.
“Nada disso, mocinha”, disseram os Estados Unidos, “se você
precisar de ajuda estou disposto a vir em seu socorro, mas não
com uma linha de crédito ilimitada, e sim em condições
determinadas pelo nosso conselho de família”, isto é, o
diretório executivo do FMI. “Se você cair no vermelho ou no
cheque especial”, continuaram os americanos para os frustrados
ingleses, “eu posso lhe ajudar por um certo tempo, mas em
condições bem delimitadas, e com garantias de que o socorro de
hoje não vai ser o pronto-socorro de amanhã”.
O
FMI funciona exatamente assim: se um país enfrenta dificuldades
externas – erosão dos ganhos com exportações, excesso de
pagamentos correntes sobre receitas em divisas, fuga de capitais
que drenam suas reservas até o ponto do perigo do default
– essa tia rica vem com um ajutório temporário, mas sob
certos limites e em condições estritas. O socorrido precisa
“apenas” se comprometer em implementar determinadas políticas
que o farão menos dependente da ajuda externa e permitirão
recuperar o equilíbrio de sua conta bancária, isto é, de seu
balanço de pagamentos, no caso de um país soberano. E como
poderia ser de outra forma?: o FMI foi feito para isso mesmo,
ajudar os países membros nas horas amargas. Se não precisar de
um dinheirinho extra ou se não desejar se submeter aos
“ditames” do FMI, não há problema: basta não pedir ajuda
ou devolver o que tomou emprestado, que sua soberania estará
inteiramente preservada, como aliás sempre esteve (na medida em
que o país ajudado e o FMI decidem, de comum acordo, que tipo
de medidas de política econômica implementar e por quanto
tempo).
Mas
o que desejam exatamente aqueles que se opõem, de modo geral,
à política econômica do atual governo e de modo especial às
medidas preconizadas pelo FMI? Aparentemente, apenas dizer
“for a FMI” e deixar de produzir essa “enormidade” de
superávit primário. Mais ainda: eles não apenas desejam, como
preconizam, que o Brasil deixe de pagar esse “despautério”
de juros aos banqueiros nacionais e internacionais, passando então
a “aplicar” esse dinheiro em “melhorias sociais”. Se não
bastasse, eles também recomendam um controle estrito sobre os
fluxos de capitais, não só os “entrantes” mas também e
sobretudo os “saíntes”, sob o pretexto de que a liberdade
de movimento da conta capital compromete a política monetária
e a situação cambial. Existem muitas outras medidas sugeridas,
mas essas são as mais importantes do ponto de vista das relações
econômicas externas do Brasil.
Pois
bem: se o governo decidisse seguir essas brilhantes prescrições
de “política econômica”, não apenas as medidas não
seriam factíveis, do ponto de vista prática, como elas não
seriam sustentáveis e até redundariam num desastre bem maior
do que o supostamente causado pelo pagamento dos juros e pelo
cumprimento dos contratos em vigor. Consideremos, apenas e tão
somente, para fins de simulação teórica, a preconizada
suspensão do pagamento dos juros sobre a dívida pública,
interna e externa, como vem sendo recomendado de maneira
canhestra e algo envergonhada pelos estrategistas da oposição
econômica (“suspendam apenas parte dos pagamentos”, ou
“imponham certos limites”, dizem eles, negando que estejam
preconizando o calote). O que aconteceria nesse caso específico?
Do
ponto de vista dos alternativos, sobraria mais dinheiro para
gastos sociais e para investimentos em infraestrutura. Ledo
engano, sabem os economistas responsáveis, uma vez que o superávit
primário – empregado para pagar os “juros dos banqueiros”
– cobre apenas uma parte do déficit público total, sendo o
restante suprido por emissões que o governo faz no mercado de
capitais. Se ele decidisse dar um “calote bem merecido” nos
banqueiros, como recomendam alguns dos alternativos com laivos
de vingança, o governo estaria apenas e tão somente aplicando
um calote direto “no seu, no meu, no nosso dinheiro”, como
disse uma vez um banqueiro não alternativo (posto que
presidente do Banco Central). Da próxima vez que o governo
necessitasse se aprovisionar junto aos tomadores de títulos públicos
– que somos todos nós, ainda que muitos não sabem e nem
imaginam o que o “seu” banqueiro faz com o dinheiro das
contas particulares – ele encontraria as portas fechadas e a
via aberta para a crise geral dos mercados de capitais, com
consequências funestas para todos nós.
