Por PAULO GHIRALDELLI JR.

Scholar do Pragmatism Archive da Oklahoma State University e Diretor do Centro de Estudos em Filosofia Americana


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Era Lula - A esperança deve vencer não só o medo, mas o despreparo profissional

 

1. "Era Lula"? Isso não existe. O PT e o Lula sabem bem que todos os que fizeram "eras" ("Era Vargas", "Era FHC" etc.) não produziram o que prometeram. O que existe no núcleo pensante do PT, e na própria cabeça do Lula, é uma única diretriz: temos de fazer um bom governo, melhorar as condições de vida dos mais pobres e deixar o Brasil em condições de disputar o posto de líder do Terceiro Mundo.

Lula é, sem dúvida, até o momento, o melhor presidente da República que tivemos. Honesto, incansável, muito inteligente e servido da equipe com condições de ser a mais bem informada de todos os tempos. Lula trabalha em equipe, por isso diz sempre "nós", ao contrário de todos os outros governantes que diziam "eu" ou "no meu governo". Essa forma de trabalhar em equipe vai marcar a Administração Lula e, se tivermos sorte, de Lula para frente nunca mais repetiremos a desgraça de colocarmos na Presidência um Collor.

2. O principal aspecto do Governo de Lula é a capacidade de negociação do Presidente da República e seu respeito pela democracia. Há de se notar também a forma mais abrangente que Lula interpreta a democracia. Lula não apóia as duas formas de tratar a democracia que estiveram presentes ao longo da nossa República. Ele não acha, como Vargas achava, que "voto não enche barriga", e também não acha, como FHC achava, que "política democrática se faz só no parlamento, em relação com o executivo".

Lula é fundamentalmente fruto do único partido de esquerda que, ainda que radical, e não-comunista, apareceu no Ocidente para fazer uma revolução sem sangue e sem armas, mas uma revolução. Este partido é o PT, e a revolução está ocorrendo - basta ver o Lula tomando o lugar do Fidel Castro na liderança do Terceiro Mundo.

Todos os partidos de esquerda que nasceram contra o comunismo, se tornaram anti-comunistas e, mesmo quando se diziam socialistas, apoiavam políticas que discriminavam os socialistas mais radicais. O PT e Lula não repetem o "Solidariedade". O PT e o Lula administram o Brasil de modo original: apagam-se incêndios, preserva-se o que é bom da gestão FHC, e olha-se mais para o movimento social do que antes. Parece arroz com feijão - e é, mas é muito!

Quando o PT expulsa deputados que votaram contra o Governo, o faz sabendo que está administrando uma frente de partidos e que está cumprindo um "programa brasileiro" e não um programa exclusivo do PT. Isso não é estalinismo. Seria, se não houvesse chance de viver em outros partidos, para os expulsos. Não vivemos o totalitarismo, por isso, quem não concorda com o Governo, e faz parte do Governo, deve procurar outro partido.

3. O fator principal, a médio prazo, que Lula deve cuidar, agora que todos os indicadores econômicos prometem que 2004 e 2005 serão bons anos, é da qualificação profissional do brasileiro. Empregos não faltam no Brasil. Mas o trabalhador brasileiro é desqualificado para assumi-los. Hoje, se queremos que uma moça que faz o Ensino Médio público assuma a função de secretária em um escritório simples, no interior de São Paulo, temos dificuldade de encontrar alguém realmente alfabetizado, que saiba lidar com datilografia e, enfim, que entenda alguns textos de jornal. Essa é a situação da maioria dos jovens brasileiros da escola pública: não conseguem redigir corretamente uma carta, mesmo que a carta seja ditada pelo patrão! Com esse tipo de mão de obra, não adianta arrumar vagas para empregos. Darci Ribeiro estava certo quando dizia que ensinar ler, escrever e contar, no Brasil de hoje, é estar fazendo ensino profissionalizante - é disso que precisamos! Mas não nos moldes daquela coisa horrível que foi a Lei 5.692/71. Precisamos de uma boa escola básica, voltada para a articulação entre ensino dos clássicos e ensino de pequenas coisas, como redigir bem uma carta, estar atenta para notícias, saber desenhar, ter gosto musical, saber falar corretamente, ser capaz de dar continuidade a um estudo de línguas. É isso. Sem este pouquinho, que era o que oferecíamos no Ensino Fundamental e Médio dos anos 50 e 60, não vamos chegar a lugar algum.

 

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