Era
Lula - A esperança deve vencer não só o medo, mas o
despreparo profissional
1. "Era Lula"? Isso não existe. O PT e o
Lula sabem bem que todos os que fizeram "eras"
("Era Vargas", "Era FHC" etc.) não
produziram o que prometeram. O que existe no núcleo pensante do
PT, e na própria cabeça do Lula, é uma única diretriz: temos
de fazer um bom governo, melhorar as condições de vida dos
mais pobres e deixar o Brasil em condições de disputar o posto
de líder do Terceiro Mundo.
Lula é, sem dúvida, até o momento, o melhor
presidente da República que tivemos. Honesto, incansável,
muito inteligente e servido da equipe com condições de ser a
mais bem informada de todos os tempos. Lula trabalha em equipe,
por isso diz sempre "nós", ao contrário de todos os
outros governantes que diziam "eu" ou "no meu
governo". Essa forma de trabalhar em equipe vai marcar a
Administração Lula e, se tivermos sorte, de Lula para frente
nunca mais repetiremos a desgraça de colocarmos na Presidência
um Collor.
2. O principal aspecto do Governo de Lula é a
capacidade de negociação do Presidente da República e seu
respeito pela democracia. Há de se notar também a forma mais
abrangente que Lula interpreta a democracia. Lula não apóia as
duas formas de tratar a democracia que estiveram presentes ao
longo da nossa República. Ele não acha, como Vargas achava,
que "voto não enche barriga", e também não acha,
como FHC achava, que "política democrática se faz só no
parlamento, em relação com o executivo".
Lula é fundamentalmente fruto do único partido de
esquerda que, ainda que radical, e não-comunista, apareceu no
Ocidente para fazer uma revolução sem sangue e sem armas, mas
uma revolução. Este partido é o PT, e a revolução está
ocorrendo - basta ver o Lula tomando o lugar do Fidel Castro na
liderança do Terceiro Mundo.
Todos
os partidos de esquerda que nasceram contra o comunismo, se
tornaram anti-comunistas e, mesmo quando se diziam socialistas,
apoiavam políticas que discriminavam os socialistas mais
radicais. O PT e Lula não repetem o "Solidariedade".
O PT e o Lula administram o Brasil de modo original: apagam-se
incêndios, preserva-se o que é bom da gestão FHC, e olha-se
mais para o movimento social do que antes. Parece arroz com feijão
- e é, mas é muito!
Quando o PT expulsa deputados que votaram contra o
Governo, o faz sabendo que está administrando uma frente de
partidos e que está cumprindo um "programa
brasileiro" e não um programa exclusivo do PT. Isso não
é estalinismo. Seria, se não houvesse chance de viver em
outros partidos, para os expulsos. Não vivemos o totalitarismo,
por isso, quem não concorda com o Governo, e faz parte do
Governo, deve procurar outro partido.
3. O fator principal, a médio prazo, que Lula deve
cuidar, agora que todos os indicadores econômicos prometem que
2004 e 2005 serão bons anos, é da qualificação profissional
do brasileiro. Empregos não faltam no Brasil. Mas o trabalhador
brasileiro é desqualificado para assumi-los. Hoje, se queremos
que uma moça que faz o Ensino Médio público assuma a função
de secretária em um escritório simples, no interior de São
Paulo, temos dificuldade de encontrar alguém realmente
alfabetizado, que saiba lidar com datilografia e, enfim, que
entenda alguns textos de jornal. Essa é a situação da maioria
dos jovens brasileiros da escola pública: não conseguem
redigir corretamente uma carta, mesmo que a carta seja ditada
pelo patrão! Com esse tipo de mão de obra, não adianta
arrumar vagas para empregos. Darci Ribeiro estava certo quando
dizia que ensinar ler, escrever e contar, no Brasil de hoje, é
estar fazendo ensino profissionalizante - é disso que
precisamos! Mas não nos moldes daquela coisa horrível que foi
a Lei 5.692/71. Precisamos de uma boa escola básica, voltada
para a articulação entre ensino dos clássicos e ensino de
pequenas coisas, como redigir bem uma carta, estar atenta para
notícias, saber desenhar, ter gosto musical, saber falar
corretamente, ser capaz de dar continuidade a um estudo de línguas.
É isso. Sem este pouquinho, que era o que oferecíamos no
Ensino Fundamental e Médio dos anos 50 e 60, não vamos chegar
a lugar algum.