2004:
Aonde vai o Brasil?
A
forte depressão econômica do final da administração FHC,
aprofundada no primeiro ano do governo Lula da Silva, abre espaço
para o sucessivo momento expansivo da acumulação de capitais
no Brasil, em 2004. Essa expansão será também alimentada pelo
esperado crescimento da economia e do mercado mundiais,
estimados em 4 e 10%.
A
expansão da economia brasileira se apoiará no setor exportador
e na produção voltada para o consumo interno, impulsionada
pela necessária reposição de estoques. Esse processo fará
recuar sobretudo o semi-emprego, mantendo-se as altas taxas de
desemprego. Se a expansão do PIB alcançar os 3,5% previstos, o
crescimento econômico no biênio Lula da Silva se manterá
abaixo da média pífia da octaetéride fernandina.
Em
2003, à custa da violenta queda do consumo nacional e das
importações, o superávit comercial brasileiro foi de US$ 23
bilhões, apenas cinqüenta por cento dos compromissos externos
de 2004, de quase de 46 bilhões de dólares.
Sem
sustentação
A
necessidade de capitais para fazer frente ao pagamento da dívida
ensejará que a taxa básica de juro acompanhe a queda da inflação,
sem ultrapassar os oito por cento de juro real exigidos pelo
capital financeiro, nacional e internacional, como remuneração
real mínima no Brasil, valor acima da taxa média de acumulação
do capital produtivo.
O
alto custo financeiro; a mega descapitalização ensejada pela dívida;
a compressão do mercado do trabalho, da renda popular e
dos gastos públicos, etc. determinarão que o impulso expansivo
da economia brasileira seja tíbio, não resultando em reprodução
ampliada do capital de médio ou longo fôlego.
A
expansão do crédito social, que atrelou a concessão de
taxas de juro apenas menos escorchantes ao direito de saque bancário
sobre a folha de pagamento do trabalhador, ampliará
escassamente o consumo, devido ao endividamento popular, aos
baixos salários e ao desemprego. A mega-expropriação fiscal,
aprofundada pela reforma tributária, também freará a
capacidade de consumo nacional.
Stop
and go
Ao
assinar o segundo acordo com o FMI, válido até dezembro de
2004, o governo Lula da Silva comprometeu-se com o
prosseguimento da ditadura financeira sobre o país, através de
cortes nos investimentos, depressão nas importações e expansão
das exportação que garantam superávit primário nas contas públicas
de, no mínimo, 4,25% em 2004.
Materialização
da submissão político-institucional ao capital imperialista, o
acordo selou o compromisso com a aprovação da Lei de Falência,
de mandato fixo para os diretores do Banco Central e privatização
dos bancos estaduais do Maranhão, Piauí, Ceará e Santa
Catarina.
A
expansão produtiva de 2004 constituirá apenas momento positivo
do padrão patológico stop and go conhecido pelo
capitalismo nacional nas duas últimas décadas, apoiado pela
situação favorável da economia mundial, no que se refere ao
consumo e à abundância de capitais internacionais.
O
fim do governo Lula
Nos
últimos doze meses, aumentou fortemente a dependência da
economia nacional ao capital e ao mercado mundial, registrado no
crescimento da dívida e na queda das reservas nacionais,
atualmente em US$ 17 bilhões de dólares – 37% da dívida
externa. Esse processo se aprofundará em 2004.
A
expansão econômica do próximo ano não constitui etapa
transitória de movimento de superação da dependência
exterior em direção à “modelo auto-sustentado”, mas
momento do processo de expropriação financeira crescente da
produção social e da submissão incessante da sociedade
nacional ao capital mundial.
A
tendência é que, em 2004, mantenha-se a barbarização organizada
da sociedade brasileira. Uma crise financeira setorial, como
as conhecidas pelo Brasil, México, Rússia, etc., com retração
dos capitais mundiais, determinará inevitável elevação da
taxa de juro e cortes ainda mais radicais do consumo, importações
e investimento, para manter a atração de capitais externos.
Todo
poder a José Alencar!
Um
contexto mundial negativo, pouco provável mas não descartável,
aumentaria a pressão para a privatização do Banco do Brasil,
da Caixa Econômica Federa, da Petrobrás, do BNDES, etc. e
debilitaria o projeto neoliberal em desenvolvimento,
reservando eventualmente a Lula da Silva a mesma sorte de
De La Rúa e Lozada, solução eventualmente facilitada pelo
perfil desenvolvimentista atual de José Alencar.
Mesmo
sendo improvável cenário catastrófico para a economia
brasileira em 2004, o financiamento da expansão da economia USA
através de mega-gastos militares produz imensos déficits públicos
que ensejarão o possível aumento da taxa básica de juro
estadunidense em meados do próximo ano, com migração de
capitais mundiais para aquela nação.
Portanto,
em 2004, prosseguirá a violenta compressão dos salários e dos
investimentos sociais e produtivos, determinada pelo compromisso
incondicional do pagamento da dívida, com decadência
tendencial das infra-estruturas. Não se espera igualmente
aumento real substancial do salário mínimo para o próximo
ano.
Privatizando
o futuro
Não
haverá retomada dos investimentos nas infraestruturas.