E
quanto aos controles de capitais, algo aparentemente sensato
para um país tão carente de divisas como o Brasil, que possui
uma moeda inconversível e um déficit crônico na balança de
serviços? Outra recomendação infeliz e insensata, em primeiro
lugar porque o Brasil já possui controle de capitais, em
segundo lugar porque a introdução de restrições à entrada e
saída do chamado “capital especulativo” redundaria na mais
formidável fuga de capitais a que já assistimos nos tempos
modernos, sem resolver em nada o problema secular da “carência
de divisas”. Lembra-se de quando esses controles eram bem mais
extensivos e rígidos do que atualmente? Tem lembrança de quais
eram os ágios que se pagavam para a aquisição de dólares e o
tamanho da distância entre o dólar no oficial e a mesma moeda
no cãmbio negro? Já imaginou o retorno daqueles limites
impostos até para fazer uma viagem ao exterior, ou a burocracia
até para assinar uma simples revista estrangeira? Tem idéia da
magnitude da evasão cambial – outro nome para a fuga de
capitais – praticada nesses “bons velhos tempos” que
parecem gozar de simpatia entre os alternativos?
E
se você acha, para terminar, que a Argentina fez um grande negócio
dando um calote de 90 bilhões de dólares sobre sua dívida
comercial – aquela contraída junto aos “banqueiros
internacionais” (na verdade, simples tomadores de bônus
estrangeiros, como muitas velhinhas européias e pensionistas
americanos) – e que ela soube “enfrentar” o FMI ao
“impor” um superávit de “apenas 3% do PIB”, ao passo
que o Brasil aumentou o seu para 4,25%, então você está muito
mal informado sobre as realidades da economia internacional, e
sobre o próprio funcionamento de uma economia nacional. A
Argentina tornou-se um pária internacional ao romper
unilateralmente contratos – o que ela fez, obviamente,
forçada, sem ter por onde sair de sua camisa de força
auto-imposta pela lei da conversibilidade e pelo câmbio fixo,
algo absolutamente anti-neoliberal –, ela passará os próximos
cinco anos tentando resolver, de modo claramente litigioso, o
tremendo imbroglio
causado por seu default,
e provavelmente os próximos dez anos tentando recompor o seu crédito
externo (vale dizer, financiamento para simples operações
comerciais) para voltar aos mercados voluntários em condições
de risco similares às que hoje enfrenta o Brasil. O acordo da
Argentina com o FMI?: um simulacro de acordo, sem exigências
“exageradas”, apenas para salvar a face de todos os
parceiros nesse assunto, num momento em que determinados
governos precisavam de resultados em outras áreas e caia bem
“afrouxar” a corda na vertente do FMI.
Resumindo:
o acordo do Brasil com o FMI é o melhor possível nas circunstâncias
presentes – isto é, de relativa fragilidade externa, dada a
magnitude das dívidas públicas em face do PIB e das receitas
de exportações – e representa a melhor garantia de que a
economia poderá continuar sua trajetória de estabilização,
sem sobressaltos externos e sem outras surpresas internas (como
poderia ser nova fuga de capitais, caso falhasse a imagem de
seriedade do governo em sua relação com os mercados de
capitais). Por mais que os alternativos não gostem dos mercados
– que eles acham “totalitários” – e também tenham
horror aos movimentos de capitais ditos “voláteis”, eles
ainda não nos disseram como o Brasil poderia viver sem mercados
e sem capitais voluntários (a menos que eles pretendam que o
governo financie todas as suas obrigações apenas pela via
tributária, o que nos aproximaria de 40% do PIB, algo realmente
exagerado, para um país com serviços públicos da qualidade
dos oferecidos pelo Estado brasileiro).
Que
um outro Brasil seja possível, que uma outra América idem,
para não falar de um outro mundo – um programa para nenhum
elefante econômico botar defeito –, eu não duvido, e até
mesmo aspiro a que seja assim, o mais rapidamente possível: um
Brasil e um mundo feitos de mais prosperidade, com maior justiça
distributiva, escolas excelentes (e se possível gratuítas,
para todos), hospitais equipados e sobretudo impostos moderados
e progressivos (para alcançar aqueles que vivem “do seu, do
meu, do nosso dinheiro”). Eu só estou aguardando que o
pessoal alternativo, os que proclamam essas maravilhas a cada
novo manifesto econômico, me digam exatamente onde está a
receita do bolo, onde se esconde a prescrição genial que irá
nos redimir de todos os nossos pecados de país injusto e
subdesenvolvido (sim, somos ambas as coisas, ainda).
Doutores em economia alternativa, por favor, me dêem a fórmula mágica
do crescimento sem dor, do investimento a custo zero e da
distribuição infinita. Mas comecem por acertar no diagnóstico,
pois não custa nada deixar a estratosfera dos sonhos sem futuro
e penetrar no mundo real dos limites à varinha de condão dos
governos. Enquanto pensam, empreguem um pouco do tempo para
estudar o acordo do Brasil com o FMI: vão aprender (e não mais
esquecer) coisas interessantes na carta de intenções e no
memorando de entendimentos. Boa leitura e bom retorno à
realidade.