Um
Breve Comentário do Primeiro Ano Administrativo do PT no
Governo do Brasil
“A
chama não se apagou, nem se apagará. Ninguém vai esquecer
Candeia...”
(Tributo
de Luis Carlos da Vila ao sambista militante popular Candeia)
Tecer
algum comentário, ainda que breve, do primeiro ano da gestão
petista no governo federal não é tarefa das mais fáceis.
Ainda mais quando ele é feito por um quase militante que, como
qualquer pessoa que não tem nervos de aço, deixou, em alguns
momentos, a razão de lado e se rendeu à pura emoção. Foram
inúmeras as vezes em que amou e odiou, elogiou e vaiou,
bendisse e maldisse as apostas e escolhas do partido no campo da
política nacional.
Mas,
agora, um pouco mais calejado, o comentarista tentará aqui se
despir o máximo possível de qualquer emotividade e encetará
um breve comentário do PT no poder central.
O
PT, diferentemente de outros partidos que governaram o Brasil,
encontra-se num entrecruzamento temporal, no qual
passado/presente/futuro estão em constante diálogo e choque.
Em outros termos, encontra-se num ponto de encontro, nem sempre
harmonioso, com o que ele foi, está sendo e pode vir a ser.
Por
conta disso, não pode simplesmente, ainda que pareça, vestir a
máscara do cinismo e dizer aos brasileiros “esqueçam as
antigas bandeiras. O país mudou e o partido evoluiu”. Não, não
pode. A coisa não se resolve de maneira tão simples assim.
Felizmente,
e se permitem a paródia, um espectro ronda o PT. Esse espectro
é o espectro do passado. Por mais que o PT governo queira afastá-lo
ou até exorcizá-lo, como o quis com a expulsão dos ditos
radicais do partido, esse passado vai estar lá, pesando sobre a
sua consciência.
Por
isso, é preciso ter em conta o peso que tem, nas decisões do
PT governo, o fato de ser o primeiro partido de esquerda no
poder, após quinhentos anos de mandos e desmandos das elites
endinheiradas; bem como o significado histórico do partido para
a classe trabalhadora brasileira nessas duas últimas décadas.
Não
podemos desconsiderar a força simbólica desses acontecimentos.
Do contrário, logo chegaremos à temerosa conclusão de que o
PT abandonou o projeto global de transformação social do país
e abraçou de vez o receituário neoliberal de racionalização
e flexibilização do mercado.
Acredito
que, como alegoriza Leonardo Boff na parábola da águia e da
galinha, o PT governo em breve potencializará a idéia de que não
nasceu para ciscar o chão, como o faz no momento, mas para alçar
vôos mais altos no trato dos negócios políticos nacionais e
internacionais.