Sobretudo no que se refere ao transporte e à energia, o governo
procurará enfrentar a crescente obsolescência, degradação e
insuficiência das infra-estruturas nacionais a partir das
atuais determinações privatizadoras dos organismo
imperialistas mundiais.
O
programa Parceria Privado-Público – PPP –, implementado
pelo governo neoliberal Majors, após a conclusão da privatização
das empresas públicas inglesas rentáveis pelo governo Tatcher,
constitui a materialização do sonho do capitalismo de
investimento de capitais sem qualquer risco.
O
projeto de lei apresentado pelo governo constitui maná dos céus
para o capital, ao garantir taxa mínima de retribuição para
os investimentos na construção-gestão de serviços e
infra-estruturas públicas – estradas, pontes, saneamento,
etc. –; permitir que os capitais provenham parcialmente da área
pública – BNDES, etc.; e retribuir as aplicações com ações
das valiosas estatais Petrobrás, Banco do Brasil, etc., no caso
da inadimplência pública.
Ação
entre amigos
Nos
fatos, o PPP constitui projeto para que o capital nacional e público,
apropriado sob a forma de pagamento da dívida, seja empregado
em obras infra-estruturais e outras, sob o controle privado e
garantia pública de lucro certo. Ou seja, o pagamento duplo da
população pelo que é seu. Espera-se que a farra da PPP
instale-se plenamente em 2005.
Como
assinalado, no cenário político, o prosseguimento do projeto
político-econômico em curso sugere possível reforma
administrativa apoiada em um número menor de ministérios e
secretarias sob um controle mais estreito do núcleo neoliberal
no governo.
O
prosseguimento das reformas institucionais neoliberais,
sobretudo a da legislação trabalhista-sindical e a concessão
da autonomia do Banco Central impulsionarão
a saída dos setores de esquerda remanescente em um
neo-PT já plenamente afinado aos novos tempos e práticas
neo-liberais.
A
Exploração da Miséria
Com
a aproximação das eleições municipais de fins de 2004, a
direção petista procurará reconstituir a base eleitoral
eventualmente perdida – funcionários públicos, trabalhadores
organizados, etc. – com o controle eleitoral de setores
populares miseráveis, através de programas assistências
focalizados – Fome Zero, Bolsa Escola,
etc. O projeto de arregimentação dos descamisados
foi proposto por Collor de Mello, mas jamais implementado.
O
prosseguimento da fusão dos interesses da alta hierarquia
petista e do governo com os interesses privados ensejarão
certamente novos sucessos como os ocorridos em torno a Celso
Daniel. O prefeito de Santo André, que ocuparia o posto de
Palocci na coordenação da campanha Lula, foi assassinado, em
janeiro de 2002, após seqüestro mirabolante, segundo a
promotoria pública organizado por Sérgio Gomes da Silva, seu
ex-guarda costa e motorista, conhecido como O sombra.
O
médico João Francisco, irmão de Celso Daniel, denunciou a
tentativa da direção
petista de apresentar a morte como crime comum, tese abraçada
pela polícia federal, para silenciar o real motivo. Ou seja, a
exigência que o ex-motorista e ex-guarda costa de Celso Daniel
encerrasse esquema de enriquecimento ilícito, tese reafirmada
pela promotoria pública. João Francisco propôs que o esquema
se destinasse inicialmente ao financiamento eleitoral do PT e
que José Dirceu fosse o ponto terminal dos fundos.
À
sombra do PT
A
alta direção petista, em geral, e o poderoso José Dirceu, em
especial, apontado diretamente pelo denunciante, desmentem as
afirmações da família de Celso Daniel. Porém, ninguém se
preocupava em explicar fenômenos patológicos já tidos quase
como normais, como o enriquecimento meteórico explícito do Sombra,
à sombra do agenciamento e prestações de serviços
públicos.
Em
2004, o prosseguimento da decomposição do tecido social
ensejará o crescimento de todas as formas de violência social,
com destaque para a criminalidade organizada e não organizada,
no campo e na cidade, não raro como estratégias de sobrevivência.
São e serão vítimas prioritárias dessa violência os velhos,
as mulheres, as crianças e os desprotegidos.
Essa
situação de anomia endêmica aprofundará as reações facistizantes
sobretudo dos segmentos médios e superiores da sociedade,
atualmente explicitadas no apoio quase geral da população à
pena de morte e à diminuição da idade de responsabilidade
penal, já capitalizado politicamente pela direita conservadora.
Resposta
social
Apenas
a resposta social impedirá a consolidação do projeto
neoliberal e a crescente dissolução barbaresca da sociedade
brasileira em 2004. O prosseguimento e a radicalização da
mobilização social latino-americana constituem importantes
apoios para a necessária resposta social e política brasileira
ao capital nacional e internacional.
A
resposta à barbarização neoliberal dependerá fortemente da
construção de pólo político e social que centralize e
oriente a mobilização popular,
transformando-a em vitórias parciais e em organização
do mundo do trabalho. A construção desse pólo depende também dialeticamente da
maior ou menor resposta do movimento social à ditadura
neoliberal.
Apenas
em forma menos consistente que as mobilizações operárias de
1979, as jornadas dos trabalhadores públicos de meados de 2003
ensejaram o amadurecimento parcial das condições subjetivas e
objetivas para a luta pela construção de um partido que
contribua à mobilização pela defesa dos interesses do mundo
do trabalho no Brasil.